Capítulo 1 · 10 min de leitura
O Único Mestre
“Quando ele terminou de orar em certo lugar, um de seus discípulos lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar, assim como João também ensinou aos seus discípulos.”” Lucas 11:1.
Os discípulos haviam estado com Cristo e O tinham visto orar. Haviam aprendido a perceber algo da ligação entre a Sua admirável vida diante dos homens e a Sua vida secreta de oração. Haviam aprendido a crer Nele como Mestre na arte de orar. Ninguém sabia orar como Ele. Por isso vieram a Ele com o pedido: 'Senhor, ensina-nos a orar' (Lucas 11:1). E, anos mais tarde, eles nos teriam dito que poucas coisas mais admiráveis ou mais abençoadas Ele lhes ensinou do que as Suas lições sobre a oração. E ainda hoje acontece o mesmo: enquanto Ele ora em certo lugar, os discípulos que assim O contemplam sentem a necessidade de repetir o mesmo pedido: 'Senhor, ensina-nos a orar' (Lucas 11:1).
À medida que crescemos na vida cristã, o pensamento e a fé no Amado Mestre em Sua intercessão que nunca falha tornam-se mais preciosos, e a esperança de ser semelhante a Cristo em Sua intercessão ganha um atrativo antes desconhecido. E, ao vê-Lo orar, lembrando que ninguém pode orar como Ele nem ensinar como Ele, sentimos que o pedido dos discípulos, 'Senhor, ensina-nos a orar', é exatamente aquilo de que precisamos.
E, ao pensarmos em tudo o que Ele é e tem, em como Ele mesmo é inteiramente nosso, em como Ele mesmo é a nossa vida, ficamos certos de que basta pedirmos, e Ele terá prazer em nos levar a uma comunhão mais íntima consigo e em nos ensinar a orar assim como Ele ora.
Venham, meus irmãos! Não iremos ao Bendito Mestre para pedir-Lhe que inscreva também os nossos nomes, de novo, naquela escola que Ele mantém sempre aberta para os que anseiam prosseguir em seus estudos na arte divina da oração e da intercessão? Sim, digamos hoje mesmo ao Mestre, como eles disseram naquele dia: 'Senhor, ensina-nos a orar.' Ao meditarmos, descobriremos que cada palavra do pedido que trazemos está cheia de sentido.
'Senhor, ensina-nos a orar.' Sim, a orar. É isso que precisamos que nos seja ensinado. Ainda que, em seus começos, a oração seja tão simples que até a criança mais frágil pode orar, ela é, ao mesmo tempo, a obra mais alta e mais santa a que o ser humano pode se elevar. É comunhão com Aquele que é invisível e santíssimo. Os poderes do mundo eterno foram postos à sua disposição. É a essência mesma da verdadeira religião, o canal de todas as bênçãos, o segredo do poder e da vida. E isso não só para nós mesmos, mas para os outros, para a Igreja e para o mundo. Foi na oração que Deus nos deu o direito de lançar mão Dele e da Sua força. É na oração que as promessas esperam o seu cumprimento, o Reino espera a sua vinda, e a glória de Deus espera a sua plena revelação. E para essa obra abençoada, como somos preguiçosos e despreparados! Só o Espírito de Deus pode nos capacitar a realizá-la bem. Com que rapidez nos deixamos enganar, descansando na forma enquanto o poder está ausente!
A nossa formação de infância, o ensino da Igreja, a força do hábito, a comoção dos sentimentos — com que facilidade tudo isso conduz a uma oração sem poder espiritual, que de pouco aproveita. Mas a oração verdadeira, a que se apodera da força de Deus, a que muito pode, aquela diante da qual as portas do céu realmente se escancaram — quem não clamaria: ah, se alguém me ensinasse a orar! Jesus abriu uma escola na qual treina os Seus remidos, sobretudo aqueles que o desejam, aqueles que querem ter poder na oração. Não entraremos nela com este pedido: Senhor, é justamente disto que precisamos ser ensinados! Ah, ensina-nos a orar!
'Senhor, ensina-nos a orar.' Sim, a nós, Senhor. Lemos em tua Palavra com que poder o teu povo crente orava naquele tempo, e que maravilhas foram realizadas em resposta às suas orações. E, se isso sucedeu sob a Antiga Aliança, no tempo da preparação, quanto mais agora, nestes dias de cumprimento, não darás ao teu povo este sinal seguro da tua presença no meio dele? Ouvimos as promessas dadas aos teus apóstolos acerca do poder da oração em teu nome, e vimos com que glória eles experimentaram a verdade delas. Sabemos com certeza que elas também podem tornar-se verdadeiras para nós. Ouvimos continuamente, ainda em nossos dias, que sinais gloriosos do teu poder tu ainda dás aos que plenamente confiam em ti, Senhor! Todos esses são homens sujeitos às mesmas fraquezas que nós; ensina-nos a orar assim também.
As promessas são para nós; os poderes e os dons do mundo celestial são para nós. Ensina-nos a orar, para que recebamos em abundância. Também a nós confiaste a tua obra; também da nossa oração depende a vinda do teu Reino; também em nossa oração tu não podes glorificar o teu nome; 'Senhor, ensina-nos a orar.' Sim, a nós, Senhor; oferecemo-nos como aprendizes; queremos de fato ser ensinados por ti. 'Senhor, ensina-nos a orar.'
'Senhor, ensina-nos a orar.' Sim, agora sentimos a necessidade de sermos ensinados a orar. No início, nenhuma tarefa parece tão simples; mais adiante, nenhuma se mostra mais difícil, e somos levados a confessar: não sabemos orar como convém. É verdade que temos a Palavra de Deus, com as suas promessas claras e seguras; mas o pecado obscureceu de tal modo o nosso entendimento que nem sempre sabemos como aplicá-la. Nas coisas espirituais, nem sempre buscamos o que é mais necessário, ou falhamos em orar segundo a lei do santuário.
Nas coisas temporais, somos ainda menos capazes de aproveitar a admirável liberdade que o nosso Pai nos deu de pedir aquilo de que precisamos. E, mesmo quando sabemos o que pedir, quanta coisa ainda nos falta para que a oração seja aceitável!
Ela há de ser para a glória de Deus, em plena entrega à Sua vontade, em plena certeza de fé, em nome de Jesus, e com uma perseverança que, se for preciso, se recusa a aceitar a negativa. Tudo isso precisa ser aprendido. E só pode ser aprendido na escola da muita oração, pois é a prática que aperfeiçoa. Em meio à dolorosa consciência da nossa ignorância e indignidade, na luta entre crer e duvidar, é que se aprende a arte celestial da oração eficaz. Porque, mesmo quando não nos lembramos disso, há Alguém, o Autor e Consumador da fé e da oração, que vela sobre o nosso orar e cuida de que, em todos os que Nele confiam para isso, a educação na escola da oração seja levada à perfeição. Que o tom profundo de toda a nossa oração seja aquela disposição de aprender que nasce do sentimento da própria ignorância e da fé Nele como Mestre perfeito, e podemos ter certeza de que seremos ensinados e aprenderemos a orar com poder. Sim, podemos contar com isso: Ele nos ensina a orar.
'Senhor, ensina-nos a orar.' Ninguém pode ensinar como Jesus, ninguém senão Jesus; por isso clamamos a Ele: 'Senhor, ensina-nos a orar.' O aluno precisa de um mestre que conheça o seu ofício, que tenha o dom de ensinar, que com paciência e amor desça até as necessidades do aluno. Bendito seja Deus! Jesus é tudo isso e muito mais. Ele sabe o que é a oração. É Jesus, Ele mesmo orando, quem nos ensina a orar. Ele sabe o que é a oração: aprendeu-a em meio às provações e lágrimas da Sua vida terrena. No céu, ela continua sendo a Sua obra amada: há oração em Sua vida. Nada Lhe dá maior alegria do que encontrar aqueles que pode levar consigo à presença do Pai, aqueles que pode revestir de poder para fazer descer, pela oração, a bênção de Deus sobre os que os cercam, aqueles que pode formar como Seus cooperadores na intercessão pela qual o Reino há de se manifestar na terra. Ele sabe ensinar. Ora pela urgência de uma necessidade sentida, ora pela confiança que a alegria inspira. Aqui, pelo ensino da Palavra; ali, pelo testemunho de outro crente que sabe o que é ter a oração atendida.
Pelo Seu Espírito Santo, Ele tem acesso ao nosso coração e nos ensina a orar, mostrando-nos o pecado que estorva a oração ou dando-nos a certeza de que agradamos a Deus. Ele ensina não apenas dando-nos ideias do que pedir ou de como pedir, mas soprando dentro de nós o próprio espírito de oração, vivendo em nós como o Grande Intercessor. Podemos de fato dizer, com a maior alegria: 'Quem ensina como Ele?' Jesus nunca ensinou os Seus discípulos a pregar, apenas a orar. Não falou muito do que é preciso para pregar bem, mas falou muito de orar bem. Saber falar com Deus é mais do que saber falar com os homens. O primeiro de tudo não é ter poder diante dos homens, mas poder diante de Deus. Jesus ama ensinar-nos a orar.
Que dizem vocês, meus amados companheiros de discipulado? Não seria exatamente aquilo de que precisamos pedir ao Mestre que, durante um mês, nos dê um curso de lições especiais sobre a arte de orar? Enquanto meditamos nas palavras que Ele falou na terra, entreguemo-nos ao Seu ensino, na plena confiança de que, com semelhante mestre, havemos de progredir. Tomemos tempo não só para meditar, mas para orar, para nos demorarmos ao pé do trono e sermos treinados na obra da intercessão. Façamos isso com a certeza de que, em meio às nossas gagueiras e temores, Ele leva adiante a Sua obra do modo mais belo. Ele soprará em nós a Sua própria vida, que é toda oração. Assim como nos faz participantes da Sua justiça e da Sua vida, também nos fará participantes da Sua intercessão. Como membros do Seu corpo, como sacerdócio santo, tomaremos parte na Sua obra sacerdotal de suplicar a Deus pelos homens e de prevalecer diante Dele. Sim, digamos com a maior alegria, ainda que ignorantes e frágeis: 'Senhor, ensina-nos a orar.'
Bendito Senhor! Tu amas fazer-me partilhar da tua glória no céu, para que eu ore sem cessar e esteja sempre como sacerdote na presença do meu Deus. Senhor Jesus! Peço-te hoje que inscrevas o meu nome entre os que confessam não saber orar como convém, e peço-te de modo especial um curso de ensino sobre a oração. Senhor, ensina-me a me demorar contigo nessa escola e a te dar tempo para me formares. Que uma consciência profunda da minha ignorância, do maravilhoso privilégio e poder da oração e da necessidade do Espírito Santo como Espírito de oração me leve a lançar fora tudo o que penso saber e me faça ajoelhar diante de ti com verdadeira disposição de aprender e com pobreza de espírito.
Enche-me, Senhor, da confiança de que, tendo um mestre como tu, aprenderei a orar. Na certeza de que tenho como mestre a Jesus, que sempre ora ao Pai e que, por Sua oração, governa os destinos da Sua Igreja e do mundo, não terei medo. Tudo quanto eu precisar conhecer dos mistérios do mundo da oração, tu me revelarás. E, quando não me for dado conhecer, tu me ensinarás a ser forte na fé, dando glória a Deus. Bendito Senhor! Tu não envergonharás o teu aluno que confia em ti, nem, pela tua graça, tampouco o farias. Amém.