As Coisas Como Elas São
Atrás da Porta

Capítulo 24 · 13 min de leitura · 16 min de escuta

Atrás da Porta

"Quando se sabe que alguém está considerando a nova Religião, todos os seus parentes e conhecidos se levantam en masse; de modo que conseguir um novo convertido é como arrancar o canino de um tigre vivo."

Adoniram Judson, Birmânia.

TODO missionário que já se desesperou por não achar uma ilustração viva o bastante para mostrar a vocês como é de fato o trabalho entre muçulmanos e hindus de Casta apreciará esta comparação. Depois que voltamos de Dohnavur, descobrimos que as aldeias desta região oriental, por muito tempo fechadas, tinham se aberto de novo, e o povo estava disposto a nos deixar ensinar as meninas e as mulheres. Isso durou dois meses, e então três rapazes, de três Castas diferentes, passaram a ser conhecidos como interessados na fé. Imediatamente a notícia se espalhou por todas as aldeias. Foi em vão que lhes dissemos que nós (as obreiras) nunca tínhamos sequer visto os rapazes, e de modo algum os havíamos influenciado; o povo insistia que, fôssemos ou não pessoalmente responsáveis, o livro que ensinávamos às meninas era o mesmo que aqueles rapazes tinham lido (um fato inegável); que o seu veneno entrava pelos olhos, subia ao cérebro, descia ao coração e então arrastava o leitor para fora da sua Casta e da sua religião; e que, portanto, não podíamos mais ser toleradas nas ruas nem nas casas, e assim fomos expulsas.

Numa aldeia onde moram muitos parentes de um desses três rapazes, o tigre rosnou bastante. Uma velha furiosa nos chamou de "Raptoras de crianças e Vendedoras de pós", e de cobras brancas da espécie da naja, e de um certo gênero de lagarto que, quando pisado, apenas se contorce e não há meio de convencê-lo a morrer (isso se aplicava à nossa persistência no mal), e de muitas outras coisas. As mulheres ficavam na rua em grupos desafiadores e não nos deixavam chegar perto o bastante para explicar. Os homens ficavam sentados na frente das varandas e sorriam, brandamente superiores às bobagens infantis que as mulheres diziam, mas não interferiam.

Aldeias como esta—e a Velha Índia é feita de aldeias assim—estão muito distantes da influência dos poucos centros esclarecidos que existem. Madras é só um nome para elas, a umas quatrocentas milhas, um lugar onde as noções de Casta são muito frouxas e as pessoas se misturam e se embaralham de um jeito nada decoroso.

A educação, ou o "Saber", como a chamam, eles a consideram uma coisa excelente para os meninos que querem se destacar, ganhar dinheiro e enriquecer. Mas, para as meninas, que utilidade possível ela tem? Podem elas passar em exames e conseguir emprego no Governo? Quem respondesse a essa pergunta só os deixaria enojados. Além disso, há um sentimento latente, bastante comum nessas antigas famílias de Casta, de que é um tanto infra dig. que suas mulheres saibam demais. Pode estar muito bem para quem não tem pretensões de grandeza; esses talvez precisem de uma escada para subir na escala social; mas nós, que já estamos no topo, para que precisamos disso? "Nossas filhas não têm a sua Casta?" Esse sentimento está passando nas cidades, mas as aldeias resistem por mais tempo.

Naquela aldeia em particular tínhamos algumas menininhas queridas que estavam ficando muito interessadas, e era tão difícil sair e deixar o campo ao diabo como vencedor incontestado, que mandei uma das nossas obreiras tentar de novo. Ela é uma almazinha corajosa, mas até ela teve de bater em retirada. Não querem saber de nós.

Seguimos naquele dia para uma aldeia onde, apenas uma semana antes, tinham escutado esplendidamente. Não tinham tempo; era a época de mais trabalho. Depois fomos a uma cidade mais adiante, mas lá foi totalmente impraticável. Então fomos ao nosso amigo, o querido velho Evangelista dali, o velho cego. Ele e a esposa são luzes naquela cidade escura. É tão revigorante passar meia hora com dois bons e velhos cristãos genuínos depois de um cabo de guerra com os pagãos; eles não fazem ideia de que estão ajudando você, mas estão, e você volta para casa muito mais feliz por tê-los visto.

Na volta para casa, quase fomos cercadas por uma turba. Antigamente, as turbas eram ali coisa comum. É uma rude cidade de mercado, e o povo, depois que vieram os primeiros convertidos, costumava nos vaiar pelas ruas, atirar punhados de areia em nós e despejar cinzas no nosso cabelo. Em teoria eu gosto muito disso, mas na prática nem um pouco. A gritaria da multidão, sobretudo de homens, não é educada; os latidos dos cães, atiçados por espectadores simpatizantes; o brilho nauseante do sol e o clarão refletido das casas; a poeira cegante nos olhos e a sensação estranha das cinzas descendo pelo pescoço; acima de tudo, a sensação de que esse tipo de coisa não faz bem algum—pois não é perseguição (nada tão heroico), e não terminará em martírio (tais honras não chegam até nós)—toda essa confusão, e todos esses sentimentos, um em cima do outro, se combinam para tornar a turba menos interessante do que se poderia esperar. Você aguenta firme, e olha para o alto pedindo paciência e bom humor e outras graças comuns assim, e ora para não cair de febre amanhã—pois a febre tem o costume de interromper o trabalho—e sai de tudo aquilo o mais depressa que pode, sem mostrar pressa demais. E então, embora eles mal saibam, você vai e recebe um novo batismo de amor por todos eles.

Mas com que alegria se passaria por essas ninharias nada românticas a cada hora de cada dia, se ao menos no fim se pudesse entrar no coração e nos lares do povo. Do jeito que as coisas estão, agora mesmo, nossa tristeza é que não podemos. Sabemos de várias pessoas que nos querem, e estamos impedidas de chegar até elas.

Uma é uma jovem esposa que nos viu certo dia à beira da água e pediu que fôssemos ensiná-la. Por ter feito isso, naquela mesma noite ela foi espancada publicamente, em plena rua, por um homem, diante de homens; por isso, com medo do que fariam com ela, não ousamos chegar perto da casa. Outra é uma viúva que gastou toda a sua fortuna construindo uma casa de repouso para os brâmanes, e que não encontrou o Repouso. Ela escutou uma vez, com atenção demais; não lhe permitiram escutar de novo. Ah, como morde aquele tigre!

Na casa ao lado da dela há uma criança por quem oramos há três anos. Era uma criança carinhosa e apegada quando a conheci naquele tempo, a pequena Ouro, de olhos sinceros. Naquele último dia em que a vi, ela pôs as mãos nas minhas, sem se importar nada com a contaminação; "Não somos de uma só Casta?", disse ela. Eu não sabia que era a última vez que a veria; que, da próxima vez que falasse com ela, veria apenas a sua sombra no escuro; e agora a gente desejaria ter sabido—quanta coisa teria dito! Mas a casa estava aberta então, e todas as casas estavam. Então a primeira moça convertida, depois de testemunhar corajosamente em casa, tomou posição como cristã. O povo da sua Casta queimou a pequena escola da Missão—uma escola de meninos—e escreveu a giz o que pensava nas paredes carbonizadas. Queimaram a casa da evangelista nativa e uma escola a dezesseis milhas dali; e a região inteira se fechou, cada cidade e aldeia, como se tudo fosse uma única porta, com o diabo do outro lado.

Mas algumas das meninas atrás da porta conseguiram nos mandar recados. Ouro era uma delas. Queria tanto nos ver de novo; implorou que fôssemos tentar. Tentamos; encontramos a mãe do lado de fora e pedimos que nos deixasse ir. É uma velha dura, de olhos como pedaços de gelo negro, fundos na cabeça. Ela nos gelou e recusou.

Depois soubemos qual foi o castigo da menina. Levaram-na até a água e a fizeram entrar. Ela ficou ali tremendo, com água até a cintura, sem saber o que pretendiam fazer. Então seguraram a sua cabeça debaixo da água até que ela fizesse algum sinal de que cederia. Soltaram-na então, esfregaram cinzas na sua testa, sinal de retratação, e a levaram de volta soluçando—pobre menininha. Ela não é feita de matéria de mártir; estava apenas infeliz. Durante alguns meses não vimos nada dela. Costumávamos ir à casa vizinha e convencer as pessoas a nos deixarem cantar para elas. Cantávamos para Ouro; mas nunca soubemos se ela ouvia.

Certa noite, quando duas de nós voltávamos tarde do trabalho, uma mulher passou por nós e me disse às pressas: "Venha, venha depressa, e sozinha. É Ouro quem a chama! Venha!" Segui-a até a casa. "Sou a irmã casada de Ouro", explicou ela. "Sente-se lá fora, na varanda, perto da porta, e espere até a menina sair." Então ela entrou, e eu fiquei sentada, quieta, esperando.

Aqueles minutos eram como batidas do coração. O que estaria acontecendo lá dentro? Mas, ao que parece, a mãe estava fora, pois logo a porta se abriu de mansinho, e uma sombra deslizou para fora, e eu soube que devia ser Ouro. Ela caiu de joelhos na estreita varandinha do outro lado da porta e se arrastou até a outra ponta, e então eu só conseguia distinguir uma forma escura no escuro. Por uns cinco minutos ninguém veio, exceto a irmã, que ficou à porta vigiando. E durante aqueles cinco minutos a gente estava livre para falar tão livremente quanto se pode falar a uma forma que mal se consegue ver, que não dava nenhum sinal e não dizia nenhuma palavra. Cinco minutos inteiros! Como se valorizava cada momento deles! Então um homem chegou e se sentou na varanda. Devia ser um parente, pois não tinha intenção de ir embora. Eu desejava que fosse. Era impossível falar com ela por cima dele sem deixá-lo saber que ela estava ali; então era preciso falar com ele, mas para ela, e nem isso podia durar muito. Aqui o crepúsculo logo vira escuridão; tivemos de ir. Enquanto íamos, olhamos para trás e o vimos ainda montando sua guarda inconsciente sobre a menina em seu esconderijo.

Não há segredos na Índia. Soube-se que tínhamos estado ali, e aquela mãe severa castigou a filha; mas como, nunca soubemos.

Se alguém nos culpar por termos ido, lembre-se de que um dos pequeninos de Cristo estava com sede e estendeu a mão pedindo um copo de água fria. Não poderíamos ter deixado aquela mão vazia, creio eu.

Depois disso, não soubemos de nada durante um ano; então um velho a quem tínhamos ajudado, e que esperava que pretendêssemos ajudá-lo mais, veio certa noite nos dizer que pretendia libertar Ouro. Tudo seria feito em segredo, e seria feito naquela mesma noite. Dissemos que não podíamos ter nada a ver com o plano dele, e explicamos por quê. "Mas", objetou ele, "que tolice é essa? Eu pensava que vocês, cristãos, ajudavam as moças pobres, e esta certamente quer vir. Ela é maior de idade. A hora é esta. Se esperarem, nunca a terão." Sabíamos que isso era mais do que provável; recusar a ajuda dele era como girar a chave e trancar o corpo e a alma dela numa prisão—um pensamento terrível para mim, lembrando-me de Tesouro. Mas não havia outra coisa a fazer; e depois, quando soubemos quem ele era e quais eram suas verdadeiras intenções, ficamos gratas por termos agido assim. Ele nos olhou com curiosidade ao sair, como se a nossa maneira de ver as coisas lhe parecesse estranha; e nos implorou que nunca disséssemos uma palavra sobre o que ele tinha dito. Nunca dissemos, mas de algum modo aquilo vazou, e pouco depois ele adoeceu e morreu muito de repente. Seu corpo foi cremado em menos de duas horas. Autópsias são raras na Índia.

Outro ano se passou em silêncio quanto a Ouro. Quantas vezes descíamos a rua e olhávamos para a casa dela, com a porta quase sempre fechada e aquela mãe de olhos de gelo de guarda. Costumávamos vê-la andando por ali, nunca longe da casa. Quando a víamos, fazíamos o salaam; então ela nos fuzilava com o olhar, sombria, e nos dava as costas. Uma vez a família inteira foi a uma festa religiosa; mas a menina, naturalmente, foi empurrada para dentro e para fora de um carro coberto e não foi vista por ninguém, nem mesmo pelos vizinhos de porta. Falou-se em casamento para ela. A maioria das moças da sua Casta se casa muito mais cedo; mas, para nosso alívio, isso não deu em nada, e certa vez uma de nós a viu por um momento, e ela ainda parecia querer ouvir, embora estivesse intimidada demais, a essa altura, para demonstrá-lo.

Então ouvimos um boato de que uma moça da Aldeia do Lago tinha sido vista por alguns dos nossos cristãos num bosque perto de uma aldeia a cinco milhas dali. Esses cristãos são muito decididos e entusiasmados com os convertidos, e conseguiram descobrir que a moça do bosque tinha alguma intenção de ser cristã, e que a sua presença ali tinha alguma ligação com isso; então nos contaram imediatamente. A descrição batia com Ouro. Mas não conseguíamos explicar como uma moça da Casta dela fora vista num bosque; ela era sempre mantida em reclusão. Por fim descobrimos a verdade. Ela tinha dado algum sinal de um amor persistente por Cristo, e a mãe a levara a um famoso asceta brâmane que vivia naquele bosque; e ali, juntas, mãe e filha ficaram numa cabana perto da cabana do eremita, e durante três dias ele se dedicou a confundi-la e desorientá-la, e por fim conseguiu, e declarou-a convencida.

Ouvimos tudo isso, e sofremos, e nos perguntávamos como aquilo tinha sido feito. Nunca soubemos de tudo, mas soubemos de um engano que praticaram com ela, apelando, como tantas vezes fazem, à imaginação oriental, que encontra uma satisfação tão sólida no sobrenatural. Nada convence tanto quanto uma visão ou um sonho; assim, uma visão apareceu diante dela, uma encarnação, disseram-lhe, de Siva, na forma de Cristo. Siva e Cristo, então, eram um só, como tantas vezes lhe haviam assegurado, uma só identidade sob dois nomes. O hinduísmo está abarrotado de encarnações; isso não apresentava dificuldade. Como o velho monge, a menina, confusa, procurou a marca dos cravos e da lança. Sim, estavam lá, marcadas nas mãos, no pé e no lado. Deve ser difícil desconfiar da própria mãe. Ouro ainda confiava na sua. "Escute!", disse a mãe, e a visão falou. "Se a palavra dos cristãos é verdadeira, voltarei dentro de vinte e quatro dias; se a palavra dos hindus é verdadeira, não voltarei." Então, hora após hora, durante aqueles vinte e quatro dias, teceram suas teias em volta dela, teias de um sofisma maravilhoso que já enredaram cérebros mais agudos que o dela. Ela ficou enredada. Os vinte e quatro dias fizeram a sua obra. No vigésimo quinto, ela entregou a sua vontade. Assim, a mãe e o brâmane venceram.

Estas cartas são escritas, como vocês sabem, com um propósito definido. Procuramos mostrar a vocês o que acontece atrás da porta, a própria porta da fotografia, figura de todas as portas, para que, vendo o que há por trás, vocês entendam com que ferocidade morde o tigre.


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