Sermão · 30 min de leitura· 1857 · Avançado

Justificação pela Graça

Retrato de Charles H. Spurgeon Charles H. Spurgeon

Texto

Romanos 3:24

Tradução por IA — aguardando revisão nativa

Em resumo

“O monte do consolo é o monte do Calvário.” Spurgeon percorre o texto palavra por palavra — justificados, gratuitamente, pela graça, mediante a redenção que há em Cristo — para mostrar que o pecador é reconciliado com Deus não aos poucos nem por merecimento, mas como dádiva gratuita, comprada na cruz. Ele insiste em que a graça fecha a porta a toda jactância, e que o mais culpado pode ser justificado no exato instante em que confia na obra consumada.

“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.”—Rom. 3:24.

O MONTE do consolo é o monte do Calvário; a casa da consolação é edificada com a madeira da cruz; o templo dos cordiais celestiais está fundado sobre a rocha fendida, fendida pela lança que lhe traspassou o lado. Nenhuma cena da história sagrada alegra tanto a alma quanto a cena do Calvário.

“Não é estranho que a hora mais sombria

que jamais raiou sobre a terra pecadora

toque o coração com mais suave poder,

trazendo consolo, do que a alegria de um anjo?

Que para a cruz se volte o olhar do pranteador,

antes que para onde ardem as estrelas de Belém?”

Em lugar nenhum a alma encontra tamanha consolação como naquele exato lugar onde reinou a miséria, onde triunfou a desgraça, onde a agonia chegou ao seu auge. Ali a graça abriu uma fonte, que jorra perpetuamente águas puras como cristal, cada gota capaz de aliviar as dores e as agonias da humanidade. Tivestes as vossas estações de dor, meus irmãos e minhas irmãs em Cristo Jesus; e haveis de confessar que não foi no Olivete que jamais encontrastes consolo, nem no monte Sinai, nem no Tabor; mas o Getsêmani, o Gabatá e o Gólgota vos têm sido meio de consolação. As ervas amargas do Getsêmani muitas vezes tiraram os amargores da vossa vida; o açoite do Gabatá muitas vezes açoitou para longe as vossas preocupações, e os gemidos do Calvário puseram em fuga todos os outros gemidos.

Temos, pois, esta manhã, um tema que confio possa servir de consolo aos santos de Deus, visto que nasce na cruz e dali segue em rica corrente de perene bênção para todos os crentes. Notai que temos, em nosso texto, primeiro, a redenção de Cristo Jesus; segundo, a justificação dos pecadores que dela flui; e, terceiro, a maneira como se concede essa justificação, “gratuitamente pela sua graça”.

I. Primeiro, então, temos A REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS, OU POR MEIO DELE.

A figura da redenção é muito simples e tem sido empregada com muita frequência nas Escrituras. Quando um prisioneiro é feito cativo e reduzido à escravidão por algum poder bárbaro, costumava ser necessário, antes que pudesse ser libertado, que se pagasse um preço de resgate. Ora, nós, pela queda de Adão, propensos à culpa e, na verdade, virtualmente culpados, fomos, pelo irrepreensível juízo de Deus, entregues à vingança da lei; fomos entregues nas mãos da justiça; a justiça reclamava-nos como seus escravos para sempre, a menos que pudéssemos pagar um resgate pelo qual as nossas almas fossem redimidas. Éramos, de fato, pobres como corujinhas, não tínhamos com que nos abençoar. Éramos, como o exprimiu o nosso hino, “devedores falidos”; foi lançada uma penhora em nossa casa; tudo quanto tínhamos foi vendido; ficamos nus, pobres e miseráveis, e por nenhum meio conseguíamos achar um resgate; foi então que Cristo interveio, tornou-se nosso fiador e, no lugar e em vez de todos os crentes, pagou o preço do resgate, para que naquela hora fôssemos libertados da maldição da lei e da vingança de Deus, e seguíssemos o nosso caminho, limpos, livres, justificados pelo seu sangue.

Permiti que me esforce por mostrar-vos algumas qualidades da redenção que há em Cristo Jesus. Lembrai-vos da multidão que ele redimiu; não a mim somente, nem a vós somente, mas “uma multidão que ninguém pode contar”, que tanto excederá em número as estrelas do céu quanto estas excedem toda contagem mortal. Cristo comprou para si alguns de todo reino, e nação, e língua debaixo do céu; redimiu dentre os homens alguns de toda condição, do mais alto ao mais baixo; alguns de toda cor — negros e brancos; alguns de toda posição na sociedade, os melhores e os piores. Pois de todas as sortes deu Jesus Cristo a si mesmo em resgate, para que fossem redimidos para si.

Ora, quanto a este resgate, cumpre-nos observar que foi todo pago, e todo pago de uma só vez. Quando Cristo redimiu o seu povo, fê-lo cabalmente; não deixou uma única dívida por pagar, nem sequer um centavo para eles acertarem depois. Deus exigiu de Cristo o pagamento pelos pecados de todo o seu povo; Cristo apresentou-se e, até o último centavo, pagou tudo quanto o seu povo devia. O sacrifício do Calvário não foi um pagamento parcial; não foi uma quitação em parte, foi um pagamento completo e perfeito, e obteve uma remissão completa e perfeita de todas as dívidas de todos os crentes que já viveram, vivem ou hão de viver, até o fim mesmo dos tempos. Naquele dia em que Cristo pendeu da cruz, não deixou um único centavo para nós pagarmos como satisfação a Deus; não deixou, desde um fio até uma correia de sandália, coisa alguma que não tivesse satisfeito. Toda a exigência da lei foi ali paga, então e ali, por Jeová Jesus, o grande sumo sacerdote de todo o seu povo. E bendito seja o seu nome, ele a pagou toda de uma só vez também. Tão inestimável era o resgate, tão principesco e magnânimo o preço exigido pelas nossas almas, que se poderia ter pensado que seria maravilhoso se Cristo o tivesse pago em prestações; um pouco agora e um pouco depois. Resgates de reis às vezes foram pagos em parte de imediato e em parte em cotas posteriores, a correr por anos. Mas não assim o nosso Salvador: de uma vez por todas deu-se a si mesmo em sacrifício; de uma só vez contou o preço e disse: “Está consumado”, não deixando nada para ele fazer, nem para nós realizarmos. Não escoou aos poucos um pagamento parcial, para depois declarar que voltaria a morrer, ou que voltaria a sofrer, ou que voltaria a obedecer; mas ali mesmo, até o último centavo, o resgate de todo o povo foi pago, e uma quitação plena lhes foi dada, e Cristo pregou essa quitação na sua cruz e disse: “Está feito, está feito; eu removi o escrito de dívida das ordenanças, preguei-o na cruz; quem é aquele que condenará o meu povo, ou porá alguma coisa contra ele? pois apaguei como nuvem as suas transgressões, e como nuvem espessa os seus pecados!”

E quando Cristo pagou todo este resgate, notai apenas que fê-lo tudo ele mesmo! Foi muito rigoroso quanto a isso. Simão, o cireneu, bem podia carregar a cruz; mas Simão, o cireneu, não podia ser pregado nela. Aquele sagrado círculo do Calvário foi reservado para Cristo somente. Dois ladrões estavam ali com ele; não homens justos, para que ninguém dissesse que a morte daqueles dois justos ajudou o Salvador. Dois ladrões pendiam ali com ele, para que os homens vissem que havia majestade na sua miséria, e que ele podia perdoar os homens e mostrar a sua soberania, mesmo enquanto morria. Não havia homens justos a sofrer; nenhum discípulo partilhou da sua morte; Pedro não foi arrastado para ali a ser decapitado, João não foi pregado numa cruz lado a lado com ele; foi deixado ali sozinho. Ele diz: “Sozinho pisei o lagar; e dos povos ninguém houve comigo.” Toda a tremenda dívida foi posta sobre os seus ombros; todo o peso dos pecados de todo o seu povo foi colocado sobre ele. Certa vez pareceu vergar sob ele: “Pai, se é possível.” Mas de novo se ergueu: “Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua.” Todo o castigo do seu povo foi destilado num só cálice; nenhum lábio mortal poderia dar-lhe sequer um único gole. Quando o levou aos próprios lábios, era tão amargo que quase o repeliu — “Passe de mim este cálice.” Mas o seu amor pelo seu povo era tão forte que tomou o cálice com ambas as mãos, e

“Num só tremendo trago de amor

bebeu até secar a condenação,”

por todo o seu povo. Bebeu-o todo, suportou tudo, sofreu tudo; de modo que agora, para sempre, não há para eles chamas do inferno, nem potros de tormento; não têm ais eternos; Cristo sofreu tudo quanto eles deviam ter sofrido, e eles hão de, sim, hão de ficar livres. A obra foi inteiramente realizada por ele mesmo, sem auxiliador.

E notai, ainda, que foi aceito. Em verdade, foi um resgate excelente. Que poderia igualá-lo? Uma alma “triste até à morte”; um corpo dilacerado pela tortura; uma morte da espécie mais desumana; e uma agonia de tal natureza que língua não pode dizê-la, nem mesmo a mente do homem pode imaginar o seu horror. Foi um preço excelente. Mas dizei: foi aceito? Houve preços por vezes pagos, ou antes oferecidos, que nunca foram aceitos por aquele a quem foram oferecidos e, portanto, o escravo não ficou livre. Mas este foi aceito. A prova vo-la mostrarei. Quando Cristo declarou que pagaria a dívida por todo o seu povo, Deus enviou o oficial para prendê-lo por ela; prendeu-o no jardim do Getsêmani e, agarrando-o, arrastou-o ao tribunal de Pilatos, ao tribunal de Herodes e ao assento do juízo de Caifás; o pagamento foi todo feito, e Cristo foi posto na sepultura. Ali esteve, encerrado em vil cárcere, até que a aceitação fosse ratificada no céu. Dormiu ali parte de três dias no seu túmulo. Declarou-se que a ratificação seria esta: o fiador seguiria o seu caminho tão logo cumpridos os seus compromissos de fiança. Ora, deixai a vossa mente retratar o Jesus sepultado. Está no sepulcro. É verdade que pagou toda a dívida, mas a quitação ainda não foi dada; dorme naquele estreito túmulo. Fechado com um selo sobre uma pedra gigantesca, ainda dorme no seu sepulcro; ainda não foi dada por Deus a aceitação; os anjos ainda não vieram do céu para dizer: “O feito está consumado, Deus aceitou o teu sacrifício.” Agora é a crise deste mundo; pende trêmulo na balança. Aceitará Deus o resgate, ou não? Veremos. Um anjo vem do céu com resplendor extraordinário; remove a pedra; e sai o cativo, sem grilhões nas mãos, deixando atrás de si as mortalhas; livre, para nunca mais sofrer, nunca mais morrer. Ora,

“Se Jesus não tivesse pago a dívida,

jamais em liberdade fora posto.”

Se Deus não tivesse aceitado o seu sacrifício, ele estaria no seu túmulo neste momento; jamais teria ressuscitado da sua sepultura. Mas a sua ressurreição foi penhor de que Deus o aceitava. Disse ele: “Tive um direito sobre ti até esta hora; esse direito está agora pago; segue o teu caminho.” E a morte entregou o seu régio cativo, a pedra foi rolada para o jardim, e o vencedor saiu, levando cativo o cativeiro.

E, além disso, Deus deu uma segunda prova de aceitação; pois levou o seu Filho unigênito ao céu, e o assentou à sua destra, muito acima de todo principado e potestade; e nisso quis dizer-lhe: “Assenta-te no trono, pois realizaste o feito poderoso; todas as tuas obras e todas as tuas misérias são aceitas como o resgate dos homens.” Ó meus amados, pensai que grandiosa cena deve ter sido quando Cristo ascendeu à glória; que nobre certidão deve ter sido da aceitação do seu Pai! Não vos parece ver a cena na terra? É bem simples. Uns poucos discípulos estão de pé sobre um monte, e Cristo sobe pelos ares em movimento lento e solene, como se um anjo lhe conduzisse o caminho por suaves graus, qual névoa ou exalação que do lago se eleva aos céus. Podeis imaginar o que se passa lá no alto? Podeis por um momento conceber como, quando o poderoso vencedor entrou pelas portas do céu, os anjos o receberam,

“Trouxeram do alto o seu carro,

para levá-lo ao seu trono;

bateram as asas triunfantes e clamaram:

‘A obra gloriosa está consumada’”

Podeis imaginar quão altos foram os aplausos quando ele entrou pelas portas do céu? Podeis conceber como se comprimiam uns sobre os outros, para verem como vinha vencendo e rubro da peleja? Vedes Abraão, Isaque, Jacó e todos os santos redimidos, virem contemplar o Salvador e o Senhor? Haviam desejado vê-lo, e agora os seus olhos o contemplam em carne e sangue, o vencedor sobre a morte e o inferno! Não vos parece vê-lo, com o inferno preso às rodas do seu carro, com a morte arrastada como cativa pelas régias ruas do céu? Oh, que espetáculo houve ali naquele dia! Nenhum guerreiro romano jamais teve tal triunfo; ninguém jamais viu tão majestoso espetáculo. A pompa de todo um universo, a realeza da criação inteira, querubins e serafins e todas as potestades criadas, engrandeceram o cortejo; e o próprio Deus, o Eterno, coroou tudo, quando estreitou o seu Filho ao peito e disse: “Bem está, bem está; acabaste a obra que te dei para fazer. Descansa aqui para sempre, ó meu aceito.” Ah, mas ele nunca teria tido aquele triunfo, se não tivesse pago toda a dívida. A menos que o seu Pai tivesse aceitado o preço do resgate, o resgatador nunca teria sido tão honrado; mas, porque foi aceito, por isso triunfou assim. Até aqui, então, quanto ao resgate.

II. E agora, com o auxílio do Espírito de Deus, permiti que me volte para O EFEITO DO RESGATE; sendo justificados — “justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção.”

Ora, qual é o significado da justificação? Os teólogos vos confundirão, se lhes perguntardes. Farei o melhor que puder para tornar a justificação clara e simples, até para a compreensão de uma criança. Não existe tal coisa como justificação a ser obtida na terra para os homens mortais, senão de um único modo. A justificação, como sabeis, é um termo forense; emprega-se sempre em sentido jurídico. Um prisioneiro é levado ao tribunal da justiça para ser julgado. Há apenas um meio pelo qual esse prisioneiro pode ser justificado; a saber, ele deve ser considerado inocente; e, se for considerado inocente, então é justificado — isto é, prova-se que é um homem justo. Se julgardes culpado aquele homem, não podeis justificá-lo. A rainha pode perdoá-lo, mas não pode justificá-lo. O ato não é justificável, se ele era culpado a respeito dele; e ele não pode ser justificado por causa dele. Pode ser perdoado; mas nem a própria realeza jamais poderá lavar o caráter daquele homem. Ele continua tão verdadeiramente criminoso, quando perdoado, como antes. Não há meio algum, entre os homens, de justificar um homem de uma acusação que se lhe imputa, exceto provando-se que é inocente. Ora, a maravilha das maravilhas é que somos provados culpados e, contudo, somos justificados: o veredicto foi proferido contra nós, culpados; e, todavia, não obstante, somos justificados. Pode algum tribunal terreno fazer isso? Não; restou ao resgate de Cristo efetuar aquilo que é uma impossibilidade para qualquer tribunal sobre a terra. Somos todos culpados. Lede o versículo 23, imediatamente anterior ao texto — “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” Ali se profere o veredicto de culpados e, contudo, logo a seguir se diz que somos justificados gratuitamente pela sua graça.

Ora, permiti que eu explique o modo pelo qual Deus justifica um pecador. Vou supor um caso impossível. Um prisioneiro foi julgado e condenado à morte. É um homem culpado; não pode ser justificado, porque é culpado. Mas suponde por um momento que algo assim pudesse acontecer — que se pudesse introduzir um segundo, que tomasse sobre si toda a culpa daquele homem, que trocasse de lugar com aquele homem e, por algum processo misterioso, que naturalmente é impossível entre os homens, se tornasse aquele homem; ou tomasse sobre si o caráter daquele homem; ele, o justo, pondo o rebelde em seu lugar e fazendo do rebelde um homem justo. Não podemos fazer isso em nossos tribunais. Se eu comparecesse diante de um juiz, e ele concordasse que eu fosse encarcerado por um ano de prisão, em lugar de algum desgraçado que ontem foi condenado a um ano de prisão, eu não poderia tomar a culpa dele. Poderia tomar-lhe o castigo, mas não a culpa. Ora, o que a carne e o sangue não podem fazer, isso Jesus Cristo fez pela sua redenção. Eis-me aqui de pé, o pecador. Menciono a mim mesmo como representante de todos vós. Estou condenado a morrer. Deus diz: “Condenarei aquele homem; devo, hei de — hei de castigá-lo.” Cristo intervém, põe-me de lado e coloca-se ele mesmo em meu lugar. Quando se exige a defesa, Cristo diz: “Culpado”; toma a minha culpa como sua própria culpa. Quando o castigo há de ser executado, avança Cristo. “Castiga-me”, diz ele; “pus a minha justiça sobre aquele homem, e tomei sobre mim os pecados daquele homem. Pai, castiga-me e considera que aquele homem fui eu. Deixa-o reinar no céu; deixa-me a mim sofrer a miséria. Deixa-me suportar a sua maldição, e deixa-o receber a minha bênção.” Esta doutrina maravilhosa da troca de lugares de Cristo com os pobres pecadores é doutrina de revelação, pois jamais poderia ter sido concebida pela natureza. Permiti, para não incorrer em engano, que eu me explique novamente. O modo pelo qual Deus salva um pecador não é, como alguns dizem, passando por alto a pena. Não; a pena foi toda paga. É o pôr uma outra pessoa no lugar do rebelde. O rebelde deve morrer; Deus diz que deve. Cristo diz: “Serei substituto do rebelde. O rebelde tomará o meu lugar; eu tomarei o seu.” Deus consente nisso. Nenhum monarca terreno teria poder para consentir em tal troca. Mas o Deus do céu tinha o direito de fazer como lhe aprouvesse. Na sua infinita misericórdia, consentiu no arranjo. “Filho do meu amor”, disse ele, “deves pôr-te no lugar do pecador; deves sofrer o que ele deveria ter sofrido; deves ser considerado culpado, tal como ele foi considerado culpado; e então olharei para o pecador sob outra luz. Olharei para ele como se fosse Cristo; aceitá-lo-ei como se fosse o meu Filho unigênito, cheio de graça e de verdade. Dar-lhe-ei uma coroa no céu, e o tomarei ao meu coração para todo o sempre.” Este é o modo pelo qual somos salvos: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.”

E agora, permiti que eu prossiga para explicar algumas das características desta justificação. Tão logo um pecador que se arrepende é justificado, lembrai-vos, é justificado de todos os seus pecados. Eis aqui um homem todo culpado. No momento em que crê em Cristo, recebe imediatamente o seu perdão, e os seus pecados já não são seus; são lançados nas profundezas do mar. Foram postos sobre os ombros de Cristo, e já se foram. O homem está de pé, homem sem culpa aos olhos de Deus, aceito no Amado. “O quê!”, dizeis, “quereis dizer isso literalmente?” Sim, quero. Esta é a doutrina da justificação pela fé. O homem deixa de ser considerado pela justiça divina como um ser culpado; no momento em que crê em Cristo, toda a sua culpa é tirada. Mas vou um passo além. No momento em que o homem crê em Cristo, deixa de ser culpado na estima de Deus; mas, o que é mais, torna-se justo, torna-se meritório; pois, no momento em que Cristo toma os seus pecados, ele toma a justiça de Cristo; de modo que, quando Deus olha para o pecador que, ainda há uma hora, estava morto em pecados, olha para ele com tanto amor e afeto quanto jamais olhou para o seu Filho. Ele mesmo o disse — “Como o Pai me amou, também eu vos amei.” Ele nos ama tanto quanto o seu Pai o amou. Podeis crer numa doutrina como essa? Não ultrapassa ela todo pensamento? Pois bem, é doutrina do Espírito Santo; a doutrina pela qual devemos esperar ser salvos. Poderei ilustrar melhor este pensamento a alguma pessoa não iluminada? Dar-lhe-ei a parábola que nos é dada nos profetas — a parábola de Josué, o sumo sacerdote. Josué entra, vestido de trajes imundos; esses trajes imundos representam os seus pecados. Tirai os trajes imundos; isso é o perdão. Ponde-lhe uma mitra na cabeça; vesti-o de vestes reais; tornai-o rico e formoso; isso é a justificação. Mas donde vêm estas vestes? e para onde vão aqueles farrapos? Ora, os farrapos que Josué trazia vão para Cristo, e as vestes postas sobre Josué são as vestes que Cristo trajava. O pecador e Cristo fazem justamente o que Jônatas e Davi fizeram. Jônatas pôs as suas vestes sobre Davi, Davi deu a Jônatas os seus trajes; assim Cristo toma os nossos pecados, nós tomamos a justiça de Cristo; e é por uma gloriosa substituição e permuta de lugares que os pecadores ficam livres e são justificados pela sua graça.

“Mas”, diz alguém, “ninguém é justificado assim, senão quando morre.” Crede-me, ele o é.

“No instante em que o pecador crê,

e confia no seu Deus crucificado,

recebe logo o seu perdão;

salvação plena, por meio do seu sangue.”

Se aquele jovem ali realmente creu em Cristo esta manhã, compreendendo por uma experiência espiritual o que tentei descrever, está ele tão justificado aos olhos de Deus agora quanto o estará quando se puser diante do trono. Nem os espíritos glorificados lá em cima são mais aceitáveis a Deus do que o pobre homem cá embaixo, uma vez justificado pela graça. É uma lavagem perfeita, é perdão perfeito, imputação perfeita; somos plena, gratuita e inteiramente aceitos, por meio de Cristo, nosso Senhor. Só mais uma palavra aqui, e então deixarei este assunto da justificação. Aqueles que uma vez são justificados são justificados irreversivelmente. Tão logo um pecador toma o lugar de Cristo, e Cristo toma o lugar do pecador, não há receio de uma segunda mudança. Se Cristo pagou a dívida uma vez, a dívida está paga, e nunca mais será cobrada; se fostes perdoados, sois perdoados uma vez para sempre. Deus não concede ao homem um livre perdão sob a sua própria assinatura, para depois retratá-lo e castigar o homem: longe esteja de Deus fazer tal coisa. Ele diz: “Castiguei a Cristo; podes ir livre.” E depois disso, podemos “gloriar-nos na esperança da glória de Deus”, que, “sendo justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.” E agora ouço alguém exclamar: “Essa é uma doutrina extraordinária.” Pois bem, assim alguns podem pensar; mas permiti que vos diga: é uma doutrina professada por todas as igrejas protestantes, ainda que não a preguem. É a doutrina da Igreja da Inglaterra, é a doutrina de Lutero, é a doutrina da igreja presbiteriana; é confessadamente a doutrina de todas as igrejas cristãs; e, se vos soa estranha aos ouvidos, é porque os vossos ouvidos se estranharam, e não porque a doutrina seja estranha. É doutrina das Sagradas Escrituras que ninguém pode condenar aqueles que Deus justifica, e que ninguém pode acusar aqueles por quem Cristo morreu; pois estão totalmente livres do pecado. De modo que, como diz um dos profetas, Deus não vê pecado em Jacó nem iniquidade em Israel. No momento em que creem, sendo os seus pecados imputados a Cristo, deixam de ser seus, e a justiça de Cristo lhes é imputada e considerada sua, de modo que são aceitos.

III. E agora concluo com o terceiro ponto, sobre o qual serei breve e, espero, muito fervoroso: A MANEIRA DE CONCEDER ESTA JUSTIFICAÇÃO. João Bunyan diria que há alguns cuja boca já se enche de água por este grande dom da justificação. Não há aqui alguns que estão dizendo: “Oh! se eu pudesse ser justificado! Mas, senhor, posso eu ser justificado? Fui um beberrão, fui um blasfemo, fui tudo quanto é vil. Posso eu ser justificado? Tomará Cristo os meus negros pecados, e hei de eu tomar as suas alvas vestes?” Sim, pobre alma, se o desejas; se Deus te fez querer, se confessas os teus pecados, Cristo está disposto a tomar os teus farrapos e dar-te a sua justiça, para ser tua para sempre. “Pois bem, mas como se há de obtê-la?”, diz alguém, “devo ser um homem santo por muitos anos, e então alcançá-la?” Ouve! “Gratuitamente pela sua graça”; “gratuitamente”, porque não há preço a pagar por ela; “pela sua graça”, porque não é dos nossos merecimentos. “Mas, ó senhor, tenho orado, e não creio que Deus me perdoe, a menos que eu faça algo para merecê-lo.” Digo-te, senhor, se trouxeres algum dos teus merecimentos, jamais a terás. Deus dá de graça a sua justificação; se trouxeres alguma coisa para pagá-la, ele ta lançará no rosto e não te dará a sua justificação. Ele a dá de graça. O velho Rowland Hill foi certa vez pregar numa feira; notou os vendedores a leiloar as suas mercadorias; então disse Rowland: “Vou também realizar um leilão, para vender vinho e leite, sem dinheiro e sem preço. Os meus amigos ali”, disse ele, “têm grande dificuldade em fazer-vos chegar ao preço deles; a minha dificuldade é fazer-vos descer ao meu.” Assim é com os homens. Se eu pudesse pregar que a justificação se compra por uma libra a peça, quem sairia deste lugar sem estar justificado? Se eu pudesse pregar-vos a justificação mediante caminhar cem milhas, não seríamos todos peregrinos amanhã de manhã, cada um de nós? Se eu pregasse uma justificação que consistisse em açoites e tortura, haveria bem poucos aqui que não se açoitassem, e severamente também. Mas, quando é de graça, de graça, de graça, os homens se desviam. “O quê! Hei de tê-la por absolutamente nada, sem fazer coisa alguma?” Sim, senhor, hás de tê-la por nada, ou então de modo nenhum; é “gratuitamente”. “Mas não posso ir a Cristo, alegar algum direito à sua misericórdia e dizer: Senhor, justifica-me porque não sou tão mau quanto os outros?” Não adianta, senhor, porque é “pela sua graça”. “Mas não posso nutrir uma esperança, porque vou à igreja duas vezes ao dia?” Não, senhor; é “pela sua graça”. “Mas não posso apresentar este argumento: pretendo ser melhor?” Não, senhor; é “pela sua graça”. Insultas a Deus trazendo a tua moeda falsa para pagar os seus tesouros. Oh! que pobres ideias têm os homens do valor do evangelho de Cristo, se pensam que podem comprá-lo! Deus não aceitará os teus centavos enferrujados para comprar o céu. Um homem rico, certa vez, ao morrer, teve a noção de que poderia comprar um lugar no céu construindo uma fileira de asilos de caridade. Um homem bom estava junto ao seu leito e disse: “Quanto mais ides deixar?” “Vinte mil libras.” Disse ele: “Isso não compraria nem o bastante para o vosso pé se firmar no céu; pois as ruas ali são feitas de ouro, e portanto de que valor pode ser o vosso ouro, seria tido em nada, quando as próprias ruas estão pavimentadas com ele?” Não, amigos, não podemos comprar o céu com ouro, nem com boas obras, nem com orações, nem com coisa alguma no mundo. Mas como se há de obtê-lo? Ora, obtém-se só por pedir. Tantos de nós quantos sabemos que somos pecadores podemos ter Cristo por pedi-lo. Sabes que precisas de Cristo? Podes ter Cristo! “Aquele que quiser, venha e tome de graça da água da vida.” Mas, se te apegas às tuas próprias noções e dizes: “Não, senhor, pretendo fazer muitas boas obras, e então crerei em Cristo” — senhor, serás condenado se te ativeres a tais ilusões. Advirto-te seriamente. Não podes ser salvo assim. “Pois bem, mas não devemos fazer boas obras?” Certamente que deveis; mas não deveis confiar nelas. Deveis confiar em Cristo inteiramente, e então fazer boas obras depois. “Mas”, diz alguém, “penso que, se eu fizesse algumas boas obras, seria uma pequena recomendação quando eu chegasse.” Não seria, senhor; não seriam recomendação alguma. Deixa que um mendigo venha à tua casa de luvas brancas de pelica e diga que está muito mal e quer alguma caridade; recomendá-lo-iam à tua caridade as luvas brancas de pelica? Recomendá-lo-ia à tua caridade um belo chapéu novo que ele comprou esta manhã? “Não”, dirias, “és um miserável impostor; não precisas de coisa alguma, e coisa alguma hás de ter tampouco! Fora daqui!”

A melhor libré para um mendigo são os farrapos, e a melhor libré com que um pecador pode ir a Cristo é ir tal como está, sem nada além do pecado sobre si. “Mas não”, dizes tu, “devo ser um pouco melhor, e então penso que Cristo me salvará!” Não podes tornar-te nada melhor, por mais que te esforces. E, além disso — para usar um paradoxo — se te tornasses melhor, estarias tanto pior; pois quanto pior estás, melhor é vir a Cristo. Se és de todo profano, vem a Cristo; se sentes o teu pecado e o renuncias, vem a Cristo; ainda que tenhas sido a alma mais degradada e abandonada, vem a Cristo; se sentes não haver em ti coisa alguma que te possa recomendar, vem a Cristo.

“Arrisca-te nele, arrisca-te por inteiro;

que nenhuma outra confiança se intrometa.”

Não digo isto para instar homem algum a continuar no pecado. Deus me livre! Se continuas no pecado, não deves vir a Cristo; não podes; os teus pecados te embaraçarão. Não podes estar acorrentado ao teu remo de galé — o remo dos teus pecados — e ainda assim vir a Cristo e ser um homem livre. Não, senhor; é arrependimento; é o abandono imediato do pecado. Mas nota bem: nem o arrependimento, nem o abandono do teu pecado te podem salvar. É Cristo, Cristo, Cristo — só Cristo.

Mas sei que ireis embora, muitos de vós, e tentareis erguer a vossa própria torre de Babel, para chegar ao céu. Alguns de vós ireis trabalhar por um caminho, e outros por outro. Ireis pelo caminho das cerimônias: lançareis o alicerce da estrutura com o batismo infantil, edificareis sobre ele a confirmação e a ceia do Senhor. “Irei para o céu”, dizeis; “por acaso não guardo a Sexta-Feira Santa e o dia de Natal? Sou homem melhor do que aqueles dissidentes. Sou um homem dos mais extraordinários. Por acaso não digo mais orações do que qualquer outro?” Ireis subir por muito tempo aquela nora, antes de subirdes uma polegada mais alto. Não é esse o caminho para chegar às estrelas. Diz um: “Irei estudar a Bíblia e crer na doutrina correta; e não tenho dúvida de que, crendo na doutrina correta, serei salvo.” Deveras não serás! Não podes ser mais salvo por crer na doutrina correta do que por praticar ações corretas. “Pois”, diz outro, “gosto disso; irei crer em Cristo e viver como bem me aprouver.” Deveras não viverás! Pois, se creres em Cristo, ele não te deixará viver como a tua carne apraz; pelo seu Espírito ele te constrangerá a mortificar os afetos e as concupiscências dela. Se ele te dá a graça de te fazer crer, dar-te-á a graça de viver santamente depois. Se te dá fé, dá-te boas obras em seguida. Não podes crer em Cristo, a menos que renuncies a toda falta e resolvas servi-lo de todo o coração. Parece-me que enfim ouço um pecador dizer: “Será aquela a única porta? E posso eu aventurar-me por ela? Então o farei. Mas não vos compreendo bem; sou algo como o pobre Tiff, naquele notável livro ‘Dred’. Falam muito de uma porta, mas não consigo ver a porta; falam muito do caminho, mas não consigo ver o caminho. Pois, se o pobre Tiff pudesse ver o caminho, levaria por ele estas crianças para longe. Falam de combater, mas não vejo ninguém para combater, ou então combateria.” Deixai-me, então, explicá-lo. Encontro na Bíblia: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.” Que tens a fazer, senão crer nisto e confiar nele? Nunca serás desapontado com uma fé como essa. Deixai-me dar-vos outra vez uma ilustração que já dei centenas de vezes, mas não consigo achar outra tão boa, e por isso hei de dá-la de novo. A fé é algo assim. Conta-se a história de um capitão de um navio de guerra, cujo filho — um jovem rapaz — muito gostava de subir pelo cordame do navio; e certa vez, correndo atrás de um macaco, subiu pelo mastro, até que por fim chegou ao cesto da gávea. Ora, o cesto da gávea, como sabeis, é como uma grande mesa redonda posta no mastro, de modo que, quando o menino estava sobre ele, havia bastante espaço para ele; mas a dificuldade era — para usar a melhor explicação que posso — que ele não alcançava o mastro que ficava sob a mesa; não era alto o bastante para descer daquele cesto, alcançar o mastro e assim descer. Ali estava ele sobre o cesto da gávea; conseguira subir até lá, de um modo ou de outro, mas descer é que nunca conseguia. Seu pai viu aquilo e olhou para cima horrorizado; que faria ele? Em poucos instantes o seu filho cairia e se despedaçaria! Agarrava-se ao cesto da gávea com toda a força, mas dentro de pouco tempo cairia sobre o convés, e ali ficaria um cadáver dilacerado. O capitão pediu um porta-voz; levou-o à boca e bradou: “Menino, na próxima vez que o navio adernar, atira-te ao mar.” Era, em verdade, a sua única via de escape; poderia ser recolhido do mar, mas não poderia ser salvo se caísse sobre o convés. O pobre menino olhou para baixo, para o mar; era muito longe; não suportava a ideia de atirar-se à corrente rugidora abaixo de si; parecia-lhe irada e perigosa. Como poderia lançar-se nela? Assim se agarrava ao cesto da gávea com toda a força, embora não houvesse dúvida de que em breve teria de soltar-se e perecer. O pai pediu uma espingarda e, apontando-a para ele, disse: “Menino, na próxima vez que o navio adernar, atira-te ao mar, ou eu te mato a tiro!” Ele sabia que o pai cumpriria a palavra; o navio adernou para um lado, e lá se foi o menino, chapão, ao mar, e para fora se lançaram robustos braços atrás dele; os marinheiros o salvaram e o trouxeram ao convés. Ora, nós, como o menino, estamos por natureza numa posição de extraordinário perigo, da qual nem tu nem eu podemos de modo algum escapar por nós mesmos. Infelizmente, temos algumas boas obras nossas, como aquele cesto da gávea, e nos agarramos a elas tão ternamente que nunca as queremos largar. Cristo sabe que, a menos que as larguemos, seremos ao fim despedaçados, pois aquela confiança podre há de arruinar-nos. Ele, portanto, diz: “Pecador, larga a tua própria confiança e cai no mar do meu amor.” Olhamos para baixo e dizemos: “Posso eu ser salvo confiando em Deus? Ele parece estar irado comigo, e eu não poderia confiar nele.” Ah, não te persuadirá o terno clamor da misericórdia? — “Aquele que crer será salvo.” Deverá a arma da destruição ser apontada diretamente para ti? Deverás ouvir a terrível ameaça — “Aquele que não crer será condenado”? Passa-se contigo agora como com aquele menino — a tua posição é em si mesma de iminente perigo, e o teu desprezar o conselho do Pai é motivo de alarme ainda mais terrível, torna o perigo mais perigoso. Deves fazê-lo, ou então pereces! Larga a tua firmeza! Isso é fé: quando o pobre pecador larga a sua firmeza, deixa-se cair e assim é salvo; e a própria coisa que parecia que o destruiria é o meio da sua salvação. Oh! crede em Cristo, pobres pecadores; crede em Cristo. Vós que conheceis a vossa culpa e a vossa miséria, vinde, lançai-vos sobre ele; vinde, e confiai no meu Mestre, e, tão certo como ele vive, diante de quem estou, jamais confiareis nele em vão; mas achar-vos-eis perdoados e seguireis o vosso caminho, regozijando-vos em Cristo Jesus.

Escrituras neste sermão Romanos 3:24Romans 3:24

Domínio público. Texto de origem de a edição original.