Capítulo 10 · 20 min de leitura · 26 min de escuta
Oração sem oração
Considero os quatro Evangelhos inteiramente genuínos, pois há neles o reflexo de uma grandeza que emanava da pessoa de Jesus e que era de natureza tão divina como jamais se viu na terra.—Goethe
Não há possibilidades nem necessidade para a oração sem oração, uma execução sem coração, uma rotina sem sentido, um hábito morto, um desempenho apressado e descuidado—ela nada justifica. A oração sem oração não tem vida, não dá vida, está morta, exala morte. Não é um machado de guerra, mas um brinquedo de criança, para brincar e não para servir. A oração sem oração não chega sequer à importância e aos objetivos de uma recreação. A oração sem oração é apenas um peso, um estorvo na hora da luta, do conflito intenso, um toque de retirada no momento da batalha e da vitória.
Por que não oramos? Quais são os obstáculos à oração? Esta não é uma pergunta curiosa nem trivial. Ela atinge não apenas toda a questão da nossa oração, mas toda a questão da nossa religião. A religião inevitavelmente decai quando a oração é impedida. Aquilo que impede a oração impede a religião. Quem está ocupado demais para orar estará ocupado demais para viver uma vida santa.
Outros deveres tornam-se urgentes e absorventes e expulsam a oração. Morte por sufocamento: esse seria o veredito do legista em muitos casos de oração morta, se fosse possível obter um inquérito sobre essa terrível calamidade espiritual. Esse modo de impedir a oração torna-se tão natural, tão fácil, tão inocente que nos sobrevém sem que percebamos. Se permitirmos que a nossa oração seja expulsa, isso sempre acontecerá. Satanás prefere que deixemos o mato crescer no caminho do nosso quarto de oração a qualquer outra coisa. Um quarto de oração fechado significa ter falido religiosamente ou, o que é pior, ter entregado os bens aos credores e continuar a nossa religião em outro nome que não o de Deus e para a glória de outro. A glória de Deus só é assegurada no negócio da religião quando esta é conduzida com um grande capital de oração. Os apóstolos entenderam isso quando declararam que o seu tempo não devia ser empregado nem mesmo nos sagrados deveres da distribuição de esmolas; deviam perseverar, diziam eles, “na oração e no ministério da palavra,” sendo a oração posta em primeiro lugar por eles, e o ministério da palavra recebendo da oração a sua eficácia e a sua vida.
O processo de impedir a oração por expulsão é simples e avança por etapas. Primeiro, a oração é feita às pressas. Entram a inquietação e a agitação, fatais a todo exercício devoto. Depois o tempo é encurtado, e o gosto pelo exercício se desvanece. Então ela é empurrada para um canto e depende das sobras de tempo para ser praticada. O seu valor se deprecia. O dever perdeu a sua importância. Já não impõe respeito nem traz benefício. Caiu da estima, do coração, dos hábitos, da vida. Deixamos de orar e deixamos de viver espiritualmente.
Não há barreira contra as enchentes devastadoras do mundanismo, dos negócios e das preocupações, senão a oração. Cristo quis dizer isso quando nos ordenou vigiar e orar. Não há tropa de vanguarda para o Evangelho senão a oração. Paulo sabia disso quando declarou que estava “orando intensamente noite e dia para que possamos ver o rosto de vocês e aperfeiçoar o que falta na sua fé.” Não se chega a um alto estado de graça sem muita oração, e não se permanece nessas alturas sem grande oração. Epafras sabia disso quando estava “sempre lutando por vocês em suas orações” pela igreja de Colossos, “para que permaneçam perfeitos e completos em toda a vontade de Deus.”
A única maneira de impedir que a nossa oração seja estorvada é avaliar a oração pelo seu verdadeiro e grande valor. Avalie-a como Daniel, que, quando “soube que o documento havia sido assinado, ele foi para sua casa (ora, as janelas do seu quarto estavam abertas em direção a Jerusalém) e ele se ajoelhou três vezes ao dia, e orou, e deu graças diante do seu Deus, como costumava fazer antes.” Ponha a oração entre os valores mais altos, como fez Daniel, acima de posição, honra, conforto, riqueza e vida. Ponha a oração entre os hábitos, como fez Daniel. “Como costumava fazer antes,” tem muito para dar firmeza e fidelidade na hora da provação; muito para remover obstáculos e dominar circunstâncias contrárias.
Um dos truques mais astutos de Satanás é destruir o melhor por meio do bom. Os negócios e os outros deveres são bons, mas ficamos tão cheios deles que expulsam e destroem o melhor. A oração guarda a cidadela para Deus, e, se Satanás puder de algum modo enfraquecer a oração, terá ganhado até aí; e, quando a oração morre, a cidadela é tomada. Devemos guardar a oração como a sentinela fiel monta guarda, com vigilância insone. Não devemos mantê-la meio faminta e fraca como um bebê, mas devemos mantê-la com força de gigante. O nosso quarto de oração deve ter as nossas forças mais frescas, o nosso tempo mais tranquilo, as suas horas livres, sem intromissão, sem pressa. Lugar reservado e tempo de sobra são a vida da oração. “Ajoelhar-nos três vezes ao dia, e orar, e dar graças diante de Deus, como costumávamos fazer antes,” é o próprio coração e a alma da religião, e faz homens que, como Daniel, têm “um espírito excelente,” “muito amado no céu.”
A grandeza da oração, envolvendo como envolve o homem inteiro na sua forma mais intensa, não se realiza sem disciplina espiritual. Isso a torna um trabalho árduo, e diante desse esforço exigente e consumidor a nossa preguiça ou fraqueza espiritual fica envergonhada.
A simplicidade da oração, os seus elementos infantis, constituem um grande obstáculo à verdadeira oração. O intelecto se interpõe no caminho do coração. Só o espírito de criança é o espírito de oração. Não é ocupação de feriado tornar o homem criança outra vez. Na canção, na poesia, na memória ele pode desejar ser criança outra vez, mas na oração ele precisa ser criança outra vez de verdade. Junto aos joelhos da mãe: simples, doce, intenso, direto, confiante. Sem sombra de dúvida, sem disposição de aceitar uma recusa. Um desejo que arde e consome, que só pode ser expresso por um clamor. Não é tarefa fácil ter esse espírito infantil de oração.
Se orar fosse apenas uma hora no quarto de oração, as dificuldades enfrentariam e estorvariam até essa hora; mas orar é a vida inteira preparando-se para o quarto de oração. Como é difícil cobrir o lar e os negócios, todas as doçuras e todas as amarguras da vida, com a santa atmosfera do quarto de oração! Uma vida santa é a única preparação para a oração. É tão difícil orar quanto viver uma vida santa. Nisso encontramos um muro de exclusão erguido ao redor dos nossos quartos de oração; os homens não amam a oração santa, porque não amam e não querem praticar a vida santa. Montgomery expõe as dificuldades da verdadeira oração quando declara a sublimidade e a simplicidade da oração.
A oração é a fala mais simples
Que lábios infantis podem tentar;
A oração é o canto mais sublime que chega
À Majestade nas alturas.
Isto não é apenas boa poesia, mas uma verdade profunda quanto à elevação e à simplicidade da oração. Há grandes dificuldades em alcançar os acordes elevados e angélicos da oração. A dificuldade de descer à simplicidade dos lábios infantis não é muito menor.
No Antigo Testamento a oração é chamada de luta. Envolve conflito e habilidade, esforço árduo e exaustivo. No Novo Testamento temos os termos esforçar-se, lutar fervorosamente, fervorosa, eficaz, agonia, todos indicando um esforço intenso empregado e dificuldades vencidas. Nós, em nossos louvores, cantamos—
“Que obstáculos diversos encontramos
Ao chegar ao propiciatório.”
Também aprendemos que os resultados graciosos alcançados pela oração são geralmente proporcionais ao esforço empregado para remover os obstáculos que impedem a elevada comunhão da nossa alma com Deus.
Cristo contou uma parábola para mostrar que os homens deviam orar sempre e não desanimar. A parábola da viúva importuna ensina as dificuldades da oração, como devem ser vencidas e os felizes resultados que se seguem a uma oração valorosa. As dificuldades sempre obstruirão o caminho do quarto de oração enquanto continuar sendo verdade
“Que Satanás treme quando vê
O santo mais fraco de joelhos.”
A fé corajosa torna-se mais forte e mais pura ao vencer as dificuldades. Essas dificuldades apenas abrem os olhos da fé para o glorioso prêmio que será conquistado pelo lutador vitorioso na oração. Os homens não devem desanimar no combate da oração, mas devem entregar-se a essa obra alta e santa, desafiando as dificuldades do caminho, e experimentar nos resultados mais do que a felicidade de um anjo. Lutero disse: “Ter orado bem é ter estudado bem.” Mais do que isso, ter orado bem é ter lutado bem. Ter orado bem é ter vivido bem. Orar bem é morrer bem.
A oração é um dom raro, não um dom popular e fácil. A oração não é fruto de talentos naturais; é produto da fé, da santidade, de um caráter profundamente espiritual. Os homens aprendem a orar como aprendem a amar. A perfeição na simplicidade, na humildade, na fé—esses são os seus principais ingredientes. Os novatos nessas graças não são peritos na oração. Ela não pode ser manejada por mãos destreinadas; somente os formados na mais alta escola de arte do céu podem tocar as suas teclas mais finas, tirar as suas notas mais doces e mais altas. Material fino e acabamento livre são indispensáveis. Exigem-se mestres de ofício, pois meros operários não podem executar a obra da oração.
O espírito de oração deve governar o nosso espírito e a nossa conduta. O espírito do quarto de oração deve controlar a nossa vida, ou a hora no quarto de oração será monótona e sem seiva. Orar sempre em espírito; agir sempre no espírito da oração; isso torna forte a nossa oração. O espírito de cada momento é o que dá força à comunhão no quarto de oração. É o que somos fora do quarto de oração que dá a vitória ou traz a derrota ao quarto de oração. Se o espírito do mundo prevalece nas nossas horas fora do quarto de oração, o espírito do mundo prevalecerá nas nossas horas dentro dele, e isso será uma farsa vã e inútil.
Precisamos viver para Deus fora do quarto de oração se quisermos encontrar Deus no quarto de oração. Precisamos bendizer a Deus com uma vida de oração se quisermos ter a bênção de Deus no quarto de oração. Precisamos fazer a vontade de Deus em nossa vida se quisermos ter o ouvido de Deus no quarto de oração. Precisamos ouvir a voz de Deus em público se quisermos que Deus ouça a nossa voz em secreto. Deus precisa ter o nosso coração fora do quarto de oração, se quisermos ter a presença de Deus no quarto de oração. Se quisermos ter Deus no quarto de oração, Deus precisa nos ter fora do quarto de oração. Não há outra maneira de orar a Deus senão vivendo para Deus. O quarto de oração não é simplesmente um confessionário, mas a hora da santa comunhão, de um convívio elevado e doce e de intensa intercessão.
Os homens orariam melhor se vivessem melhor. Obteriam mais de Deus se vivessem de modo mais obediente e agradável a Deus. Teríamos mais força e tempo para a obra divina da intercessão se não tivéssemos de gastar tanta força e tempo acertando velhas contas e pagando os nossos impostos atrasados. Os nossos passivos espirituais excedem tanto os nossos ativos espirituais que o nosso tempo no quarto de oração é gasto em requerer a falência, em vez de ser o tempo de grande riqueza espiritual para nós e para os outros. Os nossos quartos de oração parecem demais com a placa: “Fechado para Reformas.”
João disse a respeito da oração cristã primitiva: “qualquer coisa que pedirmos, receberemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos as coisas que são agradáveis aos seus olhos.” Devemos notar que terrenos ilimitados eram abrangidos, que dádivas ilimitadas eram recebidas por meio daquela oração vigorosa: “qualquer coisa”—quão abrangente é o alcance e a recepção da oração poderosa; quão sugestivas são as razões da capacidade de orar e de ter as orações respondidas. Obediência, mas mais do que mera obediência: fazer as coisas que agradam plenamente a Deus. Eles iam para o seu quarto de oração fortalecidos por sua estrita obediência e por sua amorosa fidelidade a Deus na conduta. A vida deles não era apenas verdadeira e obediente; eles pensavam em coisas acima da obediência, buscando e fazendo o que alegrasse a Deus. Esses podem vir com passo ansioso e semblante radiante encontrar o seu Pai no quarto de oração, não apenas para serem perdoados, mas para serem aprovados e para receberem.
Faz muita diferença se viemos a Deus como criminosos ou como filhos; para sermos perdoados ou para sermos aprovados; para acertar contas ou para sermos abraçados; para o castigo ou para o favor. Para ser forte, a nossa oração precisa estar escorada por uma vida santa. O nome de Cristo precisa ser honrado pela nossa vida antes que honre as nossas intercessões. A vida de fé aperfeiçoa a oração da fé.
A nossa vida não apenas dá cor à nossa oração, mas também lhe dá corpo. Viver mal produz orar mal. Oramos fracamente porque vivemos fracamente. A corrente da oração não pode subir mais alto que a fonte da vida. A força do quarto de oração é feita da energia que flui das correntes confluentes do viver. A fraqueza do viver lança o seu desfalecimento sobre o lar do quarto de oração. Não podemos falar com Deus com vigor quando não vivemos para Deus com vigor. O quarto de oração não pode ser santo para Deus quando a vida não foi santa para Deus. A Palavra de Deus enfatiza a nossa conduta como aquilo que dá valor à nossa oração. “Então você clamará, e o SENHOR responderá. Você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. Se você tirar do seu meio o jugo, o apontar do dedo, e o falar maldosamente.”
Os homens devem orar “levantando mãos santas, sem ira e sem dúvida.” Devemos passar o tempo da nossa peregrinação aqui em temor, se quisermos invocar o Pai. Não podemos divorciar a oração da conduta. “Qualquer coisa que pedirmos, receberemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos as coisas que são agradáveis aos seus olhos.” “Vocês pedem, e não recebem, porque pedem com motivos errados, para gastarem em seus prazeres.” A ordem de Cristo, “Vigiem e orem,” serve para cobrir e guardar a conduta, a fim de que cheguemos ao nosso quarto de oração com toda a força que uma guarda vigilante sobre a nossa vida assegura.
A nossa religião desmorona com mais frequência e mais tristemente na conduta. Belas teorias são desfiguradas por vidas feias. O ponto mais difícil e também o mais impressionante da piedade é vivê-la. A nossa oração sofre tanto quanto a nossa religião com o viver mal. Nos tempos primitivos, os pregadores eram exortados a pregar com a vida ou então a não pregar de modo algum. Assim também os cristãos de toda parte deveriam ser exortados a orar com a vida ou então a não orar de modo algum. É claro que a oração de arrependimento é aceitável. Mas arrepender-se significa deixar de fazer o mal e aprender a fazer o bem. Um arrependimento que não produz mudança de conduta é uma farsa. A oração que não resulta em conduta pura é uma ilusão. Perdemos todo o ofício e toda a virtude da oração se ela não corrige a conduta. Está na própria natureza das coisas: ou deixamos de orar, ou deixamos a má conduta. Uma oração fria e morta pode coexistir com a má conduta, mas uma oração fria e morta não é oração alguma na estima de Deus. A nossa oração avança em poder à medida que corrige a vida. Uma vida que cresce em pureza e devoção será uma vida de mais oração.
O lamentável é que tanto da nossa oração não tem objeto nem alvo. Não tem propósito. Quanta oração há da parte de homens e mulheres que nunca permanecem em Cristo—oração apressada, oração doce e cheia de sentimento, oração agradável, mas não sustentada por uma vida unida a Cristo. Oração popular! Quanto dessa oração vem de corações não santificados e de lábios profanos! Orações brotam sob a influência de alguma grande comoção, de alguma emergência premente, de algum clamor popular, de algum grande perigo. Mas as condições da oração não estão ali. Precipitamo-nos na presença de Deus e tentamos atrelá-Lo—à nossa causa, inflamá-Lo com as nossas paixões, movê-Lo—com o nosso perigo. Por todas as coisas se deve orar—mas com mãos limpas, com absoluta deferência à vontade de Deus e permanecendo em Cristo. A oração sem oração, feita por lábios e corações não treinados na oração, por vidas em desarmonia com Jesus Cristo; a oração sem oração, que tem a forma e o movimento da oração mas não tem o verdadeiro coração da oração, nunca move Deus a responder. É dessa oração que Tiago diz: “Vocês não têm, porque não pedem. Vocês pedem, e não recebem, porque pedem com motivos errados.”
Os dois grandes males—não pedir e pedir de modo errado. Talvez o mal maior seja pedir errado, pois tem a aparência de dever cumprido, de oração quando não houve oração—um engano, uma fraude, uma farsa. Os tempos de mais oração não são, na verdade, os tempos da melhor oração. Os fariseus oravam muito, mas eram movidos pela vaidade; a sua oração era o símbolo da sua hipocrisia, pela qual fizeram da casa de oração de Deus um covil de ladrões. A deles era oração de ocasiões solenes—mecânica, rotineira, profissional, bela nas palavras, perfumada no sentimento, bem ordenada, bem recebida pelos ouvidos que a escutavam, mas totalmente desprovida de todo elemento de oração verdadeira.
As condições da oração são bem ordenadas e claras—permanecer em Cristo; orar em Seu nome. Uma das primeiras necessidades, se quisermos alcançar as infinitas possibilidades da oração, é livrar-nos da oração sem oração. Ela muitas vezes é bela nas palavras e na execução; tem as vestes da oração em forma rica e custosa, mas falta-lhe a alma da oração. Caímos com tanta facilidade no hábito do serviço sem oração, de simplesmente cumprir um programa.
Se ao menos os homens orassem em todas as ocasiões e em todo lugar onde fazem os gestos da oração! Se ao menos houvesse corações santos e inflamados por trás de todas essas belas palavras e formas graciosas! Se sempre houvesse corações elevados nesses homens eretos que proferem diante de Deus palavras impecáveis, porém vãs! Se sempre houvesse corações reverentes e curvados quando joelhos dobrados proferem diante de Deus palavras para agradar ouvidos humanos!
Nada preservará tanto a vida da oração—o seu vigor, doçura, obrigações, seriedade e valor—quanto uma profunda convicção de que a oração é uma aproximação de Deus, um pleitear com Deus, um pedir a Deus. Então haverá realidade nela; então haverá reverência na atitude, no lugar e no ar. A fé atrairá, acenderá e abrirá. O formalismo e a apatia não podem viver nesse lar elevado e inteiramente sério da alma.
A oração sem oração carece do elemento essencial da verdadeira oração; não se baseia no desejo e é desprovida de fervor e de fé. O desejo carrega o carro da oração, e a fé lhe move as rodas. A oração sem oração não tem fardo, porque não tem senso de necessidade; não tem ardor, porque nada tem da visão, da força ou do brilho da fé. Nenhuma pressão poderosa para orar, nenhum apegar-se a Deus com o aperto imortal e desesperado: “Não o deixarei ir, a não ser que me abençoe.” Nenhum completo abandono de si, perdido nas dores de uma súplica desesperada, pertinaz e consumidora: “Agora, porém, se quiseres, perdoa o pecado deles—mas se não, por favor, risca-me do teu livro;” ou “Dá-me a Escócia, ou eu morro.” A oração sem oração nada arrisca no resultado, pois nada tem a arriscar. Vem de mãos vazias, é verdade, mas são mãos apáticas, além de vazias. Nunca aprenderam a lição das mãos vazias agarradas à cruz; essa lição, para elas, não tem forma nem formosura.
A oração sem oração não põe o coração na oração. A falta de coração priva a oração da sua realidade e faz dela um vaso vazio e inútil. Coração, alma e vida precisam estar na nossa oração; os céus precisam sentir a força do nosso clamor e ser levados a uma simpatia oprimida pelo nosso estado amargo e necessitado. Uma necessidade que nos oprime, e que não tem alívio senão no nosso clamor a Deus, precisa dar voz à nossa oração.
A oração sem oração é insincera. Não tem honestidade no coração. Nomeamos em palavras o que não queremos no coração. As nossas orações dão expressão formal a coisas pelas quais o nosso coração não só não tem fome, como realmente não tem gosto algum. Certa vez ouvimos um pregador eminente e santo, hoje no céu, dirigir-se de forma abrupta e incisiva a uma congregação que acabara de se levantar da oração, com a pergunta e a afirmação: “Pelo que vocês oraram? Se Deus os agarrasse, os sacudisse e exigisse saber pelo que oraram, vocês não conseguiriam dizer-Lhe, nem para salvar a própria vida, qual foi a oração que acabou de morrer nos seus lábios.” É sempre assim: a oração sem oração não tem memória nem coração. Uma mera forma, uma massa heterogênea, um composto insípido, uma mistura jogada junto pelo som e para preencher o tempo, mas sem coração nem alvo—isso é a oração sem oração. Uma rotina seca, uma labuta tediosa, uma tarefa enfadonha e pesada é essa oração sem oração.
Mas a oração sem oração é muito pior do que tarefa ou labuta: ela divorcia a oração da vida; profere as suas palavras contra o mundo, mas com o coração e a vida corre para o mundo; ora pedindo humildade, mas alimenta o orgulho; ora pela abnegação enquanto satisfaz a carne. Nada supera a verdadeira oração em resultados de graça, mas é melhor não orar de modo algum do que fazer orações sem oração, pois elas não passam de pecado, e o pior pecado é pecar de joelhos.
O hábito da oração é um bom hábito, mas orar apenas por força do hábito é um péssimo hábito. Esse tipo de oração não está condicionado segundo a ordem de Deus nem é gerado pelo poder de Deus. Não é apenas um desperdício, uma perversão e uma ilusão, mas é também uma fonte prolífica de incredulidade. A oração sem oração não obtém resultados. Deus não é alcançado; o eu não é ajudado. É melhor não orar de modo algum do que não obter resultado algum da oração. Melhor para quem ora, melhor para os outros. Os homens ouvem falar dos resultados prodigiosos que se podem alcançar pela oração: o bem incomparável prometido à oração na Palavra de Deus. Esses mundanos de olhar penetrante ou esses tímidos de pouca fé notam a grande discrepância entre os resultados prometidos e os resultados obtidos, e são necessariamente levados a duvidar da verdade e do valor daquilo que é tão grande na promessa e tão mesquinho nos resultados. A religião e Deus são desonrados, e a dúvida e a incredulidade são fortalecidas por muito pedir e nada receber.
Em contraste com isso, que força poderosa é a oração cheia de oração! A oração verdadeira ajuda Deus e o homem. O Reino de Deus avança por meio dela. O maior bem chega ao homem por meio dela. A oração pode fazer tudo o que Deus pode fazer. O lamentável é que não cremos nisso como deveríamos e não o pomos à prova.
Capítulo 10 concluído
Oração sem oração