Capítulo 12 · 12 min de leitura

A Chave da Libertação

Boa parte do aconselhamento que faço é para ajudar pessoas a lidar com as suas ofensas. Quantas horas seriam poupadas se elas conhecessem a sua responsabilidade pessoal e agissem segundo os princípios bíblicos!

Sou da opinião de que uma das principais artimanhas usadas pelo inimigo para nos atrapalhar na batalha é o enorme número de horas que os pastores (sobretudo na América do Norte) gastam em questões de aconselhamento que os próprios crentes poderiam resolver se fossem mais dedicados ao estudo da Palavra.

O papel do pastor deveria ser eliminar a maior parte das necessidades de aconselhamento do seu povo, ensinando-lhe princípios bíblicos. Cabe a ele, como pastor de ovelhas, conduzi-las a “pastos verdejantes”, onde elas se alimentam sozinhas; nós, porém, chegamos ao ponto em que as ovelhas ainda precisam ser alimentadas na mamadeira (aconselhadas) toda vez que surge uma “crise”! Satanás roubou da igreja muitos dos seus pastores, sobrecarregando-os com “necessidades” de aconselhamento.

Uma analogia natural é esta: se comermos e nos exercitarmos direito, manteremos boa saúde; reconhecemos, contudo, que virão momentos, seja por um acidente, seja por uma doença crônica, em que precisaremos da ajuda de outra pessoa. Quando há ferimentos graves e o paciente fica limitado de alguma forma, a empatia, o consolo e a ajuda de outra pessoa são muito bem-vindos. O mesmo vale para as feridas espirituais.

Há muitos livros cristãos no mercado tratando das feridas da alma. Falam de “cura das memórias”, de famílias disfuncionais e de codependência. Muitos deles são muito bons e ajudaram bastante pessoas que buscavam uma nova perspectiva sobre a vida e sobre si mesmas. O programa de “12 passos” dos Alcoólicos Anônimos tornou-se a base de boa parte desse ensino, com o objetivo de levar a pessoa ferida a um estado de “manutenção”. Ela passa então a lidar com o seu problema de maneira prática, com o uso de grupos de apoio, aconselhamento contínuo e planos prescritos, ou uma “fórmula” de ação. Cada dia ela tem uma receita para “caminhar rumo” à sua cura. Já usei esses livros e continuo usando em parte. O que me incomoda na maioria deles é que poucos mencionam o efeito libertador do perdão.

Não creio que a intenção do Senhor seja levar o seu povo ferido à “manutenção”, mas que Ele deseja restaurar-lhes a alma e trazer-lhes cura. O propósito principal deste livro é ensinar como podemos ser libertados da escravidão das nossas feridas, para que sejamos o mais eficazes possível na guerra contra o nosso inimigo, Satanás. A chave da cura encontra-se no perdão.

As chaves do Reino → Mateus 16:19 Durante três anos os discípulos haviam caminhado com o Senhor pelas regiões da Judeia, de Samaria e da Galileia. Tinham-no visto realizar muitos milagres e o tinham ouvido ensinar as multidões, mas Ele raramente se sentara apenas para conversar com eles. Agora, depois de um período muito atarefado, Ele os leva para o extremo norte do país, às regiões em torno de Cesareia de Filipe, nas encostas mais baixas do monte Hermom. Enquanto caminham, o Mestre se volta para os seus discípulos e lhes faz duas perguntas.

A primeira pergunta é sobre a opinião dos homens a respeito de Jesus; a segunda é sobre a opinião dos discípulos a respeito de Jesus.

Depois que os discípulos respondem à primeira pergunta, Ele se volta novamente para eles e pergunta: “Mas quem dizeis vós que eu sou?” (Mateus 16:15). Teriam eles chegado a compreender que Jesus era mais do que um bom homem ou um realizador de milagres?

“E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, pois não foi carne e sangue que te revelou isto, mas meu Pai, que está nos céus. E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mateus 16:16-19).

Durante séculos a Igreja Católica Romana ensinou que este é o mandato dado a todos os papas, como sucessores de Pedro, cabeça da igreja, para excomungar reis, países e povos que não apoiassem os seus decretos, ou para conceder indulgências.

Não seria maravilhoso se você tivesse a chave do Reino para os seus entes queridos? Para o seu cônjuge? Para o seu filho não salvo? Para os seus pais? Ah, se você pudesse abrir para eles o caminho da vida eterna! Pois bem, eu creio que temos essa possibilidade!

É certo que muitos estão sendo impedidos de ver e entrar no Reino pelo nosso fracasso em ser as testemunhas que deveríamos ser. Boa parte desse fracasso está nas nossas atitudes de falta de perdão. Há hoje muitos pais que oram, entre lágrimas, por um filho desviado, sem perceber que a falta de perdão que nutrem contra esse filho é o maior obstáculo para que Deus responda à oração!

O que Jesus quis dizer com a parte final do versículo acima? Já me deram muitas explicações, desde a “autoridade” dos papas até a “libertação do demoníaco”, mas não vejo aqui nem uma coisa nem outra.

É boa exegese, ao considerar um versículo obscuro, procurar versículos paralelos, sobretudo do mesmo autor. Neste caso não precisamos ir muito longe, pois apenas dois capítulos adiante Mateus escreve o mesmo.

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mateus 18:18).

Desta vez o Senhor está falando a todos os discípulos, não apenas a Pedro. Se as chaves foram dadas para desligar e ligar (um uso bem comum de chaves!), então foram dadas a todos os discípulos — inclusive a você e a mim!

Um segundo princípio de boa exegese é estudar o contexto; por isso vamos considerar o que o Senhor estava ensinando no restante de Mateus 18. Logo vemos que o capítulo inteiro trata de restauração, reconciliação e perdão. As pequenas cenas falam de sermos como crianças, sem malícia e sem guardar amargura — crentes assim não ofendem nem ferem, e devemos ter o cuidado de não lhes causar ofensa nem ferida.

A segunda coisa que noto é que, se alguém é ferido ou magoado e por isso vai embora, um bom pastor deixará os outros para restaurar aquela “ovelha” ao aprisco. Repare, mais uma vez, que a história fala de “ovelhas”, não de “bodes”. Fala de crentes, não dos “perdidos”. Quantas vezes, quando uma “pessoa-problema” sai da igreja, nós batemos as mãos e dizemos: “Até que enfim!” A exigência de Deus, tanto para os pastores servos quanto para as demais ovelhas, é que busquemos a restauração dessas pessoas, e não o seu desligamento.

“Se teu irmão pecar contra ti, vai ter com ele, primeiro em particular, com o único propósito de buscar compreensão e reconciliação” (Mateus 18:15). Repare na palavra “pecar”. Com frequência demais vamos embora quando nos ofendemos, o que por sua vez cria uma ofensa ainda maior. Não recebemos ordem alguma de procurar a pessoa quando nos ofendemos — apenas quando pecam contra nós. A única exceção seria quando o pastor ou os presbíteros da igreja julgam necessário procurar alguém que, a seu ver, é reiteradamente causa de ofensa ou que pecou contra outros. Nesse caso, o propósito de procurá-lo é sempre a reconciliação.

Enquanto Jesus dá o ensino de Mateus 18:18-20, surge uma pergunta de Pedro, que indaga do Senhor quantas vezes deveria perdoar. “Até sete vezes?” (Mateus 18:22). Pedro provavelmente achou que a sua pergunta ficaria bem, mas o Senhor a usou para enfatizar que o perdão deve ser ilimitado.

O amor exige que perdoemos sempre.

Todo o contexto do capítulo 18 tem a ver com restauração, reconciliação e perdão, tudo isso sem que você mesmo cause ofensa… o tema deste livro!

João 20:23 Este versículo é outro paralelo aos dois anteriores, ainda que escrito por João, em João 20:23.

Nesse versículo, os discípulos estão todos numa sala trancada, com medo de que os líderes judeus logo viessem prendê-los, assim como haviam prendido o seu Senhor. As emoções estão à flor da pele, e alguns ali afirmavam ter visto o Senhor ressuscitado dentre os mortos! Corria a notícia de que Jesus havia aparecido a Pedro e a Maria Madalena, bem como a outros dois no caminho de Emaús. Outros não acreditariam enquanto não vissem também o Senhor ressuscitado.

De repente, embora as portas estivessem trancadas, Jesus estava no meio deles! Ele disse: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio… recebei o Espírito Santo” (João 20:21-22).

O tempo verbal grego de “recebei” é o imperativo aoristo, que sempre exige resposta imediata. Naquele momento os discípulos receberam a sua nova vida no Espírito. Depois, no dia de Pentecostes, receberiam a plenitude dEle para capacitá-los ao serviço. Havia-lhes sido dada uma nova autoridade! “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (João 20:23). Permita-me parafrasear: “Aqueles que vocês desligarem (libertarem) estão desligados; aqueles que vocês ligarem estão ligados.”

“Quem pode perdoar pecados senão somente Deus?” (Marcos 2:7), perguntavam os fariseus. Em certo sentido eles tinham razão, porque o mandato que o Senhor nos dá não “perdoa” pecados na mesma medida do perdão dEle. Quando Ele perdoa, é “tão longe quanto o oriente está do ocidente, nas profundezas do mar, para nunca mais serem lembrados” (Salmo 103:12). Você e eu não podemos fazer isso — nem com os nossos próprios pecados, quanto mais com os de outra pessoa. Os únicos pecados que podemos “perdoar” são os cometidos contra nós mesmos — pecados que provavelmente causaram as feridas de alma que carregamos e pelas quais Satanás nos tem atrapalhado.

Removendo a barreira do pecado Se eu pecar contra você, peco também contra Deus. Imediatamente uma barreira se ergue entre mim e o meu Senhor. Passo a achar mais difícil orar, a Palavra perde o interesse e a comunhão não é tão doce — o meu pecado virou uma nuvem sobre a minha cabeça!

Há duas maneiras pelas quais essa “nuvem” pode ser removida.

A primeira é “confessar o meu pecado, [pois] Ele é fiel e justo para me perdoar o pecado e me purificar de toda injustiça!” (1 João 1:9). Aleluia! Tenho comprovado que essa promessa é verdadeira.

Descobri, porém, que o Senhor tem um pequeno “hábito” de continuar falando comigo sobre o pecado. Depois de me perdoar, Ele sussurra à minha alma: “Agora vá até o seu irmão e peça que ele o perdoe. Eu não desejo apenas purificá-lo do pecado; quero vê-lo reconciliado.” A prioridade dEle não é o perdão — é a reconciliação! A confissão não está completa enquanto não produzir reconciliação. E essa não é responsabilidade dEle — é minha, pois “Cristo nos reconciliou consigo mesmo e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Coríntios 5:18-19).

A segunda maneira pela qual a minha “nuvem” pode ser removida, para que o céu volte a estar aberto sobre mim, é você removê-la pelo seu perdão. A versão King James da Bíblia usa uma palavra especial na sua tradução de João 20:23, ao escrever: “Àqueles cujos pecados vós remitirdes…” A palavra “remitir” fala de “pôr de lado”. Você pode remitir o meu pecado, que foi cometido contra você, e ao fazê-lo abrir o céu para mim. Ao “pôr de lado” o meu pecado, você afasta a “nuvem”, e o caminho fica aberto para que o Pai fale comigo, exatamente como quando busquei o seu perdão para mim mesmo. Ele novamente moverá o meu coração, a fim de produzir a nossa reconciliação!

Você pode decidir me perdoar porque sabe que a Escritura exige isso; mas, se quisermos ser reconciliados, é essencial que você também me solte do juízo de Deus sobre mim, buscando pôr de lado a “nuvem” de pecado que paira acima de mim.

Falo sempre em “perdão e libertação” — os dois precisam ser pregados juntos! Um bom exemplo seria Estêvão, o primeiro mártir. Ele acabara de ser designado líder na igreja primitiva quando os líderes judeus o prenderam e o apedrejaram até a morte. Saulo de Tarso estava ali por perto, plenamente de acordo com o que faziam, pois nutria grande ódio por aqueles seguidores de Jesus.

Ao morrer, Estêvão clamou em alta voz: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” (Atos 7:60). Ele não orou em favor de si mesmo por coragem, força ou sequer por livramento; em vez disso, soltou-os da sua culpa.

Pergunto-me: será que Saulo teria chegado a ser o grande apóstolo Paulo se Estêvão não tivesse feito aquela oração? Tenho a convicção de que ele “abriu o céu” para Saulo! Jesus também fez uma oração semelhante, quando clamou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34), enquanto morria por você e por mim.

Um resultado maravilhoso de soltar os outros é que nós também somos soltos! É como segurar um cavalo pela ponta de uma corda — poderíamos dizer que o cavalo está preso enquanto corre à nossa volta no cercado; se, porém, o cavalo resolver disparar pelo campo enlameado, seremos arrastados pela lama, a menos que soltemos a corda!

Aquele nó que você sente no estômago depois que alguém pecou contra você é exatamente como essa corda. Você está emocionalmente amarrado àqueles que o feriram. Essa dor faz parte da ferida que eles causaram. Ainda que você os tenha perdoado, o nó continua ali sempre que os encontra ou ouve alguém falar deles.

Você, e eles, precisam ser soltos!

Jesus no meio deles É triste com que frequência Mateus 18:18-20 é citado fora de contexto! Esses versículos falam de perdão, libertação e reconciliação, e não da presença de Deus quando várias pessoas se reúnem! As promessas de Jesus ali dadas são para aqueles que buscam ativamente a reconciliação.

“Digo-vos ainda que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mateus 18:19-20). A ênfase aqui não é a presença dEle, pois Ele está sempre com cada um de nós que somos crentes, mas sim a sua bênção sobre a reconciliação — a prioridade dEle!

Recebemos uma chave que abrirá o céu para outros e que nos libertará das feridas e das amarras que elas criaram na nossa alma! Aprendamos a usar essa chave!

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