Texto
Hebreus 12:2
Tradução por IA — aguardando revisão nativa
Em resumo
Cristo, “pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a vergonha.” Spurgeon se detém na própria vergonha — os cuspos, a zombaria, a nudez, uma morte reservada aos escravos — e pede ao crente que meça o amor que a suportou de boa vontade. Do Sofredor outrora envergonhado, agora assentado à direita de Deus, ele extrai coragem para todo aquele que precise carregar o opróbrio por causa do seu nome.
“Aquele que, pela alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e agora está assentado à direita do trono de Deus.”—Hebreus 12:2.
Ó, que farei eu para louvar o meu Salvador?” Onde se encontrará linguagem que descreva o seu amor incomparável, sem paralelo, para com os filhos dos homens? Sobre qualquer assunto comum encontra-se liberdade de expressão e plenitude de palavras, mas este assunto está fora da linha de toda a oratória, e a eloquência não consegue alcançá-lo. Esta é uma das coisas indizíveis — indizível porque ultrapassa o pensamento e desafia o poder das palavras. Como, então, poderemos tratar daquilo que é indizível? Tenho consciência de que tudo o que eu puder dizer, nesta manhã, acerca dos sofrimentos de Jesus, não passará de uma gota do balde. Nenhum de nós conhece a metade da agonia que ele suportou; nenhum de nós jamais compreendeu plenamente o amor de Cristo, que excede todo o conhecimento. Filósofos sondaram a terra até o seu próprio centro, percorreram as esferas, mediram os céus, pesaram os montes — sim, pesaram o próprio mundo; mas este é uma daquelas coisas vastas e ilimitadas cuja medida ultrapassa tudo, exceto o próprio Infinito. Assim como a andorinha apenas roça a água e não mergulha em suas profundezas, assim também todas as descrições do pregador apenas tocam a superfície, enquanto profundezas imensuráveis hão de jazer muito abaixo da nossa observação. Bem podia um poeta dizer
“Ó amor, abismo insondável!”
pois este amor de Cristo é de fato imensurável e insondável. Nenhum de nós o pode alcançar. Ao falar dele, sentimos a nossa própria fraqueza; lançamo-nos sobre a força do Espírito, mas, mesmo então, sentimos que jamais conseguiremos alcançar a majestade deste tema. Antes de podermos ter uma ideia justa do amor de Jesus, precisamos compreender a sua glória anterior em toda a sua altura de majestade, e a sua encarnação sobre a terra em toda a sua profundidade de vergonha. Ora, quem nos poderá falar da majestade de Cristo? Quando ele estava entronizado nos mais altos céus, era Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; por ele foram feitos os céus e todos os seus exércitos; por seu poder ele suspendeu a terra sobre o nada; o seu próprio braço todo-poderoso sustentava as esferas; as colunas dos céus repousavam sobre ele; os louvores de anjos, arcanjos, querubins e serafins continuamente o cercavam; o coro pleno das Aleluias do universo fluía incessantemente até os pés do seu trono; ele reinava supremo acima de todas as suas criaturas, Deus sobre todos, bendito para sempre. Quem poderá, então, falar da sua altura? E, contudo, isto precisa ser alcançado antes que possamos medir a extensão daquele imenso abaixamento que ele empreendeu quando veio à terra para redimir as nossas almas. E quem, por outro lado, poderá dizer quão baixo ele desceu? Ser homem já era algo, mas ser um homem de dores era muito mais; sangrar, morrer e sofrer — isto era muito para aquele que era o Filho de Deus; mas sofrer como ele o fez — tamanha agonia sem paralelo — suportar, como ele o fez, uma morte de vergonha e uma morte de abandono do seu Deus, esta é uma profundidade ainda mais funda de amor condescendente que a mente mais inspirada haverá de fracassar por completo em sondar. E, ainda assim, precisamos primeiro compreender a altura infinita, e depois a profundidade infinita; precisamos medir, na verdade, todo o infinito que há entre o céu e o inferno, antes de podermos compreender o amor de Jesus Cristo.
Contudo, por não podermos compreender, havemos por isso de negligenciar? E, por não podermos medir, havemos por isso de desprezar? Ah! não; vamos, nesta manhã, ao Calvário, e contemplemos este grande espetáculo: Jesus Cristo, pela alegria que lhe foi proposta, suportando a cruz, desprezando a vergonha.
Procurarei mostrar-vos, primeiro, o sofredor envergonhado; em segundo lugar, procuraremos deter-nos sobre o seu glorioso motivo; e, então, em terceiro lugar, havemos de apresentá-lo a vós como um exemplo admirável.
I. Amados, desejo mostrar-vos o SOFREDOR ENVERGONHADO. O texto fala de vergonha e, portanto, antes de entrar no sofrimento, procurarei dizer uma ou duas palavras sobre a vergonha.
Talvez não haja nada que os homens tanto detestem quanto a vergonha. Descobrimos que a própria morte tem sido, muitas vezes, preferível à vergonha na mente dos homens; e mesmo os mais perversos e de coração endurecido temeram a vergonha e o desprezo dos seus semelhantes muito mais do que quaisquer tormentos a que pudessem ser expostos. Vemos Abimeleque, um homem que assassinou os próprios irmãos sem remorso; vemos até mesmo a ele vencido pela vergonha, quando “certa mulher lançou um pedaço de mó sobre a cabeça de Abimeleque, e lhe quebrou o crânio. Então ele chamou apressadamente o jovem, seu escudeiro, e lhe disse: Desembainha a tua espada e mata-me, para que não se diga de mim: Uma mulher o matou. E o seu jovem o traspassou, e ele morreu.” A vergonha foi demais para ele. Preferiria de longe a morte do suicida — pois isso é o que foi — a ser convencido da vergonha de ser morto por uma mulher. Assim foi também com Saul — um homem que não se envergonhou de quebrar o seu juramento e de caçar o próprio genro como a uma perdiz sobre os montes — até mesmo ele caiu sobre a própria espada, antes que se dissesse dele que caíra pelas mãos dos filisteus. E lemos de um antigo rei, Zedequias, que, embora parecesse bastante temerário, teve medo de cair nas mãos dos caldeus, para que os judeus que se haviam bandeado para Nabucodonosor não fizessem escárnio dele.
Estes exemplos são apenas alguns entre muitos. É bem sabido que criminosos e malfeitores tiveram, muitas vezes, maior temor do desprezo público do que de qualquer outra coisa. Nada pode abater tanto o espírito humano quanto estar continuamente sujeito ao desprezo, ao desprezo visível e manifesto dos próprios semelhantes; aliás, indo mais longe, a vergonha é tão terrível para o homem que é um dos ingredientes do próprio inferno; é uma das gotas mais amargas naquela horrível taça de miséria. A vergonha do desprezo eterno para a qual os ímpios despertam no dia da sua ressurreição — ser desprezado pelos homens, desprezado pelos anjos, desprezado por Deus — é uma das profundezas do inferno. A vergonha, pois, é uma coisa terrível de suportar; e muitas das naturezas mais orgulhosas foram subjugadas quando uma vez a ela se viram submetidas. No caso do Salvador, a vergonha seria peculiarmente vergonhosa; quanto mais nobre a natureza de um homem, mais prontamente ele percebe o menor desprezo, e mais agudamente o sente. Aquele desprezo que um homem comum poderia suportar sem sofrimento, aquele que foi criado para ser obedecido e que por toda a sua vida foi honrado o sentiria muito amargamente. Príncipes reduzidos à mendicância e monarcas desprezados estão entre os mais miseráveis dos homens; mas eis aqui o nosso glorioso Redentor, em cuja face estava a nobreza da própria Divindade, desprezado, cuspido e escarnecido. Podeis, portanto, imaginar quanto uma natureza tão nobre como a sua teve de suportar. O mero milhafre pode suportar ser enjaulado, mas a águia não pode suportar ser ludibriada e vendada; ela tem um espírito mais nobre que isso. O olho que encarou o sol não pode suportar as trevas sem uma lágrima. Mas Cristo, que era mais que nobre, incomparavelmente nobre, algo mais que de estirpe real, para ele ser envergonhado e escarnecido deve ter sido terrível de fato.
Além disso, algumas mentes são de índole tão delicada e sensível que sentem as coisas muito mais do que outras. Há alguns de nós que não percebem tão prontamente uma afronta, ou que, quando a percebem, são totalmente indiferentes a ela. Mas há outros, de coração amoroso e terno; choraram por tanto tempo as dores alheias que os seus corações se tornaram sensíveis, e por isso sentem o menor roçar da ingratidão daqueles a quem amam; e se aqueles por quem estão dispostos a sofrer proferissem palavras de blasfêmia e censura contra eles, as suas almas seriam trespassadas até o âmago. Um homem em armadura atravessaria espinhos e sarças sem sentir, mas um homem que está nu sente o menor dos espinhos; ora, Cristo era, por assim dizer, um espírito nu; ele se havia despojado de tudo por amor à humanidade; disse ele: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.” Ele se despojou de tudo o que o poderia tornar insensível, pois amava com toda a sua alma; o seu forte e apaixonado coração estava fixo no bem-estar da raça humana; ele os amou até a morte, e ser escarnecido por aqueles por quem morreu, ser cuspido pelas criaturas que veio salvar, vir para o que era seu e descobrir que os seus não o receberam, mas de fato o lançaram fora — isto foi dor de verdade. Vós, corações ternos, que sabeis chorar as dores alheias, e vós que amais com um amor forte como a morte e com um zelo cruel como a sepultura, podeis conjeturar — mas só vós — o que o Salvador deve ter suportado, quando todos zombaram dele, todos o desprezaram, e ele não encontrou ninguém que dele se compadecesse, ninguém que tomasse o seu partido.
Para voltar ao ponto de onde partimos — a vergonha é peculiarmente detestável para a humanidade, e muito mais para uma humanidade como aquela que Cristo trazia consigo: uma natureza nobre, sensível e amorosa, como nenhuma outra humanidade jamais possuíra.
E agora vinde, e contemplemos o lastimável espetáculo de Jesus exposto à vergonha. Ele foi exposto à vergonha de três maneiras: por acusação vergonhosa, por escárnio vergonhoso e por crucificação vergonhosa.
1. E, primeiro, contemplai a vergonha do Salvador na sua acusação vergonhosa. Aquele em quem não havia pecado, e que nenhum mal fizera, foi acusado do pecado da mais negra espécie. Foi primeiro levado a julgamento perante o Sinédrio sob nada menos que a acusação de blasfêmia. E poderia ele blasfemar? — ele que disse: “A minha comida e a minha bebida é fazer a vontade daquele que me enviou.” Poderia ele blasfemar? Ele que, nas profundezas da sua agonia, quando suava como que grandes gotas de sangue, por fim clamou: “Pai meu, não se faça a minha vontade, mas a tua” — poderia ele blasfemar? Não. E é justamente porque isso era tão contrário ao seu caráter que ele sentiu a acusação. Acusar alguns de vós, aqui presentes, de haver blasfemado contra Deus não vos sobressaltaria, pois já o fizestes, e o fizestes tantas vezes que quase vos esquecestes de que Deus abomina os blasfemadores e de que ele “não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.” Mas para aquele que amava como Jesus amava, e obedecia como ele obedecia, ser acusado de blasfêmia — a acusação deve ter-lhe causado peculiar sofrimento. Admira-nos que ele não tenha caído por terra, assim como caíram os seus traidores quando vieram prendê-lo. Uma acusação como aquela poderia fulminar o espírito de um anjo. Uma calúnia como essa poderia murchar a coragem de um querubim. Não vos admireis, pois, de que Jesus tenha sentido a vergonha de ser acusado de um crime como este.
E isto não os satisfez. Tendo-o acusado de quebrar a primeira tábua, acusaram-no então de violar a segunda: disseram que ele era culpado de sedição; declararam que era um traidor ao governo de César, que amotinava o povo, declarando que ele próprio era rei. E poderia ele cometer traição? — ele que disse: “O meu reino não é deste mundo; se assim fosse, os meus servos lutariam;” ele que, quando o quiseram tomar à força para fazê-lo rei, retirou-se para o deserto e orou — poderia ele cometer traição? Seria impossível. Não pagou ele o tributo, mandando buscá-lo na boca do peixe, quando a sua pobreza não tinha com que pagar o imposto? Poderia ele cometer traição? Não podia pecar contra César, pois era o Senhor de César; era o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Se o tivesse querido, poderia ter tomado a púrpura dos ombros de César e, com uma só palavra, entregar César por presa aos vermes. Ele, cometer traição? Longe, bem longe estava de Jesus, o manso e brando, amotinar ou pôr homem contra homem. Ah, não; ele era amante da sua pátria e amante da sua raça; jamais provocaria uma guerra civil, e, no entanto, esta acusação foi levantada contra ele. Que pensaríeis vós, bons cidadãos e bons cristãos, se fôsseis acusados de um crime como este, com os clamores do vosso próprio povo às vossas costas, bradando contra vós como um ofensor tão execrável que teríeis de morrer? Não vos deixaria isto envergonhados? Ah! mas o vosso Mestre teve de suportar isto, além de tudo o mais. Ele desprezou as vergonhosas acusações, e foi contado com os transgressores.
2. Mas, em seguida, Cristo não suportou apenas a acusação vergonhosa; ele suportou também o escárnio vergonhoso. Quando Cristo foi levado a Herodes, Herodes o teve em nada. A palavra original significa fazer nada dele. É coisa assombrosa descobrir que o homem faça nada do Filho de Deus, que é tudo em todos. Ele se fizera a si mesmo nada; declarara que era um verme, e não homem; mas que pecado foi aquele, e que vergonha foi aquela, quando Herodes o fez nada! Bastava-lhe olhar Herodes na face, e poderia tê-lo fulminado com um só relance dos seus olhos que despedem fogo. E, contudo, Herodes pode zombar dele, e Jesus não fala; e homens de armas podem cercá-lo e despejar as suas cruéis chalaças sobre o seu terno coração, mas ele não tem uma só palavra a dizer, senão que “como cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca.”
Notareis que, no escárnio de Cristo, desde a própria sala de Herodes até o momento em que foi levado do tribunal de Pilatos à sua crucificação, e daí em diante até a sua morte, os escarnecedores foram de muitas espécies. Em primeiro lugar, escarneceram da pessoa do Salvador. Uma daquelas coisas sobre as quais pouco podemos dizer, mas nas quais devíamos pensar com frequência, é o fato de que o nosso Salvador foi despojado, no meio de uma soldadesca insolente, de todas as vestes que tinha. É vergonha até para nós falar disto, que foi feito pela nossa própria carne e sangue contra aquele que era o nosso Redentor. Aqueles santos membros, que eram o escrínio da preciosa joia da sua alma, foram expostos à vergonha e ao desprezo aberto dos homens — homens de mente grosseira, inteiramente destituídos de toda partícula de delicadeza. A pessoa de Cristo foi despojada duas vezes; e, embora os nossos pintores, por razões óbvias, cubram Cristo na cruz, ali pendia ele — o Salvador nu de uma raça nua. Aquele que vestia os lírios não tinha com que vestir-se a si mesmo; aquele que revestira a terra de joias e lhe fizera mantos de esmeraldas não tinha sequer um trapo para ocultar a sua nudez de uma multidão que o encarava, boquiaberta, escarnecedora e de coração empedernido. Ele fizera túnicas de peles para Adão e Eva quando estavam nus no jardim; tirara-lhes aquelas pobres folhas de figueira com que buscavam esconder a sua nudez, e dera-lhes algo com que se envolvessem contra o frio; mas agora repartem eles as suas vestes entre si, e sobre a sua túnica lançam sortes, enquanto ele mesmo, exposto à impiedosa tempestade do desprezo, não tem manto com que cobrir a sua vergonha. Escarneceram da sua pessoa — Jesus Cristo declarara ser o Filho de Deus; escarneceram da sua pessoa divina, tanto quanto da humana — quando ele pendia da cruz, disseram: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz, e creremos em ti.” Frequentemente o desafiavam a provar a sua divindade afastando-se da obra que empreendera. Pediam-lhe que fizesse justamente aquilo que teria desmentido a sua divindade, para que então, como declaravam, o reconhecessem e confessassem que ele era o Filho de Deus. E ora, podeis imaginar tal coisa? Cristo foi escarnecido como homem; podemos concebê-lo cedendo a isto. Mas ser escarnecido como Deus! Um desafio lançado à humanidade, a humanidade prontamente o tomaria e travaria o duelo. A humanidade cristã deixaria a luva por terra, ou a pisaria sob os pés em desprezo, suportando todas as coisas e tudo sofrendo por amor a Cristo. Mas podeis imaginar Deus sendo desafiado pela sua criatura — o eterno Jeová provocado pela criatura que a sua própria mão fez; o Infinito desprezado pelo finito; aquele que enche todas as coisas, por quem todas as coisas existem, escarnecido, zombado, desprezado pela criatura de uma hora, que é esmagada diante da traça! Isto foi desprezo de verdade — um desprezo da sua pessoa complexa, da sua humanidade e da sua divindade.
Mas notai, em seguida, que escarneceram de todos os seus ofícios, tanto quanto da sua pessoa. Cristo era rei, e nunca houve rei como ele. Ele é o Davi de Israel; todos os corações do seu povo estão ligados a ele. Ele é o Salomão de Israel; reinará de mar a mar, e desde o rio até os confins da terra. Era de estirpe real. Temos alguns chamados reis na terra, filhos de Ninrode; estes são chamados reis, mas reis não são. Tomam emprestada a sua dignidade daquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores. Mas eis aqui um do verdadeiro sangue, um da autêntica estirpe real, que se extraviara e se misturara com a turba comum dos homens. Que fizeram eles? Trouxeram coroas para honrá-lo, e lançou a nobreza da terra os seus mantos a seus pés para atapetar-lhe os passos? Vede o que fazem. Ele é entregue a uma soldadesca rude e brutal. Encontram-lhe um trono de arremedo e, tendo-o posto sobre ele, despojam-no das suas próprias vestes e acham algum velho manto de soldado, escarlate ou púrpura, e o cingem em torno dos seus lombos. Trançam uma coroa de espinhos e a colocam sobre a sua fronte — uma fronte que outrora fora ornada de estrelas — e então lhe põem na mão — uma mão que não revidará um insulto — um cetro de cana, e então, dobrando o joelho, prestam-lhe a sua homenagem de arremedo, fazendo dele um rei de festa de maio. Ora, talvez não haja nada tão dilacerante quanto a realeza desprezada. Lestes a história de um rei inglês que foi levado pelos seus cruéis inimigos a uma vala. Sentaram-no sobre um formigueiro, dizendo-lhe que aquele era o seu trono, e então lavaram-lhe o rosto na poça mais imunda que puderam encontrar; e, correndo-lhe as lágrimas pelas faces, disse ele que “ainda haveria de ser lavado em água limpa;” embora estivesse amargamente enganado. Mas pensai no Rei dos reis e Senhor dos senhores, tendo por adoração o cuspe de bocas culpadas, por homenagem os golpes de mãos imundas, por tributo os gracejos de línguas brutais! Houve jamais vergonha como a tua, ó Rei dos reis, ó imperador de todos os mundos, ultrajado pela soldadesca e ferido pelas suas mãos servis? Ó terra! como pudeste suportar esta iniquidade? Ó céus! por que não caístes, em pura indignação, para esmagar os homens que assim blasfemavam contra o vosso Criador? Aqui houve vergonha de fato — o rei escarnecido pelos seus próprios súditos.
Ele era também profeta, como todos sabemos; e que fizeram eles para escarnecê-lo como profeta? Ora, vendaram-lhe os olhos, excluíram dos seus olhos a luz do céu, e então o feriram e o esbofetearam com as mãos, e disseram: “Profetiza-nos quem é que te feriu.” O profeta devia fazer uma profecia àqueles que o escarneciam, dizendo-lhes quem o havia ferido. Nós amamos os profetas; é da própria natureza da humanidade que, se cremos em um profeta, o amemos. Cremos que Jesus foi o primeiro e o último dos profetas; por ele todos os outros são enviados; prostramo-nos diante dele em reverente adoração. Temos por nossa mais alta honra sentar-nos a seus pés como Maria; desejaríamos apenas ter o consolo de lavar-lhe os pés com as nossas lágrimas e enxugá-los com os cabelos da nossa cabeça; sentimos que, como João Batista, não somos dignos de desatar a correia das suas sandálias — e poderemos, pois, suportar o espetáculo de Jesus, o profeta, vendado e esbofeteado com insulto e golpes?
Mas escarneceram também do seu sacerdócio. Jesus Cristo viera ao mundo para ser sacerdote, para oferecer sacrifício, e o seu sacerdócio também havia de ser escarnecido. Toda a salvação estava nas mãos dos sacerdotes, e agora lhe dizem: “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós.” Ah! ele salvou outros, a si mesmo não podia salvar. Mas oh, que mistério de escárnio há aqui, que indizíveis profundezas de vergonha, que o grande Sumo Sacerdote da nossa confissão, aquele que é, ele mesmo, o Cordeiro pascal, o altar, o sacerdote, o sacrifício — que ele, o Filho de Deus encarnado, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, fosse assim desprezado e assim escarnecido.
Ele foi escarnecido, ainda mais, nos seus sofrimentos. Não me atrevo a descrever os sofrimentos do nosso Salvador sob o açoite do flagelo. São Bernardo, e muitos dos primeiros pais da Igreja, fazem tal descrição da flagelação de Cristo que eu não suportaria repeti-la. Se tinham dados suficientes para o que dizem, não sei; mas isto eu sei: “ele foi ferido pelas nossas transgressões, foi moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.” Sei que deve ter sido uma flagelação terrível, para ser chamada de ferimento, moedura, castigo e feridas; e, lembrai-vos, cada vez que o açoite caía sobre os seus ombros, o riso daquele que o manejava se misturava ao golpe, e cada vez que o sangue jorrava de novo e a carne se rasgava dos seus ossos, havia um gracejo e um escárnio, para tornar a sua dor ainda mais pungente e terrível. E quando ele por fim chegou à sua cruz, e o pregaram nela, como continuaram o escárnio dos seus sofrimentos! Diz-se-nos que os principais sacerdotes e os escribas se puseram de pé, e por fim se assentaram, e o observavam ali. Quando viram a sua cabeça cair sobre o peito, fizeram, sem dúvida, algum comentário amargo a respeito, dizendo: “Ah! ele nunca mais erguerá a cabeça no meio da multidão;” e quando viram as suas mãos sangrando, disseram: “Ah, ah, estas eram as mãos que tocavam os leprosos e que ressuscitavam os mortos; nunca mais o farão;” e quando viram os seus pés, disseram: “Ah, aqueles pés nunca mais pisarão esta terra, nem seguirão nas suas peregrinações de misericórdia;” e então algum gracejo grosseiro, algum vil, algum brutal, talvez algum bestial, era feito a respeito de cada parte da sua três vezes adorável pessoa. Escarneceram dele e, por fim, ele pediu de beber, e lhe deram vinagre — zombando da sua sede, enquanto fingiam saciá-la.
Mas o pior de tudo — tenho ainda uma coisa a notar — eles escarneceram das suas orações. Lestes jamais, em todos os anais das execuções ou dos assassinatos, que homens algum dia tivessem escarnecido das orações dos seus semelhantes? Li histórias de alguns vis celerados que buscaram matar os seus inimigos e, vendo a morte aproximar-se, as vítimas disseram: “Concedei-me um momento ou dois para orar” — e raros foram os casos em que isto foi negado. Mas nunca li de um caso em que, uma vez proferida a oração, ela fosse motivo de riso e feita objeto de gracejo. Mas eis aqui pende o Salvador, e cada palavra que ele profere torna-se o tema de um trocadilho, o mote de um gracejo. E quando, por fim, ele solta o mais pungente grito de morte que jamais sobressaltou a terra e o inferno — “Eloí, Eloí, lamá sabactâni” — ainda então precisam fazer disso um trocadilho e dizer: “ele chama por Elias; vejamos se Elias virá tirá-lo dali.” Ele foi escarnecido até na sua oração. Ó Jesus! nunca houve amor como o teu; nunca paciência que se pudesse comparar à tua resistência, quando suportaste a cruz, desprezando a vergonha.
Sinto que, ao descrever assim os escárnios do Salvador, não consegui expor-vos a plenitude da vergonha por que ele passou, e ainda terei de tentá-lo de novo, num outro momento, quando vier a descrever a sua morte vergonhosa, tomando as palavras que precedem as que já expus. Ele suportou a cruz, assim como desprezou a vergonha.
A cruz! a cruz! Quando ouvis essa palavra, ela não desperta em vossos corações pensamento algum de vergonha. Há, nos dias de hoje, outras formas de pena capital muito mais ignominiosas que a cruz. À guilhotina liga-se muita ignomínia; ao cepo, outro tanto; à forca, mais do que a tudo. Mas lembrai-vos de que, embora falar da forca seja pronunciar uma palavra de ignomínia, ainda assim não há na palavra “forca” nada da vergonha da cruz, tal como era entendida nos dias de Cristo. Diz-se-nos que a crucificação era um castigo a que ninguém podia ser submetido senão um escravo, e, ainda assim, o crime devia ser da mais terrível espécie — como a traição de um senhor, o conluio para a sua morte ou o seu assassinato; somente tais delitos trariam a crucificação, mesmo sobre um escravo. Era tida como o mais terrível e medonho de todos os castigos. Todas as mortes do mundo lhe são preferíveis; todas têm alguma leve circunstância atenuante, seja a sua rapidez, seja a sua glória. Mas esta é a morte de um celerado, de um assassino, de um facínora — uma morte dolorosamente prolongada, que não pode ser igualada em todas as invenções da crueldade humana, em sofrimento e ignomínia. O próprio Cristo suportou isto. A cruz, digo eu, não é, nos dias de hoje, tema de vergonha. Tem sido o brasão de muitos monarcas, o estandarte de muitos conquistadores. Para alguns é objeto de adoração. As mais belas gravuras, as mais admiráveis pinturas, foram dedicadas a este tema. E agora, a cruz gravada em muitas gemas tornou-se coisa justa, régia e nobre. E somos incapazes, neste dia, creio eu, de compreender plenamente a vergonha da cruz; mas o judeu a conhecia, o romano a conhecia, e Cristo sabia que coisa medonha, que coisa vergonhosa era ser submetido à morte de crucificação.
Lembrai-vos, também, de que, no caso do Salvador, houve especiais agravantes desta vergonha. Ele teve de carregar a sua própria cruz; foi crucificado, ademais, no lugar comum das execuções, o Calvário, análogo ao nosso antigo Tyburn, ou ao nosso atual Old Bailey. Foi morto, também, num tempo em que Jerusalém estava cheia de gente. Era na festa da Páscoa, quando a multidão muito aumentara, e quando os representantes de todas as nações estariam presentes para contemplar o espetáculo. Partos, e medos, e elamitas, e os habitantes da Mesopotâmia, da Grécia, sim, e talvez da longínqua Társis, e das ilhas do mar. Todos estavam ali para unir-se neste escárnio e para aumentar a vergonha. E foi crucificado entre dois ladrões, como que para ensinar que era mais vil que eles. Houve jamais vergonha como esta?
Deixai-me conduzir-vos à cruz. A cruz, a cruz! As lágrimas começam a correr só de pensar nela. A rude madeira é posta no chão, Cristo é lançado de costas, quatro soldados agarram-lhe as mãos e os pés, a sua bendita carne é rasgada pelo maldito ferro; ele começa a sangrar, é erguido nos ares, a cruz é fincada de golpe no lugar preparado para ela, cada membro é deslocado, cada osso desconjuntado por aquele terrível solavanco; ali pende ele, nu para a sua vergonha, contemplado por todos os espectadores, o sol brilha ardente sobre ele, a febre começa a arder, a língua resseca-se como um caco de barro, apega-se ao céu da boca; ele não tem com que nutrir a natureza com umidade. O seu corpo há muito fora emaciado pelo jejum, ele fora levado à beira da morte pela flagelação na sala de Pilatos. Ali pende ele; a parte mais sensível do seu corpo, as suas mãos e os seus pés, estão trespassados, e onde os nervos são mais numerosos e sensíveis, ali está o ferro rasgando e dilacerando o seu terrível caminho. O peso do seu corpo arrasta o ferro para cima, através do seu pé, e, quando os seus joelhos estão tão exaustos que não o podem sustentar, então o ferro começa a rasgar através das suas mãos. Espetáculo terrível, de fato! Mas vistes apenas o exterior; havia um interior, que não podeis ver: se pudésseis vê-lo, ainda que os vossos olhos fossem como os dos anjos, seríeis feridos de cegueira eterna. Havia, então, a alma. A alma morrendo. Podeis conjeturar quais devem ser as angústias de uma alma que morre? Nenhuma alma jamais morreu na terra até hoje. O inferno é o lugar das almas que morrem, onde elas morrem eternamente a segunda morte. E ali, dentro das costelas do corpo de Cristo, o próprio inferno foi derramado. A alma de Cristo suportava o conflito com todos os poderes do inferno, cuja malícia era agravada pelo fato de ser aquela a última batalha que jamais lhe poderiam travar. Não, pior do que isso. Ele perdera aquilo que é a força e o escudo do mártir: perdera a presença do seu Deus; o próprio Deus punha a mão sobre ele; aprouve ao Pai moê-lo; ele o pôs em sofrimento, fez da sua alma um sacrifício pelo pecado. Deus, em cujo semblante Cristo eternamente se aquecera ao sol, deleitando-se, ocultou a sua face. E ali estava Jesus, abandonado por Deus e pelos homens, deixado sozinho a pisar o lagar — não, a ser pisado no lagar — e a mergulhar a sua veste no seu próprio sangue. Oh, houve jamais dor como esta? Nenhum amor a pode retratar. Se eu tivesse um único pensamento no coração acerca do sofrimento de Cristo, ele haveria de escoriar-me os lábios antes que eu o proferisse. As agonias de Jesus foram como a fornalha de Nabucodonosor, aquecida sete vezes mais do que jamais fora aquecido o sofrimento humano. Cada veia era um caminho por onde viajavam os pés ardentes da dor; cada nervo, uma corda numa harpa de agonia que vibrava com o gemido discordante do inferno. Todas as agonias que os próprios condenados podem suportar foram lançadas na alma de Cristo. Ele foi um alvo para as flechas do Todo-Poderoso, flechas mergulhadas no veneno do nosso pecado; todas as vagas do Eterno se arremessaram contra esta rocha da nossa salvação. Ele havia de ser moído, pisado, esmagado, destruído; a sua alma havia de estar profundamente triste, até a morte.
Mas devo deter-me; não consigo descrevê-lo. Posso apenas rastejar por cima disto, e vós também podeis. As rochas se fenderam quando Jesus morreu; os nossos corações hão de ser feitos de mármore mais duro que as próprias rochas se não sentirem. O templo rasgou o seu suntuoso véu de tapeçaria — e não haveis vós também de ser pranteadores? O próprio sol teve uma grande lágrima no seu ardente olho, que lhe apagou a luz — e não haveremos nós de chorar, nós por quem o Salvador morreu? Não haveremos de sentir uma agonia de coração por ter ele assim padecido por nós?
Notai, meus amigos, que toda a vergonha que veio sobre Cristo, ele a desprezou. Ele a teve por tão leve, comparada com a alegria que lhe fora proposta, que se diz que a desprezou. Quanto aos seus sofrimentos, esses ele não podia desprezar; aquela palavra não poderia ser empregada em conexão com a cruz, pois a cruz era terrível demais para que até o próprio Cristo a desprezasse. A ela ele suportou; a vergonha ele podia lançar de si, mas a cruz ele tinha de carregar, e a ela tinha de ser pregado. “Ele suportou a cruz, desprezando a vergonha.”
II. E agora, O SEU GLORIOSO MOTIVO. Que foi aquilo que levou Jesus a falar assim? — “Pela alegria que lhe foi proposta.” Amados, qual era a alegria? Oh, é um pensamento que há de derreter uma rocha e fazer mover um coração de ferro: que a alegria proposta a Jesus era, principalmente, a alegria de salvar a vós e a mim. Sei que era a alegria de cumprir a vontade de seu Pai — de assentar-se no trono de seu Pai — de ser aperfeiçoado por meio do sofrimento; mas ainda assim sei que este é o grande e magno motivo do sofrimento do Salvador: a alegria de nos salvar. Sabeis qual é a alegria de fazer o bem aos outros? Se não sabeis, tenho pena de vós, pois, de todas as alegrias que Deus deixou neste pobre ermo, esta é uma das mais doces. Vistes os famintos, quando por muitas horas careceram de pão — vistes-los chegar à vossa casa quase nus, tendo entregado as suas roupas para que, empenhando-as, conseguissem dinheiro que lhes desse pão? Ouvistes a história que a mulher conta das aflições do seu marido? Escutastes, quando ouvistes o relato da prisão, da enfermidade, do frio, da fome, da sede, e nunca dissestes: “Eu te vestirei, eu te alimentarei”? Nunca sentistes aquela alegria divina, quando o vosso ouro foi dado ao pobre e a vossa prata foi consagrada ao Senhor, quando o concedestes ao faminto, e vos retirastes dizendo: “Deus me livre de ser presunçoso;” mas sinto que vale a pena viver para alimentar o faminto, vestir o nu e fazer o bem aos meus pobres e sofredores semelhantes? Ora, esta é a alegria que Cristo sentiu: era a alegria de nos alimentar com o pão do céu — a alegria de vestir pobres pecadores nus com a sua própria justiça — a alegria de achar moradas no céu para almas sem lar — de nos livrar da prisão do inferno e de nos dar as eternas delícias do céu.
Mas por que haveria Cristo de olhar para nós? Por que escolheria ele fazer isto por nós? Oh, meus amigos, jamais merecemos coisa alguma das suas mãos. Como diz um bom e velho escritor: “Quando olho para a crucificação de Cristo, lembro-me de que os meus pecados o levaram à morte. Não vejo Pilatos, mas vejo a mim mesmo no lugar de Pilatos, negociando Cristo por honra. Não ouço o clamor dos judeus, mas ouço os meus pecados bradando: ‘Crucifica-o, crucifica-o.’ Não vejo cravos de ferro, mas vejo as minhas próprias iniquidades pregando-o à cruz. Não vejo lança alguma, mas contemplo a minha incredulidade trespassando o seu pobre e ferido lado,
‘Por ti, meus pecados, meus cruéis pecados, foram os seus principais algozes;
Cada um dos meus pecados tornou-se um cravo, e a incredulidade, a lança.’”
É opinião do romanista que o próprio homem que trespassou o lado de Cristo foi depois convertido e se tornou seguidor de Jesus. Não sei se isto é fato, mas sei que assim é, espiritualmente. Sei que nós trespassamos o Salvador, sei que o crucificamos; e, contudo — coisa estranha de dizer — o sangue que tiramos daquelas santas veias nos lavou dos nossos pecados e nos tornou aceitos no Amado. Podeis compreender isto? Eis aqui a humanidade escarnecendo do Salvador, exibindo-o pelas ruas, pregando-o a uma cruz e então sentando-se para zombar das suas agonias. E, contudo, que há no coração de Jesus senão amor por eles? Ele chora todo esse tempo por que o crucifiquem, não tanto por sentir o sofrimento, embora este fosse grande, mas por não poder suportar o pensamento de que homens a quem amava o pudessem pregar ao madeiro. “Essa foi a mais cruel de todas as punhaladas.” Lembrai-vos daquela notável história de Júlio César, quando foi ferido pelo seu amigo Bruto. “Quando o nobre César viu-o apunhalar, a ingratidão, mais forte que os braços dos traidores, de todo o venceu! Então rompeu-se o seu poderoso coração.” Ora, Jesus teve de suportar a punhalada nas suas mais íntimas entranhas, e de saber que os seus eleitos o fizeram — que os seus remidos o fizeram, que a sua própria igreja foi o seu assassino — que o seu próprio povo o pregou ao madeiro. Podeis imaginar, amados, quão forte deve ter sido o amor que o fez submeter-se até a isto? Imaginai-vos hoje voltando para casa a partir deste salão. Tendes um inimigo que por toda a sua vida foi vosso inimigo. Seu pai foi vosso inimigo, e ele é vosso inimigo também. Não passa um dia sem que procureis conquistar a sua amizade; mas ele cospe sobre a vossa bondade e amaldiçoa o vosso nome. Faz mal aos vossos amigos, e não há pedra que ele deixe de revolver para vos causar dano. Ao voltardes para casa hoje, vedes uma casa em chamas; as labaredas se enfurecem, e a fumaça sobe numa só coluna negra até o céu. Multidões se juntam na rua, e vos dizem que há um homem na câmara superior que há de ser queimado até a morte. Ninguém o pode salvar. Dizeis: “Ora, aquela é a casa do meu inimigo;” e o vedes à janela. É o vosso próprio inimigo — o homem em pessoa; ele está prestes a ser queimado. Cheios de amorosa bondade, dizeis: “Salvarei aquele homem, se puder.” Ele vos vê aproximar-vos da casa; põe a cabeça para fora da janela e vos amaldiçoa. “Uma maldição eterna sobre ti!”, diz ele; “antes perecer eu do que seres tu a salvar-me.” Imaginai-vos, então, arremessando-vos através da fumaça e galgando a escada em chamas para salvá-lo; e podeis conceber que, ao chegardes perto dele, ele luta convosco e tenta arrastar-vos para as chamas? Podeis conceber que o vosso amor seja tão poderoso que aceitaríeis perecer nas chamas antes que deixá-lo queimar? Dizeis: “Eu não poderia fazê-lo; está acima da carne e do sangue fazê-lo.” Mas Jesus o fez. Nós o odiamos, nós o desprezamos e, quando ele veio salvar-nos, nós o rejeitamos. Quando o seu Espírito Santo vem aos nossos corações lutar conosco, nós lhe resistimos; mas ele nos salvará; sim, ele mesmo enfrentou o fogo para arrebatar-nos como tições do ardor eterno. A alegria de Jesus era a alegria de salvar pecadores. O grande motivo, pois, de Cristo, ao suportar tudo isto, foi que ele nos pudesse salvar.
III. E agora, concedei-me apenas um momento, e procurarei erguer o Salvador para a NOSSA IMITAÇÃO. Falo agora aos cristãos — àqueles que provaram e manusearam a boa palavra da vida. Homens cristãos! se Cristo suportou tudo isto meramente pela alegria de vos salvar, envergonhar-vos-eis de suportar qualquer coisa por Cristo? As palavras estão de novo em meus lábios nesta manhã —
“Se sobre a minha face, por teu querido nome, vierem vergonha e opróbrio,
saudarei o opróbrio e darei as boas-vindas à vergonha; meu Senhor, morrerei por ti.”
Oh! não me admira que os mártires tenham morrido por um Cristo como este! Quando o amor de Cristo é derramado em nossos corações, então sentimos que, se a fogueira estivesse diante de nós, permaneceríamos firmes no fogo para sofrer por aquele que morreu por nós. Sei que os nossos pobres e incrédulos corações logo começariam a acovardar-se diante do feixe crepitante e do calor furioso. Mas certamente este amor prevaleceria sobre toda a nossa incredulidade. Haverá algum de vós que sinta que, se seguir a Cristo, há de perder com isso — perder a sua posição ou perder a sua reputação? Sereis motivo de riso, se deixardes o mundo e seguirdes a Jesus? Oh! e havereis de desviar-vos por causa dessas pequenas coisas, quando ele não se desviou, ainda que o mundo inteiro o escarnecesse, até que pôde dizer: “Está consumado”? Não; pela graça de Deus, erga cada cristão as suas mãos ao Deus Altíssimo, ao Criador do céu e da terra, e diga consigo mesmo:
“Agora, pelo amor que dedico ao seu nome, o que era meu ganho tenho por perda;
lanço desprezo sobre toda a minha vergonha, e prego a minha glória à sua cruz.”
“Para mim, o viver é Cristo; o morrer é lucro.” Vivendo, serei dele; morrendo, serei dele; viverei para a sua honra, servi-lo-ei inteiramente, se ele me ajudar, e, se for preciso, morrerei por amor ao seu nome.
[O Sr. Spurgeon foi de tal modo arrebatado sob o primeiro ponto que não pôde, por falta de tempo, abordar os demais pontos. Que aquilo que foi bênção ao ouvinte seja doçura ao leitor.]
Domínio público. Texto de origem de a edição original.