Se você já se perguntou o que tem a oferecer à igreja — ou sentiu que as pessoas talentosas são sempre os outros —, aqui está uma notícia que vale a pena ouvir: cada cristão, sem exceção, recebeu pelo menos um dom espiritual. O Espírito Santo não capacita apenas pastores e missionários; ele capacita crentes comuns, e capacitou você. A pergunta não é se você tem um dom, mas qual, e se você o está usando.
Então, o que exatamente são os dons espirituais, para que servem e como descobrir o seu? Aqui está um guia claro e bíblico.
O que é um dom espiritual
Um dom espiritual é uma capacidade dada por Deus, concedida pelo Espírito Santo, para servir aos outros e edificar a igreja. Paulo apresenta o padrão: “Ora, há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo … a cada um é dada a manifestação do Espírito para o proveito de todos” (1 Coríntios 12:4–7). Repare em três coisas. Os dons são variados — Deus se alegra numa diversidade de capacidades, não numa multidão uniforme. Eles vêm do Espírito — não são meros talentos naturais com que você nasceu, mas capacidades que o Espírito dá e fortalece. E são “para o proveito de todos” — nunca troféus para o indivíduo, mas ferramentas para o corpo inteiro.
Pedro diz o mesmo: “Como cada um recebeu um dom, use-o para servir uns aos outros, como bons administradores da graça de Deus em suas várias formas” (1 Pedro 4:10). Os dons são a graça posta em prática — a bondade de Deus fluindo por meio de um crente para alcançar outro.
Os dons mencionados nas Escrituras
A Bíblia traz várias listas — em Romanos 12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4 — e elas se sobrepõem sem ser idênticas, o que sugere que são exemplos, e não um catálogo exaustivo. Entre eles: ensinar, servir, encorajar, contribuir com generosidade, liderar, exercer misericórdia (Romanos 12:6–8); sabedoria, conhecimento, fé, cura, discernimento (1 Coríntios 12); e as funções de capacitação de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, dadas “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:11–12).
Preste muita atenção a essa última frase: os dons “de destaque” existem para capacitar todos os demais para o ministério. O Novo Testamento não conhece uma igreja em que poucos talentosos se apresentam e o resto assiste. Cada membro é um ministro, e cada um carrega um dom de que os outros precisam.
Quem decide qual dom você recebe?
Aqui está uma verdade libertadora: você não escolhe o seu dom, e não pode conquistar um dom “melhor”. “Um só e o mesmo Espírito produz todas essas coisas, distribuindo individualmente a cada um, como ele deseja” (1 Coríntios 12:11). O Espírito distribui os dons segundo a sabedoria dele e a necessidade da igreja — o que significa que o seu dom não é um acaso nem um detalhe esquecido. É uma designação deliberada de Deus, perfeitamente ajustada ao papel que ele quer que você desempenhe. Comparação e inveja não têm lugar aqui; o olho não se ressente da mão, porque o corpo precisa dos dois.
R. A. Torrey, que escreveu com rara clareza sobre o Espírito em A Pessoa e Obra do Espírito Santo, enfatizou que a capacitação do Espírito para o serviço não é propriedade de uma elite espiritual, mas o direito de nascença de todo crente.
A única coisa maior que os dons
Seria um erro grave correr atrás de dons e negligenciar aquilo que precisa acompanhá-los. Bem no meio do seu ensino sobre os dons, Paulo para e diz: “Se eu falar com as línguas dos homens e dos anjos, mas não tiver amor, tornei-me um bronze que soa ou um címbalo que retine. Se eu tiver o dom de profecia … mas não tiver amor, eu nada sou” (1 Coríntios 13:1–2). Dons sem amor são pior que inúteis; são barulho. Uma igreja pode ser espetacularmente dotada e espiritualmente falida. Por isso, o alvo nunca é o dom por si mesmo, mas dons exercidos em amor, para o bem dos outros — o fruto do Espírito e os dons do Espírito caminhando juntos, como Deus planejou.
Isso também resolve a questão da motivação. A medida de um dom bem usado não é quão impressionante ele parece, mas quanto ele edifica os outros: “visto que têm zelo pelos dons espirituais, busquem ser abundantes neles para a edificação da igreja” (1 Coríntios 14:12). Até um dom discreto de misericórdia ou de serviço, exercido em amor, vale mais aos olhos de Deus do que um dom deslumbrante usado para chamar atenção para si. Isso é profundamente libertador para quem já se sentiu esquecido: os dons que mantêm uma igreja viva são, em sua maioria, os menos glamorosos — as pessoas que servem, encorajam, contribuem e exercem misericórdia nos bastidores — e o céu repara em cada uma delas.
Talento natural e dom espiritual
Muita gente pergunta em que um dom espiritual difere de um talento natural. Os dois podem se sobrepor — Deus muitas vezes toma as capacidades que ele mesmo já colocou em você e as incendeia pelo seu Espírito para o bem da igreja. Mas não são a mesma coisa. Um talento natural pode ser exercido por qualquer pessoa, para qualquer fim; um dom espiritual é a capacitação do Espírito, dada a um crente, voltada para a edificação do corpo de Cristo e fortalecida por Deus, e não por mera habilidade. Um músico talentoso pode tocar lindamente por talento, mas o dom se torna espiritual quando o Espírito usa aquela música para elevar corações a Deus. A mesma habilidade, entregue a Cristo e fortalecida pelo seu Espírito em favor dos outros, se torna mais do que era. Portanto, não despreze as capacidades comuns que Deus lhe deu — ofereça-as a ele e veja o que ele fará com elas.
Uma palavra sobre os dons mais debatidos
Cristãos sinceros divergem sobre se alguns dos dons mais extraordinários — milagres, cura, línguas, profecia — operam hoje como operavam na igreja primitiva, e pessoas piedosas chegam a conclusões diferentes. Este artigo não tenta resolver esse longo debate. Mas duas coisas unem os crentes de ambos os lados. Primeiro, ninguém deve desprezar nem proibir o que Deus está genuinamente fazendo: “Não apaguem o Espírito.” Segundo, nenhum dom, por mais impressionante que seja, é prova de maturidade espiritual — Corinto era uma igreja cheia de dons e profundamente imatura. Seja qual for a sua conclusão sobre os dons espetaculares, não deixe que o debate o distraia da ordem clara que une a todos nós: descubra o dom que Deus deu a você e use-o em amor para servir ao povo dele. A igreja não se enfraquece por falta de dons. Ela se enfraquece por dons deixados sem uso — e se fortalece cada vez que mais um crente descobre o seu e começa, ainda que humildemente, a reparti-lo.
Como descobrir e usar o seu dom
Se o Espírito deu a você um dom, como encontrá-lo e colocá-lo para trabalhar? Alguns passos práticos:
- Comece a servir. Os dons geralmente são descobertos na ação, não num quarto silencioso. Diga sim às necessidades da sua igreja — ensine, ajude, contribua, visite, ore — e observe onde Deus parece produzir fruto por meio de você.
- Repare onde você é eficaz e alegre. O seu dom muitas vezes está onde a eficácia genuína encontra a alegria genuína — o serviço que edifica os outros e no qual você se sente mais vivo.
- Pergunte aos outros. O corpo enxerga o que você não consegue ver. Crentes de confiança muitas vezes conseguem identificar o dom que opera em você antes que você mesmo consiga.
- Deseje os dons que edificam. Paulo diz: “desejem ardentemente os melhores dons” (1 Coríntios 12:31) — não os mais vistosos, mas os que mais servem aos outros. É certo pedir a Deus dons que abençoem o povo dele.
- Use-o em amor e administre-o bem. Um dom é algo confiado a você, não uma posse (1 Pedro 4:10). Desenvolva-o, pratique-o e reparta-o de graça para o bem da igreja.
Catherine Booth, pregando sobre O Espírito Santo, insistiu para que a igreja parasse de deixar sem reivindicar o poder do Espírito. O mesmo vale para os dons dele. Deus não deixou você de mãos vazias. Em algum lugar dentro de você há uma capacidade que o Espírito deu, de que a sua igreja precisa e que só ganhará vida quando você a oferecer. Você não foi salvo para ficar sentado à margem — você recebeu dons para um papel que só você pode desempenhar. Descubra-o e reparta-o.
E não espere até se sentir qualificado. A maioria dos cristãos descobre e desenvolve seus dons dando um passo antes de se sentir pronta, e encontrando o Espírito ao seu lado no próprio ato de servir. O dom cresce com o uso, como um músculo; definha quando escondido. Uma igreja cheia de membros que encontraram o seu dom e o exercem fielmente é algo imparável — não porque alguém seja impressionante, mas porque o corpo inteiro funciona “segundo a operação na medida de cada parte individual” (Efésios 4:16). Esse é o quadro que o Novo Testamento apresenta: não um palco com algumas estrelas, mas um corpo em que cada membro importa e cada dom é necessário — inclusive o seu.