Capítulo 8 · 21 min de leitura · 27 min de escuta
Fins Perdidos
"Se vocês pudessem saber o que se sente ao se encontrar . . . onde o menor raio do Evangelho não penetrou! Se aqueles amigos que nos censuram . . . pudessem ver de longe o que vemos e sentir o que sentimos, seriam os primeiros a se admirar de que os remidos por Cristo sejam tão atrasados na devoção e conheçam tão pouco o espírito de sacrifício. Eles se envergonhariam das hesitações que nos detêm. . . . Precisamos lembrar que não foi intercedendo pelo mundo na glória que Jesus o salvou. Ele deu a Si mesmo. Nossas orações pela evangelização do mundo não passam de uma amarga ironia enquanto dermos apenas do nosso supérfluo e recuarmos diante do sacrifício de nós mesmos."
M. François Coillard, África.
"Alguém precisa ir, e, se ninguém mais quiser ir, aquele que ouve o chamado deve ir; eu ouço o chamado, pois de fato Deus o pôs diante de mim por todos os lados, e ir eu preciso."
Rev. Henry Watson Fox, Índia.
OS tantãs bateram sem parar a noite inteira, e a escuridão estremecia ao meu redor como uma coisa viva, que sente. Eu não conseguia dormir, então fiquei acordada, olhando; e vi, ao que parecia, isto:
Que eu estava sobre um gramado e, aos meus pés, um precipício despencava a pique no espaço infinito. Olhei, mas não vi fundo nenhum; apenas formas de nuvens, negras e furiosamente enroscadas, e grandes cavidades envoltas em sombra, e profundezas insondáveis. Recuei, tonta diante daquela profundidade.
Então vi vultos de pessoas andando em fila indiana pela grama. Iam em direção à beira. Havia uma mulher com um bebê nos braços e outra criancinha agarrada ao seu vestido. Ela estava bem na borda. Então vi que ela era cega. Levantou o pé para o passo seguinte . . . e ele pisou no ar. Ela caiu, e as crianças caíram com ela. Oh, o grito que deram ao cair!
Então vi mais correntes de pessoas fluindo de todos os lados. Todas eram cegas, completamente cegas; todas iam direto para a beira do precipício. Havia gritos agudos quando de repente se davam conta de que estavam caindo, e um agitar de braços desamparados, agarrando, tateando o ar vazio. Mas algumas caíam em silêncio, e despencavam sem um som.
Então me perguntei, com uma perplexidade que era pura agonia, por que ninguém as detinha na beira. Eu não podia. Estava pregada ao chão e não conseguia chamar; por mais que me esforçasse e tentasse, só me saía um sussurro.
Então vi que, ao longo da beira, havia sentinelas postadas a intervalos. Mas os intervalos eram grandes demais; havia brechas largas e desguarnecidas entre elas. E por essas brechas as pessoas caíam em sua cegueira, sem nenhum aviso; e a grama verde me parecia vermelha de sangue, e o abismo se escancarava como a boca do inferno.
Então vi, como um quadrinho de paz, um grupo de pessoas debaixo de umas árvores, de costas para o abismo. Estavam fazendo correntes de margaridas. Às vezes, quando um grito lancinante cortava o ar tranquilo e chegava até elas, isso as incomodava, e achavam aquilo um barulho um tanto vulgar. E, se alguém do grupo se levantava de um salto querendo ir fazer alguma coisa para ajudar, todos os outros puxavam essa pessoa para baixo. "Por que você haveria de se agitar tanto com isso? Precisa esperar um chamado definido para ir! Você ainda não terminou as suas correntes de margaridas. Seria realmente egoísmo", diziam, "deixar-nos terminar o trabalho sozinhos."
Havia outro grupo. Era formado por pessoas cujo grande desejo era enviar mais sentinelas; mas descobriam que muito poucos queriam ir, e às vezes não havia sentinela nenhuma por milhas e milhas da beira.
Certa vez uma moça estava sozinha em seu posto, acenando para as pessoas recuarem; mas sua mãe e outros parentes a chamaram e lembraram que estava na hora da sua licença; ela não devia quebrar as regras. E, estando cansada e precisando de uma mudança de ares, teve de ir descansar por algum tempo; mas ninguém foi enviado para guardar a sua brecha, e as pessoas caíam e caíam, como uma cachoeira de almas.
Certa vez uma criança se agarrou a um tufo de grama que crescia bem na borda do abismo; agarrou-se convulsivamente e gritou—mas ninguém parecia ouvir. Então as raízes da grama cederam e, com um grito, a criança caiu, as duas mãozinhas ainda segurando firme o tufo de grama arrancado. E a moça que ansiava estar de volta à sua brecha pensou ter ouvido o pequenino gritar, e levantou-se de um salto querendo ir; diante do que a repreenderam, lembrando-lhe que ninguém é necessário em lugar nenhum; a brecha seria bem cuidada, disso eles sabiam. E então cantaram um hino.
Então, através do hino, veio outro som, como a dor de um milhão de corações partidos espremida numa única gota cheia, um único soluço. E terror e grandes trevas caíram sobre mim, pois eu sabia o que era aquilo—o Clamor do Sangue.
Então trovejou uma Voz, a Voz do Senhor: "O SENHOR disse: O que você fez? A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra."
. . . . . . .
Os tantãs ainda batiam pesadamente, a escuridão ainda estremecia e tremia ao meu redor; eu ouvia os berros dos dançarinos de demônios e o grito estranho e selvagem dos endemoninhados logo ali, do lado de fora do portão.
Que importa, afinal? Isso vem acontecendo há anos; vai continuar por anos. Por que fazer tanto alarde?
Deus nos perdoe! Deus nos desperte! Que nos envergonhe até nos arrancar da nossa insensibilidade! Que nos envergonhe até nos arrancar do nosso pecado!
Certa tarde, algumas semanas depois daquela noite à beira do precipício, Vitória e eu estávamos visitando a Aldeia do Lago Vermelho quando ouvimos o toque fúnebre do tantã e o grito do búzio, e soubemos que mais alguém tinha partido para além do nosso alcance. Nunca é possível acostumar-se com isso. Paramos por um momento e escutamos.
As mulheres a quem estávamos ensinando interromperam com explicações ansiosas. "Oh, ele era um grande homem! Tinha recebido a Iniciação. Vai haver um cerimonial grandioso, mais grandioso do que qualquer um que vocês têm!" Então nos contaram como esse grande homem tinha sido iniciado nos mistérios hindus pelo sacerdote da família, e que os benefícios místicos decorrentes dessa iniciação deviam ser revertidos ao sacerdote. Essa Reversão da Iniciação seria uma das cerimônias. Vimos a procissão descer a rua. Iam buscar água de um rio sagrado para o banho de purificação. Quando voltarem, disseram as mulheres, as cerimônias vão começar.
Um pouco mais tarde passamos pela casa e ficamos olhando para dentro pela porta. Lá estava o habitual pátio grande e quadrado, com a varanda correndo em volta de três lados. A varanda estava cheia de mulheres. Ansiávamos por entrar, mas não achávamos que nos deixariam. O pátio estava bastante confuso; homens corriam de um lado para outro, armando arcos e decorando-os; criados varriam, cozinhavam e gritavam uns com os outros; as mulheres conversavam e riam. E o tempo todo, de dentro da casa, vinha o som do canto fúnebre pelo morto, e o riso e o lamento se chocavam e destoavam. Por algum tempo ninguém reparou em nós, mas por fim uma mulher nos viu e nos fez sinal para entrar. "Estamos todas contaminadas hoje; vocês podem sentar-se conosco", disseram; e, cedendo aos instintos de sua bondosa natureza tâmil, apertaram-se mais umas contra as outras para nos dar lugar ao seu lado. Como eu gostei de ficar espremida ali no meio delas. Mas, para apreciar isso minimamente, você teria de trabalhar numa parte da velha Índia presa à casta; não se pode ter ideia, até tentar, de como é difícil abster-se de tocar aqueles a quem se ama.
A porta da casa dava para a varanda, e podíamos ouvir o gemido do canto fúnebre. "Há angústia no mar. Ele não pode se acalmar." Não havia calma, só o gemido incessante, que não parava de subir até virar lamento; havia lágrimas no som do lamento, e eu me sentia como uma espécie de harpa viva com todas as cordas esticadas.
Mas as mulheres de fora não se importavam nem um pouco. Era estranho ver como eram insensíveis. Não era um dos seus que tinha morrido, então conversavam e riam e observavam os preparativos—o amarrar das guirlandas em volta dos arcos, a arrumação das oferendas para os brâmanes. Tudo aquilo era cheio de interesse para elas. Tentamos voltar os pensamentos delas para os poderes da era que há de vir. Mas não. Não se importavam.
Logo houve uma agitação. "Os homens estão chegando!" disseram. "Corram! há um canto à sombra debaixo daquelas palmeiras na varanda do fundo! Corram e se escondam! Eles estão aqui!" E, enquanto ainda falavam, os homens entraram em fila, cada um com seu jarro de latão equilibrado na cabeça, e nos viram ali de pé. Pensamos que nos poriam para fora, e estávamos bem dispostas a ir a um sinal do chefe do clã. Mas ele era nosso amigo; sorriu quando o saudamos com o salaam e apontou para um canto tranquilo, fora do caminho, onde podíamos ver tudo sem sermos vistas demais.
Para entender isso, que para mim foi uma surpresa, é preciso lembrar que por natureza o indiano é extremamente cortês e que, se não fossem as regras de Casta, teríamos permissão de nos aproximar deles muito mais do que é possível agora. Naquele dia estavam todos cerimonialmente impuros, de modo que a nossa presença não era considerada contaminadora. Além disso, o indiano ama uma cerimônia; triste ou alegre, pouco importa. A vida é uma bolha na água; aproveite-a enquanto puder. E eles simpatizavam com o que pensavam ser o nosso desejo de ver o espetáculo. Isso era humano; podiam entender. Por isso nos deixaram ficar; e ficamos, esperando uma oportunidade mais tarde.
Então as cerimônias começaram. Levaram o morto para fora e o deitaram no pátio, debaixo do arco de palmas. Era velho, gasto e magro. Via-se o belo rosto antigo, com as marcas do tridente hindu pintadas descendo pela testa. Tinha sido um hindu muito fervoroso; todos os ritos eram devidamente cumpridos, e manhã e noite, durante muitos anos, ele traçara aquelas marcas na fronte. Teria ele alguma vez escutado a Verdade? Não sei. Deve ter ouvido falar dela, mas não a tinha recebido. Morreu, contaram-nos, "sem saber o que havia do outro lado."
Os carregadores de água puseram os jarros no chão. Cada um tinha uma folha atravessada na boca. O sacerdote foi coroado com uma grinalda de flores. Então veio o banho. Armaram um abrigo e o levaram para lá. Foi feito com reverência. Havia um toque de delicadeza no pensamento que afastava as mulheres e as crianças antes de começar o banho. Os tâmeis se banham ao ar livre, e sempre vestidos, mas sempre à parte. E, como a varanda das mulheres dava vista para o recinto cercado, todas receberam ordem de sair. Foram e esperaram, agora em silêncio, intimidadas pela presença dos homens. Enquanto o banho prosseguia, os sacerdotes entoavam cânticos e murmuravam encantamentos, e de vez em quando tocava-se um sino, agitava-se incenso e acendiam-se círios. Agora estavam fazendo aquele misterioso Algo que ainda pairava em volta da forma sem vida deixá-la e voltar para eles, e, quando o banho terminou, deram a entender que estava tudo feito; a Influência tinha partido, descido; as cerimônias fúnebres podiam prosseguir.
E todo esse tempo, sem interrupção, o canto fúnebre estava sendo entoado pelas carpideiras dentro da casa. Era uma espécie de nota de fundo para todos os sons de fora. Então o velho, vestido de branco, coroado e enfeitado com guirlandas de flores, foi levado para o outro lado; e oh, como era digno de pena tudo aquilo! São Paulo deve ter pensado em alguma cena assim quando escreveu aos convertidos: "para que não se entristeçam como os demais, que não têm esperança." E pensei em como éramos estranhamente insensíveis, como era superficial a nossa compaixão. A ordem do Senhor não nos comove, a tristeza daqueles que negligenciamos não nos toca; pensamos muito mais em nós mesmos e em nosso próprio prazer egoísta do que no propósito para o qual fomos salvos—e a um custo tão tremendo! Oh, que um batismo de realidade e obediência passe sobre nós! Oh, sermos fiéis aos hinos que cantamos e aos votos que fazemos! Deus nos faça fiéis.
Perdoem tudo isso. Ficou gravado a fogo em mim de novo naquele dia, enquanto eu estava ali sentada observando o que faziam e ouvindo o que diziam. Tínhamos chegado tarde demais para aquele velho morto, e tarde demais também para a maioria dos vivos. Vocês podem se admirar se, em momentos tão solenes, a pessoa se entrega de novo e para sempre à obediência?
Preparou-se arroz para uso do morto, e bolinhos de arroz estavam prontos para ser oferecidos ao seu espírito depois da cremação; pois os hindus pensam que um corpo intermediário precisa ser formado e alimentado, o qual, no décimo terceiro dia após a morte, é conduzido ao céu ou ao inferno, conforme as obras feitas na terra. As cerimônias eram todas marcadas pela crença em algum estado futuro. O espírito estava em algum lugar—no escuro—por isso tentavam iluminar-lhe o caminho. Isso me lembra uma cerimônia especialmente sugestiva. Todos os netinhos foram trazidos e receberam círios acesos; então andaram em procissão em volta do esquife, dando muitas e muitas voltas, segurando firmes os círios, com ar sério e impressionado.
Então a viúva saiu, amparada por uma mulher de cada lado. E ela andava em volta do marido, dando volta após volta, com as lágrimas rolando pelo rosto, e entoava o lamento da viúva, com o coração inteiro nele. Por que ele tinha ido embora e a deixado desolada? Dele era o espírito de fragrância, como o perfumado sândalo; dele era o braço de força, como a tranca que fechava a porta. Foi-se o perfume do sândalo, quebrada e aberta a porta; por que o pássaro voou e deixou só a gaiola vazia? Foi-se! ele se foi? Foi-se mesmo? Era certo que estava morto? Ele, que se virava e revirava no leito mais macio que podiam fazer, teria de deitar-se no leito da sua pira funerária? Teria de arder sobre toras de lenha? Digam, não havia meio de alcançá-lo, nenhum meio de ajudá-lo agora? "Procurei por você, mas não o encontro." E assim o canto fúnebre continuava a gemer.
Eu não consegui ouvir tudo isso naquela hora; Vitória me contou depois, e muito mais. "Da última vez que ouvi isso", disse ela, "eu estava lá dentro, lamentando também."
Enquanto a pobre viúva dava volta após volta, parava cada vez que chegava aos pés e os abraçava fervorosamente. Às vezes rompia toda contenção e o apertava nos braços.
Depois de realizadas muitas cerimônias, os homens se retiraram todos, e as mulheres ficaram para se despedir da forma que logo seria levada embora. Então os homens voltaram e o carregaram pelo pátio, e pararam debaixo do arco do lado de fora, enquanto as mulheres todas se precipitavam para fora, arrancando os cabelos, batendo em si mesmas e lamentando desvairadamente. Quando estavam erguendo o esquife para partir, o clamor era: "Parem! parem! Ele não vai falar?" E isso, entoado vez após vez, teria comovido o coração mais frio. Então, quando tudo terminou e a longa procissão, encabeçada pelos tantãs e búzios, sumiu de vista, as mulheres voltaram a entrar em massa, e cada uma primeiro soltou os cabelos e agarrou a vizinha mais próxima, e todas se atiraram ao chão e bateram com a cabeça nele, e depois, erguendo-se até ficarem sentadas, seguraram-se umas às outras, balançando para a frente e para trás e entoando no ritmo do balanço, em coro e em antífona. Tudo isso, até o arrancar de cabelos e o bater de cabeças, era copiado com terrível fidelidade pelas crianças presentes.
Sentamo-nos no meio delas. Tomaram nossas mãos e nos balançaram da maneira ortodoxa. Mas nós não lamentamos nem soltamos os cabelos. Procuramos dizer palavras de consolo às que estavam realmente de luto, mas vimos que não era o momento. Quinze dias depois fomos de novo, e encontramos a porta da casa aberta porque tínhamos estado com elas naquele dia.
Mas naquela hora não podíamos ajudá-las, por isso nos levantamos e estávamos indo embora quando, presa pelo poder daquele canto fúnebre delas, voltei-me para olhar outra vez. Os últimos raios do sol da tarde iluminavam o pátio e brilhavam sobre as massas de cabelos negros e grisalhos. Enquanto eu olhava, elas se levantaram uma a uma, arrumaram as roupas desalinhadas, sacudiram a poeira dos cabelos lustrosos e os prenderam de novo. E uma a uma, sem nenhuma espécie de despedida, foram embora. Uma hora depois encontramos grupos delas voltando do banho. Não queriam nos tocar então. Depois as principais enlutadas saíram e se banharam, e percorreram toda a aldeia lamentando. E a última coisa que vi, quando o sol se pôs sobre os montes e o lugar foi ficando frio e escuro, foi a velha viúva, agora exausta, voltando para casa com as roupas molhadas, ainda lamentando.
Escrevo isto sob o senso da solenidade de ser "servo . . . separado para o Evangelho." Eu não escreveria levianamente uma única palavra. Mas oh! posso pedir a vocês que encarem isso? Somos honestos para com Deus? Se fôssemos, essas pessoas seriam deixadas a morrer como estão sendo deixadas a morrer?
Nós sentimos por elas. Mas sentimentos não salvam almas; ganhar-nos custou a Deus o Calvário.
Custará a nós tanto quanto pudermos conhecer da comunhão dos Seus sofrimentos, se aqueles por quem Ele morreu naquele dia hão de ser algum dia ganhos.
. . . . . . .
Estou escrevendo no meio das imagens e dos sons da vida. Há vida no grupo de mulheres junto ao poço; vida nas vozes, no respingar da água, no choro de uma criança, no chamado da mãe; vida no voo dos papagaios enquanto passam em bando de árvore em árvore; vida em sua tagarelice enquanto brigam e gritam; vida, por toda parte vida. Como posso, saindo de tudo isso, voltar a pensar na morte?
Mas quero fazê-lo, pois uma pessoa pode viver muitos anos na Índia sem que lhe permitam ver uma só vez o que nós vimos duas vezes em dois meses, e não pode ter sido à toa que o vimos. Certamente o vimos para mostrá-lo a vocês.
A Missie Caça-Retratos e eu estávamos na Aldeia do Tamarindeiro quando o vi pela segunda vez. Ali são muito amistosos e, assim como na Aldeia do Lago Vermelho nos deixaram olhar por trás da cortina, aqui também a afastaram, nos deixaram entrar e continuaram com o que faziam, sem se importar conosco. Encolhemo-nos bem juntinhas no único pedacinho de espaço vazio e ficamos observando.
Tudo era menos intenso; a morta era apenas uma viúva pobre e muito velha, que tinha vivido a vida até o fim e não era desejada. Não havia parentes próximos, apenas parentes por casamento; era evidente que todos cumpriam a formalidade sem emoção de espécie alguma.
A mulher jazia num esquife tosco no chão, e em volta dela se apinhava uma dúzia de velhas. À cabeceira havia um jarro de latão com água, um suporte de lamparina, um pouco de arroz cru e alguns cocos partidos. Pouco antes de entrarmos, elas tinham enchido um jarrinho de latão com a água do maior. Agora uma das velhas bruxas andou três vezes em volta da morta, derramando a água enquanto andava. Então outra lhe deu de comer—deu de comer àquela pobre boca morta, enfiou a comida com tanta brutalidade que ficamos enjoadas e quase desmaiamos. Fizeram outras coisas às pressas, sem cuidado; não conseguimos acompanhá-las. A última foi esfregar cinzas—ela tinha sido adoradora de Siva—e também cobriram os olhos fechados com cinzas e as alisaram com tapinhas. E o tempo todo o falatório das mulheres zombava do silêncio da morte. Não havia reverência, nenhum senso de solenidade; o cerimonial, tão cheio de símbolos para os que o criaram, os pensadores dos tempos védicos, era para elas simplesmente um costume, um conjunto de costumes, a ser seguido e despachado o mais depressa possível por mãos descuidadas. E, no entanto, cumpriram fielmente cada detalhe que conheciam, terminaram seu trabalho sem coração e chamaram os homens para virem. Os homens esperavam lá fora. Entraram e a carregaram para fora.
Parecia impossível pensar numa fotografia naquela hora; era muito improvável que nos deixassem tirar uma, e não estávamos muito no espírito de caçar retratos. No entanto pensamos em vocês, e em como certamente nunca poderiam ver aquilo se não o mostrássemos a vocês; e queríamos mostrá-lo, por isso lhes perguntamos se podíamos. É claro que, se houvesse dor verdadeira, como no outro que eu tinha visto, não poderíamos ter pedido; teria sido intromissão; mas ali não havia nenhuma—esse era o lado comovente da coisa. E eles eram muito amistosos, por isso puseram o seu fardo no chão e esperaram.
Aí está. À direita está o barbeiro com o seu braseiro pendurado numa corrente; é para acender a pira funerária. A fumaça atrapalhou a foto, mas, afinal, é fiel à vida. À esquerda está o homem com o búzio, pronto para soprar. Ao fundo, com as cinzas sagradas esfregadas na testa, no peito e nos braços, estão os dois parentes mais próximos, que amanhã recolherão as cinzas e as lançarão no rio.
O retrato foi tirado. O homem do búzio o soprou, o homem do fogo passou à frente, os carregadores ergueram o esquife; foram embora com a sua morta.
Então as velhas, que tinham ficado se apertando junto à porta aberta, voltaram correndo para dentro como de costume e começaram o costumeiro balanço e o canto fúnebre. Esses Cantos de Comparação são sempre cheios de alma. Nasceram em tempos do mais profundo sentimento, tomaram forma quando os corações eram como moldes finamente trabalhados que deixaram neles a sua marca. E ouvi-los entoados sem nenhuma alma é, de algum modo, uma coisa lastimável, uma espécie de profanação, como cantar palavras sagradas por dinheiro.
A fotografia não foi fácil de tirar: o espaço era tão apertado, o movimento tão contínuo, a agitação tão confusa. Como foi tirada, não sei; as mulheres amontoadas no chão não ficavam paradas mais que um instante. Naquele instante foi feita. Então convencemos três delas a correr o perigo de serem capturadas sozinhas. Não quiseram ir além da parede da casa, e, como era numa rua estreita, de novo houve dificuldades. Mas a maior complicação foi à beira da água. Ventava, e o vento levava os nossos chamados, de modo que não ouviam o que queríamos que fizessem, e espirravam água com vigor demais. A única ideia delas naquele momento era deixar a si mesmas e às suas roupas cerimonialmente limpas, contaminadas como estavam pelo contato com a morta.
Mas que aquelas seis que vocês podem ver em parte representem os milhares e milhares que vocês não podem ver de modo algum. Esses milhares estão hoje de pé na água, do Norte até o extremo Sul, como o último ato do drama que representaram na presença do morto.
. . . . . . .
As mulheres já foram embora do poço. Os papagaios voaram para outras árvores. Os tâmeis dizem que o corpo é a bainha da alma. Penso naquela bainha vazia que vi e me pergunto para onde a alma voou. Ela se foi—mas para onde? Foi para casa, como as mulheres do poço? Voou para longe, como os pássaros entre as árvores? Ela se foi, ela se foi, é tudo o que sabemos. Ela se foi.
Então li estas palavras da tradução de Conybeare e Howson: "Se a tenda que é a minha casa terrena for destruída, tenho uma morada edificada por Deus . . . eterna nos céus. E nisto gemo com ardentes anseios, desejando cobrir a minha veste terrena com as vestes da minha morada celestial. . . . E Aquele que me preparou para este mesmo fim é Deus."
O morto perdeu o seu Fim. Aquela velha morta também o perdeu. E os milhões ao nosso redor, ainda vivos, estão perdendo o seu Fim hoje. "Este mesmo Fim"—pensem nisso—o que é mortal engolido pela Vida—a Morte apenas uma ausência, a Vida para sempre uma presença—Em casa com o Senhor, que nos preparou "para este mesmo Fim."
Podemos desfrutar de tudo isso sozinhos? Não haverá nenhuma sensação de incompletude se os muitos estiverem do lado de fora, perdendo tudo porque perderam o seu Fim? A glória nos alegrará se eles estiverem em algum lugar longe dela e de Deus? Não será o céu quase um lugar vazio para quem nunca tentou enchê-lo? E, no entanto, ainda há lugar, oh, tanto lugar, para aqueles que fomos chamados a trazer conosco!
E há lugar, oh, tanto lugar, ao longo da beira do precipício. Há brechas deixadas inteiramente desguarnecidas. Será que você está destinado a guardar uma dessas brechas? Se for assim, ela continuará sempre como está, um ponto de queda para aqueles rios de almas, a não ser que você venha.
Essas coisas são verdade ou são imaginação? Se são imaginação—então que o papel em que estão escritas seja queimado, queimado até se enrolar e as palavras caírem em pó. Mas, se são verdade—então o que vamos fazer? Não o que vamos dizer ou cantar, nem mesmo sentir ou orar—mas o que vamos fazer?
Capítulo 8 concluído
Fins Perdidos