A Abnegação de Deus ·Simplicidade de Linguagem

Capítulo 11 · 7 min de leitura

Tradução por IA — aguardando revisão nativa

Simplicidade de Linguagem

A “simplicidade de linguagem” a que se refere a Terceira Questão significava, antes de tudo, usar tu e ti ao dirigir-se a uma única pessoa, em lugar do costumeiro vós. Esse testemunho, juntamente com o testemunho do vestuário simples, era uma das principais marcas que nos separavam como um povo peculiar. Dizer vós a uma só pessoa — fosse Amigo ou de fora — era tido como o cúmulo da mundanidade e da insinceridade. Nem uma única vez, até casar-me, ousei transgredir essa regra.

Naturalmente, isso tornava bastante difícil o convívio com o mundo de fora, pois o nosso modo singular de falar não deixava de provocar olhares curiosos ou risos abafados.

As raízes desse testemunho estavam na absoluta sinceridade dos primeiros Amigos. Sentiam ser desonesto empregar um pronome plural para uma só pessoa. Além disso, em seus dias, era costume tratar um superior por vós, reservando o tu e o ti para os inferiores. Mas os Amigos, que criam serem todos os homens iguais diante de Deus — e que criam nisso de um modo muito prático —, não podiam tolerar tais distinções. Por isso tratavam a todos do mesmo modo.

Aqueles primeiros Amigos eram democratas em cada fibra do seu ser, não por teoria política, mas por sua inabalável convicção de que Deus fizera de um só sangue todas as nações da terra, e de que todas eram igualmente Seus filhos. Era um nobre fundamento sobre o qual edificar a sua estrutura moral, e ajuda a explicar muitas práticas que de outro modo poderiam parecer singulares, ou até tolas.

Thomas Ellwood, em sua autobiografia, relata as várias coisas que se sentiu chamado a abandonar depois de convencer-se dos princípios Quakers. Acerca da linguagem simples, escreveu que usar vós para uma só pessoa era uma “forma de falar corrupta e errônea”, adotada em “tempos posteriores e corruptos” como meio de lisonjear a vaidade mundana. Visto que Deus sempre se dirigira aos homens por tu, e os homens sempre se haviam dirigido a Deus por tu, Ellwood considerava obrigação moral seguir esse exemplo. Sob a iluminação daquilo que chamava “um puro raio de luz divina”, sentiu-se compelido a abandonar muitos desses “maus costumes” que haviam brotado durante a longa noite de trevas espirituais.

Tão insistente era esse testemunho na minha infância, que teria parecido chocantemente mundano dizer vós a uma só pessoa, quase tão “vistoso” quanto usar seda ou escarlate. Mesmo depois de crescida, quando passei a sair mais pelo mundo e a encontrar cristãos bons e fervorosos que usavam a palavra proibida sem o menor escrúpulo, custou-me grande esforço amoldar os meus lábios Quakers para pronunciá-la. Pouco a pouco, a dificuldade se desvaneceu. Agora, passados mais de setenta anos, o tu e o ti tornaram-se para mim simplesmente a linguagem do afeto íntimo, escapando-me naturalmente sempre que alguém encontrou de fato o caminho do meu coração. Muitas vezes julgo os meus próprios sentimentos por uma pessoa justamente por essa prova: quando me ouço dizer tu, sei que comecei a amá-la. Muitos dos meus amigos — alguns sem nenhuma ligação com os Quakers — apanharam de mim o hábito, e usam essas queridas palavras antigas em nosso convívio particular. Minha amada amiga Frances Willard era uma deles; tratamo-nos por tu e por ti durante muitos anos.

O escritor que citei antes, em A Boy’s Religion, descreve como se sentia, quando menino, a respeito da linguagem simples.

“Eu dizia ‘tu’ e ‘teu’ a todos”, escreveu ele, “e tão depressa teria usado linguagem profana quanto dizer ‘vós’ ou ‘vosso’ a qualquer pessoa. Eu pensava que somente os Amigos iam para o Céu, e por isso supunha que usar ‘tu’ e ‘teu’ fosse uma das principais provas de admissão. Ninguém jamais me disse tal coisa, e, se eu tivesse perguntado, ter-me-iam corrigido — mas, por anos, essa foi a minha firme convicção.”

Ele prossegue descrevendo a pena que sentia dos vizinhos que jamais seriam, como imaginava, “admitidos”, e o seu espanto de que não se unissem simplesmente à Reunião e não aprendessem a falar corretamente. Chegou mesmo a ensinar a linguagem simples a um pequeno amigo “gentio”, e o menino usou-a fielmente com ele até que a pressão do mundo de fora, como ele diz, “se tornou pesada demais”, por volta dos doze anos.

Outro testemunho ligado à simplicidade de linguagem era a proibição de chamar alguém de Sr., Sra. ou Srta. Cria-se que esses títulos violavam o espírito das palavras de Cristo: “Nem sejais chamados mestres, porque um só é o vosso Mestre, o Cristo.” Nenhum Amigo sincero podia conceder um título a um homem rico e recusá-lo a um pobre; assim, usavam-se para todos os nomes próprios — Thomas, Samuel, Abigail, Elizabeth, e assim por diante. (Não tínhamos Reginalds, Bertrands, Ethels nem Evelyns naqueles dias!)

Onde a idade exigia um pouco mais de respeito, esperava-se que os jovens usassem o nome completo — Thomas Wistar, Abigail Evans, Samuel Bettle, Elizabeth Pitfield. Essa prática criava dificuldades sem fim no trato com “a gente do mundo”, e ocasionou mais de um dilema embaraçoso.

Nosso querido pai era muito rigoroso nesse ponto, e jamais se deixava persuadir — por mais inconveniente que fosse — a usar os “vistosos’’ títulos de Sr. ou Sra. Lembro-me bem do divertimento que tínhamos, já crescidas, ao observar os seus engenhosos métodos de escapar à dificuldade sempre que não sabia o nome próprio de alguém. Em lugar de Sr. ou Sra., inventou a palavra substituta Cummishilamus, e dizia, por exemplo: “Cummishilamus Coleman disse…” ou “Cummishilamus Coleman fez…” Quando, porém, tinha de endereçar uma carta, não podia, é claro, escrever semelhante palavra, e então voltava-se para uma de nós, com um brilho alegre em seus queridos olhos, e dizia: “Vem, Han, tu não tens escrúpulos — podes escrever o Sr. ou a Sra. nesta carta.”

A simplicidade de linguagem também nos proibia de saudar os nossos amigos com bom dia ou boa noite, ou de dizer adeus ao nos separarmos deles. Cria-se que adeus fosse uma corrupção de Deus esteja contigo, e, visto que Deus estava sempre contigo, parecia uma espécie de incredulidade exprimir tal desejo. E dizer bom dia ou boa noite — o desejo de que tenhas uma boa manhã ou uma boa noite — implicava dúvida quanto ao fato, sabido de todo Amigo, de que as tuas manhãs e as tuas noites devem, na ordem da Divina Providência, ser sempre boas.

Cresci com o nítido sentimento de que essas expressões eram muito vistosas e mundanas, e que o modo certo — ou, como dizíamos, o modo simples — era saudar os amigos com Como estás tu? ou Como vais tu?, e despedir-se deles com a simples palavra Passa bem.

Por que Passa bem era considerado mais verdadeiro do que adeus, ainda que adeus significasse de fato Deus esteja contigo, nunca consegui compreender.

Em perfeita coerência com o ideal Quaker da absoluta igualdade de todos os seres humanos aos olhos de Deus, a simplicidade de linguagem também nos proibia de dar o título de Santo a qualquer cristão já falecido.

Nunca nos era permitido usá-lo, nem sequer como prefixo. Por exemplo, nunca falávamos dos Evangelhos como o Evangelho segundo São Mateus ou São Marcos, mas sempre como o Evangelho segundo Mateus, ou Marcos, Lucas ou João.

Vi recentemente, num velho diário do século dezessete, o relato de uma Amiga muito conscienciosa que sentia um “impedimento” contra usar o prefixo santo até mesmo em nomes de lugares. Certa vez teve grande dificuldade em encontrar St. Mary Axe porque, tendo omitido o Santo, perguntou apenas pela “Rua Mary Axe”, que ninguém compreendeu.

Como testemunho contra a idolatria, também nos era proibido chamar os meses do ano ou os dias da semana por seus nomes “pagãos”. Ensinavam-nos a aderir à “simplicidade da verdade” usando números: Primeiro Mês, Segundo Mês; ou Primeiro Dia, Segundo Dia, e assim por diante. Essa prática era tão universal no meu círculo que nunca sequer me ocorreu usar os nomes pagãos.

Lembro-me de quanto me escandalizei quando vim para a Inglaterra em 1873 e descobri que os Amigos ingleses haviam abandonado a prática e voltado aos antigos nomes “pagãos”. Por algum tempo, mal conseguia persuadir-me de que fossem realmente Amigos. E ainda hoje, quando dato as minhas cartas com esses nomes, sinto como se estivesse fazendo uma pequena e proibida incursão pelo “mundo vistoso”.

Índice

A Abnegação de Deus Hannah Whitall Smith

Página 1 / 1 · 7 min restantes no capítulo