Capítulo 9 · 8 min de leitura
A Pedra de Tropeço
Jesus foi motivo de muita ofensa! Tanto Pedro quanto Paulo citam o Antigo Testamento ao chamá-lo de “uma pedra de tropeço” (Romanos 9:33 e 1 Pedro 2:8).
Os fariseus se ofendiam com Ele, os demônios se ofendiam com Ele e até a sua própria família se ofendia com Ele!
Mas havia pessoas que Ele deliberadamente evitou ofender, como os desprezados cobradores de impostos. Ele mandou Pedro ir até o mar, onde encontraria o imposto exigido na boca de um peixe, “para que não lhes demos motivo de ofensa” (Mateus 17:24). Outros, porém, Ele parece ofender de propósito!
João Batista — o primo de Jesus João Batista era primo em segundo grau de Jesus e havia nascido apenas alguns meses antes dEle. Ficou cheio do Espírito Santo ainda no ventre de sua mãe e foi o primeiro a demonstrar qualquer reação ao Messias prometido. Saltou no ventre de Isabel quando Maria, a mãe de Jesus, chegou para contar pela primeira vez a história extraordinária da concepção de seu filho.
Tenho certeza de que os dois meninos passaram muitas horas juntos durante a infância. Provavelmente brincaram e trabalharam juntos, correram e brigaram juntos, conversaram e discutiram juntos. Talvez tenham até conversado sobre o peso que crescia no coração de cada um deles.
Por fim, João sai de casa para responder a um estranho impulso interior. É bem possível que Jesus tenha sido o único a compreender quando ele anunciou que precisava “preparar o caminho do Senhor” (Mateus 3:3) e partiu para o deserto.
Ali, João começou a pregar a todos os que quisessem ouvi-lo.
“O Messias está chegando”, proclamava ele, “e nós não estamos prontos! Arrependam-se e sejam batizados. Voltem para o seu Deus!”
(Mateus 3:2-12) O povo respondeu, buscando reconciliar-se com Jeová e demonstrando sua nova decisão ao ser batizado no riacho da região, o rio Jordão. O batismo deles era um batismo de arrependimento e de retorno à ortodoxia.
Certo dia Jesus veio ao rio Jordão, e João bradou ao povo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29). João testemunhou que viu uma pomba descer sobre Jesus e permanecer sobre Ele.
Além disso, o Espírito Santo já havia dito a João que esse seria o sinal do Messias que haveria de vir, como está escrito em João 1:34: “Eu vi e tenho testificado que este é o Filho de Deus.”
João não era um pregador popular, desses que “afagam os ouvidos das pessoas”.
A maioria dos que iam ouvi-lo e vê-lo procurava uma curiosidade, esperando estar presente para ouvi-lo condenar os líderes autojustificados da sinagoga.
Ele tinha coisas bem escolhidas a dizer a esses líderes, e o povo adorava; Herodes, porém, não. Ele era o governante do Império Romano naquela época, um homem perverso que mantinha um caso com a cunhada — um caso que João condenava abertamente. Para calar aquela voz, Herodes mandou prender João.
Consigo imaginar os pensamentos de João naqueles calabouços.
“Herodes, seu velho tolo! Você pensa que está no controle e que me pôr na prisão vai calar a minha voz. Mas o meu primo é o Messias, e Ele veio derrubar esse seu imperiozinho e estabelecer o seu próprio reino! Ele vai me tirar desta prisão logo, e você é que ficará trancafiado! Ele declarou que veio libertar os cativos. Mal posso esperar para ver a sua cara quando Ele fizer isso!” E com isso João se recosta na cela e espera… e espera… e espera… Enquanto isso, Jesus continua o seu ministério nas aldeias vizinhas, sem sequer arranjar tempo para visitar João na prisão!
Com certeza Ele viria ao menos visitá-lo! Mas, como Ele não vem, João se ofende — e acaba sendo decapitado! Os discípulos de João são enviados a Jesus para fazer uma pergunta direta: “És tu, de fato, o Messias, ou devemos esperar outro?” (Mateus 11:3). “Tu não atendes aos nossos critérios, pois não estás fazendo o que esperávamos que fizesses!”
Jesus responde: “E, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se ofender por minha causa” (Lucas 7:22-23).
Maria, a querida amiga de Jesus Jesus tinha alguns amigos muito especiais que moravam no pequeno povoado de Betânia. Ele estava a poucos quilômetros dali quando recebeu a notícia de que seu amigo Lázaro estava morrendo e de que suas irmãs, Maria e Marta, estavam de luto por ele. “Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. Assim, quando ouviu que ele estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde estava” (João 11:5-6).
Não lemos sobre nenhum milagre, nenhum ensino, nada que Ele tenha feito durante aqueles dois dias! E Lázaro morreu! Quando Jesus finalmente chegou a Betânia, Lázaro já estava no sepulcro havia quatro dias, e suas irmãs estavam em profunda tristeza. É Marta quem sai para recebê-lo. Isso é digno de nota, pois ela é aquela em quem costumamos pensar como “a que fazia o trabalho pesado” — a que vivia presa à cozinha — enquanto sua irmã Maria largava tudo para sentar-se aos pés de Jesus, lavando-os com perfume precioso e enxugando-os com os cabelos, absorvendo cada palavra que Ele dizia. Hoje, Maria estaria em destaque na atividade cristã — presidente do Grupo Feminino de Adoração local —, enquanto sua irmã ficaria nos bastidores fazendo café e servindo biscoitos.
Marta disse a Jesus: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:21). Jesus lhe assegura que seu irmão viverá de novo, pois Ele é a ressurreição e a vida.
Não ouço nenhuma condenação no comentário de Marta, apenas tristeza. Em seguida ela vai até Maria para pedir que venha a Jesus.
Mas por que Maria já não estava lá? Certamente ela sabia que Ele estava chegando! Todos saberiam disso, mas Maria continuou sentada em casa. Por quê? Permita-me sugerir: ela estava emburrada!
Ela estava ofendida! Quando chega até Jesus, cai diante dEle chorando e diz as mesmas palavras que Marta havia dito: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:32).
Repare que Jesus não diz a Maria as mesmas palavras de consolo que dirigiu à sua irmã. Será que isso se deveu ao tom de voz dela? Acusador? Julgador?
Em vez de consolar Maria, “Jesus chorou” (João 11:35) — mas não porque Lázaro estivesse morto: Ele sabia disso havia algum tempo e sabia também que, dali a pouco, todos estariam se alegrando com a ressurreição dele. Ele não chorou porque Maria, Marta e seus amigos estivessem tristes: Ele sabia que estariam, pois isso é natural diante da morte de alguém amado.
Ele chorou porque Maria estava ofendida.
Jesus morreria pelas nossas “ofensas”, mas Ele ainda se entristece quando nos ofendemos.
No caminho para Betânia, Jesus havia dito aos seus discípulos que as pessoas muitas vezes se ofendem quando não conseguem entender. Elas estão andando no escuro (João 11:10). Será que Ele sabia como Maria reagiria?
Por que as ofensas vêm Por que o Senhor permite que as ofensas venham? Será que o seu propósito é nos revelar algo a nosso próprio respeito? João precisava perceber que, embora tivesse declarado “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (João 3:30), o cronograma tinha de ser o do Senhor, e não o dele?
É fácil cairmos na armadilha de tentar manipular Deus para que Ele faça as coisas do nosso jeito. É fácil demais cruzar a linha entre realizar a vontade dEle e realizar a nossa. Não podemos nos ofender quando Ele não faz as coisas “do nosso jeito”, porque só Ele sabe o que é melhor para nós, mesmo quando não conseguimos ver as razões dos vales que atravessamos.
Será que Maria precisava aprender que obediência e confiança valem muito mais do que destaque e popularidade, mesmo no “serviço” do Senhor?
A grandeza no Reino pertence àqueles que se fazem os menores, como servos (Lucas 9:48).
O que fazer com as ofensas Primeiro, assuma-a! A ofensa é sua! O outro não pecou contra você — foi você mesmo que pôs “o macaco” nos próprios ombros; então jogue-o fora — ou carregue-o!
Depois, examine-a! O Senhor permitiu que ela viesse para que lhe ensinasse algo a seu próprio respeito.
Tive de aprender algumas coisas duras por esse caminho, e no capítulo anterior apresentei a você algumas das razões pelas quais surgem as ofensas. Você precisa estudar os tipos de personalidade e aprender a investir nos seus pontos fortes. Por exemplo, a maioria dos pastores tende a ser melancólica. Um dos dons do melancólico é a capacidade de enxergar problemas muito antes dos outros. Isso pode levá-lo a ser crítico com as pessoas, ofendido pela incapacidade delas de ver “o óbvio” e de fazer algo a respeito. Graças a Deus vocês não são todos como eu!
Os dons de cada pessoa são diferentes. Durante muitos anos me ofendi porque os outros não reconheciam o meu ensino como um “dom”. Todo mundo acha que sabe ensinar, e eu tive de aprender a ter “casca grossa” quando as pessoas ignoram os meus dons e o meu chamado como pastor.
Depois de assumi-la e examiná-la, descarte-a!
Por decisão, ore a respeito dela e sepulte-a! Abençoe aqueles que o ofenderam e busque o poder do Espírito Santo se a ofensa parecer pesada demais — Ele prometeu ser suficiente para todas as suas provações.
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. Cuidai que ninguém se prive da graça de Deus, e que nenhuma ‘raiz de amargura’ brote e cause perturbação, e por ela muitos sejam contaminados” (Hebreus 12:14-15).
Então, o último passo a dar quando os macacos estão sobre os seus ombros é: esqueça-a! Não deixe a ofensa habitar mais no seu coração. Entregue-a ao Senhor e tire-a da sua mente e do seu coração.
Por fim, não seja você a causar ofensa, pois “ai daquele por meio de quem elas vierem!” (Lucas 17:1)!