De todas as práticas da vida cristã, o jejum talvez seja a mais negligenciada. Muitos crentes oram, contribuem e leem a Bíblia sem nunca terem jejuado uma única vez — e nem saberiam dizer direito por que deveriam. No entanto, o jejum atravessa toda a Escritura: foi praticado por Moisés, Davi, Elias, Daniel, Ana, Paulo e pelo próprio Senhor Jesus — e Jesus deixou claro que esperava que os seus seguidores jejuassem. Então, o que é o jejum bíblico, e por que um cristão deveria adotá-lo? Veja o que a Bíblia realmente ensina.

O que é o jejum

O jejum, em sua forma bíblica mais simples, é abster-se voluntariamente de comida por um tempo para buscar a Deus. Não é uma greve de fome para chamar a atenção de Deus, nem uma dieta para o corpo, nem um meio de acumular mérito espiritual. É um ato do coração expresso por meio do corpo: deixar de lado, de propósito, um dos confortos mais básicos da vida para que possamos nos entregar mais plenamente à oração e a Deus. No jejum, dizemos com o corpo o que queremos dizer com a alma — que temos mais fome de Deus do que de pão, que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4:4). É uma forma de nos humilharmos diante do Senhor; o salmista diz: “Quando chorei e jejuei” (Salmos 69:10).

Jesus esperava que os seus seguidores jejuassem

Alguns cristãos imaginam que o jejum pertence apenas ao Antigo Testamento, mas Jesus ensinou os seus discípulos a jejuar e esperava que o fizessem. Repare nas palavras dele: não “se vocês jejuarem”, mas “quando vocês jejuarem, não fiquem com o rosto triste como os hipócritas… para não parecer aos homens que você está jejuando, mas ao seu Pai, que está em secreto” (Mateus 6:16–18). Ele colocou o jejum lado a lado com a contribuição e a oração, como parte natural da vida do discípulo. Quando lhe perguntaram por que os seus discípulos não jejuavam como os outros, ele respondeu que jejuariam: “Virão dias em que o noivo lhes será tirado, e então eles jejuarão naquele dia” (Marcos 2:20). Vivemos exatamente nesses dias — os dias entre a ascensão de Cristo e a sua volta —, e por isso o jejum nos pertence. A igreja primitiva jejuava com naturalidade; foi enquanto os líderes em Antioquia “serviam ao Senhor e jejuavam” que o Espírito separou Paulo e Barnabé, e eles jejuaram de novo antes de enviá-los (Atos 13:2–3).

Por que os cristãos jejuam

A Escritura mostra o povo de Deus jejuando por vários motivos, e todos se resumem a buscar a Deus com um fervor fora do comum. Jejuavam para buscar a direção de Deus em grandes encruzilhadas, como fez a igreja em Antioquia antes de enviar os seus missionários. Jejuavam para se humilhar e se arrepender, como fez Nínive diante da pregação de Jonas e como Israel fez repetidas vezes: “Voltem-se para mim de todo o seu coração, com jejum, com choro” (Joel 2:12). Jejuavam para clamar a Deus em tempos de crise, como fizeram Ester e os judeus antes de ela arriscar a própria vida (Ester 4:16), e como fez Josafá quando os inimigos o ameaçavam (2 Crônicas 20:3). Jejuavam para fortalecer a oração, unindo o jejum à intercessão para que todo o seu ser se voltasse para Deus. Em todos os casos, o jejum é oração intensificada — o corpo se unindo à alma na busca fervorosa do Senhor. Ele expressa um santo desespero que não se satisfaz com nada menos que o próprio Deus.

O que o jejum faz em nós

Por que ficar sem comida nos ajudaria espiritualmente? A resposta está no que o jejum faz no coração. Primeiro, o jejum nos humilha. A fome nivela todo mundo; ela nos lembra, de modo agudo e físico, quão frágeis e dependentes realmente somos, e com que rapidez nossas forças se esgotam sem a provisão diária que costumamos dar como certa. Essa fraqueza sentida faz bem à alma, pois Deus “dá graça aos humildes” (Tiago 4:6), e há poucos caminhos mais curtos para a humildade do que um estômago vazio oferecido a Deus. Segundo, o jejum aguça a oração. Quando deixamos a comida de lado para buscar a Deus, cada pontada de fome se torna um chamado à oração, e o próprio tempo que gastaríamos comendo fica livre para a comunhão com ele. A alma, já não entorpecida e saciada, fica alerta e fervorosa. Terceiro, o jejum nos desmama dos nossos apetites. Vivemos cercados de confortos, e os nossos desejos, sem alarde, vão se tornando nossos senhores. Negar ao corpo até mesmo algo bom e lícito como a comida, em troca de algo melhor, é reafirmar que não somos escravos dos nossos apetites — que podemos dizer “não” à carne para dizer um “sim” mais profundo a Deus. Isso treina a alma inteira no domínio próprio que a vida cristã exige. “Eu esmurro o meu corpo e o reduzo à submissão”, escreveu Paulo (1 Coríntios 9:27); o jejum é uma das escolas dessa disciplina.

Acima de tudo, o jejum expressa e aprofunda a nossa fome do próprio Deus. É uma forma de orar com o corpo: “Senhor, eu te quero mais do que quero isto.” E aquilo que expressamos, também aprofundamos: o próprio ato de escolher Deus em vez do pão desperta e fortalece o anseio que ele expressa. É por isso que o jejum tantas vezes acompanhou as épocas em que o povo de Deus o buscou com mais desespero. É uma fome santa, acesa de propósito — o corpo levado a pregar à alma que “nem só de pão viverá o homem”.

O jejum que Deus pode abençoar — e o jejum que ele rejeita

A Bíblia também é franca ao mostrar que o jejum pode dar errado. Certa vez Deus repreendeu duramente o seu povo: eles jejuavam e reclamavam que ele não dava atenção, mas o jejum deles era vazio, porque a vida deles era injusta e o coração continuava o mesmo. Por meio de Isaías, ele lhes disse que jejum de fato deseja — não uma mera abstenção de comida, mas um coração voltado para a misericórdia e a justiça:

Não é este o jejum que escolhi: soltar as correntes da maldade… repartir o seu pão com o faminto, e trazer para a sua casa os pobres desabrigados?Isaías 58:6–7

A lição é clara: o jejum não é uma alavanca para mover Deus, e não vale nada se for apenas exterior. Deus olha para o coração. O verdadeiro jejum brota de um coração que se humilha sinceramente diante dele e está sinceramente aberto à sua vontade — o tipo de entrega sem reservas que Andrew Murray, em Entrega Absoluta, apresentou a todo crente. Jejuar é uma forma de dizer a Deus, com o corpo e também com a alma: “Não a minha vontade, mas a tua; não o meu conforto, mas a ti.” Separado dessa entrega, é apenas fome; unido a ela, torna-se uma ajuda poderosa para o coração que ora.

Como começar

Se você nunca jejuou, comece de forma simples e humilde. Escolha um período definido — talvez uma refeição, ou as horas de luz de um único dia — e dedique à oração e à Palavra de Deus o tempo que você gastaria comendo. O jejum não tem a ver principalmente com o estômago vazio, mas com o coração cheio: quando a fome vier, deixe que ela o leve à oração, lembrando-o do motivo pelo qual você está jejuando. Mantenha-o, como Jesus disse, discreto e em secreto, não algo para anunciar (Mateus 6:18). Associe-o a um propósito claro — uma decisão sobre a qual você está buscando a Deus, um pecado do qual está se arrependendo, um fardo que está carregando, uma pessoa por quem está intercedendo. E mantenha os olhos em Deus, não no seu próprio desempenho; o objetivo não é aguentar a fome, mas buscar o Senhor. Quem tem problemas de saúde deve, naturalmente, ter sabedoria quanto à forma de jejuar, e há outras coisas das quais se pode jejuar além da comida. Mas o coração da prática é sempre o mesmo: deixar de lado algo bom por um tempo para se agarrar a Deus.

O jejum, bem compreendido, não é um dever religioso sombrio, mas um presente — um meio dado por Deus para aguçar as nossas orações, humilhar o nosso coração e nos lembrar de que a nossa fome mais profunda não é de pão, mas dele. Num mundo de conforto e distração sem fim, é uma forma de dizer não a nós mesmos para podermos dizer um sim mais profundo a Deus. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados” (Mateus 5:6). O jejum é simplesmente essa fome, tornada deliberada — e o Deus que vê em secreto prometeu recompensar os que o buscam. Não deixe que o descaso com o jejum nesta nossa época confortável afaste você de um presente que toda a história do povo de Deus tem valorizado. Comece pequeno, comece com humildade e comece pelo motivo certo — não para impressionar a Deus ou os outros, mas para buscar o Senhor com todo o seu ser. É bem provável que você descubra, como incontáveis crentes antes de você, que o estômago vazio se torna uma hora estranhamente cheia, e que o próprio Deus se aproxima, de um jeito que você não esquecerá tão cedo, daqueles que negam a si mesmos para se aproximar dele.