Capítulo 4 · 47 min de leitura
Tradução por IA — aguardando revisão nativa
As piores coisas operam para o bem dos piedosos
NÃO me entenda mal: não digo que, por sua própria natureza, as piores coisas sejam boas, pois são fruto da maldição; mas, ainda que sejam naturalmente más, a sábia mão soberana de Deus, que as dispõe e santifica, torna-as moralmente boas. Assim como os elementos, embora de qualidades contrárias, Deus de tal modo os equilibrou que todos operam de maneira harmoniosa para o bem do universo. Ou como num relógio, em que as rodas parecem mover-se em sentidos opostos umas às outras, mas todas conduzem o movimento do relógio: assim as coisas que parecem mover-se contra os piedosos, contudo, pela maravilhosa providência de Deus, operam para o bem deles. Entre estas piores coisas, há quatro tristes males que operam para o bem daqueles que amam a Deus.
1. O mal da aflição opera para o bem dos piedosos.
É uma consideração que aquieta o coração, em todas as aflições que nos sobrevêm, saber que Deus tem nelas uma mão especial: “O Todo-Poderoso me afligiu” (Rt 1.21). Os instrumentos não se podem mover, para nos ferir, enquanto Deus não lhes dá comissão, tal como o machado não pode cortar por si mesmo, sem a mão. Jó fitava a Deus na sua aflição; por isso, como observa Agostinho, ele não diz: “O Senhor deu, e o diabo tirou”, mas: “O Senhor o tirou.” Quem quer que nos traga uma aflição, é Deus quem a envia.
Outra consideração que aquieta o coração é que as aflições operam para o bem. “Como a estes bons figos, assim reconhecerei para o seu bem os que foram levados cativos de Judá, os quais enviei deste lugar para a terra dos caldeus” (Jr 24.5). O cativeiro de Judá na Babilônia foi para o seu bem. “Foi-me bom ter sido afligido” (Sl 119.71). Este texto, como a árvore de Moisés lançada nas amargas águas da aflição, pode torná-las doces e saudáveis de beber. As aflições, para os piedosos, são medicinais. Das drogas mais venenosas, Deus extrai a nossa salvação. As aflições são tão necessárias quanto as ordenanças (1 Pe 1.6). Nenhum vaso de ouro se faz sem fogo; assim, é impossível que sejamos feitos vasos de honra, a menos que sejamos derretidos e refinados na fornalha da aflição. “Todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade” (Sl 25.10). Como o pintor mescla cores vivas com sombras escuras, assim o sábio Deus mistura a misericórdia com o juízo. Aquelas providências aflitivas que parecem prejudiciais são benéficas. Tomemos alguns exemplos das Escrituras. Os irmãos de José o lançam num poço; depois o vendem; então ele é lançado na prisão; contudo, tudo isto operou para o seu bem. O seu rebaixamento abriu caminho para a sua exaltação: foi feito o segundo homem do reino. “Vós intentastes o mal contra mim, porém Deus o intentou para o bem” (Gn 50.20). Jacó lutou com o anjo, e o encaixe da coxa de Jacó se deslocou. Isto foi triste; mas Deus o converteu em bem, pois ali ele viu a face de Deus, e ali o Senhor o abençoou. “Jacó chamou aquele lugar Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face” (Gn 32.30). Quem não estaria disposto a ter um osso deslocado, para poder ter uma visão de Deus?
O rei Manassés foi preso com cadeias. Isto era triste de ver — uma coroa de ouro trocada por grilhões; mas operou para o seu bem, pois, “quando esteve em angústia, suplicou ao Senhor e humilhou-se grandemente, e o Senhor se deixou rogar por ele” (2 Cr 33.11,12). Ele ficou mais devedor à sua cadeia de ferro do que à sua coroa de ouro; esta o tornou soberbo, aquela o tornou humilde.
Jó foi um espetáculo de miséria; perdeu tudo quanto jamais possuíra; só abundava em feridas e úlceras. Isto foi triste; mas operou para o seu bem: a sua graça foi provada e aprimorada. Deus deu do céu um testemunho da sua integridade, e compensou a sua perda dando-lhe duas vezes mais do que jamais tivera antes (Jó 13.10).
Paulo foi ferido de cegueira. Isto era desconfortante, mas se converteu em seu bem. Por meio daquela cegueira, Deus abriu caminho para que a luz da graça brilhasse em sua alma; foi o começo de uma feliz conversão (At 9.6).
Assim como as duras geadas do inverno fazem despontar as flores da primavera, e como a noite anuncia a estrela da manhã, assim os males da aflição produzem muito bem àqueles que amam a Deus. Mas estamos prontos a questionar a verdade disto e a dizer, como Maria disse ao anjo: “Como pode ser isto?” Por isso, mostrarei de várias maneiras como a aflição opera para o bem.
(1). Como nossa pregadora e mestra — “Ouvi a vara” (Mq 6.9). Lutero dizia que nunca pôde entender retamente alguns dos Salmos, senão quando esteve em aflição. A aflição ensina o que é o pecado. Na palavra pregada, ouvimos que coisa terrível é o pecado, que ele é ao mesmo tempo contaminador e condenatório; mas não o tememos mais do que a um leão pintado; por isso Deus solta a aflição, e então sentimos quão amargo é o pecado no seu fruto. Um leito de enfermo muitas vezes ensina mais do que um sermão. Podemos ver melhor o rosto medonho do pecado no espelho da aflição. A aflição nos ensina a conhecer a nós mesmos. Na prosperidade somos, em grande parte, estranhos a nós mesmos. Deus nos faz conhecer a aflição, para que melhor conheçamos a nós mesmos. Vemos, no tempo da aflição, aquela corrupção em nosso coração que não creríamos estar ali. A água no copo parece límpida, mas ponha-a ao fogo, e a escuma sobe fervendo. Na prosperidade, o homem parece humilde e grato, a água parece límpida; mas ponha esse homem um pouco no fogo da aflição, e a escuma sobe fervendo — muita impaciência e incredulidade aparecem. “Ah”, diz um cristão, “nunca pensei que tivesse um coração tão mau como agora vejo que tenho: nunca pensei que minhas corrupções fossem tão fortes, e minhas graças tão fracas.”
(2). As aflições operam para o bem por serem o meio de tornar o coração mais reto. Na prosperidade o coração é propenso a dividir-se (Os 10.2). O coração adere em parte a Deus e em parte ao mundo. É como uma agulha entre dois ímãs: Deus atrai, e o mundo atrai. Ora, Deus tira o mundo, para que o coração se apegue mais a Ele em sinceridade. A correção é um endireitar do coração. Como às vezes seguramos uma vara torta sobre o fogo para endireitá-la, assim Deus nos segura sobre o fogo da aflição para nos tornar mais retos e íntegros. Oh, quão bom é, quando o pecado torceu a alma, desviando-a de Deus, que a aflição a endireite de novo!
(3). As aflições operam para o bem por nos conformarem a Cristo. A vara de Deus é um pincel para desenhar mais vivamente em nós a imagem de Cristo. É bom que haja simetria e proporção entre a Cabeça e os membros. Quereríamos ser partes do corpo místico de Cristo, e não ser semelhantes a Ele? A vida dele, como diz Calvino, foi uma série de sofrimentos: “homem de dores, e experimentado nos sofrimentos” (Is 53.3). Ele chorou e sangrou. Foi a sua cabeça coroada de espinhos, e pensaremos nós ser coroados de rosas? É bom ser semelhante a Cristo, ainda que seja por meio de sofrimentos. Jesus Cristo bebeu um cálice amargo, que o fez suar gotas de sangue só de pensar nele; e, embora seja verdade que Ele bebeu o veneno do cálice (a ira de Deus), contudo resta ainda algum absinto no cálice, que os santos hão de beber: só que aqui está a diferença entre os sofrimentos de Cristo e os nossos; os dele eram satisfatórios, os nossos são apenas corretivos.
(4). As aflições operam para o bem dos piedosos por serem destruidoras do pecado. O pecado é a mãe, a aflição é a filha; a filha ajuda a destruir a mãe. O pecado é como a árvore que gera o verme, e a aflição é como o verme que come a árvore. Há muita corrupção no melhor dos corações: a aflição, aos poucos, a extrai, como o fogo extrai a escória do ouro. “Este é todo o fruto: tirar o seu pecado” (Is 27.9). Que importa termos mais da lima áspera, se temos menos ferrugem! As aflições nada levam consigo senão a escória do pecado. Se um médico dissesse a um paciente: “O teu corpo está adoecido e cheio de maus humores, que precisam ser eliminados, ou morres; mas te prescreverei um remédio que, embora te possa deixar enfermo, levará embora as impurezas da tua doença e salvará a tua vida”: não seria isto para o bem do paciente? As aflições são o remédio que Deus usa para eliminar as nossas enfermidades espirituais; curam o inchaço da soberba, a febre da concupiscência, a hidropisia da cobiça. Não operam, pois, para o bem?
(5). As aflições operam para o bem por serem o meio de desprender do mundo os nossos corações. Quando se cava a terra em volta da raiz de uma árvore, é para soltar a árvore da terra: assim Deus cava para longe os nossos consolos terrenos, a fim de soltar da terra os nossos corações. Com cada flor cresce um espinho. Deus quer que o mundo penda como um dente solto que, arrancado, não muito nos incomoda. Não é bom ser desmamado? Os santos mais velhos disso necessitam. Por que quebra o Senhor o cano do aqueduto, senão para que vamos a Ele, em quem estão “todas as nossas fontes” (Sl 87.7).
(6). As aflições operam para o bem por abrirem caminho para o consolo. “No vale de Acor há uma porta de esperança” (Os 2.15). Acor significa turbação. Deus adoça a dor externa com a paz interna. “A vossa tristeza se converterá em alegria” (Jo 16.20). Aqui está a água transformada em vinho. Depois da pílula amarga, Deus dá o açúcar. Paulo teve os seus cânticos na prisão. A vara de Deus tem mel na ponta. Os santos, na aflição, têm tido tão doces arroubos de alegria, que se julgaram nas fronteiras da Canaã celestial.
(7). As aflições operam para o bem por serem uma exaltação nossa. “Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração, e cada manhã o visites?” (Jó 7.17). Deus, pela aflição, nos engrandece de três maneiras. (1ª.) Em que Ele se dignará descer tão baixo a ponto de tomar conhecimento de nós. É uma honra que Deus atente para o pó e a cinza. É uma exaltação nossa que Deus nos julgue dignos de sermos feridos. O não ferir de Deus é um desprezo: “Por que sereis ainda feridos?” (Is 1.5). Se quereis prosseguir no pecado, segui o vosso caminho, pecai até ao inferno. (2ª.) As aflições também nos exaltam por serem insígnias de glória, sinais de filiação. “Se suportais a disciplina, Deus vos trata como a filhos” (Hb 12.7). Cada marca da vara é um distintivo de honra. (3ª.) As aflições tendem a exaltar os santos por torná-los renomados no mundo. Os soldados nunca foram tão admirados por suas vitórias, como os santos por seus sofrimentos. O zelo e a constância dos mártires em suas provações os tornaram famosos à posteridade. Quão eminente foi Jó pela sua paciência! Deus deixou o seu nome nos registros: “Tendes ouvido da paciência de Jó” (Tg 5.11). Jó, o sofredor, foi mais renomado do que Alexandre, o conquistador.
(8.) As aflições operam para o bem por serem o meio de nos fazer felizes. “Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige” (Jó 5.17). Que político ou moralista jamais pôs a felicidade na cruz? Jó a põe. “Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige.”
Poder-se-á dizer: Como é que as aflições nos fazem felizes? Respondemos que, sendo santificadas, elas nos aproximam de Deus. A lua, quando cheia, está mais distante do sol: assim muitos estão mais longe de Deus na lua cheia da prosperidade; as aflições os aproximam de Deus. O ímã da misericórdia não nos atrai tão perto de Deus como as cordas da aflição. Quando Absalão pôs fogo na seara de Joabe, então este veio correndo a Absalão (2 Sm 14.30). Quando Deus põe fogo nos nossos consolos mundanos, então corremos a Ele e fazemos as pazes com Ele. Quando o pródigo se viu apertado pela necessidade, então voltou para casa, a seu pai (Lc 15.13). Quando a pomba não pôde achar repouso para a planta do seu pé, então voou para a arca. Quando Deus traz sobre nós um dilúvio de aflição, então voamos para a arca, que é Cristo. Assim a aflição nos faz felizes, aproximando-nos de Deus. A fé sabe valer-se das águas da aflição, para nadar mais depressa até Cristo.
(9). As aflições operam para o bem por fazerem calar os ímpios. Quão prontos estão eles a difamar e caluniar os piedosos, dizendo que só servem a Deus por interesse próprio! Por isso Deus quer que o seu povo suporte sofrimentos pela religião, para que ponha um cadeado nos lábios mentirosos dos ímpios. Quando os ateus do mundo veem que Deus tem um povo que O serve não por libré, mas por amor, isto lhes tapa a boca. O diabo acusou Jó de hipocrisia, dizendo que era um homem mercenário, que toda a sua religião se compunha de proventos de ouro e prata. “Porventura Jó teme a Deus debalde? Não cercaste tu de sebe a ele?”, etc. “Pois bem”, diz Deus, “estende a tua mão, toca a sua fazenda” (Jó 1.9). Mal recebera o diabo a comissão, e já começa a derrubar a sebe de Jó; mas ainda assim Jó adora a Deus (Jó 1.20) e professa a sua fé nEle. “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15). Isto fez calar o próprio diabo. Como abate os ímpios ver que os piedosos se conservam apegados a Deus numa condição de sofrimento, e que, quando tudo perdem, ainda assim retêm firmemente a sua integridade.
(10). As aflições operam para o bem por abrirem caminho para a glória (2 Co 4.17). Não que a mereçam, mas que preparam para ela. Como a lavoura prepara a terra para a colheita, assim as aflições nos preparam e nos tornam aptos para a glória. O pintor assenta o seu ouro sobre cores escuras; assim Deus assenta primeiro as cores escuras da aflição, e depois assenta a cor dourada da glória. O vaso é primeiro temperado antes de nele se derramar o vinho: os vasos de misericórdia são primeiro temperados com a aflição, e depois neles se derrama o vinho da glória. Assim vemos que as aflições não são prejudiciais, mas benéficas, aos santos. Não devemos olhar tanto para o mal da aflição, quanto para o bem; não tanto para o lado escuro da nuvem, quanto para o lado luminoso. O pior que Deus faz aos seus filhos é açoitá-los rumo ao céu.
2. O mal da tentação é dirigido para o bem dos piedosos.
O mal da tentação opera para o bem. Satanás é chamado o tentador (Mc 4.15). Está sempre à espreita, de emboscada; está continuamente em ação com um santo ou outro. O diabo tem o seu circuito que percorre todos os dias: ainda não foi de todo lançado na prisão, mas, como um preso solto sob fiança, anda por aí a tentar os santos. Isto é uma grande moléstia para um filho de Deus. Ora, acerca das tentações de Satanás, há três coisas a considerar. (1). O seu método em tentar. (2). A extensão do seu poder. (3). Que estas tentações são dirigidas para o bem.
(1). O método de Satanás em tentar. Aqui, note-se duas coisas. A sua violência em tentar; e assim ele é o dragão vermelho. Ele se esforça por assaltar a fortaleza do coração, arremessa pensamentos de blasfêmia, tenta a negar a Deus: estes são os dardos inflamados que dispara, com os quais quer inflamar as paixões. Também a sua sutileza em tentar; e assim ele é a antiga serpente. Há cinco principais sutilezas que o diabo usa.
(i.) Ele observa o temperamento e a constituição: dispõe iscas de tentação apropriadas. Como o lavrador, sabe que grão é melhor para cada solo. Satanás não tentará de modo contrário à disposição e ao temperamento naturais. Esta é a sua política: faz que o vento e a maré andem juntos; para onde corre a maré natural do coração, para lá sopra o vento da tentação. Embora o diabo não possa conhecer os pensamentos dos homens, conhece-lhes o temperamento, e conforme ele dispõe as suas iscas. Tenta o homem ambicioso com uma coroa, o homem sanguíneo com a beleza.
(ii.) Satanás observa o tempo mais oportuno para tentar, como um pescador astuto lança o anzol quando o peixe melhor morde. O tempo de tentar de Satanás é geralmente depois de uma ordenança: e a razão é que ele pensa achar-nos então mais descuidados. Depois de cumpridos deveres solenes, somos propensos a pensar que tudo está feito, e nos tornamos negligentes, e deixamos aquele zelo e rigor de antes; tal como o soldado que, depois da batalha, tira a armadura, sem sonhar sequer com um inimigo. Satanás espreita o seu tempo e, quando menos suspeitamos, então arremessa uma tentação.
(iii.) Ele se vale de relações próximas; o diabo tenta por procuração. Assim ele passou a Jó uma tentação por meio de sua mulher. “Ainda reténs a tua integridade?” (Jó 2.9). Uma esposa no seio pode ser instrumento do diabo para tentar ao pecado.
(iv.) Satanás tenta ao mal por meio dos que são bons; assim ele dá o veneno num cálice de ouro. Ele tentou a Cristo por meio de Pedro. Pedro o dissuade de sofrer. Senhor, tem compaixão de ti mesmo. Quem pensaria achar o tentador na boca de um apóstolo?
(v.) Satanás tenta ao pecado sob um pretexto de religião. É mais de temer quando se transforma em anjo de luz. Veio a Cristo com a Escritura na boca: “Está escrito.” O diabo isca o seu anzol com religião. Tenta muitos à cobiça e à extorsão sob o pretexto de prover para a família; tenta alguns a darem cabo de si mesmos, para que não vivam mais a pecar contra Deus; e assim os arrasta ao pecado, sob o pretexto de evitar o pecado. Estes são os seus sutis estratagemas em tentar.
(2). A extensão do seu poder; até onde alcança o poder de Satanás em tentar.
(i.) Ele pode propor o objeto; como pôs uma barra de ouro diante de Acã.
(ii.) Ele pode envenenar a imaginação e infundir maus pensamentos na mente. Como o Espírito Santo lança boas sugestões, assim o diabo lança más. Ele pôs no coração de Judas o trair a Cristo (Jo 13.2).
(iii.) Satanás pode excitar e irritar a corrupção interior, e produzir no coração certa inclinação a acolher uma tentação. Embora seja verdade que Satanás não pode forçar a vontade a dar consentimento, contudo, sendo ele um pretendente insistente, pela sua contínua solicitação pode incitar ao mal. Assim ele incitou a Davi a numerar o povo (1 Cr 21.1). O diabo pode, por seus sutis argumentos, arrastar-nos ao pecado pela discussão.
(3). Estas tentações são dirigidas para o bem dos filhos de Deus. Uma árvore sacudida pelo vento fica mais firme e enraizada; assim, o soprar de uma tentação apenas firma mais o cristão na graça. As tentações são dirigidas para o bem de oito maneiras:
(i.) A tentação envia a alma à oração. Quanto mais furiosamente Satanás tenta, mais fervorosamente o santo ora. O veado, atingido pelo dardo, corre mais depressa para a água. Quando Satanás dispara os seus dardos inflamados contra a alma, ela então corre mais depressa para o trono da graça. Quando Paulo teve o mensageiro de Satanás a esbofeteá-lo, ele diz: “Acerca disto três vezes roguei ao Senhor que se retirasse de mim” (2 Co 12.8). A tentação é um remédio para a falsa segurança. Aquilo que nos faz orar mais opera para o bem.
(ii.) A tentação ao pecado é um meio de nos guardar da prática do pecado. Quanto mais um filho de Deus é tentado, mais ele luta contra a tentação. Quanto mais Satanás tenta à blasfêmia, mais o santo treme diante de tais pensamentos e diz: “Retira-te, Satanás.” Quando a senhora de José o tentou à torpeza, quanto mais forte era a sua tentação, mais forte era a oposição dele. Aquela tentação que o diabo usa como espora para o pecado, Deus a faz freio para reter dele o cristão.
(iii.) A tentação opera para o bem por abater o inchaço da soberba. “Para que eu não me exaltasse demais, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me esbofetear” (2 Co 12.7). O espinho na carne servia para furar o inchaço da soberba. Melhor é a tentação que me humilha do que o dever que me torna soberbo. Antes que um cristão seja de mente altiva, Deus o deixará cair por algum tempo nas mãos do diabo, para curá-lo do seu abscesso.
(iv.) A tentação opera para o bem por ser uma pedra de toque para provar o que há no coração. O diabo tenta para enganar; mas Deus permite que sejamos tentados para nos provar. A tentação é uma prova da nossa sinceridade. É sinal de que o nosso coração é casto e leal a Cristo, quando podemos olhar uma tentação de frente e voltar-lhe as costas. É também uma prova da nossa coragem. “Efraim é como uma pomba insensata, sem entendimento” (Os 7.11). Assim se pode dizer de muitos: são sem coração; não têm coração para resistir à tentação. Mal chega Satanás, e logo cedem; como um covarde que, tão logo o ladrão se aproxima, lhe entrega a bolsa. Mas é o cristão valoroso aquele que brande a espada do Espírito contra Satanás, e prefere morrer a ceder. A coragem dos romanos nunca se viu tão bem como quando foram assaltados pelos cartagineses: o valor e a força de um santo nunca se veem tão bem como no campo de batalha, quando ele luta contra o dragão vermelho e, pelo poder da fé, põe o diabo em fuga. É ouro provado aquela graça que pode resistir na prova de fogo e suportar os dardos inflamados.
(v.) As tentações operam para o bem, porque Deus torna aqueles que são tentados aptos a consolar outros na mesma angústia. Um cristão precisa estar ele mesmo sob os golpes de Satanás, antes de poder dizer uma palavra a tempo àquele que está cansado. São Paulo era versado em tentações. “Não ignoramos as suas maquinações” (2 Co 2.11). Assim ele foi capaz de familiarizar outros com as malditas astúcias de Satanás (1 Co 10.13). Um homem que já cavalgou por um lugar onde há pântanos e areias movediças é o mais apto a guiar outros por aquele caminho perigoso. Aquele que sentiu as garras do leão que ruge, e ficou sangrando sob aquelas feridas, é o homem mais apto a tratar com alguém que está sendo tentado. Ninguém pode descobrir melhor as artimanhas e políticas de Satanás do que aqueles que estiveram por muito tempo na escola de esgrima da tentação.
(vi.) As tentações operam para o bem por despertarem em Deus uma compaixão paternal para com os que são tentados. A criança que está doente e machucada é a mais cuidada. Quando um santo jaz sob as contusões das tentações, Cristo ora, e Deus, o Pai, se compadece. Quando Satanás põe a alma em febre, Deus vem com um cordial; o que fez Lutero dizer que as tentações são os abraços de Cristo, porque então Ele mais docemente se manifesta à alma.
(vii.) As tentações operam para o bem por fazerem os santos anelar mais pelo céu. Ali estarão fora do alcance dos tiros; o céu é um lugar de descanso, ali não voam balas de tentação. A águia que se eleva no alto do ar e pousa sobre árvores altas não é incomodada pela picada da serpente: assim, quando os crentes tiverem ascendido ao céu, não serão molestados pela antiga serpente. Nesta vida, quando uma tentação passa, vem outra. Isto serve para fazer o povo de Deus desejar a morte, que toque a retirada e os chame do campo onde as balas voam tão velozes, para receber uma coroa vitoriosa, onde não o tambor nem o canhão, mas a harpa e a viola soarão para sempre.
(viii.) As tentações operam para o bem por porem em ação a força de Cristo. Cristo é o nosso Amigo, e, quando somos tentados, Ele põe todo o seu poder a operar por nós. “Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). Se uma pobre alma tivesse de lutar sozinha contra o Golias do inferno, com certeza seria vencida; mas Jesus Cristo traz as suas forças auxiliares, dá novos suprimentos de graça. “E por meio dele somos mais que vencedores” (Rm 8.37). Assim o mal da tentação é dirigido para o bem.
Pergunta. Mas às vezes Satanás derrota um filho de Deus. Como opera isto para o bem?
Resposta. Concedo que, pela suspensão da graça divina e pela fúria de uma tentação, um santo pode ser vencido; contudo, esta derrota por uma tentação será dirigida para o bem. Por meio desta queda Deus abre caminho para o aumento da graça. Pedro foi tentado à autoconfiança, presumiu da própria força; e, quando quis a todo custo permanecer de pé por si só, Cristo o deixou cair. Mas isto operou para o seu bem: custou-lhe muitas lágrimas. “E, saindo dali, chorou amargamente” (Mt 26.75). E agora ele se torna mais modesto. Não ousou dizer que amava a Cristo mais do que os outros apóstolos. “Amas-me mais do que estes?” (Jo 21.15). Ele não ousou dizê-lo; a sua queda quebrou o pescoço da sua soberba. A derrota por uma tentação produz mais circunspecção e vigilância num filho de Deus. Embora Satanás antes o tivesse atraído ao pecado, contudo, no futuro, ele será mais cauteloso. Terá cuidado de não entrar mais no alcance da corrente do leão. Fica mais arredio e temeroso das ocasiões de pecado. Nunca sai sem a sua armadura espiritual, e cinge a armadura pela oração. Sabe que anda sobre terreno escorregadio, por isso olha sabiamente para os seus passos. Mantém-se como sentinela cerrada em sua alma, e, quando avista o diabo chegando, corre às armas e desdobra a habilidade da fé (Ef 6.16). É todo o dano que o diabo faz. Quando derrota um santo por uma tentação, cura-o do seu descuido negligente; faz que ele mais vigie e ore. Quando as feras selvagens saltam a sebe e danificam a seara, o homem torna mais forte a sua cerca: assim, quando o diabo salta a sebe por uma tentação, o cristão certamente há de consertar a sua cerca; tornar-se-á mais temeroso do pecado e mais cuidadoso do dever. Assim o ser derrotado pela tentação opera para o bem.
Objeção. Mas, se o ser derrotado opera para o bem, isto pode fazer os cristãos indiferentes quanto a serem vencidos pelas tentações ou não.
Resposta. Há grande diferença entre cair numa tentação e correr para uma tentação. O cair numa tentação operará para o bem, não o correr para ela. Aquele que cai num rio é capaz de socorro e compaixão, mas o que desesperadamente se atira nele é culpado da própria morte. É loucura correr para a cova de um leão. Aquele que corre para uma tentação é como Saul, que se lançou sobre a própria espada.
De tudo o que se disse, veja-se como Deus frustra a antiga serpente, fazendo que as suas tentações se convertam no bem do seu povo. Certamente, se o diabo soubesse quanto benefício advém aos santos pela tentação, ele se absteria de tentar. Lutero disse certa vez: “Três coisas fazem um cristão — a oração, a meditação e a tentação.” São Paulo, em sua viagem a Roma, deparou com um vento contrário (At 27.4). Assim, o vento da tentação é um vento contrário ao do Espírito; mas Deus se vale deste vento adverso para soprar os santos rumo ao céu.
3. O mal do abandono opera para o bem dos piedosos.
O mal do abandono opera para o bem. A esposa se queixa do abandono. “O meu amado se retirara, e tinha ido embora” (Ct 5.6). Há um duplo retirar-se: ou quanto à graça, quando Deus suspende a influência do seu Espírito e retém as vívidas atuações da graça. Se o Espírito se retira, a graça se congela numa frieza e indolência. Ou um retirar-se quanto ao consolo, quando Deus retém as doces manifestações do seu favor, não olha com semblante tão agradável, mas vela a sua face e parece de todo ausente da alma.
Deus é justo em todos os seus retiramentos. Nós O abandonamos antes que Ele nos abandone. Abandonamos a Deus quando deixamos a comunhão íntima com Ele, quando abandonamos as suas verdades e não ousamos aparecer por Ele, quando deixamos a direção e o governo da sua palavra e seguimos a luz enganosa das nossas próprias afeições e paixões corruptas. Habitualmente somos nós que primeiro abandonamos a Deus; por isso não temos a quem culpar senão a nós mesmos.
O abandono é muito triste, pois, tal como, retirada a luz, as trevas se seguem no ar, assim, quando Deus se retira, há trevas e tristeza na alma. O abandono é uma agonia da consciência. Deus segura a alma suspensa sobre o inferno. “As flechas do Todo-Poderoso estão em mim, e o seu veneno me bebe o espírito” (Jó 6.4). Era costume entre os persas, em suas guerras, mergulhar as flechas no veneno de serpentes, para torná-las mais mortíferas. Assim Deus disparou em Jó a flecha envenenada do abandono, sob cujas feridas o seu espírito jazia sangrando. Nos tempos de abandono, o povo de Deus é propenso ao abatimento. Argumentam contra si mesmos e pensam que Deus os rejeitou de todo. Por isso, prescreverei algum consolo à alma abandonada. O marinheiro, quando não tem estrela que o guie, tem contudo luz em sua lanterna, o que lhe é de algum auxílio para enxergar a bússola; assim, exporei quatro consolações, que são como a lanterna do marinheiro, para dar alguma luz quando a pobre alma navega no escuro do abandono e carece da resplandecente estrela da manhã.
(1). Ninguém senão os piedosos é capaz de sofrer abandono. Os ímpios não sabem o que significa o amor de Deus, nem o que é carecer dele. Sabem o que é carecer de saúde, de amigos, de negócio, mas não o que é carecer do favor de Deus. Temes não ser filho de Deus porque estás abandonado. Não se pode dizer que o Senhor retire o seu amor dos ímpios, porque eles nunca o tiveram. O ser abandonado é evidência de que és filho de Deus. Como poderias queixar-te de que Deus se tornou estranho a ti, se nunca antes tivesses recebido dele sorrisos e sinais de amor?
(2). Pode haver a semente da graça onde não há a flor da alegria. A terra pode carecer de uma colheita de trigo, e contudo ter dentro de si uma mina de ouro. Um cristão pode ter graça no interior, ainda que não brote o doce fruto da alegria. Os navios no mar, ricamente carregados de joias e especiarias, podem estar na escuridão e ser sacudidos na tempestade. Uma alma enriquecida com os tesouros da graça pode, contudo, estar no escuro do abandono, e ser tão sacudida a ponto de pensar que naufragará na tempestade. Davi, num estado de abatimento, ora: “Não retires de mim o teu Espírito Santo” (Sl 51.11). Ele não ora, diz Agostinho, “Senhor, dá-me o teu Espírito”, mas “Não me tires o teu Espírito”, de sorte que ainda tinha em si o Espírito de Deus permanecendo.
(3). Estes abandonos são apenas por um tempo. Cristo pode retirar-se e deixar a alma por algum tempo, mas Ele voltará. “Num ímpeto de indignação escondi de ti a minha face por um momento, mas com benignidade eterna me compadecerei de ti” (Is 54.8). Quando a maré está bem baixa, ela tornará a subir. “Não contenderei para sempre, nem me indignarei continuamente; porque o espírito perante mim se desfaleceria, e as almas que eu fiz” (Is 57.16). A terna mãe põe no chão o seu filho com ira, mas tornará a tomá-lo nos braços e a beijá-lo. Deus pode afastar a alma com ira, mas tornará a tomá-la em seus caros abraços e a desfraldar sobre ela o estandarte do amor.
(4). Estes abandonos operam para o bem dos piedosos.
O abandono cura a alma da preguiça. Achamos a esposa caída no leito da preguiça: “Eu dormia” (Ct 5.2). E logo Cristo se foi. “O meu amado se retirara” (Ct 5.6). Quem falará a alguém que está sonolento?
O abandono cura a afeição desregrada ao mundo. “Não ameis o mundo” (1 Jo 2.15). Podemos segurar o mundo como um ramalhete na mão, mas ele não deve jazer perto demais do nosso coração. Podemos usá-lo como uma hospedaria onde fazemos uma refeição, mas ele não deve ser o nosso lar. Talvez estas coisas seculares roubem demais o coração. Homens bons às vezes adoecem de fartura e se embriagam com as luxuriantes delícias da prosperidade; e, havendo maculado as suas asas de prata da graça, e desfigurado muito a imagem de Deus ao esfregá-la contra a terra, o Senhor, para recuperá-los disto, esconde a sua face numa nuvem. Este eclipse tem bons efeitos: escurece toda a glória do mundo e a faz desaparecer.
O abandono opera para o bem por fazer os santos estimarem o semblante de Deus mais do que nunca. “A tua benignidade é melhor do que a vida” (Sl 63.3). Contudo, a corriqueiridade desta misericórdia a diminui em nossa estima. Quando as pérolas se tornaram comuns em Roma, começaram a ser desprezadas. Deus não tem melhor modo de nos fazer dar valor ao seu amor do que retirando-o por algum tempo. Se o sol brilhasse só uma vez por ano, quão estimado seria! Quando a alma esteve por muito tempo entenebrecida pelo abandono, oh, quão bem-vindo é agora o retorno do Sol da justiça!
O abandono opera para o bem por ser o meio de nos amargar o pecado. Poderá haver maior miséria do que ter o desagrado de Deus? Que faz o inferno, senão o esconder-se da face de Deus? E que faz Deus esconder a sua face, senão o pecado? “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20.13). Assim, os nossos pecados levaram embora o Senhor, e não sabemos onde Ele está posto. O favor de Deus é a melhor joia; pode adoçar uma prisão e desaguilhoar a morte. Oh, quão odioso é, então, aquele pecado que nos rouba a nossa melhor joia! O pecado fez Deus abandonar o seu templo (Ez 8.6). O pecado faz que Ele apareça como um inimigo e se revista de armadura. Isto faz a alma perseguir o pecado com uma santa malícia e buscar vingar-se dele. A alma abandonada dá ao pecado fel e vinagre a beber, e, com a lança da mortificação, deixa escorrer o sangue vital dele.
O abandono opera para o bem por pôr a alma a chorar pela perda de Deus. Quando o sol se vai, cai o orvalho; e, quando Deus se vai, as lágrimas gotejam dos olhos. Como Mica ficou perturbado quando perdeu os seus deuses! “Tomastes os meus deuses, e que mais me resta?” (Jz 18.24). Assim, quando Deus se vai, que mais nos resta? Não é a harpa nem a viola que podem consolar quando Deus se foi. Embora seja triste carecer da presença de Deus, contudo é bom lamentar a sua ausência.
O abandono põe a alma a buscar a Deus. Quando Cristo se partiu, a esposa saiu em busca dele; procura-o “pelas ruas da cidade” (Ct 3.2). E, não o tendo achado, faz um clamor à sua procura. “Vistes aquele a quem ama a minha alma?” (Ct 3.3). A alma abandonada envia às alturas verdadeiras rajadas de suspiros e gemidos. Bate à porta do céu pela oração; não pode ter descanso enquanto não brilharem os raios dourados da face de Deus.
O abandono põe o cristão a inquirir. Ele inquire a causa da partida de Deus. Que coisa maldita é esta que irou a Deus? Talvez a soberba, talvez a fartura nas ordenanças, talvez a mundanidade. “Pela iniquidade da sua avareza me indignei e o feri; escondi-me” (Is 57.17). Talvez haja algum pecado secreto tolerado. Uma pedra no cano estorva a corrente da água; assim, o pecado em que se vive estorva a doce corrente do amor de Deus. Assim a consciência, como um sabujo, tendo descoberto o pecado e o alcançado, este Acã é apedrejado até à morte.
O abandono opera para o bem por nos dar uma visão do que Jesus Cristo sofreu por nós. Se o mero sorver do cálice é tão amargo, quão amargo foi aquele que Cristo bebeu na cruz? Ele bebeu um cálice de veneno mortal, que o fez clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Ninguém pode apreciar tanto os sofrimentos de Cristo, ninguém pode ser tão inflamado de amor a Cristo, como aqueles que foram humilhados pelo abandono e foram, por um tempo, suspensos sobre as chamas do inferno.
O abandono opera para o bem por preparar os santos para o consolo futuro. As geadas cortantes preparam para as flores da primavera. É o modo de Deus primeiro derrubar, depois consolar (2 Co 7.6). Quando o nosso Salvador esteve em jejum, então vieram os anjos e o serviram. Quando o Senhor manteve o seu povo em longo jejum, então envia o Consolador e os alimenta com o maná escondido. “A luz semeia-se para o justo” (Sl 97.11). Os consolos dos santos podem estar escondidos como semente debaixo da terra, mas a semente está amadurecendo, e crescerá, e florescerá numa colheita.
Estes abandonos operam para o bem por tornarem o céu mais doce para nós. Aqui os nossos consolos são como a lua: às vezes estão cheios, às vezes minguantes. Deus se mostra a nós por um tempo, e depois se retira de nós. Como isto realçará mais o céu, e o tornará mais deleitoso e arrebatador, quando tivermos um constante semblante de amor de Deus (1 Ts 4.17).
Assim vemos que os abandonos operam para o bem. O Senhor nos traz ao abismo do abandono, para não nos trazer ao abismo da condenação. Ele nos põe num inferno aparente, para nos guardar de um inferno real. Deus está nos preparando para aquele tempo em que gozaremos os seus sorrisos para sempre, quando não haverá nem nuvens em sua face, nem sol se pondo, quando Cristo vier e permanecer com a sua esposa, e a esposa nunca mais dirá: “O meu amado se retirou.”
4. O mal do pecado opera para o bem dos piedosos.
O pecado, em sua própria natureza, é condenável, mas Deus, em sua infinita sabedoria, o dirige e faz surgir o bem daquilo que mais parece opor-se a ele. Na verdade, é motivo de admiração que algum mel possa sair deste leão. Podemos entendê-lo num duplo sentido.
(1). Os pecados dos outros são dirigidos para o bem dos piedosos. Não é pequeno tormento para um coração cheio de graça viver entre os ímpios. “Ai de mim, que peregrino em Meseque” (Sl 120.5). Contudo, até isto o Senhor converte em bem. Pois,
(i.) Os pecados dos outros operam para o bem dos piedosos por produzirem uma santa tristeza. O povo de Deus chora pelo que não pode reformar. “Rios de águas correm dos meus olhos, porque não guardam a tua lei” (Sl 119.136). Davi foi um pranteador pelos pecados dos seus tempos; o seu coração se converteu numa fonte, e os seus olhos em rios. Os ímpios se divertem com o pecado. “Quando fazes o mal, então te alegras” (Jr 11.15). Mas os piedosos são pombas que gemem; entristecem-se com os juramentos e blasfêmias da época. Os pecados dos outros, como lanças, lhes traspassam a alma. Este entristecer-se pelos pecados dos outros é bom. Mostra um coração de filho, ressentir-se com tristeza das injúrias feitas ao nosso Pai celestial. Mostra também um coração semelhante ao de Cristo. “Ele se entristeceu pela dureza dos seus corações” (Mc 3.5). O Senhor toma especial nota destas lágrimas: agrada-Lhe muito que choremos quando a sua glória padece. É prova de mais graça entristecer-se pelos pecados dos outros do que pelos próprios. Podemos entristecer-nos pelos nossos próprios pecados por temor do inferno, mas entristecer-se pelos pecados dos outros procede de um princípio de amor a Deus. Estas lágrimas caem como a água das rosas, são doces e fragrantes, e Deus as guarda no seu odre.
(ii.) Os pecados dos outros operam para o bem dos piedosos por os pôrem mais a orar contra o pecado. Se não houvesse tão grande espírito de maldade solto por aí, talvez não houvesse tão grande espírito de oração. Pecados que clamam suscitam orações que clamam. O povo de Deus ora contra a iniquidade dos tempos, para que Deus ponha freio ao pecado, para que faça o pecado corar de vergonha. Se não podem orar até derrubar o pecado, oram contra ele; e isto Deus recebe com agrado. Estas orações serão ao mesmo tempo registradas e recompensadas. Ainda que não prevaleçamos na oração, não perderemos as nossas orações. “A minha oração voltava para o meu seio” (Sl 35.13).
(iii.) Os pecados dos outros operam para o bem por nos tornarem mais enamorados da graça. Os pecados dos outros são um fundo que realça ainda mais o brilho da graça. Um contrário realça o outro: a deformidade realça a beleza. Os pecados dos ímpios muito os desfiguram. A soberba é um pecado que desfigura; ora, contemplar a soberba de outro nos faz mais enamorados da humildade! A malícia é um pecado que desfigura, é o retrato do diabo; quanto mais dela vemos nos outros, mais amamos a mansidão e a caridade. A embriaguez é um pecado que desfigura, transforma os homens em feras, priva-os do uso da razão; quanto mais intemperantes vemos os outros, mais devemos amar a sobriedade. A negra face do pecado realça tanto mais a beleza da santidade.
(iv.) Os pecados dos outros operam para o bem por operarem em nós uma oposição mais forte contra o pecado. “Os ímpios anularam a tua lei; por isso amo os teus mandamentos” (Sl 119.126,127). Davi nunca teria amado tanto a lei de Deus, se os ímpios não se tivessem posto tão fortemente contra ela. Quanto mais violentos são os outros contra a verdade, mais valentes são os santos por ela. Os peixes vivos nadam contra a corrente; quanto mais entra a maré do pecado, mais os piedosos nadam contra ela. As impiedades dos tempos provocam santas paixões nos santos; é sem pecado aquela ira que é contra o pecado. Os pecados dos outros são como uma pedra de amolar para nos dar um gume mais afiado; aguçam ainda mais o nosso zelo e a nossa indignação contra o pecado.
(v.) Os pecados dos outros operam para o bem por nos tornarem mais empenhados em operar a nossa salvação. Quando vemos os ímpios tomarem tanto trabalho pelo inferno, isto nos torna mais diligentes pelo céu. Os ímpios não têm nada que os encoraje, e contudo pecam. Arriscam vergonha e desonra, rompem por toda oposição. A Escritura está contra eles, e a consciência está contra eles, há uma espada flamejante no caminho, e contudo pecam. Os corações piedosos, vendo os ímpios assim loucos pelo fruto proibido, e gastando-se a si mesmos no serviço do diabo, ficam tanto mais animados e avivados nos caminhos de Deus. Tomarão o céu como que de assalto. Os ímpios são dromedárias ligeiras no pecado (Jr 2.23). E rastejaremos nós como caracóis na religião? Farão os pecadores impuros mais serviço ao diabo do que nós a Cristo? Terão eles mais pressa para uma prisão do que nós para um reino? Nunca se cansam de pecar, e nós nos cansamos de orar? Não temos um Senhor melhor do que o deles? Não são deleitosas as veredas da virtude? Não há alegria no caminho do dever, e o céu ao seu fim? A atividade dos filhos de Belial no pecado é uma espora para os piedosos, para os fazer apressar o passo e correr mais depressa rumo ao céu.
(vi.) Os pecados dos outros operam para o bem por serem espelhos em que podemos ver o nosso próprio coração. Vemos um pecador desavergonhado e ímpio? Eis um retrato do nosso coração. Assim seríamos nós, se Deus nos deixasse. O que está na prática dos outros homens está na nossa natureza. O pecado nos ímpios é como o fogo num sinaleiro, que arde e chameja para fora; o pecado nos piedosos é como o fogo nas brasas. Cristão, embora não irrompas numa chama de escândalo, contudo não tens motivo para te gloriar, pois há muito pecado abafado sob as brasas da tua natureza. Tens em ti a raiz de amargura, e produzirias frutos tão infernais quanto qualquer outro, se Deus não te refreasse pelo seu poder, ou não te mudasse pela sua graça.
(vii.) Os pecados dos outros operam para o bem por serem o meio de tornar o povo de Deus mais grato. Quando vês outro infectado pela peste, quão grato ficas de que Deus te preservou dela! É um bom uso que se pode fazer dos pecados dos outros: tornar-nos mais gratos. Por que não poderia Deus ter-nos deixado no mesmo excesso de dissolução? Pensa contigo mesmo, ó cristão: por que deveria Deus ser-te mais propício do que a outro? Por que deveria Ele tirar-te da oliveira brava da natureza, e não a ele? Como isto pode fazer-te adorar a graça gratuita! O que o fariseu disse com jactância, nós o podemos dizer com gratidão: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, etc.” (Lc 18.11). Assim devemos adorar as riquezas da graça, por não sermos como os outros: bêbados, blasfemos, profanadores do sábado. Cada vez que vemos homens precipitando-se no pecado, devemos bendizer a Deus por não sermos tais. Se vemos um insano, bendizemos a Deus por não ser assim conosco; muito mais, quando vemos outros sob o poder de Satanás, devemos fazer o nosso grato reconhecimento de que não é essa a nossa condição. Não pensemos levianamente do pecado.
(viii.) Os pecados dos outros operam para o bem por serem meios de tornar melhor o povo de Deus. Cristão, Deus pode fazer-te ganhar com o pecado de outro. Quanto mais ímpios são os outros, mais santo deves ser tu. Quanto mais um ímpio se entrega ao pecado, mais um piedoso se entrega à oração. “Mas eu me entrego à oração” (Sl 109.4).
(ix.) Os pecados dos outros operam para o bem por nos darem ocasião de fazer o bem. Se não houvesse pecadores, não estaríamos em tal capacidade de servir. Os piedosos são muitas vezes o meio de converter os ímpios; o seu conselho prudente e o seu exemplo piedoso são um chamariz e uma isca para atrair os pecadores a abraçar o evangelho. A doença do paciente opera para o bem do médico; ao esvaziar o paciente de humores nocivos, o médico se enriquece: assim, ao converter os pecadores do erro do seu caminho, a nossa coroa vem a ser aumentada. “Os que a muitos ensinam a justiça resplandecerão como as estrelas para todo o sempre” (Dn 12.3). Não como lâmpadas ou tochas, mas como as estrelas para sempre. Assim vemos que os pecados dos outros são dirigidos para o nosso bem.
(2). O senso da própria pecaminosidade será dirigido para o bem dos piedosos. Assim os nossos próprios pecados operarão para o bem. Isto deve ser entendido com cautela, quando digo que os pecados dos piedosos operam para o bem — não que haja o mínimo bem no pecado. O pecado é como um veneno que corrompe o sangue, infecta o coração e, sem um antídoto soberano, traz a morte. Tal é a natureza venenosa do pecado: é mortal e condenatório. O pecado é pior do que o inferno; mas, ainda assim, Deus, pelo seu poderoso poder soberano, faz que o pecado, no seu resultado, se converta no bem do seu povo. Daí aquele áureo dito de Agostinho: “Deus nunca permitiria o mal, se não pudesse tirar bem do mal.” O sentimento da pecaminosidade nos santos opera para o bem de várias maneiras.
(i.) O pecado os faz enfastiados desta vida. Que haja pecado nos piedosos é triste, mas que ele seja um fardo é bom. As aflições de São Paulo (perdoe-se a expressão) eram para ele apenas um brinquedo, em comparação com o seu pecado. Ele se alegrava na tribulação (2 Co 7.4). Mas como esta ave do paraíso chorava e se lamentava sob os seus pecados! “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Um crente carrega os seus pecados como um prisioneiro os seus grilhões; oh, como ele anseia pelo dia da libertação! Este senso do pecado é bom.
(ii.) Este remanescente de corrupção faz os santos estimarem mais a Cristo. Aquele que sente o seu pecado, como um enfermo sente a sua doença, quão bem-vindo lhe é Cristo, o médico! Aquele que se sente picado pelo pecado, quão precioso lhe é a serpente de bronze! Quando Paulo clamara por causa de um corpo de morte, quão grato ficou por Cristo! “Graças dou a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7.25). O sangue de Cristo salva do pecado, e é o unguento sagrado que mata este mercúrio.
(iii.) Este senso do pecado opera para o bem por ser ocasião de pôr a alma em seis deveres especiais:
(a) Põe a alma no exame de si mesma. Um filho de Deus, consciente do pecado, toma a vela e a lanterna da Palavra, e esquadrinha o seu coração. Deseja conhecer o pior de si mesmo, como um homem doente do corpo deseja conhecer o pior da sua doença. Embora a nossa alegria esteja no conhecimento das nossas graças, há contudo algum proveito no conhecimento das nossas corrupções. Por isso Jó ora: “Faze-me saber as minhas transgressões” (Jó 13.23). É bom conhecer os nossos pecados, para que não nos lisonjeemos, nem tenhamos a nossa condição por melhor do que é. É bom descobrir os nossos pecados, para que eles não nos descubram.
(b) A inerência do pecado põe o filho de Deus a abater-se a si mesmo. O pecado é deixado num homem piedoso, como um câncer no peito, ou uma corcova nas costas, para guardá-lo de ser soberbo. O cascalho e a terra são bons para lastrar um navio e impedir que se vire; o senso do pecado ajuda a lastrar a alma, para que ela não se vire com a vanglória. Lemos das “manchas dos filhos de Deus” (Dt 32.5). Quando um homem piedoso contempla o seu rosto no espelho da Escritura, e vê as manchas da infidelidade e da hipocrisia, isto faz cair as plumas da soberba; são manchas que humilham. É um bom uso que se pode fazer até dos nossos pecados, quando eles ocasionam baixos pensamentos de nós mesmos. Melhor é o pecado que me humilha do que o dever que me torna soberbo. O santo Bradford proferiu estas palavras acerca de si mesmo: “Sou um hipócrita pintado”; e Hooper disse: “Senhor, eu sou inferno, e Tu és céu.”
(c) O pecado põe o filho de Deus a julgar-se a si mesmo; ele profere uma sentença sobre si. “Sou mais estúpido do que qualquer homem” (Pv 30.2). É perigoso julgar os outros, mas é bom julgar a nós mesmos. “Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (1 Co 11.31). Quando um homem se julgou a si mesmo, Satanás fica destituído do cargo. Quando ele imputa algo à conta de um santo, este pode revidar e dizer: “É verdade, Satanás, sou culpado destes pecados; mas já me julguei a mim mesmo por eles; e, tendo-me condenado no tribunal inferior da consciência, Deus me absolverá no tribunal superior do céu.”
(d) O pecado põe o filho de Deus a conflitar consigo mesmo. O eu espiritual conflita com o eu carnal. “O espírito milita contra a carne” (Gl 5.17). A nossa vida é uma vida de peregrinação, e uma vida de guerra. Trava-se todo dia um duelo entre as duas sementes. Um crente não deixará o pecado ter posse pacífica. Se não pode manter o pecado fora, mantê-lo-á debaixo; embora não possa vencê-lo de todo, contudo está vencendo. “Ao que vencer” (Ap 2.7).
(e) O pecado põe o filho de Deus a observar-se a si mesmo. Ele sabe que o pecado é um traidor de dentro do peito, por isso cuidadosamente se observa. Um coração astuto precisa de um olho vigilante. O coração é como um castelo em perigo, a cada hora, de ser assaltado; isto faz o filho de Deus estar sempre de sentinela e manter guarda em torno do seu coração. Um crente mantém um olho rigoroso sobre si mesmo, para que não caia em alguma escandalosa enormidade, e assim abra uma comporta por onde escorra todo o seu consolo.
(f) O pecado põe a alma a reformar-se a si mesma. Um filho de Deus não só descobre o pecado, mas expulsa o pecado. Com um pé ele pisa o pescoço dos seus pecados, e com o outro pé “volta os seus passos para os testemunhos de Deus” (Sl 119.59). Assim os pecados dos piedosos operam para o bem. Deus faz das enfermidades dos santos os seus remédios.
Mas ninguém abuse desta doutrina. Não digo que o pecado opere para o bem de uma pessoa impenitente. Não; opera para a sua condenação; mas opera para o bem daqueles que amam a Deus; e, quanto a vós que sois piedosos, sei que não tirareis uma conclusão errada disto, nem para fazer pouco caso do pecado, nem para vos atreverdes ao pecado. Se assim fizerdes, Deus fará que isso vos custe caro. Lembrai-vos de Davi. Ele se aventurou presunçosamente no pecado, e que ganhou? Perdeu a sua paz, sentiu na alma os terrores do Todo-Poderoso, embora tivesse todos os recursos para a alegria. Era rei; era hábil na música; contudo nada lhe pôde ministrar consolo: queixa-se dos seus “ossos quebrados” (Sl 51.8). E, embora afinal tenha saído daquela nuvem escura, contudo alguns teólogos são de opinião que ele nunca recuperou a sua plena alegria até ao dia da sua morte. Se algum do povo de Deus se puser a brincar com o pecado, por saber que Deus o pode converter em bem, ainda que o Senhor não o condene, pode enviá-lo ao inferno nesta vida. Pode metê-lo em tão amargas agonias e convulsões da alma, que o encham de horror e o façam chegar perto do desespero. Seja isto uma espada flamejante para guardá-los de chegar perto da árvore proibida.
E assim mostrei que tanto as melhores coisas como as piores, pela mão soberana do grande Deus, operam juntamente para o bem dos santos.
De novo eu digo: não penseis levianamente do pecado.