Capítulo 10 · 14 min de leitura

A Alma Ferida

A Bíblia nos apresenta com clareza as artimanhas de Satanás, como vemos em: ● O leão que ruge, atingindo as nossas emoções.

● As flechas de mentiras, atingindo os nossos pensamentos.

● Os “macacos” da ofensa, atingindo a nossa paz.

No entanto, a sua artimanha mais eficaz não é tão bem compreendida. Ele o marcou como alvo desde antes do seu nascimento. Ele não é onisciente, portanto não sabe se você se tornará um crente e um adversário na batalha; por isso tentou feri-lo antes mesmo que você tivesse consciência de qualquer batalha. Isso fica evidente no grande número de pessoas “disfuncionais” em nossas igrejas, mas creio que há muitas outras que lutam sem se dar conta da sua ferida.

Uma nova criação Quando me tornei crente, ensinaram-me que “se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17). Esse versículo era usado para me confrontar a respeito das pequenas coisas da velha natureza que ainda estavam presentes na minha vida. Naturalmente, isso me fazia sentir culpado. Eu aliviava a minha culpa raciocinando que os meus velhos hábitos não eram tão ruins quanto alguns que eu via nos outros. Éramos muito rápidos em condenar os que não conseguiam vencer seus antigos hábitos tão bem quanto nós, sobretudo aqueles “pecados” óbvios como fumar e beber — sem falar em dançar e conviver com quem faz essas coisas! Fico contente por ter chegado a compreender melhor esse versículo e por entender um pouco mais da graça de Deus.

Graças a Deus que, em Cristo, somos plenamente aceitos e reconciliados com o Pai — somos justificados, perdoados e feitos novas criaturas. Contudo, quando me converti, os meus dentes não perderam suas obturações nem voltaram ao brilho sem cáries da minha juventude. Na verdade, o meu corpo não foi feito nova criação; pelo contrário, ele continua morrendo dia após dia.

A “nova criação” se refere àquela parte de mim que outrora estava morta — o meu espírito. Sei que existe muita confusão sobre a diferença entre a alma e o espírito, mas, para os propósitos deste livro, chamarei de espírito aquela parte de mim que, estando agora viva para Deus, me diferencia de uma pessoa não convertida, cujo espírito está morto, por mais nobre ou religiosa que ela seja. Ela, como eu, tem um corpo com maior ou menor grau de saúde, mas que certamente morrerá um dia, a menos que o Senhor venha antes.

Também temos alma — a nossa mente, a nossa vontade e as nossas emoções.

Até mesmo o homem não cristão tem uma alma viva. Na conversão, essas coisas não se tornam nova criação; elas carregam muitas feridas do passado e oferecem um campo de batalha fértil para Satanás. Ele conhece as feridas — afinal, as suas hostes foram bem ativas em causá-las! Por tempo demais fizemos muitos crentes novos (e alguns nem tão novos) sentirem-se incapazes na batalha, cobrando deles uma maturidade que a sua alma ferida não lhes permitia ter. Nós os instigamos a correr quando a sua alma estava aleijada — a lutar quando os seus músculos estavam atrofiados! Em vez disso, deveríamos ter cuidado das suas dores e feridas, trazendo cura por meio do ensino bíblico, já que o Senhor nos confiou o ministério da reconciliação (2 Coríntios 5:18-19).

Hematomas da alma Muitas pessoas foram submetidas, durante quase toda a vida, a críticas contínuas e a abuso verbal, talvez de um dos pais ou dos irmãos. Sua personalidade retraída convida os outros a dar continuidade a esse abuso na escola ou no trabalho, e assim elas entram na vida adulta com grandes “hematomas” na alma. Costumam ser acusadas de ser sensíveis demais — e de fato são, justamente como resultado do abuso. Funcionam razoavelmente bem até serem criticadas de novo, quando então se veem incapazes de lidar com a dor. Novos hematomas se formam, e cada nova crítica, real ou imaginada, é como um soco em cima do machucado.

Peter foi criado num lar sombrio, ainda que cristão. Era filho único e tinha poucos amigos. Não tinha permissão para levar colegas da escola em casa, porque eram “mundanos”, e não havia outros jovens da sua idade na pequena igreja que a família frequentava. Nunca conseguia atender às expectativas ou às exigências do pai e não conseguia manter um emprego por muito tempo. Nunca lhe deram a sensação de ser bom o bastante para ser aceito. Já com mais de trinta anos, saiu de casa e foi trabalhar numa missão cristã, onde fez amizade com outros três homens. Começou a gostar do trabalho e dos amigos e tornou-se uma parte bem acolhida daquele ministério — até que, pouco mais de um ano depois, cada um dos seus três amigos anunciou que em breve partiria para trabalhar em outro lugar.

Em vez da tristeza que se esperaria, Peter começou a agir de maneira estranha. Deliberadamente empenhou-se em fazer com que os amigos que partiam passassem a antipatizar com ele. Por exemplo, pedia emprestado algo de um deles e quebrava de propósito, alegando que tinha sido um acidente. Cada um dos amigos deixou a missão ofendido com Peter.

Por que ele agiu assim? Ele me contou que tudo começara logo depois de voltar das férias — passadas em casa. Não tinham sido dias bons, e ele ficara aliviado ao voltar para a missão. Quando sugeri que a experiência de mais críticas em casa havia produzido novos hematomas na sua alma, e que a partida dos amigos tinha sido como socos sobre esses machucados, Peter desabou e chorou. “É exatamente assim que eu me sinto”, declarou ele. “A partida deles só aumentou o meu sentimento de não ser digno de amor e de aceitação.” Hoje Peter caminha numa nova liberdade, conhecendo o seu valor em Cristo.

Facadas Para outros, a ferida pode ter sido criada por um único ato — uma ferida parecida com uma facada. Um exemplo clássico, é claro, é o da criança abusada sexualmente por alguém amado e de confiança. Nesse caso, a criança não entende que é a vítima e não a culpada. Tem medo de falar sobre o ocorrido e prefere sepultá-lo na memória.

Algum tempo depois, a ferida fica encoberta e não vem facilmente à superfície para ser encarada, nem mesmo na vida adulta.

O “curativo” com que a ferida foi coberta tornou-se uma amarra que afeta outras áreas da personalidade do adulto. Uma alma assim precisa de cura!

Quando perguntei a Alec por que ele não sabia ler nem escrever, ele me contou uma história triste. Durante quatro anos sua mãe o cercara de carinho, seu filho único, depois que o pai os abandonara. Então outro pai apareceu — um homem que não gostava de Alec e não o queria por perto. Logo ele conheceu a dor profunda da rejeição.

Aos cinco anos, Alec entrou na escola primária, onde ficava sentado no fundo da sala, sonhando acordado. Ele lembra bem da ocasião em que um professor irrefletido gritou com ele: “Alec, você não passa de um burro!” A alminha ferida disse a si mesma: “Se é isso que você acha que eu sou, é isso que eu serei!” Ainda criança, decidiu nunca estudar para agradar àquele professor… e assim chegou à adolescência analfabeto!

Alec era inteligente o bastante para ter aprendido? Apenas um mês depois da nossa conversa, Alec estava lendo todas as notícias esportivas do jornal diário! Ele estava interessado numa moça e sentiu-se motivado a caminhar rumo à cura. Usei o que ele sabia sobre os craques do esporte e as fotos deles nos jornais para incentivá-lo a ler as palavras que explicavam as imagens.

Logo ele não precisava mais das fotos, e eu vi a sua autoestima crescer à medida que começava a ler com compreensão. Tantos professores, pais e outras pessoas jamais saberão o efeito devastador que as facadas de suas palavras irrefletidas tiveram sobre tantas almas jovens. Muitos adultos hoje ainda carregam as crostas e as cicatrizes dessas feridas na alma!

Escoriações Depois há as feridas do tipo escoriação. Em geral não deixam cicatriz nem amarras permanentes, mas podem sangrar bastante no momento em que acontecem. Se não forem tratadas corretamente, porém, podem infeccionar e produzir um dano muito pior. Vejo esse tipo de ferida da alma acontecer quando alguém passa por um desânimo ou uma grande decepção. Vem acompanhada de sentimentos de incapacidade e solidão, e as defesas espirituais ficam baixas.

Essa é a hora em que precisamos nos aproximar com apoio terno de quem está sofrendo. É a hora da empatia e da compreensão.

Mary havia adoecido com a “Epstein-Barr”, ou “gripe dos yuppies”, amplamente conhecida como a doença dos anos noventa. Era difícil não saber por quanto tempo ela ficaria doente, pois os médicos não tinham cura à disposição. Os membros da sua igreja oravam por ela, mas ela desejava que alguém a visitasse. Ninguém veio, alegando que não tinham certeza se a doença era contagiosa. Foi duro aceitar isso, mas Mary aceitou com graça. Então, certo dia, ela recebeu um telefonema que fez a sua alma “sangrar” muito. Sua amiga mais próxima ligou para dizer que a igreja tinha parado de orar por ela, pois era evidente que ela não estava exercendo fé. O raciocínio era que, se tivesse exercido fé, já estaria curada.

Fraturas Continuemos com as nossas metáforas. Existem feridas do tipo fratura na alma? Sim, e há muitos crentes mancando pela vida por causa de alguma experiência traumática. Pode ser a morte de alguém amado, um noivado rompido ou algum acidente da vida. Ficaram aleijados pela experiência e nunca mais aprenderam a andar.

Melinda teve uma discussão com a mãe, durante a qual a empurrou com certa força. Alguns meses depois, a mãe foi diagnosticada com câncer de mama e, em menos de um ano, morreu. Nenhum argumento conseguia convencer Melinda de que o seu empurrão não havia provocado o câncer na mãe. Ela não se perdoava e não conseguia aceitar o perdão do Senhor. Era uma mulher quebrantada quando a conheci e, até hoje, continua aleijada.

“Ele restaura a minha alma” Estou convencido de que muitos crentes hoje têm a alma ferida. Estou igualmente convencido de que o Senhor quer curar essas feridas — restaurar a alma. O salmista Davi foi culpado de adultério e assassinato; carregava feridas terríveis na alma, mas ainda assim podia dizer: “O Senhor é o meu pastor… Ele restaura a minha alma” (Salmo 23:3).

Há também feridas criadas por nós mesmos. Parece-me que, quando agimos deliberadamente contra a Palavra explícita de Deus, criamos as nossas próprias feridas. O sexo fora do casamento e o divórcio sempre criarão almas feridas que precisam de cura pela graça de Deus. Tenha plena certeza de que é desejo dEle trazer essa cura. Na verdade, vejo isso como a verdadeira obra da santificação — a segunda parte da salvação.

A justificação é quando alguém foi libertado da penalidade do pecado: a salvação do espírito. O Espírito Santo já concluiu essa obra.

A santificação é quando alguém foi libertado do poder do pecado: a salvação da alma. Esta é a obra presente do Espírito Santo.

A glorificação é quando alguém foi libertado da presença do pecado: a salvação do corpo. Esta é a obra que o Espírito Santo ainda há de fazer.

É por essas razões que o chamamos de Salvador!

O pescador Comparamos Satanás a um leão que ruge e a um arqueiro; parece-me, porém, que a sua arma de guerra mais eficaz é como o anzol e a vara de um pescador — ele sabe exatamente onde estão as feridas da nossa alma. Afinal, ele teve parte em criá-las. Quando nos preparamos para entrar na batalha nas regiões celestiais, ele lança a linha, finca o anzol na ferida e manipula a alma até torná-la ineficaz.

Uma história pessoal No início de 1990 envolvi-me de perto com uma nova obra de Deus entre os povos nativos do oeste do Canadá. A batalha espiritual era intensa. Ao mesmo tempo, parei de dormir. Meu médico tentou muitos medicamentos diferentes para me fazer dormir, mas foram necessárias várias semanas até encontrarem um jeito de eu não passar a noite inteira acordado. Muitos achavam que eu estava sob alguma maldição indígena, e eu recebia cartas e telefonemas de incentivo de todo o noroeste dos Estados Unidos e do Canadá. Pedi a Charles e Claudia, outro pastor e sua esposa, que orassem por mim, e nessa ocasião ela me disse que percebia sobre mim um “terrível espírito de abandono”. Eu não fazia ideia do que ela queria dizer.

Pouco depois, fui convidado a passar uma semana num retiro anglicano para pastores e esposas. Ali me disseram que faltava uma área nas minhas emoções e que isso tinha muito a ver com a morte da minha mãe. Minha mãe morrera quando eu era adolescente e, embora eu não tivesse chorado na época num luto normal, achava que havia lidado muito bem com a sua morte. E agora me diziam que isso tinha algo a ver com a minha insônia? Eu continuava sem entender.

Depois de quatro meses ofereci-me para renunciar ao meu cargo na igreja, mas os presbíteros e os membros não permitiram. Em vez disso, recebi muito amor da parte deles e do corpo maior da igreja na nossa cidade.

Depois de oito meses, dei entrada no Hospital Universitário de Vancouver como paciente da clínica do sono, onde se diagnosticou uma falha física na produção, pelo meu corpo, dos neuroquímicos indutores do sono. O especialista atribuiu isso ao estresse. Na semana seguinte, pude renunciar à igreja, cuja frequência já havia caído a sessenta por cento do que era no começo do ano.

Na terça-feira seguinte eu estava com um grupo dos meus amigos mais chegados, outros pastores que se reuniam semanalmente para orar. Quando terminamos o café da manhã, um deles me disse: “Gareth, sinto um terrível espírito de abandono sobre você!” Eram as mesmas palavras que eu ouvira quase nove meses antes. Ao chegar em casa, liguei para Claudia e pedi que me explicasse o que exatamente ela quisera dizer com aquele comentário. Ela me mandou sentar naquela noite e repassar a minha vida, procurando os momentos em que o menininho dentro de mim pudesse ter se sentido abandonado.

Minha esposa Anne e eu ficamos espantados ao considerar os diferentes períodos da minha vida — houve tantas ocasiões em que eu sentira a dor do abandono, entre elas a morte da minha mãe quando eu tinha apenas catorze anos. Eu não havia chorado naquela hora, mas por algum tempo depois eu havia sofrido. Mais tarde, naquela mesma noite, relaxei lendo um romance sobre as Cruzadas do século treze.

Dois cavaleiros conduziam seus homens à batalha nos campos da França. De repente, ficaram frente a frente; sir Rufus, porém, estava ferido e caído sobre a sela, a espada pendendo ao lado do corpo. Seu inimigo, sir Nigel, cavalgou rapidamente em sua direção, erguendo a poderosa espada para matar o adversário. No exato instante em que desferiria o golpe fatal, nove flechas dos arqueiros de sir Rufus cruzaram o ar e encontraram o alvo na axila de sir Nigel. Eram inúteis contra a armadura, mas muito eficazes no ponto fraco, onde nenhuma armadura podia ser usada. Percebi que o Espírito do Senhor estava falando comigo.

“Gareth, você pode até estar vestindo a armadura de Deus, mas, quando entrar em batalha contra o inimigo, saiba que ele conhece exatamente onde estão os seus pontos mais fracos — e o seu é o do abandono. Eles precisam ser curados se você quiser ser eficaz na batalha!”

Comecei então a entender por que as pessoas vinham se afastando da nossa igreja ao longo dos dois anos anteriores. Três presbíteros haviam saído por transferência de emprego e tinham sido substituídos por três outros bons homens; o novo conselho de presbíteros, porém, não tinha os dons necessários para manter os programas iniciados pelos anteriores, e logo começou um lento êxodo da igreja. Eu encontrava pessoas na rua que corriam até mim para dizer que me amavam, mas que tinham começado a frequentar outra igreja “porque os nossos filhos gostam muito do trabalho com jovens de lá”. Havia muitas razões, mas poucos tiveram a delicadeza de vir me contar as suas intenções. Eu teria dado com alegria cartas de apresentação, se soubesse que queriam se transferir.

Depois, à medida que fui ficando mais exausto, deixei de alimentar e conduzir o meu rebanho como estavam acostumados, e mais gente começou a sair. Em vez da realização a que eu estava habituado, eu tinha a dor, quase toda semana, de ver mais um banco vazio. Como eu era muito dedicado ao meu povo, cada partida era como um pequeno divórcio. Tenho certeza de que nenhuma daquelas pessoas teria querido me ferir de propósito, mas os seus atos foram usados pelo inimigo como anzóis nas minhas feridas de abandono. Não é de admirar que o médico tenha chamado aquilo de estresse, ainda que eu me gabasse de nunca levar os problemas da igreja para casa!

Uma observação pessoal para os leitores que talvez estejam pensando em deixar a sua igreja local: faça isso da maneira correta e ética. Avise o seu pastor das suas intenções, porque você ficaria surpreso se soubesse com que facilidade ferimos uns aos outros.

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