Capítulo 19 · 5 min de leitura · 6 min de escuta
Se É Tão Importante Assim. . . ?
"Imaginemos por um momento o que teria acontecido na encosta da Galileia, quando nosso Senhor alimentou os cinco mil, se os apóstolos tivessem agido como alguns agem hoje. Os doze estariam voltando atrás, servindo a primeira fileira vez após vez e deixando as fileiras de trás sem nada. Suponhamos que um deles, digamos André, se arriscasse a dizer a seu irmão Simão Pedro: 'Devemos todos alimentar a fileira da frente? Não deveríamos nos dividir, e alguns de nós ir às fileiras de trás?' Suponhamos então que Pedro respondesse: 'Ah, não; você não vê que estes da frente estão com tanta fome? Ainda não receberam nem a metade do que precisam; além disso, estão mais perto de nós, de modo que somos mais responsáveis por eles.' Então, se André insistisse no seu apelo, suponhamos que Pedro continuasse, dizendo: 'Muito bem; você tem toda a razão. Vá você e alimente todas aquelas fileiras de trás; mas não posso dispensar mais ninguém. Eu e os outros dez temos mais do que damos conta de fazer aqui.'
"Mais uma vez, suponhamos que André convença Filipe a ir com ele; então, talvez, Mateus exclame e diga: 'Ora, estão todos indo para aquelas fileiras mais distantes! Não vai ficar ninguém para esta gente necessitada aqui da frente?'
"Permitam-me perguntar aos membros do Congresso: vocês reconhecem de algum modo estas frases?"
Eugene Stock, no Congresso da Igreja em Shrewsbury.
ERA apenas uma coisa comum. Uma moça, muito doente e com dores terríveis, que se voltou para nós em busca de ajuda. Nada pudemos fazer por ela. A família dela recorreu a ritos pagãos. Prepararam-na para enfrentar o deus feroz que, segundo pensavam, estava à espera para arrebatá-la.
Fomos lá vez após vez, mas ela sofria tanto que não se podia dizer muita coisa; não parecia adiantar. Da última vez que fomos, a crise tinha passado; ela ia viver, contaram-nos com alegria. Agora estavam ansiosas para nos ouvir. "Contem-nos tudo sobre o seu Caminho!" clamavam as mulheres, falando todas juntas e muito alto. "Contem-nos a notícia do começo ao fim!" Mas, ai! elas conseguiam absorver muito pouco. Uma única Verdade inteiramente nova já era demais para elas. "Não faz mal", consolavam-nos elas, "venham todos os dias, e então o que vocês dizem vai se firmar no nosso coração." E eu tive de lhes dizer que partiríamos naquela noite e não poderíamos vir "todos os dias."
A moça voltou para nós o seu rosto paciente. Ela tinha sorrido ao ouvir o Nome de Jesus, e parecia que, lá no fundo da sua fraqueza, ela havia escutado quando falamos antes, e tentado entender. Agora parecia confusa e aflita, e todas as mulheres perguntaram: "Por quê?"
Ali, naquele quartinho quente e apinhado, veio sobre nós a consciência da distribuição desigual do Pão da Vida. As fileiras da frente dos Cinco Mil estão recebendo os pães e os peixes vez após vez, a ponto de parecer que é preciso suborná-las e suplicar-lhes que os aceitem, enquanto as fileiras de trás estão quase esquecidas. Será que estamos tão ocupados com as fileiras da frente, que conseguimos ver, que não temos tempo para as fileiras de trás, que estão fora de vista? Mas isso é justo? É isso o que Jesus, nosso Mestre, pretendia? Pode-se realmente chamar isso de justo?
As mulheres nos olhavam com ar de forte censura. Então uma delas disse, erguendo os olhos para mim: "Vocês dizem que isto é muito importante. Se é tão importante assim, por que não vieram antes? Vocês dizem que vão voltar se puderem, mas como podemos ter certeza de que nada vai acontecer para impedir vocês? Algumas de nós somos muito velhas; podemos morrer antes que vocês voltem. Essa partida não é boa." E repetia vez após vez: "Se é tão importante assim, por que vocês não vieram antes?"
Não pensem que a pergunta queria dizer mais do que dizia. Era apenas uma expressão humana de espanto; não era um desejo real por Deus. Mas a força da pergunta era muito maior do que a pobre velha que a fez imaginava; ela nos tocou no mais fundo do coração.
O povo viu que estávamos profundamente comovidas e se apertou mais à nossa volta para nos consolar, e uma querida avó idosa me abraçou, acariciou meu rosto com sua velha mão enrugada e disse: "Não fiquem aflitas; nós vamos adorar o seu Deus. Vamos adorá-Lo exatamente como adoramos o nosso. Agora, vocês vão embora contentes?"
A querida velhinha falava realmente a sério; queria tanto nos consolar. Mas a voz dela parecia misturar-se com vozes da nossa terra natal; e com outra—ouvimos outra—a Voz que eu tinha ouvido à beira do precipício—a voz do sangue de nossos irmãos, de nossas irmãs, clamando a Deus desde a terra.
Amigos, essas mulheres são reais para vocês? Olhem esta foto de uma delas. Certamente não foi um simples acaso feliz que fez o detalhe sair tão perfeito. Olhem esse rosto idoso, pensativo e nobre. Vocês conseguem olhar para ele e dizer: "Sim, eu estou a caminho da Luz, e você está a caminho das Trevas. Pelo menos é isso o que eu professo crer. E tenho pena de você, mas isso é tudo o que posso fazer por você; posso ter muita pena de você. Sei que isso não vai lhe mostrar o caminho das Trevas, onde você está, para a Luz, onde eu estou. Para lhe mostrar o caminho, eu teria de ir até você, ou talvez enviar-lhe alguém que quero para mim mesmo, ou abrir mão de algo que desejo ter; e isso, naturalmente, é impossível. Poderia ser feito se eu amasse a Deus o bastante—mas eu amo a mim mesmo mais do que a Deus ou a você."
Vocês não diriam uma coisa dessas, eu sei, mas "se alguém tem os bens deste mundo e vê o seu irmão passando necessidade, e então fecha o seu coração de compaixão contra ele, como permanece nele o amor de Deus?"
Capítulo 19 concluído
Se É Tão Importante Assim. . . ?