Capítulo 2 · 9 min de leitura
Os Verdadeiros Adoradores
“Mas a hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois o Pai procura a tais para serem os seus adoradores. Deus é espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” João 4:23-24.
Estas palavras de Jesus à mulher de Samaria são o Seu primeiro ensino registrado sobre o assunto da oração. Elas nos dão alguns primeiros vislumbres admiráveis do mundo da oração. O Pai busca adoradores: a nossa adoração satisfaz o Seu coração amoroso e Lhe dá alegria. Ele busca verdadeiros adoradores, mas encontra muitos que não são como Ele os desejaria.
A adoração verdadeira é aquela que se faz em espírito e em verdade. O Filho veio para abrir o caminho dessa adoração em espírito e em verdade e para ensiná-la a nós. Por isso, uma das nossas primeiras lições na escola da oração há de ser compreender o que é orar em espírito e em verdade e saber como podemos alcançá-lo.
À mulher de Samaria o nosso Senhor falou de uma tríplice adoração. Há, primeiro, a adoração ignorante dos samaritanos: 'Vocês adoram o que não conhecem' João 4:22. A segunda é a adoração esclarecida do judeu, que possuía o verdadeiro conhecimento de Deus: 'Nós adoramos o que conhecemos; pois a salvação vem dos judeus.' João 4:22. E há, então, a adoração nova, a espiritual, que Ele mesmo veio introduzir: “Mas a hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade.” João 4:23. Pelo contexto fica evidente que as palavras 'em espírito e em verdade' não significam, como muitas vezes se pensa, orar com fervor, de coração, com sinceridade.
Os samaritanos possuíam os cinco livros de Moisés e algum conhecimento de Deus; sem dúvida havia mais de um entre eles que buscava a Deus em oração com honestidade e fervor.
Os judeus tinham a verdadeira e plena revelação de Deus em Sua palavra, tal como fora dada até então; havia entre eles homens piedosos, que invocavam a Deus de todo o coração. E, contudo, não 'em espírito e em verdade', no sentido pleno dessas palavras.
Jesus diz: 'Mas a hora vem, e agora é' João 4:23. É somente Nele e por meio Dele que a adoração a Deus será em espírito e em verdade.
Entre os cristãos, ainda se encontram as três classes de adoradores. Alguns que, em sua ignorância, mal sabem o que pedem: oram com fervor e, no entanto, recebem muito pouco. Há outros, que possuem um conhecimento mais correto, que procuram orar com toda a mente e todo o coração e muitas vezes oram com grande fervor e, ainda assim, não alcançam a plena bem-aventurança da adoração em espírito e em verdade. É nesta terceira classe que devemos pedir ao nosso Senhor Jesus que nos coloque; precisamos ser ensinados por Ele a adorar em espírito e em verdade. Só isto é adoração espiritual; só isto nos torna adoradores como aqueles que o Pai busca.
Na oração, tudo dependerá de compreendermos bem e praticarmos a adoração em espírito e em verdade. “Deus é espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” João 4:24. O primeiro pensamento que o Mestre aqui sugere é que deve haver harmonia entre Deus e os Seus adoradores: tal como Deus é, assim deve ser a adoração que Lhe é prestada. Isso corresponde a um princípio que vigora em todo o universo: esperamos encontrar correspondência entre um objeto e o órgão ao qual ele se revela ou se entrega. O olho tem uma aptidão interior para a luz, e o ouvido, para o som.
Aquele que quiser verdadeiramente adorar a Deus, que quiser encontrar, conhecer, possuir e desfrutar de Deus, precisa estar em harmonia com Ele e ter capacidade para recebê-Lo. Porque Deus é Espírito, precisamos adorar em espírito. Tal como Deus é, assim é o Seu adorador.
E o que significa isso? A mulher havia perguntado ao nosso Senhor se Samaria ou Jerusalém era o verdadeiro lugar de adoração. Ele responde que dali em diante a adoração já não estaria limitada a um determinado lugar: “Mulher, acredite em mim, a hora vem quando nem neste monte nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai” João 4:21. Assim como Deus é Espírito, não preso ao espaço nem ao tempo, mas em Sua infinita perfeição sempre e em toda parte o mesmo, também a Sua adoração dali em diante não estaria mais confinada a um lugar ou a uma forma, e sim seria espiritual, como espiritual é o próprio Deus. Uma lição de profunda importância. Como o nosso cristianismo sofre por estar confinado a certos tempos e lugares!
Um homem que procura orar com fervor na igreja ou no quarto passa a maior parte da semana ou do dia num espírito inteiramente contrário àquele em que orou. A sua adoração foi obra de um lugar ou de uma hora determinada, não de todo o seu ser. Deus é espírito: Ele é o Eterno e Imutável; o que Ele é, Ele o é sempre e de verdade. Assim também a nossa adoração deve ser em espírito e em verdade: a adoração a Ele deve ser o espírito da nossa vida; a nossa vida deve ser adoração em espírito, como Deus é Espírito.
'Deus é espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade' João 4:24. O segundo pensamento que nos vem é que essa adoração em espírito precisa vir do próprio Deus. Deus é Espírito: só Ele tem Espírito para dar. Foi para isso que Ele enviou o Seu Filho, para nos capacitar a tal adoração espiritual, dando-nos o Espírito Santo. É da Sua própria obra que Jesus fala quando diz duas vezes 'a hora vem', João 4:23 e acrescenta em seguida: 'e agora é'.
Ele veio para batizar no Espírito Santo; o Espírito não poderia jorrar antes que Ele fosse glorificado (João 1:33; 7:37-38; 16:7). Foi quando Ele deu fim ao pecado e entrou com o Seu sangue no Santo dos Santos, tendo ali recebido em nosso favor o Espírito Santo (Atos 2:33), que pôde enviá-Lo a nós como o Espírito do Pai. Foi quando Cristo nos redimiu, e nós Nele recebemos a condição de filhos, que o Pai enviou o Espírito do Seu Filho aos nossos corações, a clamar: 'Aba, Pai'. A adoração em espírito é a adoração do Pai no Espírito de Cristo, o Espírito de filiação.
Essa é a razão pela qual Jesus emprega aqui o nome de Pai. Nunca encontramos um dos santos do Antigo Testamento apropriando-se pessoalmente do nome de filho ou chamando a Deus de seu Pai. A adoração do Pai só é possível àqueles a quem foi dado o Espírito do Filho. A adoração em espírito só é possível àqueles a quem o Filho revelou o Pai e que receberam o espírito de filiação. É somente Cristo quem abre o caminho e ensina a adoração em espírito e em verdade. Isso não significa apenas com sinceridade. Nem significa apenas de acordo com a verdade da Palavra de Deus. A expressão tem um sentido profundo e divino. Jesus é 'o Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade'. João 1:14. 'Pois a lei foi dada por meio de Moisés. A graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo' João 1:17. Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” João 14:6.
No Antigo Testamento tudo era sombra e promessa; Jesus trouxe e deu a realidade, a substância das coisas que se esperam. Nele, as bênçãos e os poderes da vida eterna são posse e experiência efetivas nossas. Jesus é cheio de graça e de verdade; o Espírito Santo é o Espírito da verdade; por meio Dele, a graça que está em Jesus é realmente nossa, e a verdade é uma comunicação concreta que brota da vida divina. Assim, adorar em espírito é adorar em verdade: comunhão viva e real com Deus, uma verdadeira correspondência e harmonia entre o Pai, que é Espírito, e o filho que ora no espírito.
O que Jesus disse à mulher de Samaria ela não pôde compreender de imediato. Foi preciso o Pentecostes para revelar o seu pleno sentido. Nós tampouco estamos preparados, ao entrar pela primeira vez na escola da oração, para apreender um ensino como esse. Iremos entendê-lo melhor mais adiante. Comecemos apenas e recebamos a lição tal como Ele a dá. Somos carnais e não podemos oferecer a Deus a adoração que Ele busca. Mas Jesus veio para dar o Espírito: Ele já nos deu. Que a disposição com que nos dispomos a orar seja aquela que as palavras de Cristo nos ensinaram. Haja em nós a profunda confissão da nossa incapacidade de trazer a Deus a adoração que Lhe agrada; a disposição de aprender, como a de uma criança, que espera Nele para ser instruída; a fé simples que se entrega ao sopro do Espírito.
Acima de tudo, apeguemo-nos firmemente a esta verdade abençoada — e veremos que o Senhor ainda tem mais a nos dizer a respeito dela — de que o conhecimento da paternidade de Deus, a revelação em nosso coração do Seu infinito amor de Pai, a fé no amor infinito que nos dá o Seu Filho e o Seu Espírito para nos tornar filhos, é de fato o segredo da oração em espírito e em verdade. Este é o caminho novo e vivo que Cristo abriu para nós. Ter Cristo, o Filho, e o Espírito do Filho habitando em nós e revelando o Pai é o que nos faz verdadeiros adoradores espirituais.
Bendito Senhor! Adoro o amor com que ensinaste a uma mulher, que te havia negado um copo de água, o que deve ser a adoração a Deus. Alegro-me na certeza de que não instruirás menos agora o teu discípulo, que vem a ti com um coração que anseia orar em espírito e em verdade. Ó meu Santo Mestre! Ensina-me este bendito segredo.
Ensina-me que a adoração em espírito e em verdade não vem do homem, mas somente de ti; que ela não é apenas questão de tempos e ocasiões, mas o transbordar de uma vida em ti. Ensina-me a me achegar a Deus em oração sob a impressão profunda da minha ignorância e de que nada tenho em mim mesmo para Lhe oferecer, e, ao mesmo tempo, sob a impressão da provisão que tu, meu Salvador, fazes para que o Espírito sopre nas minhas gagueiras de criança. Eu te bendigo porque em ti sou filho e tenho a liberdade de acesso que um filho tem; porque em ti tenho o espírito de filiação e de adoração em verdade. Ensina-me, acima de tudo, Bendito Filho do Pai, como é a revelação do Pai que dá confiança na oração; e que o infinito amor paternal do coração de Deus seja a minha alegria e a minha força para uma vida de oração e de adoração.
Amém.