Se Deus é bom e Deus é todo-poderoso, por que o mundo está tão cheio de dor? Essa é a pergunta honesta mais antiga e mais difícil que alguém pode fazer, e, se você a está fazendo porque algo realmente aconteceu com você — uma morte, uma doença, uma injustiça, um lar desmoronando —, então você merece mais do que um slogan. A resposta curta não é que o sofrimento não importa, nem que ele é secretamente algo bom, mas que o Deus da Bíblia nem causa o mal por diversão nem fica de longe olhando: ele mesmo entrou nele, está agindo por meio dele em direção ao bem e prometeu acabar com ele. Isso merece ser pensado com calma.

Então vamos com calma, sem fugir da pergunta e sem fingir que não dói.

Esta é mesmo a pergunta mais difícil — e a Bíblia sabe disso

Comece por aqui: a sua pergunta não é sinal de que a sua fé é fraca, e ela não é nova. A própria Bíblia a faz, em voz alta, de novo e de novo. Um livro inteiro — Jó — é dedicado a um homem bom que perde os filhos, a saúde e os bens numa única sequência de catástrofes e depois passa uns trinta e tantos capítulos exigindo uma resposta de Deus. Os Salmos estão cheios do mesmo grito cru. “Até quando, SENHOR? Você se esquecerá de mim para sempre?”, começa um deles (Salmos 13:1), e isso não é uma bronca que acabou entrando nas Escrituras — é uma oração que Deus escolheu guardar.

Até Jesus, morrendo, citou um salmo de abandono: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46). Se o Filho de Deus pode dizer isso da cruz, então a pergunta não é proibida para você. Quem responde à sua dor com uma fórmula arrumadinha — tudo acontece por um motivo, é só sorrir — não está lendo a mesma Bíblia. O Deus das Escrituras não pede que você abafe a pergunta. Ele convida você a trazê-la até ele, e ele não é frágil.

Então, por favor, não acrescente uma segunda ferida à primeira acreditando que duvidar, ou chorar, ou ficar com raiva coloca você fora do alcance dele. Não coloca. As pessoas da Bíblia que lutaram mais duramente com Deus — Jó, Jeremias, Davi, Habacuque — não são apresentadas como fracassos. São apresentadas como pessoas que levaram Deus a sério o bastante para discutir com ele, e ele foi ao encontro de cada uma delas.

Um mundo que pode amar é um mundo que pode se quebrar

Por que existe sofrimento, afinal? Parte da resposta é que Deus fez um mundo com liberdade de verdade — criaturas que podiam amar de verdade, o que significa criaturas que podiam de verdade virar as costas. Um amor que não pode ser recusado não é amor; é uma máquina seguindo sua programação. Para fazer seres capazes de amar a ele e uns aos outros, Deus fez seres capazes de escolher a crueldade, o egoísmo e o mal. E, desde o comecinho, eles escolheram.

Grande parte do sofrimento do mundo vem direto disso: guerras, abuso, traição, ganância, descaso, as mil maneiras com que as pessoas ferem umas às outras. Quando alguém machuca você, isso não é obra de Deus; é um ser humano usando mal a liberdade que o torna humano. Deus só poderia impedir tudo isso desfazendo justamente aquilo que nos permite amar.

Mas nem todo sofrimento é culpa de alguém, e é desonesto fingir o contrário. Terremotos, câncer, malformações de nascença, o lento desgaste de um corpo — nada disso é a maldade de um valentão. O retrato que a Bíblia pinta é que toda a ordem criada está fora do lugar: toda a criação “geme” sob uma quebra que atinge tudo (Romanos 8:22). Vivemos num mundo que não é do jeito que deveria ser, e sentimos esse erro justamente porque fomos feitos para algo melhor. A sua sensação de que o sofrimento é um absurdo, de que ele não deveria existir, não é um argumento contra Deus. É uma pista de que você foi feito para um mundo sem ele — um mundo que foi perdido e que Deus pretende devolver.

Deus não ficou do lado de fora — ele entrou

É aqui que a resposta cristã se separa de toda filosofia que mantém Deus a uma distância segura. A maioria das tentativas de explicar o sofrimento deixa Deus lá nas nuvens, tranquilo, observando a gente de uma altura confortável. O evangelho faz o contrário. Ele diz que Deus desceu ele mesmo para dentro da dor.

Jesus foi, nas palavras do profeta, “um homem de sofrimentos e familiarizado com a enfermidade” (Isaías 53:3). Ele foi pobre, incompreendido, traído por um amigo, abandonado pelos outros, acusado falsamente, torturado e executado. Quando seu amigo Lázaro morreu, Jesus — que sabia que dali a minutos iria ressuscitá-lo — mesmo assim parou diante do túmulo e “chorou” (João 11:35). Deus em carne e osso derramou lágrimas de verdade diante de um túmulo de verdade. Ele não achou que a morte era pouca coisa. Ele a odiou, e chorou.

E então, na cruz, ele tomou sobre si todo o peso do mal do mundo. Este é o centro estranho da fé cristã: a resposta para o sofrimento não é principalmente uma explicação, é uma pessoa, e essa pessoa tem cicatrizes. Quando você grita: “Deus, você sequer sabe como é isso?” — a resposta cristã é sim. Ele sabe por dentro. Ele não oferece consolo de longe; ele o oferece de uma cruz. Um Deus que sofreu por você é um Deus em quem você pode confiar no seu próprio sofrimento, mesmo quando você ainda não consegue entendê-lo.

A diferença entre “por quê” e “e agora”

Repare numa coisa no livro de Jó. Jó passa o livro inteiro exigindo saber por quê — e, quando Deus finalmente responde, do meio do redemoinho, ele nunca chega a dizer a Jó o porquê. Em vez disso, ele leva Jó num passeio pela imensidão selvagem da criação, basicamente perguntando: Você confia que eu sou sábio e bom, mesmo onde você não consegue ver o quadro todo? (Jó 38-41). E, por incrível que pareça, isso basta para Jó. Não um motivo — um relacionamento. Jó diz, em outras palavras: eu tinha ouvido falar de você, mas agora eu vi você (Jó 42:5).

Isso importa para você. No meio de uma dor de verdade, a pergunta “por quê” muitas vezes não tem uma resposta que você aguentaria ouvir — e exigir uma pode deixar você travado no mesmo lugar. A pergunta com que dá para viver geralmente não é por que isso aconteceu, mas o que eu faço agora, e quem vai caminhar comigo nisso. Deus raramente nos entrega o motivo. Ele, com toda a certeza, nos entrega a si mesmo. “O SENHOR está perto dos que têm o coração quebrantado, e salva os que têm o espírito abatido” (Salmos 34:18) — não os consertados, não os fortes, mas os abatidos. Ele não espera você sair do buraco sozinho. Ele desce até lá.

Então é totalmente justo continuar perguntando por quê. Mas não coloque a sua vida em pausa até a resposta chegar. Vire a pergunta, com delicadeza, para o Deus que está perto: E agora? Você me ajuda a carregar isto? Você vai ficar? Essas orações são respondidas.

“Deus faz tudo cooperar para o bem” — o que Romanos 8:28 realmente diz

Você provavelmente já ouviu alguém citar Romanos 8:28 num velório: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28). Muitas vezes ele é usado como uma tampa batida em cima do luto — então anime-se, é tudo para o melhor. Isso é um mau uso, e machuca as pessoas.

Veja o que o versículo realmente diz, e o que ele não diz. Ele não diz que todas as coisas são boas. Câncer não é bom. Abuso não é bom. A morte de uma criança não é boa, e a Bíblia nunca pede que você chame isso de bom. O que ele diz é que todas as coisas cooperam para o bem — porque Deus age, ativamente, pacientemente, dentro e através até das piores coisas, para tirar delas um bem que só ele consegue tecer. O mal continua sendo mal; Deus simplesmente é maior do que ele e se recusa a deixá-lo ter a última palavra.

O retrato mais claro disso é José, vendido como escravo pelos próprios irmãos, preso por causa de uma mentira, esquecido por anos. Décadas depois, com poder para destruí-los, ele diz em vez disso: “vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o planejou para o bem” (Gênesis 50:20). Repare que ele não reescreve a história. O que seus irmãos fizeram foi mau, e ele diz isso com todas as letras. Mas Deus estava agindo o tempo todo, no escuro, dobrando até aquela traição em direção ao resgate de muitas vidas. Essa é a promessa: não que a ferida era secretamente um presente, mas que Deus é mestre em tirar vida daquilo que foi planejado para a morte.

Talvez você não veja o bem por muito tempo. José esperou mais de vinte anos. Parte disso nós não vamos ver deste lado da eternidade. Mas a promessa não é que você sempre vai entender — é que nada no seu sofrimento é desperdiçado nas mãos de um Deus que ainda está escrevendo a história.

Um mundo que será consertado

No fim das contas, o cristianismo não responde ao sofrimento com uma teoria. Ele responde com um futuro. A história toda está indo para algum lugar, e o lugar para onde ela vai é o desfazer de toda dor. No fim da Bíblia, Deus mostra a João um mundo renovado e faz uma promessa tão específica que é quase insuportável de ler quando você está de luto: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte; nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor. As primeiras coisas já passaram” (Apocalipse 21:4).

Toda lágrima — inclusive as suas, inclusive aquelas que você chorou sozinho e que ninguém viu. A morte, acabada. O pranto, acabado. As primeiras coisas, passadas. Isso não é uma esperança vaga de que as coisas vão parecer um pouco melhores algum dia. É a afirmação de que um mundo real está chegando, tão sólido quanto este, onde as próprias fontes da sua dor terão sido abolidas, e o próprio Deus é quem enxuga as lágrimas.

E o motivo pelo qual um cristão ousa acreditar nisso é o túmulo vazio. Jesus não só ensinou sobre um mundo consertado; ele saiu andando do próprio túmulo como o primeiro pedaço desse mundo. Porque ele ressuscitou, a morte é um inimigo derrotado e, para quem confia nele, uma porta em vez de um muro. Jesus foi honesto ao dizer que esta vida seria difícil — “No mundo vocês têm aflições”, ele disse —, mas não parou aí: “tenham bom ânimo! Eu venci o mundo” (João 16:33). A dor é real. A promessa também. E a promessa dura mais do que a dor.

O que fazer com a sua dor agora

Então, onde tudo isso deixa você hoje à noite, se você está sofrendo? Não com uma fórmula, mas com algumas coisas honestas que você pode de fato fazer.

  • Conte a verdade para Deus, toda ela. Os Salmos são autorizações para a honestidade — raiva, confusão, até acusação, derramadas diante do único forte o bastante para aguentar. “Derramem o seu coração diante dele”, dizem as Escrituras (Salmos 62:8). Você não precisa encenar uma paz que não sente. Ele prefere a sua angústia sincera à sua distância educada.
  • Não carregue isso sozinho. O sofrimento isola; esse é um dos seus truques mais cruéis. Deixe pessoas de confiança entrarem — um pai ou uma mãe, um pastor, um amigo, um conselheiro. Muitas vezes Deus consola por meio de outros seres humanos, e pedir ajuda é força, não fraqueza.
  • Segure as duas verdades juntas. Você pode sofrer profundamente e ter esperança profundamente ao mesmo tempo. Ninguém diz aos cristãos que eles não vão ficar tristes, só que não precisam se entristecer “como os demais, que não têm esperança” (1 Tessalonicenses 4:13). Lágrimas e esperança podem correr juntas, e muitas vezes correm.

Eis o que vale a pena levar daqui. A Bíblia nunca promete que o seu sofrimento vai fazer sentido para você logo, e ela se recusa a insultar você chamando o mal de bem. O que ela promete é um Deus que não está distante da sua dor, mas tem cicatrizes próprias; que está perto dos que têm o coração quebrantado; que está, em silêncio, fazendo até isto cooperar para um bem que você ainda não consegue ver; e que prometeu, com base num túmulo vazio, enxugar toda lágrima e acabar com toda dor para sempre.

Você não precisa ter todas as respostas para trazer o seu coração partido a um Deus assim. Você pode vir com as perguntas ainda queimando. O próprio Jesus fez exatamente esse convite: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:28). Não “venham quando tiverem tudo resolvido”. Venha agora, do jeito que você está, carregando o que você carrega. Ele sabe quanto isso pesa. Ele está perto, ele entende, e ele prometeu carregar você por todo o caminho até em casa.