A humildade é uma das virtudes mais admiradas e menos compreendidas. Nós a elogiamos nos outros e raramente percebemos sua falta em nós mesmos. Nós a confundimos com fraqueza, ou com uma opinião baixa sobre nossas capacidades, ou com uma falsa autodepreciação que, na verdade, é orgulho disfarçado. No entanto, as Escrituras tratam a humildade como algo muito maior e mais central do que tudo isso — como o próprio terreno em que uma pessoa se encontra com Deus e o solo em que todas as outras graças precisam crescer. Por que a humildade importa tanto? E o que ela é, de fato?

O que a humildade é — e o que não é

Humildade não é pensar mal de si mesmo; é, como já se disse com acerto, pensar menos em si mesmo — e pensar corretamente sobre Deus. É o reconhecimento honesto da verdade sobre quem Deus é e quem nós somos: que ele é o Criador e nós, as criaturas; que tudo o que temos foi recebido; e que dependemos a cada instante da sua misericórdia. “E o que você tem que não tenha recebido?”, Paulo pergunta. “Mas, se você recebeu, por que se gloria como se não o tivesse recebido?” (1 Coríntios 4:7). A humildade é simplesmente viver à luz dessa pergunta. Não é o ódio servil a si mesmo, que ainda mantém o eu no centro; é o eu esquecido, porque Deus e os outros tomaram o seu lugar. Andrew Murray, cujo pequeno clássico Humildade tem sondado corações cristãos há gerações, definiu-a como o lugar próprio da criatura diante de Deus — o reconhecimento simples e sereno de que nós não somos nada e Deus é tudo.

O solo de todas as graças

A humildade importa porque, sem ela, nenhuma outra virtude pode crescer de verdade. Murray a chamou de raiz e mãe de todas as graças, e advertiu que a sua ausência explica todo fracasso espiritual:

A humildade é o único solo em que as graças lançam raiz; a falta de humildade é explicação suficiente para todo defeito e toda falha. … O orgulho, ou a perda da humildade, é a raiz de todo pecado e de todo mal.Andrew Murray, Humildade

Isso não é exagero. Considere que o primeiro pecado do universo foi o orgulho — a criatura querendo agarrar para si o ser como Deus. Considere que todo pecado desde então é, no fundo, uma forma da mesma coisa: o eu exaltando a si mesmo acima de Deus e do próximo. Se o orgulho é a raiz de todo mal, então a humildade, o seu oposto, é o terreno em que todo bem precisa crescer. O amor não pode florescer onde o eu reina; a paciência, a mansidão, a obediência e a fé exigem o rebaixamento do eu, que é exatamente o que a humildade é. Uma “virtude” orgulhosa é uma contradição; no momento em que nos congratulamos pela nossa bondade, ela já começou a apodrecer.

A porta para a graça

A humildade importa acima de tudo porque é a única postura na qual Deus concede a sua graça. Isso é dito com tanta clareza, e repetido tantas vezes, que não há como não ver: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:6; 1 Pedro 5:5; Provérbios 3:34). Pense no que isso significa. A pessoa orgulhosa, por mais talentosa ou religiosa que seja, coloca-se em oposição a Deus — e Deus lhe resiste. A pessoa humilde, por mais fraca ou pouco impressionante que seja, é justamente aquela de quem Deus se aproxima e sobre quem derrama o seu socorro. “Pois o Alto e Sublime… diz: Eu habito no alto e santo lugar, mas também com o contrito e humilde de espírito” (Isaías 57:15). O favor de Deus não sobe morro acima até os autossuficientes; ele desce para os lugares baixos, como a água. É por isso que a humildade não é uma opção entre muitas, mas a porta pela qual todo bem que vem de Deus precisa chegar até nós. “Humilhem-se, portanto, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1 Pedro 5:6).

O modelo de Cristo

Acima de tudo, a humildade importa porque é a própria semelhança de Cristo, e não há como nos tornarmos parecidos com ele sem ela. A descrição mais exaltada de Jesus em todas as Escrituras é também a mais humilde: embora existisse na forma de Deus, ele “esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo… ele humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, sim, a morte de cruz” (Filipenses 2:7–8). O caminho do Filho de Deus foi para baixo — da glória a uma manjedoura, da manjedoura a uma cruz — e só então Deus “o exaltou soberanamente” (Filipenses 2:9). E ele nos chama a percorrer a mesma estrada: “aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração; e vocês encontrarão descanso para as suas almas” (Mateus 11:29). Ser cristão é seguir um Salvador humilde; o orgulho, por mais religioso que seja, é simplesmente caminhar na direção oposta àquele que dizemos seguir. É por isso que Andrew Murray, em Entrega Absoluta, insistia que os crentes se entregassem inteiramente a Deus — porque a vida rendida e a vida humilde são a mesma vida, a vida que deixa Deus ser Deus e aceita com alegria o lugar mais baixo.

Como a humildade cresce

Se a humildade importa tanto, como ela cresce? Paradoxalmente, não é tentando com todas as forças ser humilde e depois admirando o nosso progresso — esse caminho só dá voltas e retorna ao orgulho. A humildade cresce à medida que nos aproximamos de Deus e o vemos como ele é. Isaías, quando recebeu uma visão da santidade do Senhor, clamou: “Ai de mim! Pois estou perdido” (Isaías 6:5); Jó, depois de se encontrar com Deus, disse: “Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:6). A proximidade de Deus é o grande humilhador, porque na sua luz nós nos vemos como realmente somos. A humildade também cresce à medida que compreendemos o evangelho da graça — pois nada abate tanto o nosso orgulho quanto saber que não contribuímos com nada para a nossa própria salvação. Spurgeon, em Tudo pela Graça, exortava os pecadores a descansarem inteiramente em Cristo justamente porque a salvação é um presente, e não um salário; e a alma que aprendeu que é salva somente pela graça teve, de uma vez por todas, o chão arrancado de debaixo da sua vanglória. “Onde está, então, a vanglória? Foi excluída” (Romanos 3:27).

As imitações da humildade

Por ser tão valorizada, a humildade é frequentemente imitada, e vale a pena dar nome às imitações para que não sejamos enganados por elas — muito menos em nós mesmos. Existe uma falsa humildade que, na verdade, é pescar elogios: nós nos rebaixamos para que os outros nos levantem; o seu olhar continua fixo no eu e na boa opinião dos outros, que é a essência do orgulho. Existe uma falsa humildade que é mero temperamento — uma disposição naturalmente quieta ou tímida confundida com uma graça do Espírito. E existe uma falsa humildade que foge da responsabilidade e chama a sua covardia de modéstia, recusando, sob o pretexto de indignidade, aquilo que Deus lhe deu para fazer. A verdadeira humildade não é nada disso. Ela não está preocupada consigo mesma de forma alguma, nem para cima nem para baixo; ela simplesmente viu Deus e foi libertada da tarefa exaustiva de se medir e se defender. Paulo podia dizer, no mesmo fôlego, que era “o menor de todos os santos” (Efésios 3:8) e, ainda assim, trabalhar mais do que todos os outros — “contudo, não eu, mas a graça de Deus que estava comigo” (1 Coríntios 15:10). Esse é o paradoxo da verdadeira humildade: ela pensa pouco de si mesma e, por isso, empreende grandes coisas para Deus, porque a sua confiança saiu do eu e passou para ele. Os humildes não são os passivos e os medrosos; muitas vezes são as pessoas mais ousadas que existem, justamente porque não têm mais nada a proteger.

É por isso que a humildade e a fé estão tão intimamente ligadas nas Escrituras. Ambas são um afastar-se de si mesmo em direção a Deus — a fé para receber a sua salvação, a humildade para dar-lhe a glória. Os orgulhosos não conseguem crer de verdade, pois crer significa confessar que não podemos salvar a nós mesmos; e os humildes não conseguem deixar de crer, pois já abandonaram toda outra esperança. Crescer em uma é crescer na outra.

Portanto, a humildade não é aquela coisa sombria e diminuidora que às vezes imaginamos. É a mais libertadora de todas as disposições, pois depõe o trabalho exaustivo de defender e exaltar a nós mesmos e nos deixa descansar em um Deus que é tudo o que nós não somos. Ela abre a porta para a graça, nos torna mais brandos com os outros e nos faz semelhantes ao nosso Senhor. “Todos vocês revistam-se de humildade” (1 Pedro 5:5). Se você quer crescer em todas as outras graças, cresça primeiro nesta — não olhando fixamente para si mesmo, mas aproximando-se de Deus, descansando na sua misericórdia e ocupando, com alegria, o lugar humilde onde ele prometeu encontrar você. Pois “quem a si mesmo se humilhar será exaltado” (Lucas 14:11), e os humildes, no fim, herdam tudo — não porque o agarraram, mas porque soltaram, e encontraram as mãos cheias pelo Deus que dá graça aos humildes.