Capítulo 23 · 7 min de leitura · 9 min de escuta
Diabolismo Divinizado
"Ao lado dos sacrificadores, elas (as mulheres do templo) são as pessoas mais importantes do templo. Que um templo destinado a ser lugar de adoração, e frequentado por centenas de homens e mulheres de coração simples, seja tão poluído, e isso em nome da religião, é quase inacreditável; e que meninos indianos cresçam até a idade adulta acostumados a ver a imoralidade protegida nesses templos sob um manto divino, faz o nosso coração adoecer e desfalecer."
Sra. Fuller, Índia.
PERDOEM o título deste capítulo. Não consigo escrever outro. Às vezes as amplas e lisas planícies da vida são atravessadas por uma fenda negra e recortada, rasgada, ao que parece, por uma erupção da força ígnea que está embaixo. De repente nos vemos bem junto dela; ela se abre bem diante dos nossos pés.
Duas moças vieram nos ver hoje; irmãs, mas afinadas em tons diferentes. Uma era bastante comum, uma moça alegre, com muitas joias e um rosto feliz e contente. A outra era de fibra mais fina; olhava-se para ela como se olha para a capa de um livro, imaginando o que há dentro. Ambas eram casadas; nenhuma tinha filhos. Essa era a única tristeza que a mais nova já tivera, e não parecia pesar muito.
A mais velha parecia ter esquecido como sorrir. Às vezes, quando a outra ria, seus olhos se iluminavam por um momento, mas a sombra neles se aprofundava quase antes que a luz tivesse chegado; grandes olhos castanhos e suaves, cheios daquele olhar mudo que os animais têm quando estão sofrendo.
Eu conhecia a história dela e entendi. Ela foi prometida em casamento, ainda bebê de quatro anos, a um rapaz bem mais velho; um menino adorável, dizem, generoso e franco. Os dois, naturalmente, pertenciam à mesma Casta, a Vellalar, e foram muito bem criados.
No sul da Índia, nenhuma cerimônia importante é considerada completa sem a presença das "Servas dos deuses". São moças e mulheres que pertencem ao templo (isto é, que pertencem aos sacerdotes do templo), as quais, como nunca se casam, "exceto com o deus que nunca morre", jamais podem ficar viúvas. Daí o caráter auspicioso da sua presença em noivados, casamentos, festas de todo tipo e até funerais.
Mas esse grupo de Vellalars, como clã, havia se elevado acima da superstição popular, e não se permitia que a presença desmoralizante dessas mulheres profanasse nem o noivado nem o casamento de nenhuma criança da família. Assim, o menino e a menina cresceram tão imaculados quanto hindus jamais o são. Sabiam o que acontecia em outros lares, mas seu clã era grande, nele encontravam a sua convivência, e pouco se encontravam com outros.
Pouco antes do casamento, o rapaz foi adorar no grande templo perto do mar. Ouvira falar da sua santidade a vida toda, e quando menino muitas vezes fora com os pais em peregrinação até lá, mas agora ia para adorar. Levou sua oferta e foi. Foi outra vez, e mais outra. Tudo o que viu ali era religião; tudo o que fez era religioso. Poderia haver mal nisso?
Ele se casou; sua pequena noiva foi com ele, confiante. Ela sabia mais sobre ele do que a maioria das noivas indianas sabe sobre o marido. Ouvira dizer que ele era carinhoso, e pensava que seria bondoso com ela.
Passaram-se um ou dois anos, e o rosto da menina tinha uma expressão que até os descuidados notavam, mas ela nunca dizia nada que lhes desse a chave daquilo. Foi passar algumas semanas na casa do pai, e eles viram a mudança, mas nem mesmo com eles ela quis falar.
Então as coisas pioraram. A moça emagreceu, e os vizinhos comentaram, e o pai ouviu e entendeu; e, para evitar um escândalo, levou-os para longe da cidade onde moravam e fez todo o esforço para lhes dar um novo começo num lugar onde não fossem conhecidos. Mas os anéis daquela serpente do pecado divinizado haviam se enroscado no rapaz, corpo e alma; ele não conseguia escapar.
Mudaram-se outra vez para outra cidade; aquilo o seguiu até lá, pois ali havia um templo, e um templo significa aquilo.
Então o demônio da crueldade se apoderou dele; ele bebia, coisa vergonhosa na sua Casta, e depois segurava a mulherzinha no chão, enfiava-lhe um pedaço de pano na boca, e batia nela, e a chutava, e a pisoteava, e arrancava as joias das suas orelhas. Os vizinhos viram e contaram.
Depois ele se recusou a lhe trazer dinheiro, e ela foi morrendo de fome aos poucos, ainda em completo silêncio, até que por fim a fome quebrou sua vontade resoluta, e ela pediu arroz aos vizinhos. E ele fez mais, mas isso não pode ser contado. Quantas vezes a gente para ao escrever cartas para casa. A verdade inteira jamais pode ser contada.
Ela ainda é só uma menina, ao menos em anos; em sofrimento, ah, como é velha! Nem metade se sabe, pois ela nunca fala; leal e fiel a ele em tudo. Só sabemos o que os vizinhos sabem, e o que dizem seus olhos escuros e silenciosos, e o rostinho magro, e as mãos.
Ela estava muito cansada e doente hoje, mas não quis admitir, corajosa almazinha! Eu podia ver que a nevralgia lhe torturava a cabeça, e cada membro tremia quando ela se levantava; mas o que mais me comoveu foi o silêncio com que suportava tudo. Eu só a tinha visto uma vez antes, e agora ela vai para muito longe com o marido, para outra cidade, e talvez eu não a veja mais. Estava cansada demais para escutar muito, e sabe tão pouco, nem de longe o suficiente para nisso descansar a alma. Não sabe ler, por isso é inútil escrever para ela. Vai para longe, fora do nosso alcance; graças a Deus, não fora do Dele.
Nós os vimos partir no carro de bois, com um criado caminhando atrás. O rostinho pálido da irmã mais velha olhava pela abertura traseira do carro; ela fez o salaam enquanto se afastavam. Um rosto tão doce em sua força silenciosa, tão maravilhosamente gentil, e ainda assim tão forte, forte para suportar.
Vocês se admiram de que eu chame esse tipo de coisa de um olhar até o fundo do inferno? Admiram-se de que ardamos ao pensar em tais coisas acontecendo em Nome de Deus? Pois eles pensam no seu deus como Deus. Em Seu Nome os templos são construídos e dotados de rendas, e providos de "Servas" para fazer a obra do diabo. Sim, aqui o pecado é divinizado.
E a vergonha das vergonhas é que alguns ingleses patrocinam e, em certa medida, sustentam essa iniquidade. Comparecem a festividades em que essas moças estão presentes para cantar e dançar, e não veem nada de vergonhoso nisso. Ainda em 1893, quando os Reformadores Sociais Indianos desta Presidência pediram a dois ingleses notáveis que desaprovassem "essa prática perniciosa" (a instituição das Escravas dos deuses) "recusando-se a comparecer a qualquer festividade em que elas sejam convidadas a estar presentes", esses dois homens ilustres, representantes da nossa Rainha, recusaram-se a tomar qualquer providência a respeito. Certamente este é um estranho mau uso da nossa posição como governantes da Índia.
Há tantas necessidades em toda parte que quase não gosto de falar das nossas, mas precisamos, sim, de alguém que trabalhe entre essas mulheres e moças do templo. Praticamente nada está sendo feito por elas, porque é impossível que qualquer uma de nós trabalhe entre elas e entre as outras ao mesmo tempo. O Lar mais próximo para onde poderíamos mandar uma delas fica a quatrocentas milhas de distância. É preciso alguém com idade suficiente para já ter experiência nesse tipo de trabalho, e ainda jovem o bastante para aprender a língua.
Muitas dessas Escravas dos deuses foram compradas, ou obtidas de alguma outra forma, quando eram menininhas inocentes, e não podem ser responsabilizadas pela vida terrível a que são condenadas pela lei da religião hindu. Muitas delas se endureceram além de qualquer desejo de ser outra coisa do que são; mas às vezes vemos o rosto de uma moça que parece que poderia ter esse desejo, se ao menos tivesse a chance de saber que existe algo melhor para ela.
Será que, dentre as muitas que estão aí na pátria, Deus tem uma, ou melhor, duas, que possam vir com Ele a este Distrito do Sul da Índia para fazer o que será sempre uma obra terrível, ao longo daquela fenda? Se ela vier, ou se elas vierem, que venham no poder do Espírito Santo, batizadas com o amor que persevera!
Este, então, é um olhar para dentro do hinduísmo, este horrendo sepulcro caiado, dentro do qual há ossos de mortos.
Capítulo 23 concluído
Diabolismo Divinizado