Capítulo 3 · 5 min de leitura · 7 min de escuta
O motivo maior do cristão para amar
OS FIÉIS conhecem bem a necessidade que têm de Jesus crucificado; mas, enquanto confessam e admiram o Seu amor, não sentem confusão alguma por terem tão pouco, nada além de si mesmos, para retribuir uma caridade tão condescendente e tão grande. O seu amor é despertado pelo sentimento de serem tanto e tão gratuitamente amados; pois aquele a quem pouco amor é dado, pouco ama. Nem os judeus nem os pagãos sentem a ferida do amor como a sente a Igreja, que diz: “Sustentai-me com flores, cercai-me de frutos, porque desfaleço de amor.” Ela vê Salomão trazendo o diadema com que sua mãe o coroou. Vê o Unigênito do Pai cambaleando sob o peso da cruz; o Deus de toda majestade desfigurado pelos golpes, coberto de escarros; o Autor da vida e da glória pregado com cravos, traspassado por uma lança e ultrajado, dando a Sua alma querida pelos Seus amigos. Contemplando isto, ela sente a espada do amor traspassar-lhe o coração, e exclama:
“Sustentai-me com flores, cercai-me de frutos, porque desfaleço de amor.” As romãs que a Esposa, conduzida ao jardim do seu Amado, se deleita em colher na árvore da vida têm o sabor do Pão do Céu e a cor do Sangue de Cristo. Ela vê o golpe mortal dado à morte, e o seu autor engrossando o triunfo do seu Vencedor. Vê o Vencedor subindo gloriosamente do inferno à terra, da terra ao céu, acompanhado pela multidão dos remidos; para que “ao nome de Jesus se dobre todo joelho, dos que estão nos céus, dos que estão na terra, e dos que estão debaixo da terra.” Sob a antiga maldição, a terra fora condenada a produzir espinhos e cardos; mas a Esposa a chama agora, restaurada pela bênção divina, a cobri-la de flores; e, lembrando-se daquelas palavras, “A minha carne refloresceu, e de boa vontade O louvarei,” renova as suas forças com o fruto da árvore da cruz e com as flores da Ressurreição, cujo perfume divino atrai as visitas do Amado. Então Ele exclama: “Eis que és formosa, minha amada, e graciosa.” Ela mostra o seu desejo da vinda dEle, e sobre o que se fundam as suas esperanças: não nas suas próprias perfeições, mas na doçura das flores colhidas num campo que o Senhor abençoou; pois elas são queridas ao Cristo que quis nascer e ser criado em Nazaré. O Esposo celeste, atraído pelo perfume, deleita-se em entrar no aposento do coração, quando o encontra adornado de frutos e perfumado de flores. Ele vem com ardor, e deleita-se em habitar nas almas que vê dedicadas à meditação, cuidadosamente aplicadas a recolher o fruto da Sua Paixão e as flores gloriosas da Sua Ressurreição. Aquela preciosa colheita que foi amadurecendo através dos séculos de crime e de morte, e que nestes últimos dias está pronta para ser recolhida, é a messe dos frutos da Sua Paixão; mas é no esplendor da Ressurreição que desabrocham as flores da nova primavera que a graça trouxe sobre a terra. No fim dos tempos, na ressurreição geral, a abundância de frutos será sem medida, “pois eis que o inverno passou, a chuva acabou e se foi, as flores aparecem na terra.” Com estas palavras a Esposa quer dizer: O verão voltou, com Aquele que rompeu o gelo do velho mundo para restaurar a primavera universal, dizendo: “Eis que faço novas todas as coisas.” O Seu corpo, semeado na morte, floresceu na ressurreição, e, à Sua semelhança, as nossas planícies e os nossos vales, que estavam secos e nus, ou gelados, renascem para a vida e para o calor.
O frescor destas flores, a perfeição dos frutos e a beleza deste jardim que exala tão delicado perfume agradam também ao Pai dAquele que fez novas todas as coisas; e, abençoando-O, Ele diz: “Eis que o cheiro do meu Filho é como o cheiro de um campo cheio de flores, que o Senhor abençoou; “ cheio de flores, de fato, pois é da Sua plenitude que todos nós recebemos. Mas a Esposa, quando quiser, pode vir com familiaridade e colher flores e frutos, para com eles adornar o aposento da sua consciência, a fim de que o Esposo, na Sua vinda, encontre o pequeno leito do seu coração exalando os mais suaves perfumes. E do mesmo modo nós, se desejamos que Cristo venha a nós e permaneça em nós, devemos encher o coração com os pensamentos da Sua morte e ressurreição, e com a lembrança fiel da misericórdia e do poder de que, por elas, Ele nos deu prova. Era isto que Davi queria dizer com as palavras: “Estas duas coisas ouvi: que o poder pertence a Deus, e a misericórdia a Ti, Senhor.” E Cristo o provou superabundantemente; pois, tendo morrido para expiar os nossos pecados, ressuscitou dos mortos para a nossa justificação, e enviou o Espírito Santo para a nossa consolação. Mais tarde voltará para consumar a nossa salvação. Na Sua morte temos a prova da Sua misericórdia, na Sua ressurreição a do Seu poder, e no resto a de ambos unidos.
Quando a Esposa suplica que a sustentem com flores aromáticas e a fortaleçam com frutos perfumados, é porque teme que o seu amor esfrie ou desfaleça; mas só busca tais estímulos até ser recebida no aposento do seu Amado. Então O sentirá cobrindo-a com os beijos por que tanto ansiou, e exclamará: “A sua mão esquerda está debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abraça.” Sentirá então quanto o abraço da mão direita supera toda doçura, e que o da esquerda, com que Ele a acariciara nos primeiros dias da Sua vinda, não se lhe pode comparar. Compreenderá que “a carne para nada aproveita; é o Espírito quem dá vida.” Entrará no sentido das Suas palavras: “O meu espírito é mais doce que o mel, e a minha herança mais que o mel e o favo.” Se também está escrito: “A minha memória permanece por gerações eternas,” é para mostrar que os eleitos que ainda não estão saciados pela presença do Esposo têm, ao menos, a Sua imagem para o seu consolo agora, enquanto o tempo corre. Se está escrito: “Proclamarão a memória da Tua inesgotável doçura,” isto se refere claramente àqueles de quem o salmista falara antes: “Geração após geração louvará as Tuas obras.” Na terra há apenas a memória do Esposo; no céu, a Sua Presença perpétua. Esta é a glória daqueles que já chegaram ao porto; e aquela, a consolação dos que ainda lutam contra as ondas.
Capítulo 3 concluído
O motivo maior do cristão para amar