As Coisas Como Elas São
Petra

Capítulo 14 · 8 min de leitura · 11 min de escuta

Petra

"Esta obra na Índia . . . é uma das provas mais decisivas a que a Igreja de Cristo já foi submetida. Os povos contra os quais vocês pensam medir as suas forças são tais que, perto deles, as raças gigantes de Canaã não são nada."

Bispo French, Índia e Arábia.

FAZIA muito calor, e estávamos cansadas, e a voz amiga que chamava "Entrem! Entrem! Ah, venham descansar!" foi um som bem-vindo, e entramos.

Era uma querida e velha amiga minha, a única amiga verdadeira que tenho naquela antiga cidade hindu. Sua casa está sempre aberta para nós, e o cômodo de cima sempre vazio—ou assim se diz—quando precisamos descansar. Mas ela é hindu entre os hindus e, embora tão esclarecida que, por amor, nos toca livremente, tomando nossas mãos nas suas e até nos beijando, depois que saímos há uma purificação geral; cada peça de roupa usada enquanto estávamos na casa é cuidadosamente lavada antes do pôr do sol.

Dessa vez ela fez questão de nos dar de comer: mandou trazer bananas-da-terra e açúcar, partiu as bananas, passou a polpa no açúcar e ordenou que comêssemos. Então sentou-se satisfeita e foi fotografada.

Esta cidade, uma pequena e antiga cidade hindu, fica a duas horas de viagem de Dohnavur. Há trinta e oito templos e santuários de pedra dentro dela e ao seu redor, e quinhentos altares. Ninguém contou o número de ídolos; há duzentos debaixo de uma única árvore, perto de um dos santuários menores. Cada um dos templos maiores tem as suas mulheres do templo; há duzentas Servas dos deuses reconhecidas, e duzentas festas anuais.

Contas maravilhosas estão sendo feitas atualmente a respeito do progresso do cristianismo na Índia. Uma conta muito apreciada é apresentada assim: o número de cristãos aumentou durante a última década numa certa proporção. Mantida essa taxa uniforme de crescimento, segue-se que, dentro de um período calculável, a Índia será uma terra cristã. Uma falha nesse método de cálculo é que ele dá por certo que os brâmanes, os hindus de casta alta e os muçulmanos serão cristianizados no mesmo ritmo de progresso que hoje prevalece entre as classes oprimidas.

Há contas apresentadas com menos frequência. Aqui, no coração desta cidade hindu, elas se impõem com força; uma dessas contas, feita com cuidado, mostra que, no ritmo atual de avanço, levará mais de vinte mil anos até que as cidades hindus deste distrito sejam cristãs, ainda que só de nome. Outra, ainda mais espantosa, nos dá este resultado: segundo as leis que regem as estatísticas, terão de passar um milhão e trezentos mil anos antes que os brâmanes deste único distrito do sul da Índia sejam cristianizados. E, se a conta for feita de modo a abranger toda a Índia, o resultado é igualmente desconcertante para uma fé baseada em estatísticas.

Louvado seja Deus, esta não é a Sua aritmética! É uma invenção puramente humana. Cremos no Espírito Santo, Senhor que dá a vida; cremos em Deus, sim, no Deus que chama as coisas que não são, como se já fossem: portanto, essas contas nada provam. Mas, se tais contas chegam a ser feitas, deveriam ser feitas dos dois lados, e não só do lado que produz os resultados mais animadores.

Duas de nós passamos uma manhã na rua dos brâmanes. Nessas velhas cidades hindus, a rua dos brâmanes é construída em volta do templo, e nas cidades grandes essa rua é via pública, e nos deixam entrar. As mulheres ficavam à sombra das pequenas varandas escuras e frescas, e nós ficávamos lá fora, ao sol, tentando fazer amizade com elas. Então alguns rapazes do Colégio da Missão nos viram e se envergonharam de que estivéssemos naquele calor escaldante, e nos ofereceram uma varanda; mas as mulheres sumiram no mesmo instante, e vieram os homens, e os rapazes nos suplicaram a meia voz que não disséssemos nada sobre a nossa religião.

Falamos por alguns minutos, pondo toda a nossa alma naquela oportunidade. Sentíamos que nossas palavras eram como penas flutuando contra rochedos; mas demos testemunho, e eles escutaram até que, como observou um deles, chegou a hora do banho do meio-dia, e percebemos que queriam que fôssemos embora. Fomos então, e encontramos um muro no alto da rua dos brâmanes, e ficamos à sua sombra e tentamos de novo. Multidões de homens e rapazes se juntaram ao nosso redor, mas nossos rapazes do Colégio ficaram ao nosso lado e ajudaram a acalmá-los. "Agora vocês veem," disseram-nos, enquanto desciam conosco a rua de fora, "como o cristianismo é totalmente impossível para nós."

Às vezes é bom tomar tempo para medir o poder do inimigo que combatemos. Naquele fim de tarde, duas de nós tivemos alguns minutos de sossego ao pé das muralhas do templo. Aquelas grandes muralhas, erguendo-se tão alto acima de nós, estendendo-se tão longe além de nós, pareciam uma figura da muralha que Satanás construiu ao redor dessas almas.

Podíamos tocar essa muralha visível, apoiar-nos contra ela, sentir a sua força sólida. Lance-se com força contra ela, e você se machucaria, poderia cair para trás sangrando; ela não teria cedido um palmo sequer.

E a outra muralha, a invisível? Ah, nós também podemos tocá-la! O toque do espírito é uma coisa real. E a dor do espírito também. Mas a muralha continua de pé, forte.

Era noite de luar. Tínhamos dado a volta inteira à grande praça do templo, descido as silenciosas ruas dos brâmanes, e tínhamos estado no salão de colunas, olhado através da porta aberta e visto a luz no santuário.

Agora estávamos lá fora, na luz limpa de Deus, olhando para a massa da torre, que se erguia negra como breu contra o céu. E sentimos como éramos pequenas.

Então as influências do lugar começaram a se apoderar de nós. Não era apenas alvenaria; era mistério. Ali estavam "os dominadores das trevas desta era."

Como tudo o que é da terra parecia inútil então, diante daquelas forças e potestades tremendas. Como pareciam espadas de brinquedo todas as armas da carne. Louvado seja Deus pelo Espírito Santo!

Enquanto estávamos ali sentadas, um brâmane veio ver o que fazíamos, e lhe contamos alguns dos nossos pensamentos. Ele então nos perguntou se gostaríamos de ouvir os dele. Dissemos que sim, com prazer. Ele apontou para a torre do templo. "Esse é o meu primeiro degrau para Deus." Escutamos, e ele desdobrou, pensamento por pensamento, aquela estranha e antiga filosofia védica, segundo a qual Deus, sendo onipresente, revela-Se de vários modos, em formas visíveis em encarnações, ou em espírito. O método de revelação por formas visíveis é o mais baixo; é apenas, por assim dizer, o primeiro de uma série de degraus que conduzem ao mais alto, a adoração inteligente do Único Espírito Supremo e a absorção nele. "Ainda somos apenas criancinhas. Damos este pequeno primeiro passo, ele se esfarela debaixo de nós quando subimos ao seguinte, e assim, degrau por degrau, subimos do visível ao invisível, da matéria ao espírito—a Deus. Mas," acrescentou com cortesia, "assim como a minha fé é boa para mim, assim, sem dúvida, vocês acham a sua boa para vocês."

Na manhã seguinte descemos até o rio e conversamos com as pessoas que passavam a caminho da cidade. Era tudo tão bonito na luz da manhãzinha. Homens lavavam seus bois, e crianças entravam e saíam correndo da água. Mais adiante, rio abaixo, as mulheres davam banho em seus bebês e poliam seus potes de água de latão. As árvores se encontravam lá no alto, mas a luz rompia aqui e ali e fazia manchas amarelas na água. Numa daquelas extensões amarelas, uma moça estava de pé, inclinada para encher o seu pote; usava o carmesim comum do Sul, mas a luz batia nele, e batia no latão reluzente quando ela o erguia para debaixo do braço, e fazia dela um quadro, ali de pé com as suas roupas vermelhas e molhadas coladas ao corpo, contra o castanho e o verde da água e do bosque. Para onde quer que olhássemos havia algo belo para ver, e à nossa volta havia o som de vozes e risos, e o chapinhar musical da água; então, enquanto desfrutávamos de tudo aquilo, vimos isto:

Debaixo de uma árvore antiga, quinze homens andavam devagar, dando voltas e mais voltas, seguindo o curso do sol. Debaixo da árvore havia numerosos ídolos e montes de guirlandas de espirradeira e jasmim, trazidas frescas naquela manhã. Os homens eram de idade, de bela aparência; estavam inteiramente absortos no que faziam. Para eles não era uma farsa tola; era realidade.

Há algo na visão desse destronamento comum e evidente do nosso Deus que nos comove até o mais íntimo da alma. Não conseguíamos olhar para aquilo.

Vez após vez temos ido àquela cidade, mas hoje aqueles homens dão voltas em torno daquela árvore, e hoje aquela cidade é uma fortaleza não conquistada.

Petra, eu a chamei; a palavra representa muitas cidades muradas como aquela. No livro Evidence of Prophecy, de Keith, há um mapa de Petra, a antiga cidade forte de Edom, e, estudando-o, uma luz incidiu sobre a pergunta de Davi a respeito dela e sobre a sua própria resposta triunfante: "Quem me levará à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?" Não serás Tu, ó Deus? Pois o mapa mostra as montanhas por toda a volta, exceto a Leste, onde se abrem numa única passagem estreita, o único caminho de entrada. Havia só um caminho de entrada, mas esse único caminho de entrada existia!

Aqui está uma cidade murada até o céu por muralhas de Casta e de intolerância, mas tem de haver um caminho de entrada. Aqui está uma alma murada por todos os lados por total indiferença e orgulho, mas tem de haver um caminho de entrada.

"Quem me levará à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?" Não serás Tu, ó Deus?


Página 1 / 1 · 8 min restantes no capítulo