Propósito na Oração
Orar e nunca desanimar

Capítulo 6 · 12 min de leitura · 15 min de escuta

Orar e nunca desanimar

“Nada é impossível à diligência, “disse um dos sete sábios da Grécia. Troquemos a palavra diligência por oração perseverante, e o lema se tornará mais cristão e mais digno de ser adotado por todos. Estou convencido de que todos nós somos mais deficientes no espírito de oração do que em qualquer outra graça. Deus ama tanto a oração insistente que não nos dará muitas bênçãos sem ela. E a razão pela qual Ele ama esse tipo de oração é que Ele nos ama e sabe que ela é a preparação necessária para recebermos as mais ricas bênçãos que Ele está esperando e ansiando para conceder.

Nunca orei com sinceridade e fervor por coisa alguma sem que ela viesse em algum momento — não importa quão distante fosse o dia; de algum modo, sob alguma forma, provavelmente a última que eu teria imaginado, ela veio. — Adoniram Judson

Descubro que é bom perseverar nas tentativas de orar. Se não consigo orar com perseverança nem prolongar minha conversa com o Ser Divino, descobri que, quanto mais me dedico à oração secreta, mais prazer tenho nela e mais desfruto do espírito de oração; e muitas vezes experimentei o contrário quando, por viagens ou por outros motivos, fiquei privado do recolhimento. — David Brainerd

Cristo apresenta a importunação como característica distintiva da verdadeira oração. Não devemos apenas orar, mas orar com grande urgência, com concentração e com repetição. Não devemos apenas orar, mas orar de novo e de novo. Não devemos nos cansar de orar. Precisamos estar inteiramente empenhados, profundamente preocupados com as coisas que pedimos, pois Jesus Cristo deixou muito claro que o segredo da oração e do seu êxito está na sua urgência. Devemos insistir com Deus em nossas orações.

Numa parábola de requintada ternura e simplicidade, nosso Senhor ensinou não apenas que os homens devem orar, mas que devem orar com todo o coração e insistir no assunto com energia vigorosa e coração valente.

“Ele também lhes contou uma parábola para mostrar que deviam orar sempre e não desanimar, dizendo: Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva, e ela frequentemente vinha a ele, dizendo: Defende-me do meu adversário! Por algum tempo ele não quis atendê-la; mas depois disse a si mesmo: Embora eu não tema a Deus, nem respeite os homens, todavia, como esta viúva me incomoda, eu a defenderei, para que ela não me esgote com suas vindas contínuas. O Senhor disse: Ouçam o que diz o juiz injusto. Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, embora seja paciente com eles? Eu lhes digo que ele lhes fará justiça rapidamente. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará fé na terra?”

O caso dessa pobre mulher era dos mais desesperadores, mas a importunação traz esperança das regiões do desespero e cria o êxito onde não existiam nem o êxito nem as condições para ele. Não poderia haver caso mais forte para mostrar como a importunação incansável e destemida alcança seus fins onde tudo o mais fracassa. O prefácio desta parábola diz: “Ele também lhes contou uma parábola para mostrar que deviam orar sempre e não desanimar.” Ele sabia que os homens logo desanimariam na oração; por isso, para nos encorajar, Ele nos dá este retrato do poder maravilhoso da importunação.

A viúva, fraca e indefesa, é o desamparo personificado; privada de toda esperança e de toda influência que pudessem mover um juiz injusto, ela ainda assim vence a sua causa unicamente pela sua importunação incansável e incômoda. Poderiam a necessidade da importunação, o seu poder e a sua tremenda importância na oração ser pintados em cores mais profundas ou mais impressionantes? Ela vence ou remove todos os obstáculos, supera toda força de resistência e alcança seus fins diante de impedimentos invencíveis. Nada podemos fazer sem oração. Todas as coisas podem ser feitas pela oração insistente.

Esse é o ensino de Jesus Cristo.

Outra parábola contada por Jesus reforça a mesma grande verdade. Um homem vai à meia-noite até a casa de um amigo pedir pão emprestado. Seus apelos são fortes, baseados na amizade e nas exigências constrangedoras e implacáveis da necessidade, mas todos falham. Ele não recebe pão, mas permanece e insiste, e espera e consegue. A pura importunação vence onde todos os outros apelos e influências haviam fracassado.

O caso da mulher siro-fenícia é uma parábola em ação. Ela é detida em sua aproximação de Cristo pela informação de que Ele não quer ver ninguém. É-lhe negada a Sua presença e, depois, já na Sua presença, é tratada com aparente indiferença, com a frieza do silêncio e do descaso; ela insiste e se aproxima, e a insistência e a aproximação são repelidas pela declaração severa e esmagadora de que Ele não foi enviado à gente dela, de que ela está excluída da Sua missão e do Seu poder. É humilhada ao ser chamada de cachorro. Ainda assim, ela aceita tudo, supera tudo, conquista tudo pela sua importunação humilde, destemida e invencível. O Filho de Deus, satisfeito, surpreso, vencido pela sua importunação inconquistável, lhe diz: “Mulher, grande é a sua fé! Que seja feito a você assim como deseja.” Jesus Cristo se rende à importunação de uma grande fé. “Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, embora seja paciente com eles?”

Jesus Cristo coloca a capacidade de importunar como um dos elementos da oração, uma das principais condições da oração. A oração da mulher siro-fenícia é uma demonstração do poder incomparável da importunação, de uma luta mais real e que envolve mais energia vital, mais resistência e todos os elementos mais elevados do que jamais se viu nas competições dos jogos Ístmicos ou Olímpicos.

As primeiras lições de importunação são ensinadas no Sermão do Monte — “Peçam, e lhes será dado. Busquem, e encontrarão. Batam, e lhes será aberto.” Estes são degraus de avanço — “Pois todo o que pede, recebe. O que busca, encontra. E àquele que bate, será aberto.”

Sem perseverança, a oração pode ficar sem resposta. A importunação é feita da capacidade de se agarrar, de seguir em frente, de esperar com uma firmeza que não afrouxa nem pode afrouxar, com desejo inquieto e paciência serena. A oração insistente não é um incidente, mas o essencial; não é uma encenação, mas uma paixão; não é uma carência, mas uma necessidade.

A oração, em sua forma mais elevada e em seu êxito mais grandioso, assume a atitude de quem luta com Deus. É a disputa, a prova e a vitória da fé; uma vitória obtida não de um inimigo, mas Daquele que prova a nossa fé para ampliá-la, que testa a nossa força para nos tornar mais fortes. Poucas coisas dão à alma um vigor tão vivo e duradouro quanto um longo e exaustivo período de oração insistente. Ele cria uma experiência, uma época, um novo calendário para o espírito, uma vida nova para a religião, um treinamento de soldado. A Bíblia nunca se cansa de insistir no fato, e de ilustrá-lo, de que o mais elevado bem espiritual é obtido como retorno do mais elevado esforço espiritual. Não há na religião da Bíblia nem incentivo nem espaço para desejos fracos, esforços apáticos, atitudes preguiçosas; tudo deve ser intenso, urgente, ardente. Desejos inflamados e uma insistência apaixonada e incansável deleitam o céu. Deus quer que Seus filhos sejam incorrigivelmente sinceros e persistentemente ousados em seus esforços. O céu está ocupado demais para ouvir orações tíbias ou para atender a visitas de passagem.

Todo o nosso ser deve estar em nossa oração; como John Knox, devemos dizer e sentir: “Dá-me a Escócia, ou morrerei.” Nossas experiências e revelações de Deus nascem dos nossos sacrifícios custosos, das nossas lutas custosas, das nossas orações custosas. A luta de Jacó, sua oração durante toda a noite, marcou uma era jamais esquecida na vida de Jacó, trouxe Deus em seu socorro, mudou a atitude e a conduta de Esaú, mudou o caráter de Jacó, salvou e transformou a sua vida e entrou nos hábitos de uma nação.

Nossos períodos de oração insistente gravam-se, como o risco de um diamante, em nossos lugares mais duros, e marcam o nosso caráter com traços indeléveis. São os períodos marcantes da nossa vida! As pedras memoriais que permanecem e para as quais nos voltamos.

A importunação, convém repetir, é uma condição da oração. Devemos insistir no assunto, não com vãs repetições, mas com repetições urgentes. Repetimos não para contar as vezes, mas para alcançar o que pedimos. Não podemos parar de orar, porque o coração e a alma estão nisso. Oramos “com toda perseverança.” Agarramo-nos às nossas orações porque vivemos delas. Insistimos em nossos pedidos porque precisamos obtê-los ou morreremos. Cristo nos dá duas parábolas muito expressivas para enfatizar a necessidade da importunação na oração. Talvez Abraão tenha perdido Sodoma por não levar até o fim o seu privilégio de orar. Joás, sabemos, perdeu porque parou de golpear.

A perseverança conta muito com Deus, assim como com o homem. Se Elias tivesse parado no seu primeiro pedido, dificilmente os céus teriam liberado a sua chuva diante de uma oração tão fraca. Se Jacó tivesse parado de orar na hora decente de dormir, dificilmente teria sobrevivido ao encontro com Esaú no dia seguinte. Se a mulher siro-fenícia tivesse deixado a sua fé desfalecer diante do silêncio, da humilhação, da rejeição, ou tivesse interrompido no meio do caminho a sua luta, o seu lar aflito jamais teria sido iluminado pela cura da sua filha.

Orar e nunca desanimar: esse é o lema que Cristo nos dá para a oração. É a prova da nossa fé, e quanto mais severa a provação e mais longa a espera, mais gloriosos os resultados.

Os benefícios e a necessidade da importunação são ensinados pelos santos do Antigo Testamento. Os homens de oração devem ser fortes na esperança, na fé e na oração. Devem saber esperar e insistir, esperar em Deus e ser sinceros quando nos aproximamos Dele.

Abraão nos deixou um exemplo de intercessão insistente em seu apaixonado clamor a Deus em favor de Sodoma e Gomorra, e se, como já foi indicado, ele não tivesse parado de pedir, talvez Deus não tivesse parado de dar.

“Abraão parou de pedir antes que Deus parasse de conceder.” Moisés ensinou o poder da importunação quando intercedeu por Israel durante quarenta dias e quarenta noites, com jejum e oração. E ele foi bem-sucedido em sua importunação.

Jesus, em Seu ensino e em Seu exemplo, ilustrou e aperfeiçoou esse princípio do Antigo Testamento de suplicar e esperar. Que estranho que o Filho unigênito de Deus, que veio numa missão direta da parte de Seu Pai, cujo único céu na terra, cuja única vida e lei eram fazer a vontade de Seu Pai nessa missão — que mistério que Ele estivesse sob a lei da oração, que as bênçãos que Lhe vieram fossem geradas e compradas pela oração; e mais estranho ainda que a importunação na oração fosse o processo pelo qual Ele obtinha de Deus Seus mais ricos suprimentos. Se Ele não tivesse orado com importunação, não teria havido transfiguração em Sua história, nem obras poderosas teriam tornado divina a Sua carreira. A Sua oração de noites inteiras era o que enchia de compaixão e de poder o Seu trabalho de dias inteiros. A oração insistente de Sua vida coroou de triunfo a Sua morte. Ele aprendeu a elevada lição da submissão à vontade de Deus nas lutas da oração insistente antes de ilustrar essa submissão de modo tão sublime na cruz.

“Quer gostemos, quer não,” disse o Sr. Spurgeon, “pedir é a regra do reino.” “Peçam, e receberão.” É uma regra que jamais será alterada no caso de quem quer que seja. Nosso Senhor Jesus Cristo é o irmão mais velho da família, mas Deus não afrouxou a regra para Ele. Lembre-se deste texto: Jeová diz ao Seu próprio Filho: “Peça-me, e eu lhe darei as nações por sua herança, e os confins da terra por sua possessão.” Se o Filho Real e Divino de Deus não pode ser isentado da regra de pedir para receber, você e eu não podemos esperar que a regra seja afrouxada a nosso favor. Por que haveria de ser? Que razão se pode alegar para que sejamos isentados da oração? Que argumento pode haver para que sejamos privados do privilégio e livrados da necessidade da súplica? Não vejo nenhum; você vê? Deus abençoará Elias e mandará chuva sobre Israel, mas Elias precisa orar por ela. Se a nação escolhida há de prosperar, Samuel precisa suplicar por ela. Se os judeus hão de ser libertados, Daniel precisa interceder. Deus abençoará Paulo, e as nações serão convertidas por meio dele, mas Paulo precisa orar. E orar ele orou, sem cessar; suas epístolas mostram que ele não esperava nada a não ser pedindo. Se você pode ter tudo pedindo, e nada sem pedir, rogo-lhe que veja quão absolutamente vital é a oração, e suplico-lhe que abunde nela.”

Não há a menor dúvida de que grande parte das nossas orações fracassa por falta de persistência. Falta-lhes o fogo e a força da perseverança. A persistência é da essência da verdadeira oração. Talvez nem sempre seja posta em ação, mas deve estar presente como força de reserva. Jesus ensinou que a perseverança é o elemento essencial da oração. Os homens devem estar empenhados de verdade quando se ajoelham diante do escabelo de Deus.

Com demasiada frequência desanimamos e paramos de orar justamente no ponto em que deveríamos começar. Soltamos exatamente no ponto em que deveríamos segurar com mais força. Nossas orações são fracas porque não são inflamadas por uma vontade infalível e irresistível.

Deus ama quem suplica com insistência, e lhe envia respostas que jamais teriam sido concedidas não fosse a persistência que se recusa a soltar até que o pedido suplicado seja atendido.

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