Capítulo 20 · 22 min de leitura · 28 min de escuta
O Chamado Intensificado
"Às vezes os homens e os meninos não vão embora para nos deixar falar com as mulheres; nesses casos, acho que a oração silenciosa é o melhor refúgio. Em outros lugares o povo nos recebe bem, mas ouve qualquer coisa, menos a Doutrina de Jesus Cristo; e isso é mais difícil de suportar do que qualquer outra coisa que eu conheça."
Anna Gordon, China.
"Que o povo que está em casa não se interesse apenas em ouvir sobre sucessos; precisamos educá-lo para que se interesse pela luta."
Rev. A. Schreiber, Sumatra e Índia.
"É uma luta que faz exigências às forças físicas, mentais e espirituais, e os adversários são muitos. O peso morto do paganismo, o pouco apreço pelo objetivo e propósito de quem trabalha, e a oposição real e vigorosa dos poderes das trevas fazem dela uma luta de verdade, e só homens de fibra, de coragem, dedicação e paciência e perseverança infinitas vencerão.
"Pintei um quadro desanimador? Estou assustando homens bons que poderiam ter se oferecido e se saído bem? Creio que não. Creio que o tipo certo de homens, aqueles que deveriam se oferecer, serão antes atraídos do que repelidos pelas dificuldades."
Rev. J. Lampard, Índia.
TIRAMOS esta fotografia naquele dia de dezembro que passamos na amistosa rua dos brâmanes. "Não há outra mulher na cidade que se poria assim diante de vocês!" disseram os homens, quando ela se adiantou e, sem nenhuma intenção de posar, ficou um momento encostada na parede e olhou direto para a câmera. A maioria das mulheres tinha medo até de olhar para ela, mas ela não tinha medo. Não quis ficar para conversar conosco, porém, e se afastou com o mesmo ar resoluto. Pois as viúvas brâmanes, de modo geral, não são de forma alguma uma gente acessível. Às vezes encontramos uma que se abre conosco e nos deixa falar-lhe da consolação com que nós mesmos somos consolados; mas com mais frequência nós as encontramos duras, ou endurecendo depressa.
É cedo demais para escrever sobre qualquer uma das que ouviram nestes últimos meses, mas incluímos esta foto para que vocês se lembrem daquelas que são mais livres do que a maioria das mulheres da Índia para seguir o Senhor Jesus Cristo, se ao menos deixassem o Seu amor ter uma oportunidade de atraí-las. Temos ido às várias cidades desta curva e da curva superior das montanhas, mas não chegamos às cidades da curva inferior, nem à metade das muitas aldeias espalhadas bem junto ao sopé das montanhas, e, a não ser quando saímos em acampamento, naturalmente não alcançamos as que ficam mais longe.
Há apenas cinco tardes de trabalho por semana, pois o sábado é dedicado a outras coisas, e o domingo pertence aos cristãos; e quando se mostra algum interesse, voltamos de novo à mesma aldeia, o que nos atrasa, mas certamente vale a pena. Depois há as interrupções—às vezes do lado hindu; as festas, por exemplo, quando nenhuma mulher tem tempo para ouvir; e do nosso lado, e do lado do tempo, por assim dizer, quando o grande calor ou a grande chuva tornam impossível o trabalho ao ar livre. Em teoria, a itinerância é deliciosamente rápida; mas na prática, como todo missionário itinerante sabe, ela é bem lenta. Há outras coisas a fazer; os que já foram trazidos precisam ser ensinados, treinados e cuidados como por uma mãe, e muito tempo precisa ser gasto esperando em Deus por mais; de modo que, olhando para trás, parece que fizemos muito pouco pelos milhares à nossa volta, e agora precisamos voltar para o lado oriental do distrito, pois alguns dos meninos convertidos estão lá na escola, e talvez haja fruto a colher depois da semeadura do ano passado.
Mas ergo os olhos do que estou escrevendo e vejo uma extensão de cordilheira de trinta milhas de comprimento, e essa cordilheira se estende sem interrupção por mil milhas rumo ao Norte. Sei quão pouco está sendo feito nas planícies lá embaixo, e me pergunto quando o povo de Deus vai despertar e entender que ainda resta muitíssima terra para ser possuída, e se levantar e possuí-la. Olhem comigo ao longo desta faixa de montanha; há cidades onde se está fazendo um trabalho, mas ele precisa de supervisão, e os missionários são poucos demais para fazê-la a fundo. Há cidades e muitas aldeias onde nada é sequer tentado, exceto que uma vez a cada dois anos, se possível, o Grupo Itinerante dos Homens passa por ali; mas isso não alcança bem as mulheres, e, mesmo que alcançasse, quanto vocês saberiam de Jesus se só ouvissem uma parábola, ou um milagre, ou alguns fatos da Sua vida, ou alguns pontos da Sua doutrina uma vez a cada dois anos? Não quero escrever apelos comoventes, nem desviar um único obreiro de nenhum outro lugar,—seria uma alegria saber que Deus usou estas cartas para ajudar a enviar alguém à China, ou a qualquer lugar onde Ele precise dos Seus obreiros,—mas não consigo deixar de me perguntar, ao olhar ao redor deste pedaço do campo, como é que os obreiros ainda são tão poucos.
Descobrimos que o povo das cidades e aldeias está disposto a nos deixar fazer o que chamamos de "trabalho de varanda" quando não nos deixa entrar em suas casas. O trabalho de varanda, como a pregação ao ar livre, é insatisfatório no que diz respeito às mulheres, mas é melhor do que nada.
Passamos uma tarde na rua que esta foto mostra. É uma via pública, e por isso não nos foi proibida; mas, mesmo assim, sempre pedimos permissão antes de percorrê-la. Parece a vocês uma rua tão comum, tão banal; não há nenhuma grandeza arquitetônica para impressionar quem a contempla e incutir-lhe a majestade da condição de brâmane; e, no entanto, aquela rua, e toda rua como ela, é para nós uma verdadeira Petra, pois é cercada por muros mais altos e mais fortes do que os muros do templo em torno dos quais ela foi construída; muros feitos, ao que parece, de alguma rocha cristalina, imperceptível até que se chegue junto dela, e mesmo então invisível, apenas reconhecível como algo que não se consegue atravessar.
Nosso primeiro dia ali foi animador. Começamos pela outra extremidade da rua, e, depois de alguma persuasão, os homens concordaram em passar para um lado e nos deixar o outro para as mulheres que quisessem vir. Nada de especial aconteceu, mas consideramos bom um dia em que temos uma única boa oportunidade de falar com tranquilidade às mulheres.
Na vez seguinte não foi tão bom. Nesse meio-tempo tinham ouvido tudo a nosso respeito, e que tínhamos conosco moças das Castas mais altas, e isso era terrível aos olhos deles. Pois o brâmane, da sua posição elevada de supremacia absoluta, faz pouquíssimo caso das almas daqueles a quem chama de casta baixa; mas, se alguns da faixa intermediária (ele não os descreveria como próximos de si, apenas perigosamente mais próximos do que os outros) "caem no poço da religião cristã", ele acha que é hora de começar a tomar cuidado para que o Poder que teve tal efeito sobre eles não tenha a chance de agir sobre ele e, acima de tudo, sobre as mulheres da sua casa. Assim, naquele dia fomos educadamente informadas de que ninguém tinha tempo para ouvir, e, quando algumas mulheres quiseram vir, uma viúva musculosa as enxotou. Olhamos com saudade para trás, para aquelas queridas mulheres brâmanes, mas apelar era inútil, e então fomos embora.
Numa das outras Castas, a Casta representada por esta fileira de homens, encontramos mais amabilidade; deixaram-nos sentar numa das pontas das estreitas varandas da frente das casas, e um bom número de mulheres se agrupou na outra. Tinham muito medo de contaminação ali, e não chegavam perto demais. E tinham as ideias mais estranhas a nosso respeito. Tinham certeza de que tínhamos um pó que, se o inalassem, as obrigaria a ser cristãs. Tinham ouvido que andávamos por aí "chamando crianças", isto é, acenando para elas e atraindo-as a nos seguir, e que recebíamos tanto por cabeça por convertido. Às vezes leva uma tarde inteira simplesmente para tirar-lhes da cabeça tais equívocos.
Ouvi esse aspecto comercial das coisas explicado por alguém que, ao que parecia, sabia do assunto. Uma bondosa velha brâmane tinha nos deixado sentar na soleira da sua porta, fora do sol, e aos poucos tínhamos avançado até a ponta da varanda, que era um pouco mais sombreada, onde uma moça que parecia querer ouvir estava sentada sozinha. A velha sentou-se atrás de nós, e então chegou um velho, e os dois começaram a conversar. Disse a velha ao velho: "Ela está tentando nos fazer entrar no Caminho dela." (Eu tinha cuidadosamente evitado qualquer expressão desse tipo.) O velho concordou que esse era provavelmente o meu objetivo. "O que ela ganha se a gente entrar? Você sabe?" "Ah, sim; se eu sei! Por um de nós, mil rúpias, e por um Vellalar, quinhentas. Ela ganha alguma coisa até por uma criança de casta baixa, mas por um de nós ganha mil inteirinhas!"
Os dois estavam muito interessados nessa conversa, e eu também, de fato, e pensei em esclarecê-los um pouco mais, quando a velha se levantou às pressas e entrou mancando em casa. Depois disso, sempre que passávamos, ela balançava a cabeça para nós e dizia: "Chee, chee!" Nenhuma persuasão jamais conseguiu levá-la a nos deixar sentar de novo na sua soleira. Era claro que estávamos atrás daquelas mil rúpias, e ela não queria saber de nós.
Na mesma aldeia havia uma menininha brâmane que muitas vezes tentava falar conosco, mas nunca lhe permitiam. Um dia ela arriscou ser apanhada, com todas as consequências, e atravessou correndo o riacho estreito que separa a rua dos brâmanes da aldeia, e falou com uma do nosso Grupo num sussurrinho apressado: "Ah, eu quero tanto ouvir falar de Jesus!" E contou que tinha aprendido na escola, na sua própria cidade, e depois fora mandada para a casa da sogra, nesta aldeia da selva, "aquela ali", apontando para uma casa onde nunca tinham sorrisos para nós; mas a sogra se opunha à pregação e tinha ameaçado jogá-la no poço se ela nos ouvisse. Nesse instante, uma voz dura a chamou, e ela saiu voando. Na vez seguinte que fomos àquela aldeia, ela estava trancada em algum lugar lá dentro.
Muitas vezes, ao passar, a gente vê rostos tímidos espiando por trás das pequenas colunas que sustentam as varandas, e anseia por chegar mais perto. Mas não convém fazer nenhuma aproximação sem ter certeza do terreno que se pisa. Isso só resulta numa súbita correria assustada para dentro de casa, e você não pode segui-las até lá. Tentar fazer isso seria mais do que grosseria—seria considerado contaminação.
Ainda ontem estávamos tentando chegar às mulheres que moram na casa grande da aldeia atrás do bangalô. Esta foto mostra a porta diante da qual ficamos por dez minutos ou mais, primeiro esperando, e depois suplicando à velha sogra que nos deixasse entrar no quartinho escuro onde vocês podem ver o vulto de uma mulher escondido atrás da porta.
Mas não podíamos ir até elas, e elas não podiam vir até nós. Havia apenas dois cômodos estreitos entre nós, mas o segundo deles tinha vasilhas de latão para água. Se tivéssemos entrado, aquelas vasilhas e a água nelas teriam ficado contaminadas. As mulheres não tinham permissão para sair; a sogra cuidava bem disso; nunca houve uma mais vigilante. Ela ficou parada à porta como uma grande galinha gorda, com suas saias brancas de viúva abertas como asas, e guardou eficazmente os seus pintinhos. "Vão! vão embora pelo caminho por onde vieram!" foi tudo o que ela teve a nos dizer.
O velho amável da casa não estava. Um moço amável entrou com um pouco de arroz e começou a medi-lo. Convidou-nos a sentar, o que fizemos, e ele mediu o arroz em pequenos copos de ferro, contando em voz alta enquanto o fazia, numa toada cantada. Ficou contente por o observarmos, e era interessante observar, pois ele fazia exatamente como o versículo descreve: calcando o arroz, sacudindo a medida de ferro, amontoando o arroz até ficar transbordante, e ainda assim contando esse copo abundante como um só; depois entregou o cesto cheio de arroz a uma criança que estava esperando e perguntou o que podia fazer por nós. Dissemos-lhe o quanto queríamos ver as mulheres da casa, mas ele não gostou da ideia de enfrentar a vigorosa velha sogra, e então desistimos da tentativa e saímos. Ao passarmos pelo muro dos fundos, que cerca os aposentos das mulheres, vimos uma moça espiar por cima do muro como se quisesse falar conosco, mas ela foi puxada para trás no mesmo instante por aquela senhora tirânica, e um cachorro veio pulando por cima, latindo furiosamente, o que fez uma dúzia de outros ganirem à nossa volta, e, assim escoltadas, nos retiramos.
Esta casa fica na Aldeia do Mercador, a menos de cinco minutos do nosso portão, mas as mulheres que vivem nela estão bem longe de qualquer chance de ouvir. Os homens nos deixaram entrar naquele dia para tirar a fotografia, e esperávamos com isso fazer amizade; mas, embora seis famílias morem ali (pois a casa é grande; a fotografia mostra só uma ponta da varanda que corre ao longo de toda a sua extensão), nunca nos permitiram falar uma única vez com nenhuma das mulheres; a sogra de todas as seis cuida para que nunca tenhamos a chance. Uma das crianças, uma menininha querida, às vezes nos segue lá fora, mas ela só tem sete anos e não é muito corajosa; assim, embora evidentemente aprenda alguns dos corinhos que cantamos, tem medo de ser vista ouvindo, e nunca ouve muito de cada vez.
Essas são algumas das dificuldades práticas no caminho para alcançar as mulheres. Há outras. Suponha que você consiga entrar, ou, o que é mais provável no trabalho pioneiro, suponha que consiga uma varanda; mesmo então, as coisas estão longe de correr às mil maravilhas. Pois, antes de tudo, faz um calor perigoso. O sol castiga a rua ou o pátio até a um ou dois palmos da beirada de pedra onde você se senta, e reflete para cima. O brilho refletido significa febre, por isso você tenta se afastar um pouco mais dele sem ferir os sentimentos de ninguém, explicando minuciosamente por que está fazendo isso, para que não pensem que sua intenção é tocá-los às escondidas; e então, tendo ganho até aí a confiança deles, você começa talvez com o livro sem palavras, ou com um cântico com melodia indiana, ou com a gravura de alguma parábola—nunca do nosso Senhor—ou, mais frequentemente ainda, achamos que o melhor caminho é abrir a Bíblia, pois todos respeitam um Livro Sagrado, e ler dela algo que sabemos que vão entender. Em geral encontramos uma ou duas mulheres pelas varandas, e mais duas ou três chegam em poucos minutos, e, vendo isso, mais duas ou três. Mas atraí-las e retê-las são duas coisas diferentes. Não é fácil prender as pessoas para ouvirem o que não têm nenhum desejo especial de ouvir. Mas somos ajudadas; não estamos sozinhas. É sempre uma força lembrar disso.
Uma vez bem lançada a conversa, começam as interrupções. Você está no meio de um milagre, talvez, e a essa altura uma dúzia de mulheres já se juntou e alegra o seu coração ouvindo bem, quando um homem do outro lado da rua vem andando sem pressa e pergunta se pode fazer uma pergunta, ou a faz de uma vez. Ele ouviu dizer que o nosso Livro diz que, se você tiver fé, pode erguer um monte e lançá-lo no mar. Ora, ali está um monte, e ele aponta para o pilar lá na planície, que se ergue a prumo por cinco mil pés, uma coluna de rocha maciça. Há mar do outro lado, diz ele; lance-o lá, e nós creremos! E as mulheres riem. Mas uma mais inteligente se volta para você: "O seu Livro diz isso mesmo?" pergunta ela, "então por que você não faz isso, para nós vermos?" E o homem se intromete com outra observação, e uma mulher na beirada se afasta, e você deseja que o homem fosse embora.
Talvez ele vá, ou talvez você consiga desviá-lo do visível e fazer com que ele e aquelas mulheres também ouçam algum testemunho do Poder que move o invisível, e você está bem no cerne do assunto quando surge outra objeção: "Você diz que só há um Deus verdadeiro, mas ouvimos dizer que vocês adoram três!" ou: "O seu Deus pode guardar você do pecado?" E você tenta, com a ajuda de Deus, responder de modo a evitar discussão, e talvez, para sua alegria, consiga, e algumas estão ouvindo atentamente de novo, quando uma mulher interrompe com uma pergunta sobre os seus parentes, que você já respondeu antes, mas ela chegou tarde e quer ouvir tudo de novo. Você a satisfaz como pode, e então, sentindo com que rapidez os preciosos minutos estão passando, tenta, oh, com tanto empenho, remi-los e enchê-los de obra para a eternidade, quando de repente toda a comunidade se concentra na sua irmã tâmil. Quem é ela? Você tinha contornado a pergunta no início, sabendo o que viria em seguida, mas elas voltam à carga. Se ela é uma "cristã de nascimento", exclamam, e se afastam com medo de contaminação—"Casta baixa, casta baixa!" e a palavra corre ao redor com desprezo. Se ela é uma convertida, fazem perguntas sobre os parentes dela (provavelmente estiveram adivinhando entre si a Casta dela pelos últimos dez minutos); se ela não responde, deixam a imaginação correr solta; se responde, explodem de indignação: "Deixou a própria mãe! Quebrou a sua Casta!" e lhe dão nomes nada doces ao ouvido, e talvez se levantem todos de uma vez e se recusem a ter qualquer coisa a ver com uma pessoa tão vergonhosa.
Ou talvez você esteja tentando persuadir algumas delas a aprender a ler, sabendo que, se conseguir, haverá muito mais chance de ensiná-las, mas elas lhe garantem que não é costume das mulheres daquela aldeia ler, o que infelizmente é verdade; ou pode ser que você lhes esteja falando, como fala àquelas que talvez nunca mais veja, do Amor que as está amando, e no meio do relato um bebê berra, e toda a atenção se volta para ele; ou alguém quer entrar em casa, e é preciso abrir caminho para ela, com muito ajuntamento e confusão; ou um cachorro vem ganindo pela esquina, com uma pedra nos calcanhares e um bando de meninos em plena perseguição atrás dele; ou os homens gritam que está na hora de ir; ou as mulheres sugerem que está na hora de cozinhar; ou alguém diz ou faz algo perturbador, e o grupo se desfaz num instante, e cada uma corre para o seu buraco e fica ali, olhando para fora; e você ergue os olhos para aquelas portinhas escuras e sente que daria qualquer coisa que pedissem, se ao menos deixassem você entrar, e sentar-se ao lado delas num daqueles cômodos, e contar-lhes o fim da história que interromperam; mas isso elas não fazem. Ah, como entristece estar tão perto de alguém, e no entanto tão longe, como às vezes se está dessas mulheres. Você olha para elas, de pé nas suas portas, ao alcance da mão, mas fora de alcance, tão fora de alcance como se estivessem a milhares de milhas de distância. . . .
Exatamente quando eu escrevia essas palavras, uma mulher brâmane chegou à porta e olhou para dentro. Depois entrou e sentou-se, mas não falou. Vocês podem imaginar como o coração da gente salta até mesmo com uma coisa tão pequena como essa? As mulheres brâmanes não vêm nos ver todos os dias. Ela tirou um livro de tiras de folha de palmeira, e nós o lemos. Contava que ela era de uma família de sete, todos nascidos surdos-mudos; que de mãos dadas tinham partido a pé para Benares, para se afogar no Ganges; que um sipaio os tinha detido e levado a um Coletor inglês; que ele tinha sustentado os sete por um ano e depois os deixado ir; que eles tinham se dispersado e vagado por aí, visitando diversos lugares santos, sustentados pelos virtuosos aonde quer que fossem; e que a portadora ficaria contente em receber o que quer que lhe déssemos. . . . Ela se foi, uma pobre mulher surda-muda e inteiramente pagã; não conseguimos convencê-la a ficar e descansar. Ela é casada, contou-nos por sinais; o marido é surdo-mudo, e ela tem uma criança cega. Sentou-se no chão ao nosso lado por alguns minutos e fez perguntas—as de sempre, sobre mim, tudo por sinais; mas nada que conseguíssemos expressar por sinais podia de modo algum fazê-la entender coisa alguma sobre o nosso Deus. E, no entanto, ela parece saber pelo menos alguma coisa sobre o seu próprio. Apontou para a boca, e depois para cima, e depois para baixo e em volta, para mostrar as curvas de um rio, e indicou com bastante clareza como ia de rio santo em rio santo, e adorava junto de cada um, e apontou para cima e juntou as mãos. Ali estávamos, exatamente como eu estivera escrevendo, tão perto dela, e no entanto tão longe dela.
Mas a maior dificuldade de todas para alcançar as mulheres é que elas não têm nenhum desejo de ser alcançadas. Às vezes, como naquela tarde em que a menina veio e quis ouvir, encontramos uma que tem desejo, mas a maioria não tem nenhum; e, exceto nas cidades e aldeias mais adiantadas, onde lhes permitem aprender com uma evangelista nativa, elas mal têm a chance de ouvir o suficiente para fazê-las querer ouvir mais.
Então, como se para tornar o caso duplamente difícil (e essa lei se aplica a toda mulher, de qualquer Casta), ela é, aos olhos da lei, propriedade do marido; e, embora um cristão não possa por lei obrigar sua esposa hindu a viver com ele, um marido hindu pode obrigar sua esposa cristã a viver com ele; de modo que nenhuma mulher casada é jamais legalmente livre para ser cristã, pois, se o marido a reclamasse de volta, ela não poderia ser protegida, mas teria de ser entregue a uma vida que nenhuma mulher inglesa suportaria contemplar. Ela pode dizer que é cristã; ele não liga a mínima para o que ela diz. Deus ajude a mulher assim forçada a voltar!
Mas, crendo que um Poder mais alto do que o poder desta lei tão injusta intervirá, nós arriscaríamos qualquer penalidade e receberíamos uma esposa assim, caso ela viesse. Só que, ao lidar com as dificuldades e barreiras que se interpõem entre uma mulher indiana e a vida de uma cristã livre, é inútil fechar os olhos a esta última e mais incompreensível de todas as dificuldades, "uma lei inglesa, importada para a Índia e imposta com prisão", uma lei inglesa obsoleta!
Não temos nenhuma mulher brâmane convertida na nossa Missão Tâmil. Ouvimos falar de algumas em Travancore; sabemos de mais no Norte, onde os brâmanes são mais numerosos e menos exclusivistas; mas não há uma única mulher ou criança brâmane convertida bonâ fide em todo este Distrito. Havia uma, uma mulher muito idosa; mas ela morreu há dois anos. Podemos nos consolar com o pensamento de que certamente algumas das que ouviram se tornaram crentes em segredo. Mas será que um verdadeiro crente permanecerá em segredo para sempre? Podemos confiar que muitas criancinhas queridas morreram pequenas, amando Jesus, e foram para Ele. Mas e quanto àquelas que não morreram pequenas? Sei que se pode ter uma visão mais otimista, e, se o lado mais triste foi enfatizado nestas cartas, é apenas porque sentimos que vocês sabem menos sobre ele.
Pois tem-se escrito mais sobre os sucessos do que sobre os fracassos, e parece-nos mais importante que vocês saibam dos reveses do que dos sucessos da guerra. Teremos toda a eternidade para celebrar as vitórias, mas temos apenas as poucas horas antes do pôr do sol para conquistá-las. Não as estamos conquistando como deveríamos, porque o fato dos reveses é tão pouco percebido, e os reforços necessários não estão chegando, como chegariam se a situação fosse plenamente compreendida. São necessários reforços de homens e mulheres, mas, muito acima de tudo, reforços de oração. E assim procuramos contar a vocês a verdade—a verdade sem atrativos, sem romantismo—sobre os pagãos tais como os encontramos, sobre o trabalho tal como ele é. São necessários mais obreiros. Palavras não podem dizer o quanto são necessários, o quanto são desejados aqui. Mas nunca tentaremos seduzir alguém a pensar em vir pintando quadros coloridos, quando os fatos são em preto e branco. E se o preto e branco nunca atrair como as cores? Não nos importamos com isso; a nossa tarefa é dizer a verdade. O trabalho não é uma coisa bonita, para ser olhada e admirada. É uma luta. E campos de batalha não são belos.
Mas, se alguém é verdadeiramente chamado por Deus, todas as dificuldades e desânimos só intensificam o Chamado. Se as coisas fossem mais fáceis, haveria menos necessidade. Quanto maior a necessidade, mais claro o Chamado ressoa dentro de nós, mais profunda se torna a convicção: foi o Chamado de Deus. E, à medida que se obedece a ele, há a alegria da obediência, bem à parte da alegria do sucesso. Há alegria em estar com Jesus num lugar onde os Seus amigos são poucos; e às vezes, quando menos se espera, ao voltar para casa sem forças e sem ânimo depois de um dia numa cidade hostil ou indiferente, de repente—como, você mal sabe dizer—uma tal onda da alegria de Jesus flui sobre você e através de você, que tudo em você se aquieta com a sensação de uma alegria completa. Então, quando você O vê ganhando almas, ou ouve falar das vitórias dos seus companheiros, oh! tudo o que há em você canta: "Transbordo de alegria!"
Capítulo 20 concluído
O Chamado Intensificado