Capítulo 13 · 11 min de leitura
O Céu Está Aberto
Já vi vários milagres na minha vida — inclusive algumas curas físicas. Estive presente quando uma menina surda-muda de 12 anos recebeu audição e pôde falar pela primeira vez. Vi uma mulher, aleijada de nascença, andar depois da oração. Vi um grande bócio desaparecer do pescoço de uma mulher enquanto oravam por ela.
Contudo, por mais que esses milagres tenham me emocionado e animado, eles não foram mais espetaculares do que os milagres de cura da alma que testemunhei nos últimos anos, quando crentes feridos usaram a “chave do reino dos céus” para soltar aqueles que os haviam ferido e para soltar a si mesmos.
As histórias a seguir baseiam-se em experiências reais, com nomes e lugares alterados para preservar o sigilo; não exagerei, porém, o desfecho de maneira alguma, e procurei ser fiel ao relatar a obra miraculosa do Senhor.
Marie Conheci Marie quando ela tinha 28 anos. Seus conselheiros tentavam encaminhá-la para tratamento psiquiátrico, e ela estava profundamente deprimida e retraída. Contou-me da sua infância triste, criada num lar rigoroso de Testemunhas de Jeová no Canadá, onde nunca se comemorava aniversário nem Natal. Não havia lembranças de afeto de nenhum dos pais, e ela jamais ouvira o pai dizer que a amava, nem jamais sentira o seu abraço ou recebera os seus beijos.
Aos 16 anos, Marie fugiu de casa. Vários anos depois, ouviu a maravilhosa notícia do Evangelho e imediatamente entregou a sua vida a Cristo, desejando servi-lo.
Uma pequena igreja local cuidou dela naqueles primeiros anos, enquanto lutava com a sua identidade e as suas emoções. Numa ocasião houve uma tentativa de reconciliação com a família, mas a experiência foi muito dolorosa, pois surgiram discussões sobre os diferentes entendimentos das Escrituras. A despedida foi amarga, e Marie decidiu que nunca mais veria os pais. “Eu os odeio”, disse-me ela no nosso primeiro encontro.
Ao longo dos meses seguintes, passei muitas horas com Marie. Ela me via como um pai, e eu via nela a menininha que nunca havia crescido. Muitas das suas atitudes eram de adolescente, embora fosse bem instruída e até bilíngue.
Era trabalhadora e muito competente na função que lhe cabia, mas suas emoções e atitudes eram as de uma adolescente insegura. Conversávamos sobre muitas coisas, mas, sempre que os pais eram mencionados, uma barreira se erguia entre nós.
Por fim consegui explicar-lhe que Deus a havia criado como um vaso “em forma de coração”, projetado para receber o amor do pai e da mãe. Esse amor se demonstra não tanto na oferta de doces e presentes, mas em cultivar segurança, valor próprio, identidade, consolo e aceitação, incentivando ambições e objetivos, e muito mais — coisas que ela nunca recebeu.
Marie concordou prontamente que seus pais haviam pecado contra ela ao deixar de derramar esse amor sobre ela, mas foi bem mais difícil explicar-lhe que seus pais não eram diferentes da grande maioria de nós. Eles andam em trevas, carregando as próprias feridas — a sua própria disfunção —, como vítimas dos ataques de Satanás. Não tinham o desejo de ferir Marie e provavelmente ignoravam as feridas que ela carregava.
“Quero que você escreva uma carta aos seus pais”, eu disse. “Não se preocupe! Você não vai precisar enviá-la, mas quero que pense no que diria numa carta assim. Diga-lhes de forma específica como eles a feriram, com exemplos. Diga também o quanto você anseia pelo amor deles.”
Essa é uma prática que uso com frequência no meu aconselhamento, pois permite ao paciente trazer o subconsciente à superfície consciente.
A carta não será enviada, mas dá à pessoa algo concreto em que se concentrar. Marie levou três semanas cheias de lágrimas para terminar a carta. Enquanto orávamos para que o Senhor dirigisse o seu pensamento, ela ficou espantada com as lembranças que Ele lhe trouxe de volta.
Quando a carta ficou pronta, fui convidado a lê-la. Isso não é essencial para o conselheiro, e deixo bem claro a todos que aconselho que não precisam me mostrar o que escreveram. Havia evidentemente muita dor naquela carta, e o meu coração doeu por aquela menininha perdida, escondida dentro de um corpo de mulher.
Dobrei o papel e devolvi-o ao envelope. “Marie, você vai escolher agora perdoar os seus pais e soltá-los?”,
perguntei. “Não consigo!”, exclamou ela entre lágrimas. Disse-lhe que eu não podia fazer mais nada: o remédio para as suas dores estava agora nas mãos dela; a “chave do reino” era dela, se quisesse usá-la.
Passaram-se mais três semanas até que Marie se ajoelhou no meu escritório e, chorando muito, disse ao Senhor que estava perdoando os seus pais e que desejava que Ele “não lhes imputasse aquele pecado”. Depois prometeu-me que oraria uma bênção sobre os pais todos os dias.
Algumas semanas depois, ao ver Marie crescer em confiança, eu lhe disse que queria que ela fosse passar alguns dias com os pais. Ela protestou com força, mas por fim concordou em escrever para saber se a receberiam.
Duas semanas depois ela entrou correndo no meu escritório, cheia de entusiasmo. Havia recebido um envelope com duas cartas: uma breve, da mãe, dizendo que ela seria bem-vinda, e outra mais longa, do pai. Esta era bastante fria e objetiva, informando que eles haviam se mudado e que, se ela fosse, a viagem agora seria longa. Ela precisaria pegar um trem cedo em Toronto, baldear em Montreal e chegaria à casa deles bem tarde da noite. Ele não sabia se conseguiria vê-la, pois tinha muito trabalho a fazer; o que mais entusiasmou Marie, porém, foi que ele terminava a carta com: “Abraços e beijos, papai!”
Ao acompanhar Marie até o trem em Toronto, disse-lhe que estaria orando por ela e a incentivei a não entrar em nenhuma discussão religiosa. “Antes de vir embora”, eu disse, “não deixe de pedir ao seu pai aqueles ‘abraços e beijos’.” Ela duvidava que teria coragem, mas eu lhe garanti que oraria com esse objetivo.
No fim daquela noite recebi um telefonema. “Gareth, sou eu, Marie.” Ela parecia tão animada que mal se continha enquanto me contava o que acontecera. Ao trocar de plataforma em Montreal, de repente avistou o pai e a mãe ali parados! Tinham viajado uma boa distância para encontrá-la. Marie caminhava em direção a eles quando, de repente, o pai deu um passo à frente, jogou os braços em volta dela e a beijou! Ah, como os anjos do céu devem ter se alegrado!
Mas o que tinha acontecido? Creio que Marie havia aberto o céu para o seu pai por meio da sua oração de libertação. Naquela manhã, o seu Pai celestial falara, através daquela “porta aberta”, ao seu pai terreno, levando-o a tirar um dia de folga do trabalho e a levar a esposa numa viagem para encontrar a filha. Depois, Ele movera o coração daquele homem, fazendo-o estender os braços com amor para beijar Marie pela primeiríssima vez. É claro que o pai não fazia ideia de que seus planos e suas atitudes estavam sendo dirigidos por Deus.
Depois de dois anos, Marie havia se tornado uma jovem saudável e bonita. Reconciliou-se plenamente com a família e até se mudou para a cidade deles. Tornou-se atuante na sua igreja evangélica e foi até designada diaconisa. Não demorou muito para Marie encontrar um marido na igreja, com o plano de servirem ao Senhor como missionários. Como Deus é bom!
Angela “O que há de errado comigo, Gareth?”, exclamou Angela assim que se acomodou na cadeira do meu escritório. “Acordo toda manhã tomada de medo de estar cometendo um erro se me casar com John.”
Ela explicou que toda manhã estava decidida a terminar o relacionamento, mas, com o passar do dia, sabia que não conseguiria, pois John era um belo rapaz com quem qualquer moça teria orgulho de se casar. Era um cristão comprometido e a tratava com gentileza e amor. Tinham interesses parecidos e ambos desejavam servir ao Senhor no trabalho missionário.
Angela sabia que o problema era dela, pois não era o primeiro relacionamento em que sentira esse medo. Duas vezes havia terminado bons relacionamentos e depois chorado por semanas, perguntando-se por que fora “tão tola”.
Durante o aconselhamento, ela me falou de um pai que era presbítero numa igreja evangélica saudável. Ela o respeitava muito, mas sentia que jamais conseguiria satisfazê-lo. Ele deixara claro que, para o primeiro filho, queria um menino, e não uma menina. Enquanto crescia, Angela jogava críquete com o pai e os irmãos mais novos. Ela jogava bem, mas nunca tão bem quanto os irmãos, e por isso nunca recebia os elogios que eles recebiam. Quando tirava nota A na escola, perguntavam-lhe por que não tinha sido A+. Quando aceitou o primeiro emprego num banco, disseram-lhe que deveria ter se candidatado a outro banco, melhor. Ela nunca ouvira do pai um elogio ou uma palavra de afirmação, embora tivesse se esforçado tanto para agradá-lo.
Sugeri a ela que o pai havia falhado em lhe dar identidade e valor, e que a sua autoconfiança era baixa porque ela se via constantemente como incapaz de satisfazer os homens da sua vida.
Satanás estava usando as feridas produzidas pela falta de aceitação do pai para atrapalhá-la no desenvolvimento de um relacionamento piedoso com John. Angela enxergou o padrão e entendeu como poderia romper aquela amarra curando as feridas por meio da libertação do seu pai. Oramos juntos enquanto ela pedia ao Senhor que “não imputasse este pecado ao meu pai”.
Algumas semanas depois, Angela desenvolveu pedras nos rins.
Ela deixou a região onde trabalhávamos juntos para voltar ao seu estado natal, onde daria entrada num hospital para ser operada.
Dois meses depois, quando a encontrei pela primeira vez desde a cirurgia, ela correu até mim, me abraçou e, com grande entusiasmo, me contou uma história incrível.
Quando ela chegou em casa, o pai anunciou que tiraria cinco semanas de folga do trabalho para passá-las com a filha! Levou-a para jantar fora e para visitar pontos interessantes da região. Conversaram e descobriram tantas coisas um sobre o outro que nenhum dos dois sabia antes. Houve muitas visitas aos lugares onde o pai trabalhava e, em cada um deles, ela ficava sem jeito, porque ele se gabava da filha e das coisas maravilhosas que ela estava fazendo. Ele tinha tanto orgulho dela!
“Gareth”, disse ela, “eu me apaixonei pelo meu pai!” E acrescentou: “E mal podia esperar para voltar e ver o John.”
John e Angela se casaram felizes e, juntos, serviram ao Senhor com alegria.
O que levou o pai dela a tirar cinco semanas de folga para passar com a filha? Não teria sido o Senhor falando com ele através da porta que a oração de libertação de Angela abriu? Eu certamente creio que sim.
Tony Foi preciso um bom esforço para Tony criar coragem e me procurar. Ele não se relacionava bem com nenhum homem, tendo sido criado pela mãe depois de um divórcio conturbado.
Desde que saíra da escola, houvera uma sucessão de empregos, mas ele não conseguira manter nenhum. Ouvi enquanto ele me dava as suas justificativas e logo percebi um padrão: a culpa era sempre “do meu supervisor”.
Conversamos sobre a sua infância, a solidão e a aversão à escola. Logo veio à tona que ele tinha muito medo de um dos seus professores. Ele não fora um aluno brilhante, e esse professor em particular fora bastante cruel em algumas coisas que fez e disse. O professor parecia se deliciar em deixar os alunos constrangidos em aula e envergonhava os mais sensíveis, zombando deles diante da turma. Tony era frequentemente alvo das suas farpas.
Depois havia as ameaças. Quase não se passava uma semana sem que Tony fosse ameaçado com uma ida à sala do diretor, porque seu trabalho não estava “à altura”. Por mais que se esforçasse, ele nunca conseguia satisfazer aquele professor, e muitas vezes recebia tarefas extras. Ficou muito feliz quando teve idade para deixar a escola e começar a ganhar dinheiro; logo, porém, ficou evidente que as feridas permaneciam, pois Tony era incapaz de se relacionar com qualquer homem dominante em posição de autoridade. Sempre que lhe davam uma tarefa desagradável, ele a encarava como castigo aplicado por um supervisor que devia antipatizar com ele. Não conseguia enxergar que era uma tarefa normalmente esperada de qualquer jovem funcionário daquela empresa.
Expliquei-lhe como muitas vezes somos feridos pelos atos ou pelas palavras dos outros e como essas feridas nos impedem de viver na liberdade que Jesus comprou para nós na cruz.
Tony entendeu como o seu professor havia sido usado por Satanás para ferir a sua alma. Oramos juntos enquanto ele escolhia perdoar e pedir ao Senhor que perdoasse aquele professor. Comprometeu-se a orar pela sua família e, em especial, pelos seus filhos, que estavam bastante rebeldes e vinham causando muito sofrimento aos pais.
Logo se abriu outra oportunidade de trabalho, e Tony se candidatou. Conseguiu a vaga e começou poucos dias depois.
Um ano mais tarde foi promovido a encarregado, porque havia desenvolvido um relacionamento muito bom com os colegas. Além disso, como declarou o dono da empresa: “Você pode dar qualquer tarefa a ele e sabe que será bem feita. É um homem em quem posso confiar!” Deus havia feito uma boa obra.