A Bíblia é o livro mais vendido da história e um dos menos lidos. Muita gente tem vários exemplares, tem a intenção de lê-los e nunca sabe muito bem por onde começar. Ela pode parecer intimidadora — um livro grosso, antigo, cheio de nomes desconhecidos e costumes estranhos. Mas a Bíblia não foi dada só aos estudiosos, e sim às pessoas comuns, e Deus quer que todo crente a leia, a entenda e viva por ela. Ela é a sua palavra viva, o meio pelo qual ele nos fala, nos alimenta e nos guia. Aprender a lê-la bem é o hábito mais valioso que um cristão pode formar. Veja aqui como começar — e como seguir em frente.
Saiba o que é a Bíblia — e por que vale a pena lê-la
Antes de aprender a ler a Bíblia, ajuda saber o que você tem nas mãos. A Bíblia não é apenas uma coleção de escritos religiosos antigos; ela é a própria palavra de Deus, “soprada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3:16). Por meio destas páginas, o Deus vivo fala com você pessoalmente. Essa única convicção muda tudo na maneira de se aproximar dela — não como um livro didático a ser dominado, mas como uma mensagem daquele que fez você e que ama você.
E ela é uma lâmpada para a jornada da vida: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Salmos 119:105). Num mundo confuso, a Bíblia dá luz — o bastante para ver o próximo passo e a direção de todo o caminho. Seja o que for que você estiver enfrentando, as Escrituras falam sobre isso, porque o seu autor conhece o fim desde o princípio. Ler a Bíblia é deixar Deus lançar a sua luz sobre o seu caminho.
Comece pelo livro certo, não pela primeira página
Um erro comum é abrir em Gênesis e tentar ler tudo de uma vez, do começo ao fim. Para alguns isso funciona, mas muitos atolam no meio da lei do Antigo Testamento e desistem. Para a maioria, um começo melhor é um dos Evangelhos — Marcos, pela agilidade, ou João, pela profundidade —, onde você encontra Jesus diretamente, que é, afinal, o assunto de toda a Bíblia. O próprio Jesus disse que as Escrituras “testificam a meu respeito” (João 5:39), e, depois da sua ressurreição, mostrou aos seus seguidores como, “em todas as Escrituras”, a história apontava para ele (Lucas 24:27).
De um Evangelho, passe para uma carta curta, como Filipenses ou 1 João, depois para Atos, com a história da igreja primitiva, e para os Salmos, com a linguagem da oração. Não existe uma única ordem correta, mas começar onde Jesus é visto com mais clareza dá a você a chave que abre todo o resto. O livro inteiro — história, lei, profecia, poesia — encontra nele o seu centro.
Leia devagar e procure encontrar Deus, não apenas terminar um capítulo
O objetivo da leitura bíblica não é avançar páginas, mas ouvir a voz de Deus. É melhor ler poucos versículos com atenção do que muitos sem cuidado. O bem-aventurado do Salmo 1 é aquele cujo “prazer está na lei do SENHOR. Na sua lei ele medita de dia e de noite” (Salmos 1:2) — medita, revirando as palavras devagar, como quem saboreia uma boa comida. Essa pessoa se torna “como uma árvore plantada junto a correntes de águas” (Salmos 1:3), de raízes profundas e cheia de fruto.
Por isso, leia para se alimentar, não só para terminar. Pegue uma passagem curta e faça a ela algumas perguntas simples: O que isto me diz sobre Deus? O que me mostra sobre mim mesmo? Há uma promessa em que confiar, um mandamento a obedecer, um exemplo a seguir ou a evitar, um pecado a confessar? Depois pare e transforme isso em oração diante de Deus. Os novos crentes são exortados a desejar as Escrituras como um bebê deseja o leite — “desejem o puro leite espiritual, para que por ele vocês cresçam” (1 Pedro 2:2). Leia para se nutrir, e você vai crescer.
Peça a Deus que ajude você a entender
A Bíblia é um livro espiritual, e é compreendida com ajuda espiritual. Você não precisa desvendá-la apenas com inteligência; o que se espera é que você peça ao seu Autor que a abra para você. O salmista orou: “Abre os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da tua lei” (Salmos 119:18) — uma oração que vale a pena fazer toda vez que você abre o livro. O mesmo Espírito que inspirou as Escrituras habita em todo crente para iluminá-las.
Por isso, comece a sua leitura com uma oração curta: “Senhor, abra os meus olhos; fale comigo; mostre-me Jesus; transforme-me pela sua palavra.” Isso tira a leitura bíblica do campo da obrigação e a leva para o campo do relacionamento. Você não está apenas estudando um texto; está sentado aos pés de um Mestre vivo que tem prazer em se dar a conhecer. O leitor mais humilde que faz essa oração verá mais do que o estudioso mais brilhante que não a faz.
Leia para obedecer, não apenas para saber
A Bíblia não nos foi dada só para nos informar, mas para nos transformar, e a sua verdade é compreendida de forma mais plena quando é praticada. Tiago adverte contra uma leitura que nunca chega à vida: “sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando a si mesmos” (Tiago 1:22). Ele compara o mero ouvinte a um homem que olha de relance num espelho e logo esquece como é a sua aparência. O propósito de nos vermos nas Escrituras é sermos transformados pelo que vemos.
Por isso, leia com disposição para obedecer. Quando um mandamento confrontar você, responda a ele. Quando uma promessa consolar você, apoie todo o seu peso nela. Quando um pecado for exposto, confesse-o e afaste-se dele. É assim que a palavra faz a sua obra — “aquele que atenta bem para a lei perfeita... e nela persevera, não sendo um ouvinte que se esquece, mas um praticante da obra, esse será abençoado naquilo que faz” (Tiago 1:25). Um pouco de Escritura obedecida faz mais bem do que muita Escritura apenas admirada.
O que fazer quando uma passagem confunde você
Todo leitor da Bíblia encontra passagens que o deixam intrigado, e isso não é motivo de vergonha. Até o apóstolo Pedro reconheceu que nas cartas de Paulo “há algumas coisas difíceis de entender” (2 Pedro 3:16). A Bíblia foi escrita ao longo de muitos séculos, em culturas antigas, por isso é de esperar certa dificuldade. O segredo é não deixar que as partes difíceis impeçam você de se banquetear com as claras — e a maior parte do que você precisa saber é evidente para qualquer leitor humilde.
Quando topar com algo confuso, experimente algumas coisas simples. Leia os versículos ao redor, já que o contexto costuma esclarecer boa parte da dificuldade. Deixe as partes claras das Escrituras interpretarem as obscuras, em vez de construir ideias estranhas sobre um único versículo obscuro. Use uma Bíblia de estudo confiável ou peça ajuda a um cristão maduro — nos dias de Neemias, os levitas “deram o sentido, de modo que o povo entendesse a leitura” (Neemias 8:8), e Deus ainda usa mestres para nos ajudar a entender. Acima de tudo, mantenha um coração humilde e em oração, pois as coisas mais profundas das Escrituras “se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14) e estão abertas aos que vêm para obedecer, e não apenas para criticar.
Faça disso um hábito diário — e não desista
Ler bem a Bíblia tem menos a ver com intensidade e mais com constância. Um pouco de tempo a cada dia, mantido ao longo dos anos, molda uma alma muito mais do que maratonas ocasionais. Josué recebeu a ordem de manter a palavra de Deus sempre diante de si: “Este livro da lei não se apartará da sua boca, mas você meditará nele dia e noite” (Josué 1:8). Os nobres crentes de Bereia foram elogiados porque estavam “examinando as Escrituras diariamente” (Atos 17:11). Diariamente: esse é o ritmo que a Bíblia recomenda.
Escolha um horário e um lugar fixos, comece pequeno e tenha paciência consigo mesmo. Algumas passagens vão deixar você intrigado — isso é normal; continue lendo e deixe as partes claras iluminarem as mais difíceis. Não avalie a leitura de um dia pelo que você sentiu, mas por ter ou não se encontrado com Deus. E deixe a palavra habitar ricamente em você (Colossenses 3:16), levando-a para o seu dia, voltando a um versículo enquanto trabalha ou espera. Também ajuda ler junto com outras pessoas — numa igreja, num estudo bíblico ou com um amigo —, onde é possível fazer perguntas e compartilhar descobertas, e onde a prestação de contas nos mantém firmes quando a motivação diminui. E não desanime com os dias que parecem secos; a fidelidade na leitura, como a fidelidade em se alimentar, não se mede pela empolgação de uma única refeição, mas pela nutrição constante de uma vida inteira. Com o tempo, você vai descobrir que a Bíblia não é tanto um livro que você lê, mas um lugar onde você encontra o Deus vivo — e, depois de provar isso, nunca mais vai querer passar um dia sem ela. Abra-a hoje, peça que ele fale com você, e comece.