Capítulo 25 · 18 min de leitura · 24 min de escuta
Pan, Pan Está Morto
"Se há uma coisa que refresca a minha alma acima de todas as outras, é saber que contemplarei o Redentor gloriosamente triunfante na consumação de todas as coisas."
Henry Martyn, Norte da Índia.
"EM PARTE baseado numa tradição bem conhecida, mencionada por Plutarco, segundo a qual, na hora da Agonia do Salvador, um grito de 'O grande Pan está morto' varreu as ondas, ouvido por certos marinheiros, e os oráculos cessaram." Assim diz a nota de abertura de um dos poemas de Elizabeth Barrett Browning. Consultamos um dicionário clássico e ali encontramos a lenda. "O Imperador acreditou nisso prontamente, e os astrólogos foram consultados, mas não conseguiram explicar o significado de uma voz tão sobrenatural."
Pan, e com ele todos os falsos deuses do mundo antigo, morrem no dia da morte do nosso Salvador,—assim diz o poema—
"Deuses, em vão os conjuramos,—
Não nos devolvem voz nem sinal!
Nem um devoto pôde lhes dar
Sequer um túmulo ao seu divino;
Nem um túmulo que mostrasse:
Aqui jazem estes velhos deuses grisalhos.
Pan, Pan está morto."
E, no entanto—está ele morto? morto de todo?
. . . . . . .
Noite, sem lua e quente. O nosso acampamento está armado na margem oeste do rio; estamos dormindo. De repente, ouve-se logo ali fora o que parece uma explosão. Depois outra, e mais outra,—um estouro tão violento,—depois um s-s-sssh, e já estou fora da cama, de pé na areia; e por um momento tenho certeza de que a barraca da cozinha está pegando fogo. Então me cai a ficha, do jeito lento como as coisas caem no meio da noite: são só fogos de artifício soltados pelo pessoal da festa—só fogos de artifício!
Mas fico parada olhando, e na escuridão tudo parece muito maior do que é e muito mais terrível. Há o brilho da água, iluminada pelas fogueiras da multidão na margem leste do rio. Há tochas que oscilam, incertas, entrando e saindo da vasta massa negra—negra mesmo no negrume da noite—onde está o povo. Há o estouro súbito e o s-s-sssh dos foguetes que sobem disparados noite adentro e caem em chuvas de cores sobre a massa negra e sobre a água; e há o rugido rouco de muitas vozes, misturado ao balido de muitos cabritos. Fico olhando, e sei o que está acontecendo. Estão matando aqueles cabritos—trinta mil deles—matando-os agora.
Pan está morto? . . .
Manhã, sol abrasador, sol implacável, que expõe tudo o que está acontecendo. Atravessamos o leito do rio no nosso carro de bois. "Não olhe!" diz a minha companheira, e olho para o outro lado. Depois nos separamos. Ela vai para o meio das multidões no leito do rio, onde o sol é mais quente, o ar mais poluído e as cenas por todo lado mais repugnantes, e eu subo a margem por entre o povo. Cada uma de nós tem consigo uma Irmã tâmil, e mais abaixo, rio abaixo, outro grupinho de três está trabalhando. Ao todo, sete, para dezenas de milhares. Mas esperamos que mais venham depois.
Combinamos de nos encontrar no carro por volta das dez horas. O condutor recebe ordem de abrir caminho até uma grande figueira-de-bengala perto do templo. Ele sobe a custo por entre um emaranhado de carros e acha um lugar inclinado para parar, na borda da sombra da árvore.
Por toda a subida da margem estão matando e esfolando os seus cabritos. Você olha para a direita e cobre os olhos com as mãos. Olha para a esquerda e faz o mesmo. Olha bem para a frente e vê uma vítima esfolada, esticada, pendurada no galho de uma árvore. Cada raizinha pendente da grande figueira-de-bengala está carregada de horrores—todos mortos, por grande misericórdia, mas horríveis ainda assim.
Tínhamos pensado que a matança já tivesse acabado, ou dificilmente teríamos ousado vir; mas estes que estão ocupados chegaram tarde. A gente diz a si mesma, uma e outra vez, que uma criatura sem cabeça não pode sentir nada, mas parece que sente . . . continua se mexendo. Desviamos o olhar e seguimos adiante, tentando sair daquilo,—mas trinta mil cabritos! Leva muito tempo para sair daquilo.
Vemos grupos de criancinhas assistindo ao processo, encantadas. Não há crueldade intencional, pois o deus não aceita o sacrifício a menos que a cabeça seja cortada com um só golpe—um grande alívio para mim. Mas é extremamente repugnante e degradante. E pensar que essas crianças estão sendo ensinadas a ligar isso à religião!
Comigo está uma que antes gostava de tudo isso. Ela me conta como torcia o pescoço das aves com as próprias mãos. Olho para as mãozinhas morenas e finas, mãozinhas tão carinhosas, e mal consigo acreditar. "Você—você fazia uma coisa dessas!" digo. E ela responde: "Sim; quando chegava o dia de sacrificar à divindade da nossa família, o meu irmãozinho segurava a cabeça do cabrito enquanto o meu pai a cortava, e eu torcia a cabeça das galinhas. Era o meu prazer!"
Subimos ao longo da margem; sempre aquelas multidões, e aqueles cabritos mortos ou sendo mortos. Não conseguimos escapar deles.
Por fim chegamos a uma árvore em parte desocupada, mas, ai!, sem folhas. De um lado dela, uma família come alegremente atrás de um abrigo de esteiras. Um pouco mais abaixo, alguns párias regateiam as partes menos nobres da economia do cabrito. Embrulham as coisas fibrosas em folhas e as enfiam numa dobra dos seus seeleys. Aos nossos pés, um menino brinca com a cabeça. Sentamo-nos na faixa de sombra lançada pelo tronco da árvore e, gratas por tanto abrigo, convidamos os que passam a escutar enquanto cantamos. Alguns escutam. Uma velha megera que acompanha uma jovem esposa de rosto vivo puxa a moça em nossa direção e se senta. Nunca ouviu uma só palavra da nossa Doutrina, nem a moça. Então chegam alguns meninos, cheios de travessura e brincadeira, e ameaçam armar uma confusão. Escolhemos, pois, o mais arruaceiro deles e sugerimos que ele mantenha a ordem, o que ele faz com grande presteza, brandindo com todo o vigor uma vara contra quem ameace perturbar o bom andamento da reunião.
A minha pequena companheira fala com elas como só pode falar quem um dia esteve onde elas estão. Escuto-a e anseio pela fluência de que ela dispõe. "Vocês não fazem isto e aquilo?" diz ela, nomeando exatamente o que elas fazem; "e não dizem isto e aquilo?" Elas a encaram, e então: "Ah, ela já foi uma de nós! Qual é a Casta dela? Quando ela veio? Onde estão o pai e a mãe dela? Qual é a aldeia dela? Ela não é casada? Por que não é? E onde estão as joias dela?" Acima de tudo, todas perguntam ao mesmo tempo: "Qual é a Casta dela?" E tentam adivinhar, e provavelmente adivinham certo.
Você não faz ideia, a menos que tenha trabalhado entre elas, de como é difícil conseguir que uma mulher pagã escute com plena atenção por dez minutos seguidos. Distraem-se com facilidade, e hoje há tantas coisas para distraí-las que não escutam muito bem. Estão cansadas também, dizem; a noite selvagem e agitada cobrou o seu preço. Ontem foi diferente; tivemos boas ouvintes.
Sendo mulheres, e sozinhas no meio de tamanha multidão de idólatras, não tentamos uma reunião ao ar livre; apenas nos sentamos quietas onde podemos e conversamos com quem conseguimos persuadir a sentar-se ao nosso lado. Os hindus são muito mais seguros que os muçulmanos; raramente são grosseiros; mas hoje sabemos o bastante do que está acontecendo para nos manter longe de todos os homens, se pudermos. Eles não nos diriam grande coisa, mas poderiam dizer muito uns aos outros que é melhor ficar por dizer.
Quando já reunimos, e seguramos, e depois tivemos de soltar, três ou quatro desses grupinhos, é hora do café da manhã, e estamos com muita fome. Então abrimos caminho pela multidão, metendo-nos por baixo de barracas de esteira e por entre imundícies indizíveis, montes de peles de cada lado, e mal se sabe o quê debaixo de cada palmo de areia de aparência inocente; pois o povo enterra os restos de leve, jogando um punhado de areia sobre o pior, e o sol faz o resto do saneamento. É bastante horrível.
Por fim chegamos ao carro, inclinado de lado na margem, damos conta do café da manhã de algum jeito e descansamos por alguns minutos abençoados, nas posições mais desconfortáveis, antes de mergulhar de novo naquele mar de sol e areia e animais, humanos e não humanos; e então nos separamos, combinando de nos encontrar quando não aguentarmos mais.
Pan está morto? . . .
Meio-dia, e mais quente, muito mais quente do que nunca. Ah, como o povo se aglomera e empurra, e mata e come, e enterra restos! Como podem gostar tanto disso? Que prazer pode haver nisso?
Encontramos o caminho de volta àquela fita de sombra. Agora é uma fita mais estreita, porque o sol, a pino, projeta a sombra de um único galho em vez do tronco mais largo. Mas, tal como é, ficamos contentes com ela, e de novo reunimos grupinhos, e conversamos com eles, e cantamos.
Algumas moças bonitas passam bem perto de nós, as únicas moças que se veem em toda parte. Aqui só vêm criancinhas e esposas; nenhuma moça solteira de bem. Uma do grupo está vestida de branco, mas a maioria veste púrpuras e carmesins vivos. A moça de branco tem um ar cansado, obra da noite outra vez. Mas a maior parte da irmandade está dentro de casa; ao entardecer veremos mais delas, espalhadas entre o povo, fazendo a obra do seu terrível senhor. Estas passam por nós sem falar e se misturam à multidão.
Depois de uma hora na faixa de sombra, subimos devagar a margem de novo e nos vemos entre os oleiros, centenas e centenas deles. Cada família compra um pote, e talvez dois ou três de tamanhos diferentes; assim os oleiros fazem bom negócio hoje e não têm tempo para nos escutar.
Está ficando muito mais quente agora, pois a areia escaldante e os milhares de fogueiras irradiam ondas de calor pelo ar, já sufocantemente quente. Pensamos nas nossas companheiras lá embaixo, no leito do rio, impregnado de odores de matança e de cozinha, uma combinação de abominações que eu nunca antes tinha imaginado.
Olhamos lá de cima para um amontoado de capotas de carro. As coberturas de esteira de palmeira trançada se agrupam em manchas marrons por toda a areia, e entre elas passam as multidões em movimento. Não vemos as outras. Será que acharam tão difícil quanto nós, perguntamo-nos, achar alguém desocupado o bastante para querer escutar? Por fim chegamos à longa nave de pedra que leva ao templo. De cada lado há fileiras de barracas, abertas ao ar mas protegidas do sol, e convencemos uma vendedora amistosa a nos deixar entrar no seu abrigo. Ela está assando bolinhos no chão. Deixa-nos ficar num canto vazio, de frente para as multidões que passam, e um ou dois, depois dois ou três, e assim por diante até termos um bom grupo, param ao passar, agacham-se à sombra e escutam um pouco. Então uma senhora idosa, de rosto velho e perspicaz, compra uma porção do Evangelho pela metade do preço e a dobra com cuidado num canto do seu seeley. Duas ou três outras compram Evangelhos, e todas querem folhetos. A dona da barraca fica um pouco inquieta com essa concorrência de mercadorias. Gastamos os nossos tostões, produto das nossas vendas, nos bolinhos dela, e ela se acalma. Mas alguma nova atração na galeria que leva ao templo dispersa a nossa pequena plateia, para juntá-la em volta de si. A velha explica que o Evangelho que comprou é para o neto, um estudioso, conta-nos ela, de cinco anos, e sai para ver o novo espetáculo, e nós saímos com ela.
Ali, na primeira barraca, entre a fileira dupla de pilares, um homem está de pé num banco, girando uma espécie de matraca estalante bem acima da cabeça. Na seguinte, outro grita para chamar a atenção para os seus relógios. Lá estão eles, enfileirados em prateleiras, autênticos relógios "ingleses" de abelhinha atarefada, fazendo tique-taque, como observa uma criancinha, como se estivessem vivos. Depois vêm barracas de doces, de roupas, de lamparinas, de frutas, de livros, barracas de louça, e de vasilhas de latão, e de joias, e de cestaria, e de cutelaria, e pulseiras aos carrinhos de mão, e remédios, e esteiras, e cofrinhos, e toda e qualquer coisa de toda espécie que se possa obter por aqui. Em cada barraca há um vendedor. De vez em quando um deles, como o homem dos relógios, se esforça para vender as suas mercadorias; mais vezes fica à toa, à legítima moda oriental, e vende ou não conforme a sorte decidir por ele, igualmente satisfeito com qualquer das sentenças. Como os comerciantes indianos conseguem viver é sempre para mim um enigma. Quase nunca parecem fazer outra coisa senão vadiar.
Sem parar, em correntes desordenadas mas perfeitamente bem-humoradas, o povo vai subindo ao templo ou descendo de lá depois de adorar. Todos os que descem têm a testa untada de cinzas brancas. Até aqui há cabritos; estão sendo puxados, pobres bichos relutantes, até os degraus do santuário, para ali serem consagrados ao deus que está lá dentro. Depois serão arrastados, ainda relutantes, em volta dos muros do templo, por fora, e então decapitados.
Observo um bebê puxando um cabrito por uma corda amarrada ao pescoço. O cabrito tem chifres, e a cada momento espero ver o bebê chifrado. Mas nunca parece passar pela cabeça do cabrito fazer algo tão agressivo. Ele puxa, porém, e o bebê puxa, até que um adulto vem ajudar o bebê, e os três sobem a custo até o santuário.
Estamos agora numa barraca vazia, um pouco fora do aperto. Ao lado há um sortimento de livretos tâmeis em cores maravilhosas, com predomínio de laranja e verde. Há um barril vazio rolado para o canto, e nos sentamos nele e começamos a ler o nosso Livro. Isso desvia o fluxo da corrente, e temos outra oportunidade.
Mas fica cada vez mais quente, e sentimos tanta sede, e ansiamos por um gole de água de coco. É sempre seguro beber isso. Mas não há cocos à venda, e não temos dinheiro. Então um homem que vende leitelho nativo vem abrindo caminho por entre o aperto, e nos damos conta de que, de todas as coisas do mundo, a que mais desejamos é um gole de leitelho. O homem para diante da nossa barraca, enche um copo daquele líquido precioso e, vendo a sede nos nossos olhos, suponho, implora que bebamos. Explicamos que estamos sem um tostão. "Compre os nossos livros, e compraremos o seu leitelho", mas ele não quer os nossos livros. Então desejamos não ter esbanjado os nossos tostões naqueles bolinhos impossíveis. O homem do leitelho propõe nos fiar o dinheiro; com certeza vai cruzar conosco de novo. É um homem de bom coração; mas dívida é pecado; não é provável que voltemos a vê-lo. O homem do leitelho pondera. Ele é pobre, mas nós estamos com sede. Dar de beber a quem tem sede é um ato de mérito. Atos de mérito vêm a calhar, tanto neste mundo como no outro. Ele enche um copo de leitelho (tinha despejado o primeiro de volta quando mostramos as mãos vazias). Hesitamos; ele é pobre, mas estamos com tanta sede. O dono da barraca vizinha lê os nossos corações e joga meio pêni para o homem do leitelho. "Pronto!" diz ele, "bebam até não caber mais!" e bebemos. É uma sensação cômica, ficar em dívida com um vendedor de literatura tâmil miúda de natureza duvidosa; mas realmente já passamos do ponto de fazer distinções sutis. Nunca leitelho foi tão bom; tomamos três copos de latão entre nós e sentimos de novo que a vida vale a pena. Damos ao bom livreiro livros de sobra para cobrir o seu meio pêni, e para nos agradar ele os aceita; mas, como não precisa realmente deles, sem dúvida o mérito que adquiriu conta por inteiro, e nos despedimos excelentes amigos.
E agora a multidão que sobe ao templo fica mais densa a cada momento. Toda fase imaginável de devoção está representada aqui, e também todo tipo imaginável de adorador. Alguns são reverentes, alguns exaltados, alguns fervorosos, alguns descuidados, assombrados, agitados, mas o mais comum é serem perfeitamente frívolos; e sem parar a corrente segue.
Deixo a minha Irmã tâmil em segurança com outras duas no carro. Mas a companheira com quem devo me encontrar de novo naquele mesmo carro em algum momento de hoje não apareceu. Então saio sozinha para mais uma tentativa, atraída pela visão daquela corrente, e me deixo levar por ela, e sou apanhada e carregada para cima—para cima, até estar dentro do muro do templo, uma numa corrente de homens e mulheres que sobem ao santuário. Por fim chegamos lá. Está escuro; mal consigo ver uma grade de ferro encravada na escuridão, com uma luz em algum lugar por trás, e ali, de pé nos próprios degraus do trono de Satanás, há a oportunidade de um único minuto para testemunhar de Cristo. O povo está todo prostrado no pó e no aperto, e por aquele único minuto escutam, pasmos de ouvir uma voz assim ali dentro; mas não convém ficar, e, antes que tenham tempo de decidir o que pensar daquilo, sou apanhada por outra corrente que contorna para a direita, e me vejo num lugar mais tranquilo, uma espécie de remanso na borda externa do redemoinho, onde a adoração é menos intensa e muitíssimas mulheres estão sentadas conversando.
Ali, sentada no chão ao lado de um dos santuários menores agrupados em volta do maior, tenho uma oportunidade como nunca esperei ter; pois as mulheres e as crianças ficam tão espantadas de ver um rosto branco ali dentro que deixam de lado toda reserva e se aglomeram à minha volta, perguntando como entrei. Pois os templos indianos são sagrados para os indianos; nenhum estrangeiro pode passar dos muros até o centro do santuário; além disso, nós nunca vamos aos templos para ver as partes abertas à visitação, porque sabemos que pedra de tropeço esse turismo é para os hindus. Tudo isso as mulheres sabem, pois tudo o que um missionário faz ou deixa de fazer é observado por este povo observador e comentado em particular. Agora, enquanto se juntam à minha volta, conto-lhes por que vim (como entrei não sei explicar, a não ser que fosse, como as mulheres afirmaram, porque, de seeley, a gente não chamava a atenção), e elas me fazem confidências e me contam a verdade sobre si mesmas, que é a última coisa que costumam contar, e isso me parece estranho; e escutam esplendidamente, e escutariam enquanto eu ficasse. Mas não é prudente ficar demais, e entro de novo na corrente, que todo esse tempo tem fluído em volta do bloco interno do templo, e sou levada com ela enquanto reflui e sai.
E, ao sair, ainda naquela corrente, noto que a área do templo está abarrotada de toda espécie de mercadoria, barracas de todo tipo, tal como lá fora. Vendedores de tudo, de potes de barro a joias, andam pelo lugar apregoando as suas mercadorias, como se estivessem numa feira; e bem no meio deles a adoração prossegue nos diversos santuários e diante dos diversos ídolos. Ali está, feira e templo, como nos dias do nosso Senhor; nenhum parece estorvar o outro. Ninguém parece ver nada de incongruente num homem prostrado diante de uma pedra posta atrás de um monte de pulseiras de vidro. E quando alguém cai de repente ao chão, e às vezes com reverência, diante de uma barraca de rodelas de bolinhos oleosos, ninguém vê nisso nada de extraordinário; sabem que há um deus em algum lugar do outro lado dos bolinhos.
Adiante e para fora, pela nave dos cem pilares, tudo de pedra—piso, pilares, teto de pedra; adiante e para fora, para o clarão e para a visão dos cabritos outra vez. Mas agora mal os vemos, pois entre eles e os nossos olhos parecem interpor-se as coisas que vimos lá dentro—aqueles homens e mulheres, centenas deles, adorando aquilo que não é Deus.
Pan está morto? . . .
Pan está morto! Ah, Pan está morto! Pois, mais nítido que a visão daquela multidão idólatra, eu vi isto—eu o tinha visto dentro daqueles muros do templo:—uma pilha de velhos deuses mortos. Estavam amontoados num canto, atrás do santuário central—deuses de pedra, meros tocos sem cabeça; deuses de madeira de membros decepados; deuses de barro, meros torrões de lama; mutilados e abandonados, velhos deuses gastos. Ah, a adoração outrora oferecida àquelas coisas quebradas e surradas! Ninguém as adora agora! Por cinco minutos inteiros eu tinha ficado sentada olhando para eles—
"Deuses enlutados, deuses tardios,
Com suas púrpuras rasgadas!
Deuses destronados e profanados,
Deserdados do trovão!"
Havia guirlandas murchas aos pés de alguns dos ídolos ali perto; havia guirlandas frescas em volta do pescoço de outros. Não havia guirlandas neste canto de deuses mortos. Olhei, e olhei, e olhei de novo. Ah, havia profecia naquilo!
E, ao sair para o meio do povo vivo, a visão daquele cemitério de deuses mortos estava sempre comigo, e o cântico de triunfo que a profetisa de Deus cantou cantava-se a si mesmo por todo o meu ser—Pan está morto! De todo morto!
"Foi na hora em que Um em Sião
Pendia por amor numa cruz;
Quando Sua fronte gelava ao morrer,
E Sua alma desfalecia de perda;
Quando Seu sangue sacerdotal gotejava,
E Seus olhos reais fitavam o trono—
Então, Pan estava morto.
"Pelo amor em que Ele esteve só,
Sua única Divindade se ergueu completa,
E os falsos deuses caíram gemendo,
Cada um do seu assento de ouro;
Todos os falsos deuses, com um grito,
Entregaram a sua divindade—
Pan, Pan estava morto."
Capítulo 25 concluído
Pan, Pan Está Morto