Capítulo 12 · 50 min de leitura · 1 h 4 min de escuta
Livro XII
Capítulo I
O meu coração, Senhor, tocado pelas palavras da tua Santa Escritura, anda muito atarefado em meio a esta pobreza da minha vida. E por isso, na maioria das vezes, a pobreza do entendimento humano é pródiga em palavras, porque buscar tem mais a dizer do que encontrar, e pedir é mais demorado do que obter, e a mão que bate tem mais trabalho a fazer do que a mão que recebe. Temos a promessa: quem a anulará? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Peçam, e lhes será dado. Busquem, e encontrarão. Batam, e lhes será aberto. Pois todo o que pede, recebe. O que busca, encontra. E àquele que bate, será aberto. Estas são as tuas próprias promessas: e quem há de temer ser enganado, quando é a Verdade que promete?
Capítulo II
A humildade da minha língua confessa à tua Alteza que tu fizeste o céu e a terra; este céu que vejo, e esta terra que piso, de onde vem esta terra que trago em mim; tu a fizeste. Mas onde está aquele céu dos céus, Senhor, de que ouvimos falar nas palavras do Salmo: O céu dos céus é do Senhor, mas a terra ele a deu aos filhos dos homens? Onde está aquele céu que não vemos, em comparação com o qual tudo isto que vemos é terra? Pois este todo corpóreo, não estando inteiro em toda parte, recebeu de tal modo a sua porção de beleza nestas partes inferiores, das quais a mais baixa é esta nossa terra; mas, diante daquele céu dos céus, até o céu da nossa terra não passa de terra: sim, estes dois grandes corpos podem, sem absurdo, ser chamados terra diante daquele céu desconhecido, que é do Senhor, e não dos filhos dos homens.
Capítulo III
Ora, esta terra era invisível e sem forma, e havia não sei que profundidade de abismo, sobre a qual não havia luz, porque não tinha forma alguma. Por isso mandaste escrever que as trevas estavam sobre a face do abismo; que outra coisa é isso senão a ausência de luz? Pois, se houvesse luz, onde estaria ela senão acima de tudo, no alto, iluminando? Onde, pois, não havia luz, que era a presença das trevas senão a ausência de luz? Havia, portanto, trevas sobre ele, porque não havia luz sobre ele; assim como, onde não há som, há silêncio. E que é haver ali silêncio senão não haver ali som? Não foste tu, Senhor, que ensinaste a alma daquele que se confessa a ti? Não foste tu que me ensinaste, Senhor, que antes de formares e diversificares esta matéria informe não havia nada, nem cor, nem figura, nem corpo, nem espírito? E, no entanto, não era de todo nada; pois havia uma certa informidade, sem beleza alguma.
Capítulo IV
Como, então, havia de ser chamada, para que de algum modo fosse transmitida aos de inteligência mais lenta, senão por alguma palavra comum? E que se pode encontrar, entre todas as partes do mundo, mais próximo de uma informidade absoluta do que a terra e o abismo? Pois, ocupando o grau mais baixo, são menos belos do que as outras partes superiores, todas transparentes e luminosas. Por que, então, não hei de entender que a informidade da matéria (que tu havias criado sem beleza, para dela fazeres este mundo belo) foi convenientemente indicada aos homens com o nome de terra invisível e sem forma?
Capítulo V
De modo que, quando o pensamento procura o que os sentidos podem conceber sob isto, e diz a si mesmo: “Não é uma forma inteligível, como a vida ou a justiça, porque é a matéria dos corpos; nem objeto dos sentidos, porque, sendo invisível e sem forma, não havia nela nada que se pudesse ver ou sentir”;—enquanto o pensamento humano assim diz a si mesmo, pode esforçar-se ou por conhecê-la ignorando-a, ou por ignorá-la conhecendo-a.
Capítulo VI
Mas eu, Senhor, se quisesse confessar-te inteiramente, com a língua e com a pena, tudo quanto tu mesmo me ensinaste sobre essa matéria,—cujo nome eu ouvira antes, sem o entender, quando me falavam dela os que também não a entendiam, e assim eu a concebia como tendo formas inúmeras e diversas, e portanto não a concebia de modo algum; a minha mente revolvia “formas” imundas e horríveis, fora de toda ordem, mas ainda assim “formas”, e eu a chamava sem forma, não porque lhe faltasse toda forma, mas porque tinha uma tal que a minha mente, se lhe fosse apresentada, recusaria como insólita e dissonante, e diante da qual a fragilidade humana se perturbaria. E mesmo aquilo que eu concebia era sem forma, não por estar privado de toda forma, mas em comparação com formas mais belas; e a verdadeira razão me persuadia de que eu devia despojá-la por completo de todo resquício de forma, qualquer que fosse, se quisesse conceber a matéria absolutamente sem forma; e eu não conseguia; pois mais depressa podia imaginar que não existisse de todo o que estivesse privado de toda forma, do que conceber algo entre a forma e o nada, nem formado nem nada, um quase-nada informe. Assim, a minha mente desistiu de interrogar a esse respeito o meu espírito, cheio como estava das imagens de corpos formados, que ele mudava e variava a seu bel-prazer; e voltei-me para os próprios corpos, e examinei mais a fundo a sua mutabilidade, pela qual deixam de ser o que foram e começam a ser o que não eram; e suspeitei que essa mesma passagem de forma em forma se fazia através de um certo estado informe, e não através de um puro nada; mas isto eu desejava saber, e não apenas suspeitar.-Se, pois, a minha voz e a minha pena te confessassem inteiramente todos os nós que tu me desataste nesta questão, que leitor teria fôlego para acolher o todo? Nem por isso o meu coração deixará de te dar honra e um cântico de louvor por aquelas coisas que não é capaz de exprimir. Pois a mutabilidade das coisas mutáveis é ela mesma capaz de todas aquelas formas nas quais as coisas mutáveis se transformam. E esta mutabilidade, que é? É alma? É corpo? É aquilo que constitui a alma ou o corpo? Se se pudesse dizer “um nada que é algo”, um “é, não é”, eu diria que era isso: e, no entanto, de algum modo já então era, como capaz de receber estas figuras visíveis e compostas.
Capítulo VII
Mas de onde lhe vinha este grau de ser, senão de ti, de quem procedem todas as coisas, na medida em que são? Mas tanto mais longe de ti quanto mais diferentes de ti; pois não se trata de distância de lugar. Tu, portanto, Senhor, que não és uma coisa num lugar e outra noutro, mas o Mesmo, e o Mesmo, e o Mesmo, Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso, no Princípio, que procede de ti, na tua Sabedoria, nascida da tua própria Substância, criaste alguma coisa, e isso do nada. Pois criaste o céu e a terra; não de ti mesmo, pois assim seriam iguais ao teu Filho Unigênito, e por isso também a ti; quando de modo algum seria justo que fosse igual a ti alguma coisa que não procedesse de ti. E nada mais havia além de ti de que pudesses criá-los, ó Deus, Trindade Una e Unidade Trina; e por isso do nada criaste o céu e a terra; uma coisa grande e uma coisa pequena; pois és Todo-Poderoso e Bom, para fazer boas todas as coisas, tanto o grande céu como a pequena terra. Tu eras, e nada mais havia além de ti, de que criasses o céu e a terra; duas espécies de coisas: uma perto de ti, a outra perto do nada; uma em relação à qual só tu fosses superior, a outra em relação à qual nada fosse inferior.
Capítulo VIII
Mas aquele céu dos céus era para ti, Senhor; e a terra que deste aos filhos dos homens, para ser vista e tocada, não era tal como agora a vemos e tocamos. Pois era invisível, sem forma, e havia um abismo sobre o qual não havia luz; ou: as trevas estavam acima do abismo, isto é, mais do que no abismo. Porque este abismo das águas, agora visível, tem até nas suas profundezas uma luz própria da sua natureza, perceptível em algum grau aos peixes e aos répteis que rastejam no seu fundo. Mas todo aquele abismo era quase nada, porque até então era totalmente sem forma; contudo, já havia aquilo que podia ser formado. Pois tu, Senhor, fizeste o mundo de uma matéria sem forma, que, do nada, fizeste quase nada, para dela fazeres essas grandes coisas que nós, filhos dos homens, admiramos. Pois muito admirável é este céu corpóreo; firmamento entre água e água, do qual, no segundo dia, depois da criação da luz, disseste: Faça-se, e foi feito. A esse firmamento chamaste céu; céu, quer dizer, em relação a esta terra e a este mar, que fizeste no terceiro dia, dando figura visível à matéria informe que fizeste antes de todos os dias. Pois já havias feito também um céu antes de todos os dias; mas esse era o céu deste céu; porque no princípio havias feito o céu e a terra. Mas esta mesma terra que fizeste era matéria informe, porque era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo; e dessa terra invisível e sem forma, dessa informidade, desse quase nada, havias de fazer todas estas coisas de que consta este mundo mutável, mas em que não subsiste; cuja própria mutabilidade se mostra nisto: que nele se podem observar e contar os tempos. Pois os tempos são feitos pelas alterações das coisas, enquanto variam e se transformam as figuras, cuja matéria é a terra invisível de que falamos.
Capítulo IX
E por isso o Espírito, o Mestre do teu servo, quando narra que no Princípio criaste o céu e a terra, nada diz de tempos, nada de dias. Pois, na verdade, aquele céu dos céus que criaste no Princípio é uma criatura intelectual, que, embora de modo algum coeterna a ti, a Trindade, participa contudo da tua eternidade, e, pela doçura daquela felicíssima contemplação de ti, refreia com firmeza a sua própria mutabilidade; e, sem queda alguma desde a sua primeira criação, unida estreitamente a ti, está colocada acima de toda a volúvel vicissitude dos tempos. Sim, nem mesmo esta informidade da terra, invisível e sem forma, é contada entre os dias. Pois onde não há figura nem ordem, nada vem nem vai; e onde isto não acontece, evidentemente não há dias, nem vicissitude alguma de espaços de tempo.
Capítulo X
Ó, que a Luz, a Verdade, a Luz do meu coração, e não as minhas próprias trevas, me fale! Caí nelas e fiquei em trevas; mas mesmo dali, mesmo dali eu te amei. Extraviei-me, e lembrei-me de ti. Ouvi a tua voz atrás de mim, chamando-me a voltar, e mal a ouvi, por causa do tumulto dos inimigos da paz. E agora, eis que volto, aflito e anelante, à tua fonte. Que ninguém mo proíba! Dela beberei, e assim viverei. Que eu não seja a minha própria vida; vivendo de mim mesmo, vivi mal, fui morte para mim mesmo; e em ti revivo. Fala-me tu, conversa tu comigo. Acreditei nos teus Livros, e as suas palavras são plenas de mistério.
Capítulo XI
Já me disseste com voz forte, Senhor, ao ouvido interior, que és eterno, tu, o único que possui imortalidade; visto que não podes ser mudado quanto à figura ou ao movimento, nem a tua vontade se altera com os tempos: pois nenhuma vontade que varia é imortal. Isto está claro para mim diante de ti; e que se torne cada vez mais claro, eu te suplico; e, na sua manifestação, que eu permaneça com sobriedade sob as tuas asas. Disseste-me também com voz forte, Senhor, ao ouvido interior, que fizeste todas as naturezas e substâncias, que não são o que tu mesmo és, e contudo são; e que só não procede de ti aquilo que não é, e o movimento da vontade que se afasta de ti, que és, para aquilo que é em menor grau, porque tal movimento é transgressão e pecado; e que o pecado de homem algum te prejudica nem perturba a ordem do teu governo, nem no princípio nem no fim. Isto está claro para mim diante de ti; e que se torne cada vez mais claro, eu te suplico: e, na sua manifestação, que eu permaneça com sobriedade sob as tuas asas.
Disseste-me também com voz forte, ao ouvido interior, que nem sequer é coeterna a ti aquela criatura de cuja felicidade só tu és a causa, e que, com uma pureza perseverantíssima, alimentando-se de ti, em nenhum lugar e em tempo algum manifesta a sua mutabilidade natural; e, estando tu sempre presente a ela, a quem ela se apega com todo o seu afeto, não tendo futuro a esperar nem transferindo para o passado aquilo de que se lembra, não é alterada por mudança alguma, nem dispersa em tempo algum. Ó criatura bem-aventurada, se tal existe, por se apegar à tua Bem-aventurança; bem-aventurada em ti, seu eterno Habitante e seu Iluminador! Nem encontro nome melhor com que chamar o céu dos céus, que é do Senhor, do que tua casa, que contempla as tuas delícias sem defecção alguma que a faça sair para outra coisa; uma mente pura, harmoniosíssimamente una, por aquele estado firme de paz dos espíritos santos, os cidadãos da tua cidade nos lugares celestiais; muito acima destes lugares celestes que vemos.
Por aqui pode a alma, cuja peregrinação se tornou longa e distante, por aqui pode ela entender, se agora tem sede de ti, se as suas lágrimas se tornaram já o seu pão, enquanto lhe dizem todos os dias: Onde está o teu Deus?, se agora te pede uma só coisa, e a deseja: habitar na tua casa todos os dias da sua vida (e que é a sua vida senão tu? e que são os teus dias senão a tua eternidade, como os teus anos, que não acabam, porque és sempre o mesmo?); por aqui, pois, pode a alma que for capaz entender quão acima de todos os tempos tu és eterno; visto que a tua casa, que em tempo algum partiu para uma terra distante, embora não seja coeterna contigo, contudo, apegando-se a ti contínua e indefectivelmente, não sofre mutabilidade alguma dos tempos. Isto está claro para mim diante de ti; e que se torne cada vez mais claro, eu te suplico; e, na sua manifestação, que eu permaneça com sobriedade sob as tuas asas.
Eis que há não sei que informidade nas mudanças destas últimas e mais baixas criaturas; e quem me dirá (a não ser alguém que, pela vaidade do seu próprio coração, se admira e se agita de um lado para outro entre as suas próprias fantasias?), quem, senão um tal, me diria que, se toda figura fosse de tal modo gasta e consumida que restasse apenas aquela informidade, através da qual a coisa se mudava e passava de uma figura para outra, isso poderia apresentar as vicissitudes dos tempos? Pois claramente não poderia, porque sem a variedade dos movimentos não há tempos: e não há variedade onde não há figura.
Capítulo XII
Consideradas estas coisas, na medida em que tu concedes, ó meu Deus, na medida em que me incitas a bater, e na medida em que me abres quando bato, encontro duas coisas que fizeste, não dentro do âmbito do tempo, nenhuma das quais é coeterna contigo. Uma, formada de tal modo que, sem cessação alguma de contemplação, sem intervalo algum de mudança, embora mutável, contudo não mudada, pode gozar plenamente da tua eternidade e imutabilidade; a outra, tão informe que não tinha aquilo que pudesse mudar-se de uma forma para outra, quer de movimento, quer de repouso, de modo a ficar sujeita ao tempo. Mas esta não a deixaste assim informe, porque antes de todos os dias tu, no Princípio, criaste o Céu e a Terra; as duas coisas de que falei. Mas a Terra era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo. Nestas palavras nos é transmitida a informidade (para que assim sejam conduzidas gradualmente as inteligências que não são capazes de conceber uma privação total de toda forma sem chegar ainda ao nada), da qual se havia de criar outro Céu, juntamente com uma terra visível e bem formada, e as águas ordenadas de diversas maneiras, e tudo o mais que, na formação do mundo, se registra ter sido criado, não sem dias; e isso por serem de tal natureza que nelas podem dar-se as mudanças sucessivas dos tempos, sujeitas como estão a alterações determinadas de movimentos e de formas.
Capítulo XIII
Isto é, pois, o que entendo, ó meu Deus, quando ouço a tua Escritura dizer: No princípio Deus fez o Céu e a Terra: e a Terra era invisível e sem forma, e as trevas estavam sobre o abismo, sem mencionar em que dia os criaste; isto é o que entendo: que por causa do Céu dos céus,—aquele Céu intelectual, cujas Inteligências conhecem tudo de uma vez, não em parte, não de modo obscuro, não como por espelho, mas por inteiro, em plena manifestação, face a face; não agora isto e logo aquilo, mas (como disse) conhecem tudo de uma vez, sem sucessão alguma de tempos;—e por causa da terra invisível e sem forma, sem sucessão alguma de tempos, sucessão essa que apresenta “agora isto, logo aquilo”; porque onde não há forma não há distinção de coisas:—é, pois, por causa destes dois, um primordialmente formado e outro primordialmente informe, um o céu, mas o Céu dos céus, o outro a terra, mas a terra invisível e sem forma; por causa destes dois, entendo eu, disse a tua Escritura, sem mencionar dias: No Princípio Deus criou o Céu e a Terra. Pois logo a seguir acrescentou de que terra falava; e também, ao registrar que o Firmamento foi criado no segundo dia e chamado Céu, dá-nos a entender de que Céu falara antes, sem mencionar dias.
Capítulo XIV
Maravilhosa profundidade das tuas palavras! Cuja superfície, eis que está diante de nós, convidando os pequeninos; e contudo são uma profundidade maravilhosa. Ó meu Deus, uma profundidade maravilhosa! É tremendo olhar para dentro dela; um temor de reverência e um estremecimento de amor. Odeio veementemente os seus inimigos; oxalá os matasses com a tua espada de dois gumes, para que não fossem mais seus inimigos: pois assim desejo que morram para si mesmos, para que vivam para ti. Mas eis outros, não detratores, mas exaltadores do livro do Gênesis: “O Espírito de Deus”, dizem eles, “que por meio do seu servo Moisés escreveu estas coisas, não quis que essas palavras fossem assim entendidas; não quis que se entendessem como tu dizes, mas de outro modo, como nós dizemos.” A estes, sendo tu mesmo juiz, ó Deus de todos, respondo assim.
Capítulo XV
“Afirmareis que é falso aquilo que a Verdade me diz com voz forte ao ouvido interior acerca da Eternidade do Criador: que a sua substância de modo algum é mudada pelo tempo, nem a sua vontade está separada da sua substância? Por isso ele não quer agora uma coisa e logo outra, mas uma só vez, e de uma vez, e sempre, quer tudo o que quer; não repetidamente, nem ora isto, ora aquilo; nem quer depois o que antes não queria, nem deixa de querer o que antes queria; porque uma tal vontade é mutável, e nada que é mutável é eterno: mas o nosso Deus é eterno. Além disso, o que ele me diz ao ouvido interior: a expectativa das coisas futuras torna-se visão quando elas chegam, e essa mesma visão torna-se memória quando elas passam. Ora, todo pensamento que assim varia é mutável; e nada que é mutável é eterno: mas o nosso Deus é eterno.” Estas coisas eu deduzo e reúno, e descubro que o meu Deus, o Deus eterno, não fez criatura alguma por uma vontade nova, nem o seu conhecimento admite coisa alguma transitória. “Que direis, então, ó contraditores? São falsas estas coisas?” “Não”, dizem eles; “Que mais? É falso que toda natureza já formada, ou matéria capaz de forma, não existe senão por aquele que é sumamente bom, porque é sumamente?” “Também isto não negamos”, dizem eles. “Que mais? Negais que haja uma certa criatura sublime, unida por um amor tão casto ao verdadeiro e verdadeiramente eterno Deus que, embora não coeterna com ele, contudo não se separa dele, nem se dissolve na variedade e vicissitude dos tempos, mas repousa na contemplação verdadeiríssima só dele?” Porque tu, ó Deus, a quem te ama tanto quanto ordenas, te mostras e lhe bastas; e por isso ele não se desvia de ti, nem se volta para si mesmo. Esta é a casa de Deus, não de matéria terrena, nem de massa celeste corpórea, mas espiritual, e participante da tua eternidade, porque sem defecção para sempre. Pois tu a firmaste para todo o sempre, deste-lhe uma lei que ela não transgredirá. Contudo, não é coeterna contigo, ó Deus, porque não é sem princípio; pois foi feita.
Pois, embora não encontremos tempo algum antes dela, porque a sabedoria foi criada antes de todas as coisas; não aquela Sabedoria que é inteiramente igual e coeterna a ti, nosso Deus, seu Pai, e por quem todas as coisas foram criadas, e na qual, como no Princípio, criaste o céu e a terra; mas aquela sabedoria que é criada, isto é, a natureza intelectual, que, contemplando a luz, é luz. Pois também esta, embora criada, se chama sabedoria. Mas quanta diferença há entre a Luz que ilumina e a que é iluminada, tanta há entre a Sabedoria que cria e a que foi criada; como entre a Justiça que justifica e a justiça que se produz pela justificação. Pois também nós somos chamados tua justiça; assim diz um certo servo teu: para que nele nos tornássemos a justiça de Deus. Portanto, visto que uma certa sabedoria criada foi criada antes de todas as coisas, a mente racional e intelectual daquela tua casta cidade, nossa mãe, que é lá de cima, e é livre, e eterna nos céus (em que céus, senão naqueles que te louvam, o Céu dos céus? Porque este é também o Céu dos céus para o Senhor);—embora não encontremos tempo algum antes dela (porque aquilo que foi criado antes de todas as coisas precede também a criatura do tempo), contudo antes dela está a Eternidade do próprio Criador, de quem, sendo criada, recebeu o princípio, não certamente do tempo (pois o próprio tempo ainda não existia), mas da sua criação.
Por isso procede de ti, nosso Deus, de tal modo que é inteiramente outra que tu, e não o Mesmo: porque, embora não encontremos tempo nem antes dela nem sequer nela (sendo-lhe próprio contemplar sempre a tua face, e jamais se afastando dela, pelo que não é variada por mudança alguma), contudo há nela uma possibilidade de mudança, pela qual se tornaria escura e fria, se não fosse que, unida a ti por um forte afeto, como um perpétuo meio-dia, brilha e arde por ti. Ó casa luminosíssima e deleitosíssima! Amei a tua beleza e o lugar da habitação da glória do meu Senhor, teu construtor e possuidor. Que a minha peregrinação suspire por ti, e digo àquele que te fez que tome posse também de mim em ti, visto que também a mim me fez. Andei desviado como uma ovelha perdida: contudo, sobre os ombros do meu Pastor, teu construtor, espero ser trazido de volta a ti.
“Que me dizeis, ó contraditores a quem eu falava, que no entanto credes que Moisés foi o santo servo de Deus, e que os seus livros são oráculos do Espírito Santo? Não é esta casa de Deus, não coeterna com Deus, é certo, mas, à sua medida, eterna nos céus, onde em vão procurais mudanças de tempos, porque não as encontrareis? Pois aquela, para quem é sempre bom unir-se estreitamente a Deus, ultrapassa toda extensão e todos os períodos volúveis do tempo.” “É”, dizem eles. “Que dizeis, então, de tudo aquilo que o meu coração clamou em alta voz ao meu Deus, quando interiormente ouviu a voz do seu louvor; que parte disso afirmais ser falsa? É que a matéria era sem forma, na qual, porque não havia forma, não havia ordem? Mas onde não havia ordem não podia haver vicissitude de tempos: e, contudo, este quase nada,’ visto que não era de todo nada, certamente procedia daquele de quem procede tudo o que é, em qualquer grau que seja.” “Também isto”, dizem eles, “não negamos.”
Capítulo XVI
Com estes, que admitem serem verdadeiras todas estas coisas que a tua Verdade sussurra à minha alma, converso agora um pouco na tua presença, ó meu Deus. Quanto aos que as negam, que ladrem e se ensurdeçam quanto quiserem; tentarei persuadi-los a se aquietarem e abrir neles um caminho para a tua palavra. Mas, se recusarem e me repelirem, eu te suplico, ó meu Deus, não fiques em silêncio para mim. Fala tu com verdade ao meu coração; pois só tu falas assim: e deixá-los-ei soprando o pó lá fora e levantando-o contra os próprios olhos; e eu entrarei no meu quarto e ali te cantarei um cântico de amores, gemendo com gemidos inexprimíveis na minha peregrinação, e lembrando-me de Jerusalém, com o coração elevado para ela, Jerusalém, minha pátria, Jerusalém, minha mãe, e de ti, que reinas sobre ela, o Iluminador, Pai, Guardião, Esposo, o deleite puro e forte, a alegria sólida, e todos os bens inefáveis, sim, todos de uma vez, porque és o único Bem soberano e verdadeiro. E não me desviarei até que recolhas tudo o que sou, deste estado disperso e desordenado, na paz daquela nossa mãe caríssima, onde já estão as primícias do meu espírito (de onde me vem a certeza destas coisas), e o conformes e confirmes para sempre, ó meu Deus, minha Misericórdia. Mas àqueles que não afirmam serem falsas todas estas verdades, que honram a tua santa Escritura, exposta pelo santo Moisés, colocando-a, como nós, no cume da autoridade a ser seguida, e contudo me contradizem em alguma coisa, respondo assim: Sê tu mesmo o juiz, ó nosso Deus, entre as minhas Confissões e as contradições destes homens.
Capítulo XVII
Pois eles dizem: “Ainda que estas coisas sejam verdadeiras, contudo Moisés não tinha em mente essas duas coisas quando, por revelação do Espírito, disse: No princípio Deus criou o céu e a terra. Ele não designou, com o nome de céu, aquela criatura espiritual ou intelectual que contempla sempre a face de Deus; nem, com o nome de terra, aquela matéria informe.” “Que, então?” “Aquele homem de Deus”, dizem eles, “quis dizer o que nós dizemos; foi isto que declarou com essas palavras.” “O quê?” “Com o nome de céu e terra quis ele primeiro significar”, dizem eles, “de modo universal e resumido, todo este mundo visível; para depois, pela enumeração de cada um dos dias, dispor em pormenor e, por assim dizer, peça por peça, todas aquelas coisas que aprouve ao Espírito Santo enunciar assim. Pois tal era aquele povo rude e carnal a quem ele falava, que julgou conveniente confiar-lhe somente o conhecimento das obras de Deus que eram visíveis.” Concordam, porém, que as palavras terra invisível e sem forma, e aquele abismo tenebroso (do qual se mostra depois que todas estas coisas visíveis que todos conhecemos foram feitas e ordenadas durante aqueles “dias”), podem, não sem propriedade, entender-se desta primeira matéria informe.
E se agora outro dissesse que “esta mesma informidade e confusão da matéria foi primeiro designada pelo nome de céu e terra por esta razão: porque dela foi criado e aperfeiçoado este mundo visível, com todas aquelas naturezas que nele aparecem com toda a evidência, o qual muitas vezes se chama pelo nome de céu e terra”? E se ainda outro disser que “a natureza invisível e a visível não se chamam impropriamente céu e terra; e que assim toda a criação, que Deus fez na sua Sabedoria, isto é, no Princípio, foi compreendida sob essas duas palavras? Contudo, visto que todas as coisas foram feitas não da substância de Deus, mas do nada (porque não são o mesmo que Deus é, e há em todas elas uma natureza mutável, quer permaneçam, como a eterna casa de Deus, quer sejam mudadas, como a alma e o corpo do homem): por isso a matéria comum de todas as coisas visíveis e invisíveis (ainda informe, embora capaz de forma), da qual haviam de ser criados tanto o céu como a terra (isto é, a criatura invisível e a visível, uma vez formadas), foi designada pelos mesmos nomes dados à terra invisível e sem forma e às trevas sobre o abismo, mas com esta distinção: que pela terra invisível e sem forma se entende a matéria corpórea, antes de ser qualificada por qualquer forma; e pelas trevas sobre o abismo, a matéria espiritual, antes de sofrer qualquer limite à sua fluidez ilimitada, ou de receber qualquer luz da Sabedoria?”
Resta ainda que alguém diga, se quiser, que “as naturezas já acabadas e formadas, visíveis e invisíveis, não são significadas pelo nome de céu e terra quando lemos: No princípio Deus fez o céu e a terra; mas que o começo ainda informe das coisas, a matéria apta a receber forma e feitura, foi chamado por esses nomes, porque nele estavam contidas confusamente, ainda não distinguidas por suas qualidades e formas, todas aquelas coisas que, agora dispostas em ordem, se chamam Céu e Terra, uma a criação espiritual, a outra a corpórea.”
Capítulo XVIII
Ouvidas e bem ponderadas todas estas coisas, não disputarei sobre palavras: pois isso de nada aproveita, senão para a ruína dos que ouvem. Mas a lei é boa, se alguém a usar de forma legítima, para edificar: pois o seu fim é a caridade, que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera. E bem sabia o nosso Mestre de que dois mandamentos fez depender toda a Lei e os Profetas. E que prejuízo me causa, ó meu Deus, luz dos meus olhos no segredo, a mim que com zelo confesso estas coisas, visto que sob estas palavras se podem entender coisas diversas, que no entanto são todas verdadeiras — que prejuízo, digo, me causa, se eu pensar de modo diferente do que outro pensa que pensou o escritor? Todos nós, leitores, de fato nos esforçamos por rastrear e compreender o sentido daquele a quem lemos; e, crendo que ele fala a verdade, não ousamos imaginar que tenha dito coisa alguma que nós mesmos saibamos ou julguemos ser falsa. Enquanto, pois, cada um procura entender nas Santas Escrituras o mesmo que entendeu o escritor, que mal há se alguém entende o que tu, luz de todas as mentes que falam verdade, lhe mostras ser verdadeiro, ainda que aquele a quem lê não tenha entendido isto, visto que também ele entendeu uma verdade, embora não esta verdade?
Capítulo XIX
Pois é verdade, ó Senhor, que tu fizeste o céu e a terra; e é verdade também que o Princípio é a tua Sabedoria, na qual crias todas as coisas; e é verdade ainda que este mundo visível tem por suas partes maiores o céu e a terra, que em breve compreendem todas as naturezas feitas e criadas. E é verdade também que tudo o que é mutável nos dá a entender uma certa falta de forma, pela qual recebe uma forma, ou é mudado, ou se converte. É verdade que não está sujeito a tempo algum aquilo que de tal modo se apega à Forma imutável que, embora sujeito à mudança, jamais é mudado. É verdade que aquela informidade, que é quase nada, não pode estar sujeita às alterações dos tempos. É verdade que aquilo de que uma coisa é feita pode, por certo modo de falar, ser chamado pelo nome da coisa que dele se faz; donde aquela informidade, de que foram feitos o céu e a terra, poderia chamar-se céu e terra. É verdade que, dentre as coisas que têm forma, nenhuma há mais próxima de não ter forma do que a terra e o abismo. É verdade que não somente toda coisa criada e formada, mas tudo quanto é capaz de ser criado e formado, tu o fizeste, tu, de quem são todas as coisas. É verdade que tudo o que se forma daquilo que não tinha forma era informe antes de ser formado.
Capítulo XX
Destas verdades, de que não duvidam aqueles a quem concedeste ver tais coisas com o olho interior, e que creem inabalavelmente que o teu servo Moisés falou no Espírito da verdade — de todas estas, pois, um toma uma, aquele que diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; isto é, “no seu Verbo, coeterno consigo, Deus fez a criatura inteligível e a sensível, ou seja, a espiritual e a corpórea”. Outro toma outra, aquele que diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; isto é, “no seu Verbo, coeterno consigo, Deus fez toda a mole deste mundo corpóreo, juntamente com todas aquelas criaturas manifestas e conhecidas que ele contém”. Outro toma outra, aquele que diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; isto é, “no seu Verbo, coeterno consigo, Deus fez a matéria informe das criaturas espirituais e corpóreas”. Outro toma outra, aquele que diz: No Princípio Deus criou o céu e a terra; isto é, “no seu Verbo, coeterno consigo, Deus criou a matéria informe da criatura corpórea, na qual o céu e a terra jaziam ainda confusos, e que, agora distinguidos e formados, vemos hoje na mole deste mundo”. Outro toma outra, aquele que diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; isto é, “no próprio começo do criar e do operar, Deus fez aquela matéria informe que continha em si confusamente o céu e a terra; da qual, uma vez formados, eles agora se destacam e se manifestam, com tudo o que neles há”.
Capítulo XXI
E quanto ao entendimento das palavras seguintes, dentre todas aquelas verdades escolhe uma para si aquele que diz: Mas a terra era invisível e informe, e as trevas estavam sobre o abismo; isto é, “aquela coisa corpórea que Deus fez era ainda uma matéria informe das coisas corpóreas, sem ordem, sem luz”. Outro é aquele que diz: A terra era invisível e informe, e as trevas estavam sobre o abismo; isto é, “este todo, que se chama céu e terra, era ainda uma matéria informe e tenebrosa, da qual haviam de ser feitos o céu corpóreo e a terra corpórea, com todas as coisas que neles há e que são conhecidas pelos nossos sentidos corpóreos”. Outro é aquele que diz: A terra era invisível e informe, e as trevas estavam sobre o abismo; isto é, “este todo, que se chama céu e terra, era ainda uma matéria informe e tenebrosa; da qual haviam de ser feitos tanto aquele céu inteligível, chamado em outro lugar Céu dos céus, como a terra, isto é, toda a natureza corpórea, sob cujo nome se compreende também este céu corpóreo; numa palavra, da qual havia de ser criada toda criatura visível e invisível”. Outro é aquele que diz: A terra era invisível e informe, e as trevas estavam sobre o abismo; “a Escritura não chamou aquela informidade pelo nome de céu e terra; mas aquela informidade, diz ele, já existia, e a ela chamou terra invisível e informe, e trevas sobre o abismo; da qual antes dissera que Deus fizera o céu e a terra, a saber, a criatura espiritual e a corpórea”. Outro é aquele que diz: A terra era invisível e informe, e as trevas estavam sobre o abismo; isto é, “já existia uma certa matéria informe, da qual a Escritura disse antes que Deus fez o céu e a terra; a saber, toda a mole corpórea do mundo, dividida em duas grandes partes, a superior e a inferior, com todas as criaturas comuns e conhecidas que nelas há”.
Capítulo XXII
Pois, se alguém tentasse contestar estas duas últimas opiniões, dizendo assim: “Se não quiserem admitir que esta informidade da matéria parece ser chamada pelo nome de céu e terra, segue-se que houve algo que Deus não fizera, do qual fazer o céu e a terra; pois a Escritura não nos disse que Deus fez esta matéria, a não ser que entendamos que ela está significada pelo nome de céu e terra, ou só de terra, quando se diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; de modo que, no que se segue, e a terra era invisível e informe (ainda que lhe tenha aprazido chamar assim a matéria informe), não devemos entender outra matéria senão aquela que Deus fez, da qual está escrito acima: Deus fez o céu e a terra” — os defensores de qualquer dessas duas últimas opiniões, ao ouvirem isto, responderão: “Não negamos que esta matéria informe tenha sido de fato criada por Deus, aquele Deus de quem são todas as coisas muito boas; pois, assim como afirmamos ser um bem maior aquilo que é criado e formado, assim confessamos ser um bem menor aquilo que é feito capaz de criação e de forma, mas ainda assim um bem. Dizemos, porém, que a Escritura não declarou que Deus fez esta informidade, como também não declarou muitas outras coisas, como os Querubins e os Serafins e aqueles que o Apóstolo distintamente menciona: Tronos, Dominações, Principados, Potestades. Todos os quais é evidentíssimo que Deus os fez. Ou, se naquilo que se diz, Fez o céu e a terra, todas as coisas estão compreendidas, que diremos das águas sobre as quais se movia o Espírito de Deus? Pois, se estão compreendidas nesta palavra terra, como então se pode entender a matéria informe sob esse nome de terra, quando vemos as águas tão belas? Ou, se assim se entende, por que então está escrito que da mesma informidade foi feito o firmamento e chamado céu, e não está escrito que as águas foram feitas? Pois as águas não permanecem informes e invisíveis, visto que as contemplamos correndo de maneira tão formosa. Mas, se receberam essa beleza quando Deus disse: Ajuntem-se as águas que estão debaixo do firmamento, de modo que o próprio ajuntamento fosse a sua formação, que se dirá daquelas águas que estão acima do firmamento? Visto que, se fossem informes, não teriam sido dignas de assento tão honroso, nem está escrito por que palavra foram formadas. Se, pois, o Gênesis se cala acerca de Deus ter feito alguma coisa, que, no entanto, nem a fé sã nem o entendimento bem fundado duvida que Deus fez, e se nenhuma doutrina sóbria ousará afirmar que estas águas são coeternas com Deus, com o fundamento de que as encontramos mencionadas no livro do Gênesis, mas não encontramos quando foram criadas — por que (ensinando-nos a verdade) não haveríamos de entender que aquela matéria informe (a que esta Escritura chama terra invisível e informe e abismo tenebroso) foi criada por Deus do nada e, portanto, não lhe é coeterna, ainda que esta narrativa tenha omitido mostrar quando foi criada?”
Capítulo XXIII
Ouvidas, pois, e percebidas estas coisas, segundo a fraqueza da minha capacidade (que te confesso, ó Senhor, a ti que a conheces), vejo que podem surgir duas espécies de divergências quando uma coisa é narrada em palavras por relatores verazes: uma acerca da verdade das coisas, outra acerca da intenção de quem as relata. Pois de um modo indagamos, a respeito da criação da criatura, o que é verdadeiro; de outro, o que Moisés, aquele excelente ministro da tua Fé, quis que o seu leitor e ouvinte entendesse por aquelas palavras. Quanto à primeira espécie, longe de mim todos os que imaginam saber como verdade o que é falso; e quanto à outra, longe de mim também todos os que imaginam que Moisés escreveu coisas falsas. Mas que eu me una em ti, ó Senhor, àqueles, e em ti me deleite com os que se apascentam da tua verdade, na amplidão da caridade; e aproximemo-nos juntos das palavras do teu livro, e busquemos nelas a tua intenção, por meio da intenção do teu servo, por cuja pena tu as dispensaste.
Capítulo XXIV
Mas qual de nós, entre tantas verdades que ocorrem aos que indagam naquelas palavras, conforme são diversamente entendidas, descobrirá aquele único sentido de modo a afirmar: “Isto pensou Moisés” e “isto quis ele que se entendesse naquela narrativa”, com a mesma confiança com que diria: “Isto é verdade”, quer Moisés tenha pensado isto, quer aquilo? Pois eis, ó meu Deus, que eu, teu servo, que neste livro te votei um sacrifício de confissão, e rogo que pela tua misericórdia eu te pague os meus votos, poderei eu, com a mesma confiança com que afirmo que no teu Verbo imutável criaste todas as coisas visíveis e invisíveis, afirmar também que Moisés não quis dizer outra coisa senão esta, quando escreveu: No Princípio Deus fez o céu e a terra? Não. Porque não vejo na mente dele que ele pensasse nisto quando escrevia estas coisas, como vejo na tua verdade que isto é certo. Pois ele podia ter o pensamento posto no começo do criar de Deus, quando disse: No princípio; e por céu e terra, neste lugar, podia não pretender designar nenhuma natureza formada e acabada, seja espiritual, seja corpórea, mas ambas incoadas e ainda informes. Pois percebo que, qualquer das duas que se dissesse, poderia ter sido dita com verdade; mas qual das duas ele pensou nestas palavras, isso não percebo do mesmo modo. Contudo, quer fosse uma destas, quer qualquer outro sentido além destes (que aqui não mencionei) o que este homem tão grande viu em sua mente quando proferiu estas palavras, não duvido de que o viu com verdade e o exprimiu com acerto.
Capítulo XXV
Que ninguém, pois, me importune dizendo: Moisés não pensou como tu dizes, mas como eu digo; pois, se ele me perguntasse: “Como sabes tu que Moisés pensou aquilo que inferes das suas palavras?”, eu deveria recebê-lo de bom grado, e responderia talvez como respondi acima, ou com algo mais extenso, se ele fosse obstinado. Mas, quando diz: “Moisés não quis dizer o que tu dizes, mas o que eu digo”, e no entanto não nega que o que cada um de nós diz possa ser verdadeiro, ó meu Deus, vida dos pobres, em cujo seio não há contradição, derrama no meu coração um orvalho que o abrande, para que eu suporte com paciência os que me dizem isto, não porque tenham um espírito divino e tenham visto no coração do teu servo o que dizem, mas porque são soberbos; não conhecendo a opinião de Moisés, mas amando a sua própria, não porque é verdade, mas porque é sua. De outro modo, amariam igualmente outra opinião verdadeira, como eu amo o que eles dizem quando dizem a verdade: não porque é deles, mas porque é verdadeiro; e, por isso mesmo, já não deles, por ser verdadeiro. Mas, se o amam por ser verdadeiro, então é ao mesmo tempo deles e meu, como sendo comum a todos os amantes da verdade. Mas, quanto a sustentarem que Moisés não quis dizer o que eu digo, mas o que eles dizem, isso não me agrada, isso não amo: pois, ainda que assim fosse, essa sua temeridade não pertence ao conhecimento, mas à ousadia, e não a gerou a perspicácia, mas a vaidade. E por isso, ó Senhor, os teus juízos são terríveis; visto que a tua verdade não é minha, nem dele, nem de outro, mas pertence a todos nós, a quem chamas publicamente a participar dela, advertindo-nos terrivelmente a não a tomarmos como privada nossa, para não sermos dela privados. Pois quem reivindica como próprio aquilo que propões a todos para que o desfrutem, e quer que seja seu o que pertence a todos, é repelido do que é comum para o que é seu; isto é, da verdade para a mentira. Pois quem profere a mentira fala do que lhe é próprio.
Escuta, ó Deus, juiz excelente; Verdade mesma, escuta o que direi a este contraditor; escuta, pois diante de ti falo, e diante dos meus irmãos, que usam legitimamente a tua lei, tendo por fim a caridade: escuta e vê, se te apraz, o que lhe direi. Pois esta palavra fraterna e pacífica lhe devolvo: “Se ambos vemos ser verdadeiro o que tu dizes, e ambos vemos ser verdadeiro o que eu digo, onde, pergunto-te, o vemos? Nem eu em ti, nem tu em mim; mas ambos na própria Verdade imutável, que está acima das nossas almas.” Visto, pois, que não contendemos acerca da própria luz do Senhor Deus, por que contendemos acerca dos pensamentos do nosso próximo, que não podemos ver como se vê a Verdade imutável? Pois, ainda que o próprio Moisés nos aparecesse e dissesse: “Isto quis eu dizer”, nem assim o veríamos, mas o creríamos. Não nos ensoberbeçamos, pois, um contra o outro, além do que está escrito: amemos o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos. Se não crermos que Moisés, em tudo o que naqueles livros quis dizer, o quis dizer em vista destes dois preceitos da caridade, faremos de Deus um mentiroso, julgando da mente do nosso conservo de modo diferente do que ele nos ensinou. Eis agora quão insensato é, em tamanha abundância de sentidos verdadeiríssimos que se podem extrair daquelas palavras, afirmar temerariamente qual deles Moisés principalmente quis dizer, e com perniciosas contendas ofender a própria caridade, por amor da qual disse todas as coisas aquele cujas palavras procuramos expor.
Capítulo XXVI
E, no entanto, eu, ó meu Deus, tu que levantas a minha humildade e és o descanso do meu trabalho, que ouves as minhas confissões e perdoas os meus pecados: visto que me ordenas amar o meu próximo como a mim mesmo, não posso crer que tenhas dado a Moisés, teu servo fiel, um dom menor do que eu quereria ou desejaria que me desses a mim, se eu tivesse nascido no tempo em que ele nasceu, e se me tivesses posto naquele ofício, para que, pelo serviço do meu coração e da minha língua, fossem dispensados aqueles livros que tanto tempo depois haveriam de aproveitar a todas as nações e, por todo o mundo, de tão alta eminência de autoridade, haveriam de sobrepujar todos os ditos de doutrinas falsas e soberbas. Eu teria desejado, na verdade, se então fosse Moisés (pois todos viemos da mesma massa, e que é o homem, senão porque te lembras dele?), eu teria então desejado, se fosse então o que ele foi e me tivesses encarregado de escrever o livro do Gênesis, que me fosse dado tal poder de expressão e tal estilo que nem os que ainda não podem entender como Deus criou rejeitassem as palavras como superiores à sua capacidade; e os que já houvessem chegado a isso encontrassem, não omitida naquelas poucas palavras desse teu servo, qualquer opinião verdadeira a que tivessem chegado pelo pensamento; e, se outro, pela luz da verdade, descobrisse outra, também essa não deixasse de poder ser descoberta naquelas mesmas palavras.
Capítulo XXVII
Pois, assim como uma fonte num espaço estreito é mais abundante e fornece caudal a mais correntes, por espaços mais vastos, do que qualquer uma daquelas correntes que, depois de longo percurso, deriva da mesma fonte, assim a narração daquele teu dispensador, que havia de aproveitar a muitos que sobre ela haveriam de discorrer, de uma estreita medida de linguagem transborda em correntes de verdade claríssima, de onde cada um pode tirar para si a verdade que puder sobre estes assuntos, um uma, outro outra, por mais amplos rodeios de discurso. Pois alguns, quando leem ou ouvem estas palavras, imaginam que Deus, como um homem, ou como alguma massa dotada de poder ilimitado, por alguma resolução nova e repentina, criou, fora de si, como que a certa distância, o céu e a terra, dois grandes corpos, um em cima e outro embaixo, nos quais todas as coisas haviam de estar contidas. E, quando ouvem: Deus disse: Faça-se, e foi feito, imaginam palavras começadas e acabadas, soando no tempo e passando; depois de cuja passagem veio a existir aquilo a que se ordenara que existisse; e tudo o mais desse gênero que o trato dos homens com o mundo material lhes possa sugerir. Neles, que ainda são pequeninos e carnais, enquanto a sua fraqueza é levada por este humilde modo de falar, como no seio de uma mãe, a fé é edificada salutarmente, e por ela têm como certo que Deus fez todas as naturezas que em admirável variedade os seus olhos contemplam ao redor. Se alguém, desprezando estas palavras como demasiado simples, com uma fraqueza soberba, se estender para fora do ninho que o abriga, cairá, ai!, miseravelmente. Tem piedade, ó Senhor Deus, para que os que passam pelo caminho não pisem o filhote implume, e envia o teu anjo para o repor no ninho, a fim de que viva até que possa voar.
Capítulo XXVIII
Mas outros, para quem estas palavras já não são ninho, mas pomares sombrios e frondosos, veem os frutos ali escondidos, voam alegremente ao redor e, com gorjeios jubilosos, os procuram e colhem. Pois, lendo ou ouvindo estas palavras, veem que todos os tempos, passados e futuros, são superados pela tua eterna e estável permanência; e que, no entanto, não há criatura temporal que não seja feita por ti. E veem que, pela tua vontade, que é o mesmo que tu és, fizeste todas as coisas, não por mudança alguma de vontade, nem por uma vontade que antes não existisse; e que estas coisas não foram feitas de ti mesmo, à tua própria semelhança, que é a forma de todas as coisas, mas do nada, uma dessemelhança informe, que havia de ser formada pela tua semelhança (voltando-se para a tua Unidade, segundo a capacidade que lhes foi designada, na medida em que é dado a cada coisa em seu gênero), e que todas fossem feitas muito boas; quer permaneçam ao teu redor, quer, afastadas por graus no tempo e no lugar, produzam ou sofram as belas variações do Universo. Estas coisas veem eles, e se alegram, no pequeno grau em que aqui podem, à luz da tua verdade.
Outro aplica a mente ao que se diz: No Princípio Deus fez o céu e a terra; e contempla ali a Sabedoria, o Princípio, porque ela também nos fala. Outro, do mesmo modo, aplica a mente às mesmas palavras e por Princípio entende o começo das coisas criadas: No princípio fez, como se se dissesse: Primeiro fez. E, entre os que entendem No Princípio como significando “Na tua Sabedoria criaste o céu e a terra”, um crê que a matéria da qual haviam de ser criados o céu e a terra é ali chamada céu e terra; outro, que são naturezas já formadas e distintas; outro, que é uma natureza formada, e essa espiritual, sob o nome de Céu, e a outra informe, uma matéria corpórea, sob o nome de Terra. E os que, pelos nomes de céu e terra, entendem a matéria ainda informe, da qual haviam de ser formados o céu e a terra, tampouco o entendem de um só modo: mas um, aquela matéria da qual haviam de ser acabadas tanto a criatura inteligível como a sensível; outro, somente aquela da qual havia de ser feita esta mole sensível e corpórea, que contém em seu vasto seio estas naturezas visíveis e comuns. Nem os que creem que neste lugar se chamam céu e terra as criaturas já ordenadas e dispostas entendem a mesma coisa: mas um, tanto as invisíveis como as visíveis; o outro, só as visíveis, nas quais contemplamos este céu luminoso e esta terra tenebrosa, com as coisas que neles se contêm.
Capítulo XXIX
Mas aquele que não entende No Princípio fez de outro modo senão como se se dissesse: Primeiro fez, só pode entender com verdade céu e terra como a matéria do céu e da terra, isto é, de toda a criação inteligível e corpórea. Pois, se quisesse entender por isso o universo já formado, poder-se-lhe-ia perguntar com razão: “Se Deus fez isto primeiro, que fez depois?”; e, depois do universo, nada encontrará; e então terá de ouvir, mesmo contra a vontade, outra pergunta: “Como fez Deus isto primeiro, se nada fez depois?” Mas, quando diz que Deus fez primeiro a matéria informe e depois a formou, não há absurdo, contanto que seja capaz de discernir o que precede por eternidade, o que por tempo, o que por escolha e o que por origem. Por eternidade, como Deus precede todas as coisas; por tempo, como a flor precede o fruto; por escolha, como o fruto precede a flor; por origem, como o som precede o canto. Destes quatro, o primeiro e o último mencionados entendem-se com extrema dificuldade; os dois do meio, facilmente. Pois é visão rara e demasiado elevada contemplar a tua Eternidade, ó Senhor, fazendo imutavelmente as coisas mutáveis, e por isso anterior a elas. E quem, por outro lado, tem entendimento tão agudo que possa discernir sem grande esforço como o som é anterior ao canto, porque o canto é som formado, e uma coisa não formada pode existir, ao passo que aquilo que não existe não pode ser formado? Assim, a matéria é anterior à coisa feita; não porque a faça, visto que ela mesma é antes feita; nem é anterior por intervalo de tempo; pois não emitimos primeiro no tempo sons informes, sem cantar, e depois os ajustamos ou modelamos na forma de um canto, como a madeira ou a prata de que se fabrica um cofre ou um vaso. Pois tais materiais precedem também no tempo as formas das coisas que deles se fazem; mas no canto não é assim; pois, quando se canta, ouve-se o seu som; e não há primeiro um som informe que depois se forme em canto. Pois cada som, tão logo é feito, passa, e não podes achar coisa alguma que chames de volta e componhas com arte. Assim, pois, o canto concentra-se no seu som, e esse seu som é a sua matéria. E este, na verdade, é formado para que seja canto; e por isso (como eu disse) a matéria do som é anterior à forma do canto; não anterior por algum poder que tenha de fazê-lo canto; pois o som de modo algum é o artífice do canto, mas é algo corpóreo, sujeito à alma que canta, para dele fazer um canto. Nem é primeiro no tempo, pois é emitido juntamente com o canto; nem primeiro na escolha, pois o som não é melhor que o canto, sendo o canto não só som, mas som belo. Mas é primeiro na origem, porque não é o canto que recebe forma para tornar-se som, mas o som que recebe forma para tornar-se canto. Por este exemplo, entenda quem puder como a matéria das coisas foi feita primeiro e chamada céu e terra, porque dela foram feitos o céu e a terra. Contudo, não foi feita primeiro no tempo, porque são as formas das coisas que dão origem ao tempo; mas ela era sem forma, e agora é, no tempo, objeto dos sentidos juntamente com a sua forma. E, no entanto, nada se pode narrar dessa matéria senão como se fosse anterior no tempo, ao passo que em valor é a última (porque as coisas formadas são superiores às coisas sem forma), e é precedida pela Eternidade do Criador: para que houvesse, do nada, aquilo de que algo pudesse ser criado.
Capítulo XXX
Nesta diversidade de opiniões verdadeiras, que a própria Verdade produza a concórdia. E o nosso Deus tenha misericórdia de nós, para que usemos legitimamente da lei, tendo em vista o fim do mandamento, a caridade pura. Por isso, se alguém me pergunta “qual destes era o sentido do teu servo Moisés”, não seria esta a linguagem das minhas Confissões se eu não te confessasse: “Não sei”; e, no entanto, sei que aqueles sentidos são verdadeiros, excetuados os carnais, dos quais falei o que me pareceu necessário. E mesmo aqueles pequeninos de boa esperança que assim pensam têm este benefício: que as palavras do teu Livro não os atemorizam, pois dizem coisas altas humildemente, e com poucas palavras um sentido copioso. E todos nós que, confesso, vemos e exprimimos a verdade transmitida naquelas palavras, amemo-nos uns aos outros, e amemos juntamente a ti, nosso Deus, fonte da verdade, se temos sede dela e não de vaidades; sim, honremos de tal modo este teu servo, dispensador desta Escritura, cheio do teu Espírito, que creiamos que, quando por tua revelação escreveu estas coisas, teve em vista aquilo que, entre elas, mais sobressai tanto pela luz da verdade como pela fecundidade do proveito.
Capítulo XXXI
Assim, quando um diz: “Moisés pensou como eu”, e outro: “Não, mas como eu”, julgo falar com mais reverência dizendo: “Por que não, antes, como ambos, se ambos são verdadeiros?” E, se houver um terceiro, ou um quarto, sim, se algum outro vê qualquer outra verdade naquelas palavras, por que não se há de crer que viu todas estas coisas aquele por meio de quem o Deus único acomodou as Santas Escrituras aos sentidos de muitos, que haveriam de ver nelas coisas verdadeiras, mas diversas? Pois eu, certamente (e digo-o sem temor, do fundo do coração), se tivesse de redigir algo destinado a ter autoridade suprema, preferiria escrever de modo que qualquer verdade que alguém pudesse apreender sobre essas matérias encontrasse eco nas minhas palavras, a expor o meu próprio sentido tão claramente que excluísse os demais, os quais, não sendo falsos, não me poderiam ofender. Não serei, pois, ó meu Deus, tão temerário que não creia que concedeste outro tanto àquele grande homem. Ele, sem dúvida, quando escreveu aquelas palavras, percebeu e pensou qualquer verdade que nós tenhamos podido encontrar, sim, e qualquer uma que não pudemos, nem ainda podemos, mas que nelas se pode encontrar.
Capítulo XXXII
Por fim, ó Senhor, que és Deus e não carne e sangue, se o homem viu menos, poderia acaso ocultar-se ao teu bom Espírito (que me guiará à terra da retidão) alguma coisa que tu mesmo, por aquelas palavras, havias de revelar aos leitores nos tempos vindouros, ainda que aquele por meio de quem foram ditas tenha talvez pensado, entre muitos sentidos verdadeiros, em algum só? E, se assim é, seja aquele em que ele pensou o mais elevado de todos. Mas a nós, ó Senhor, revela-nos tu esse mesmo, ou qualquer outro verdadeiro que te aprouver; para que, quer nos descubras o mesmo que àquele teu servo, quer algum outro por ocasião daquelas palavras, tu nos apascentes e não nos engane o erro. Eis, ó Senhor meu Deus, quanto escrevemos sobre poucas palavras, quanto, rogo-te! Que forças nossas, sim, que séculos bastariam para todos os teus livros desta maneira? Permite-me, pois, que nestes eu te confesse mais brevemente e escolha um só sentido verdadeiro, certo e bom que tu me inspirares, ainda que muitos me ocorram, onde muitos podem ocorrer; sendo esta a lei da minha confissão: que, se eu disser aquilo que o teu ministro pretendeu, isso é o reto e o melhor; pois isso devo esforçar-me por alcançar; e, se não o alcançar, diga eu ao menos aquilo que a tua Verdade quis dizer-me por meio das palavras dele, a qual também a ele revelou o que quis.
Capítulo 12 concluído
Livro XII