Capítulo 8 · 10 min de leitura
Bagagem desnecessária
“Portanto, visto que estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, deixemos também todo peso e o pecado que tão de perto nos envolve, e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta” (Hebreus 12:1).
Muitos são atrapalhados na batalha não por causa do leão que ruge nem das flechas de mentira, mas porque tomaram sobre si um fardo que não deveriam estar carregando: foram ofendidos por alguém e ficaram melindrados.
Certa vez eu estava num mirante, olhando de cima para Gibraltar. Havia muitas placas advertindo os visitantes a não alimentar os pequenos macacos que viviam nas árvores em volta. É claro que algumas pessoas preferiam ignorar as placas, e o resultado era que, logo em seguida, um macaco pousava nos ombros de alguém. Enquanto as câmeras funcionavam, o macaco começava a enroscar os dedos nos cabelos da pessoa e, quando aquilo começava a doer, ela já tinha dificuldade em tirá-lo dali.
Satanás tem um exército de “macacos” treinados, prontos para saltar sobre os ombros de alguém e enroscar os dedos nos cabelos da vítima.
Precisamos reconhecer o macaco da ofensa e tirá-lo depressa, antes que ele nos roube a paz.
Muitos são atrapalhados na batalha não porque tenham sido “feridos” por outros, mas porque tomaram sobre si um fardo que não deveriam estar carregando. Foram ofendidos por alguém e “ficaram melindrados”.
Precisamos perceber que ofensa e pecado são coisas muito diferentes.
Embora a primeira possa ser um “fruto” da vida de pecado, ela não é um ato pecaminoso deliberado da parte de quem ofende. De fato, é-nos dito que Jesus foi uma “ofensa” para os líderes religiosos do Seu tempo, e Ele era sem pecado. Creio que Ele causou ofensa deliberadamente em mais de uma ocasião, como mostrarei a você em breve.
Pode haver muitas causas para a ofensa, mas estas são as mais comuns: ● Choques de personalidade: as pessoas muitas vezes usam essa expressão como “desculpa” para não se darem bem umas com as outras!
● Expectativas frustradas: provavelmente o motivo número um da separação entre pastores e igrejas. Não somos muito bons em tornar claras as nossas expectativas antes que a ofensa aconteça.
● Mal-entendidos: comunicação deficiente.
● Dons e talentos: vejo com frequência pessoas invejando o destaque dos outros, em vez de se sentirem seguras no próprio ministério ou “chamado”.
● Orgulho: uma afronta ao “ego” de alguém. (Por exemplo: um pai que se irrita — se ofende — com as notas medianas do filho na escola, achando que aquilo o desabona.)
● Rebeldia: o “velho homem” se recusa a morrer!
Um grande exemplo dessas ofensas em ação aconteceu quando uma igreja passava por uma reforma — estavam reconstruindo o templo. Tinham sido dois longos anos de trabalho duro para aquela congregação que erguia a igreja, mas Deus se mostrara fiel.
Havia muitas histórias de “milagres” de provisão vindos de Jeová-Jiré. Chegara a hora de decidir as cores do interior do templo, e então formou-se uma pequena comissão com membros da igreja; João, professor de artes da escola local, foi convidado a liderar o grupo. Na primeira reunião, João chegou com uma pasta que expunha as suas sugestões (alguns dizem “decisões”) para as cores. Não demorou muito para que os outros presentes manifestassem sua discordância das propostas dele, tendo opiniões próprias.
Por fim fez-se uma votação e chegou-se a uma decisão consensual — que não refletia a visão do professor de artes. João se ofendeu, e os efeitos da sua ofensa foram sentidos naquela igreja por bastante tempo. Alguns chegaram a dizer que foi então que os “milagres” cessaram.
João não é diferente de nenhum de nós! É tão fácil ofender-se sem perceber o terrível impacto negativo que isso pode ter sobre nós mesmos e sobre a obra de Cristo. É uma das principais armas usadas por Satanás para nos derrotar na batalha. Esteja certo disto: as ofensas virão (Lucas 17:1). Jesus nos falou dessa certeza e nos advertiu de como podemos ser guardados de tropeçar na ofensa: respondendo às Suas exigências para o discipulado, apresentadas no cenáculo. Vejamos alguns exemplos bíblicos de pessoas que se ofenderam. Buscaremos a causa e observaremos os resultados da ofensa delas. Espero que também discirnamos os propósitos do Senhor ao permitir que as ofensas viessem. Ele prometeu livrar-nos do “maligno”, mas nunca prometeu livrar-nos das ofensas! Ele quer, porém, ensinar-nos a reconhecer a ofensa e a receber a Sua graça nesses tempos de prova.
As diversas traduções do Novo Testamento podem nos confundir nesse ponto; entendamos, pois, que a palavra grega “skandalon” é traduzida de várias maneiras, como “pedra de tropeço”. Em outras palavras: “uma ofensa” ou “um afastamento”.
O semeador e a semente → Mateus 13:18-21 Nos versículos acima, Jesus ensina a uma multidão essa parábola tão conhecida e ainda a interpreta para eles, comparando os quatro tipos de solo a quatro tipos de ouvintes da Palavra de Deus.
Os “lugares pedregosos” descrevem a pessoa que “ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesma, antes é de pouca duração; e, chegando a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza” (Mateus 13:20-21).
Esse é o crente que não gosta do que a Bíblia lhe ensina. Ele imaginava que ser cristão seria fácil!
Queria alegria e paz, mas não estava disposto a tomar a sua cruz (Mateus 16:24), a pagar o preço de ser servo. Aos poucos, ele se ofende e cai fora, e o resultado é nenhum fruto!
Um profeta sem honra → Mateus 13:54-57 Jesus voltou à Sua própria cidade, Nazaré, onde ensinou na sinagoga. Seus conterrâneos ficaram admirados com o Seu ensino e se perguntavam de onde vinha tanta sabedoria. “Não é este o filho do carpinteiro?”, diziam. “Nós o conhecemos desde criança! Quem ele pensa que é?” Há um ditado conhecido: “a intimidade muitas vezes gera desprezo” — e, como lemos no versículo 57, os da cidade de Jesus “escandalizaram-se nele”.
Quantos rapazes e moças, respondendo ao chamado de Deus sobre a sua vida, tentaram atender a esse chamado e foram impedidos pela “sabedoria” superior dos que estavam por perto: família, amigos e líderes da igreja! Isso me faz lembrar o velho profeta de 1 Reis 13, que se ofendeu porque Deus estava usando outro homem, mais jovem, para proclamar a Sua palavra. Por causa da sua ofensa, o velho profeta enganou o jovem, e o resultado foi o silenciamento do testemunho dele pela morte!
Como resultado da ofensa em Nazaré, “não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mateus 13:58). Um jeito certeiro de impedir que o Senhor aja de maneira milagrosa na sua vida é ofender-se. O resultado da ofensa deles foi nenhum milagre!
O traidor → Mateus 26:6-14 Jesus estava na casa de Simão, o leproso, quando entrou uma mulher com um caro vaso de perfume. Ela o quebrou sobre os pés do Senhor e começou a enxugá-los com os cabelos, de modo que a fragrância encheu a casa. Mateus nos conta que os discípulos se ofenderam ao ver aquele “desperdício”, declarando que o perfume poderia ter sido vendido por alto preço e o dinheiro dado aos pobres (Mateus 26:8).
Logo depois disso, Judas Iscariotes foi até os principais sacerdotes para trair o seu mestre (Mateus 26:14-16). No relato de João sobre esse acontecimento, ficamos sabendo que foi o próprio Judas quem fez a reclamação, ofendido, “não porque tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava” (João 12:6).
Lembro-me de quando uma conhecida entidade beneficente internacional gastou mais de um milhão de dólares para produzir um documentário sobre o seu trabalho. Muitos dos seus apoiadores manifestaram indignação diante de tal “desperdício” e suspenderam as contribuições mensais. Sentiam-se justamente indignados; no entanto, em menos de um ano, o que se arrecadou com a exibição daquele filme superou em cinco vezes o custo de produção! Creio que devemos, sim, ser prudentes ao gastar o dinheiro do Senhor, mas ofender-se pode ser fonte de constrangimento ainda maior!
Judas se ofendeu e, por isso, saiu para trair o seu mestre. O potencial para a traição já estava ali, mas a ofensa transformou esse potencial em ação. O resultado da ofensa dele foi que já não confiava que o Senhor fizesse o que dissera que faria. Judas iria forçá-Lo a agir. Se Ele era o Messias prometido, que estabeleceria o Seu reino no lugar do império romano, era agora a hora de provar isso! Mas uma coisa só ficou provada: que ele, Judas, era um péssimo estrategista e um amigo ainda pior!
Judas havia perdido a confiança no Senhor! Onde está depositada a sua confiança? Em que você põe a sua fé e a sua esperança? A “esperança” cristã é a expectativa ansiosa de que aquilo que Ele prometeu Ele há de completar! O hinista declara: “Minha esperança não se firma em nada menos que o sangue e a justiça de Jesus!” (My Hope is Built On Nothing Less, Robert Critchley).
O autor de Hebreus nos encoraja a “não rejeitar a [nossa] confiança, que tem grande recompensa” (Hebreus 10:35).
Quando nos ofendemos, o resultado é a falta de esperança e, portanto, ficamos sem confiança!
A negação de Pedro → Mateus 26:31-35, 69-75 Jesus acabara de chegar ao Monte das Oliveiras, tendo instituído a aliança da comunhão com os Seus discípulos. Agora Ele lhes ensina que está prestes a ser tirado do meio deles.
Jesus diz aos discípulos: “Todos vós vos escandalizareis em mim esta noite.” Mas Pedro, corajoso e insensato, responde: “Eu jamais me escandalizarei em ti, ainda que todos os outros se escandalizem!” (Mateus 26:31-33). Como ele deve ter se arrependido dessas palavras poucas horas depois! Sinto simpatia por Pedro, porque ele é muito parecido comigo! Que Salvador maravilhoso temos, que, sentindo a dor dele, apareceu primeiro a Pedro depois da ressurreição, antes que os outros O vissem (Lucas 24:34). Só posso imaginar aquela cena em que os dois se reconciliaram pelo amor do Salvador.
João e Pedro entraram na casa do sumo sacerdote, onde Jesus estava sendo julgado. Ao passar pela porta, uma jovem serva disse a Pedro: “Você não é um dos discípulos dele?” Ele respondeu: “Não sou!” Depois, mais duas vezes ele nega o seu Senhor, acrescentando alguns juramentos bem escolhidos antes que o galo cantasse.
Gosto de imaginar aquela jovem serva e a sua pergunta. Não seria possível que ela estivesse interessada no Senhor e quisesse saber mais a respeito Dele? Se Pedro tivesse assumido que era discípulo, ela lhe teria pedido que falasse do seu amigo, porque também queria amá-Lo? Mas Pedro se ofendeu, e o resultado da sua ofensa foi nenhum testemunho!
Muitos se afastam → João 6:53-61 Nessa passagem, Jesus diz coisas duras aos que O seguiam. Ele os chama a “comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6:53). Hoje, olhando para trás, entendemos isso à luz do cálice da comunhão e da nova aliança para a qual Ele nos chamou; mas para eles aquilo era uma palavra dura, difícil de compreender.
Jesus lhes perguntou: “Isto vos escandaliza?”
Você se ofende com o chamado Dele ao discipulado exigido pela aliança da comunhão? O discipulado que é o desafio central deste livro? O resultado da ofensa deles foi que muitos dos Seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele (João 6:66). O resultado da ofensa deles foi nenhuma comunidade.
Temos, então, cinco exemplos bíblicos de pessoas que se ofenderam e, com isso, perderam o seu fruto, a sua confiança e o seu testemunho. Entre eles houve desunião, e Deus não fez nenhum milagre no meio deles! Portanto, podemos ter certeza de que Satanás se regozijou.