Capítulo 3 · 10 min de leitura
A Sós com Deus
“Mas você, quando orar, entre no seu quarto e, tendo fechado a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto; e o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” Mateus 6:6.
Depois de chamar os Seus primeiros discípulos, Jesus lhes deu o Seu primeiro ensino público no monte. Ali lhes expôs o Reino de Deus, as suas leis e a sua vida. Nesse Reino, Deus não é somente Rei, mas Pai; Ele não apenas dá tudo, mas Ele mesmo é tudo. Só no conhecimento e na comunhão com Ele está a bem-aventurança desse Reino. Por isso veio naturalmente que a revelação da oração e da vida de oração fosse parte do Seu ensino a respeito do Novo Reino que veio estabelecer. Moisés não deu nem mandamento nem regra a respeito da oração; até mesmo os profetas dizem pouco, de modo direto, sobre o dever de orar; é Cristo quem ensina sobre a oração.
A primeira coisa que o Senhor ensina aos Seus discípulos é que eles precisam ter um lugar secreto para orar; cada um precisa ter algum recanto solitário onde possa estar a sós com o seu Deus. Todo mestre precisa de uma sala de aula. Aprendemos a conhecer e a receber Jesus como o nosso único mestre na escola da oração. Ele já nos ensinou, em Samaria, que a adoração não está mais presa a tempos e lugares; que a adoração, a verdadeira adoração espiritual, é coisa do espírito e da vida; o ser humano inteiro, em toda a sua vida, deve adorar em espírito e em verdade. Ele quer que cada um escolha para si o lugar determinado onde possa encontrá-Lo diariamente. Aquele aposento interior, aquele lugar solitário, é a sala de aula de Jesus.
Esse lugar pode ser em qualquer parte; esse lugar pode mudar de um dia para outro, se tivermos de mudar de morada; mas esse lugar secreto precisa existir, com o tempo tranquilo em que o aluno se coloca na presença do Mestre, para ser por Ele preparado a adorar o Pai. Ali, e só ali, mas ali com toda a certeza, Jesus vem a nós para nos ensinar a orar.
Todo mestre deseja que a sua sala de aula seja clara e atraente, cheia da luz e do ar do céu, um lugar aonde os alunos anseiem vir e onde gostem de ficar. Em Suas primeiras palavras sobre a oração, no Sermão do Monte, Jesus procura nos apresentar o aposento interior sob a sua luz mais atraente. Se escutarmos com atenção, logo perceberemos qual é o ponto principal: Ele tem algo a nos dizer sobre a nossa permanência ali. Três vezes Ele usa o nome de Pai: “Ore ao seu Pai, que está em secreto; e o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” Mateus 6:6. “O seu Pai sabe das coisas de que vocês precisam, antes mesmo de lhe pedirem.” Mateus 6:8.
A primeira coisa na oração feita no quarto fechado é esta: eu preciso encontrar-me com o meu Pai. A luz que brilha nesse lugar há de ser a luz do rosto do Pai. O ar puro do céu com que Jesus quer encher a atmosfera em que hei de respirar e orar é o amor paternal de Deus, a Sua infinita ternura de Pai. Assim, cada pensamento ou pedido que exalarmos será uma confiança simples, sincera e infantil no Pai. É assim que o Mestre nos ensina a orar: Ele nos introduz na presença viva do Pai. O que ali pedirmos há de valer. Escutemos com atenção o que o Senhor tem a nos dizer. Primeiro: 'Ore ao seu Pai, que está em secreto.' Mateus 6:6.
Deus é um Deus que se esconde do olho carnal. Enquanto, em nossa adoração a Deus, estivermos ocupados principalmente com os nossos próprios pensamentos e exercícios, não iremos ao encontro Daquele que é Espírito, o Invisível. Mas ao homem que se afasta de tudo o que é do mundo e do homem, e se prepara para esperar somente em Deus, o Pai se revelará.
À medida que ele deixa, abandona e fecha fora de si o mundo e a vida do mundo, e se entrega a ser conduzido por Cristo ao segredo da presença de Deus, a luz do amor do Pai se levantará sobre ele.
O segredo do aposento interior e da porta fechada, a completa separação de tudo o que nos cerca, é uma imagem daquele santuário espiritual interior, o segredo do tabernáculo de Deus, dentro do véu, onde o nosso espírito verdadeiramente entra em contato com o Invisível. E assim somos ensinados, logo no início da nossa busca pelo segredo da oração eficaz, a lembrar que é no aposento interior, onde estamos a sós com o Pai, que aprenderemos a orar corretamente.
O Pai está em secreto. Com estas palavras, Jesus nos ensina onde Ele nos espera, onde sempre pode ser encontrado. Os cristãos muitas vezes se queixam de que a sua oração particular não é o que deveria ser. Sentem-se fracos e pecadores, o coração está frio e escuro; é como se tivessem tão pouco pelo que orar, e nesse pouco, pouca ou nenhuma fé ou alegria. Ficam desanimados e afastados da oração pelo pensamento de que não podem chegar ao Pai como deveriam ou como desejariam. Filho de Deus! Escute o seu Mestre. Ele lhe diz que, quando você for orar em particular, o seu primeiro pensamento deve ser: o Pai está em secreto, o Pai me espera ali. Justamente porque o seu coração está frio e sem oração, entre na presença do Pai amoroso. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece de você. Não fique pensando em quão pouco você tem para trazer a Deus, mas em quanto Ele deseja lhe dar. Basta colocar-se diante Dele e erguer os olhos para o Seu rosto; pense no Seu amor, no Seu amor admirável, terno e compassivo.
Diga-Lhe simplesmente quão pecaminoso, frio e escuro está tudo dentro de você: é o coração amoroso do Pai que dará luz e calor ao seu.
Ah, faça o que Jesus diz: apenas feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto. Não é maravilhoso poder estar a sós com Deus, o Deus infinito, e então erguer os olhos e dizer: Meu Pai! “E o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” Mateus 6:6. Aqui Jesus nos garante que a oração em secreto não pode ser infrutífera: a sua bênção se mostrará em nossa vida. Enquanto estamos a sós com Deus em secreto, precisamos confiar-Lhe a nossa vida diante dos homens; Ele nos recompensará publicamente; Ele cuidará de que a resposta à oração se manifeste na bênção que derrama sobre nós. Assim, o nosso Senhor quer nos ensinar que, se é com infinita ternura de Pai e infinita fidelidade que Deus nos encontra em secreto, da nossa parte deve haver a simplicidade infantil da fé, a confiança de que a nossa oração realmente faz descer uma bênção.
'Aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que é recompensador daqueles que o buscam.' Hebreus 11:6. A bênção do quarto fechado não depende do sentimento forte ou fervoroso com que eu oro, mas do amor e do poder do Pai a quem confio as minhas necessidades. Por isso o Mestre tem apenas um desejo: lembre-se de que o seu Pai vê e ouve em secreto; vá até lá, permaneça ali e saia dali com confiança: Ele o recompensará. Confie Nele para isso; dependa Dele: a oração ao Pai não pode ser em vão; Ele o recompensará publicamente.
Para confirmar ainda mais essa fé no amor paternal de Deus, Cristo diz uma terceira palavra: 'O seu Pai sabe das coisas de que vocês precisam, antes mesmo de lhe pedirem.' Mateus 6:8. À primeira vista, poderia parecer que esse pensamento torna a oração menos necessária: Deus sabe muito melhor do que nós aquilo de que precisamos. Mas, à medida que compreendemos mais profundamente o que a oração realmente é, essa verdade ajudará a fortalecer a nossa fé. Ela nos ensinará que não precisamos, como os pagãos, com a multidão e a insistência das nossas palavras, obrigar um Deus relutante a nos ouvir. Ela conduzirá a uma santa reflexão e a um silêncio na oração, ao sugerir a pergunta: será que o meu Pai sabe mesmo que eu preciso disto? E, quando uma vez formos levados pelo Espírito à certeza de que o nosso pedido é de fato algo de que, segundo a Palavra, precisamos para a glória de Deus, ela nos dará uma confiança admirável para dizer: meu Pai sabe que eu preciso disso e que devo recebê-lo. E, se houver alguma demora na resposta, ela nos ensinará a persistir em tranquila perseverança: Pai! Tu sabes que eu preciso disto.
Ah, a bendita liberdade e simplicidade de uma criança, que Cristo, o nosso Mestre, tanto deseja cultivar em nós quando nos aproximamos de Deus: olhemos para o Pai até que o Seu Espírito a opere em nós. Às vezes, em nossas orações, quando corremos o perigo de estar tão absortos em nossos pedidos fervorosos e urgentes a ponto de esquecer que o Pai sabe e ouve, fiquemos quietos e digamos apenas, em silêncio: meu Pai vê, meu Pai ouve, meu Pai sabe; isso ajudará a nossa fé a receber a resposta e a dizer: sabemos que alcançamos os pedidos que Lhe fizemos.
E agora, todos vocês que entraram na escola de Cristo para serem ensinados a orar, recebam estas lições, pratiquem-nas e confiem que Ele os aperfeiçoará nelas. Permaneçam bastante no aposento interior, com a porta fechada — fechados para os homens, encerrados com Deus; é ali que o Pai espera por você, e é ali que Jesus lhe ensinará a orar. Estar a sós, em secreto, com o Pai: essa é a sua maior alegria. Ter a certeza de que o Pai recompensará publicamente a oração feita em secreto, de modo que ela não pode ficar sem bênção: essa é a sua força dia após dia. E saber que o Pai sabe que você precisa daquilo que pede: essa é a sua liberdade para trazer toda necessidade, na certeza de que o seu Deus a suprirá segundo as Suas riquezas em glória em Cristo Jesus.
Bendito Salvador, de todo o coração eu te bendigo por teres instituído o aposento interior como a escola em que te encontras a sós com cada um dos teus alunos e lhe revelas o Pai. Ó meu Senhor! Fortalece de tal modo a minha fé no terno amor e na bondade do Pai que, sempre que eu me sentir pecador ou perturbado, o meu primeiro impulso seja ir aonde sei que o Pai me espera, e onde a oração jamais fica sem bênção. Que o pensamento de que Ele conhece a minha necessidade antes que eu peça me leve, no grande descanso da fé, a confiar que Ele dará o que o Seu filho precisa. Ah, faze com que o lugar da oração secreta se torne para mim o recanto mais amado da terra.
Senhor! Ouve-me quando peço que abençoes os lugares de oração do teu povo crente em toda parte. Que a tua admirável revelação da ternura de um Pai livre todos os jovens cristãos de qualquer pensamento de que a oração secreta seja um dever ou um fardo, e os leve a considerá-la o mais alto privilégio da sua vida, uma alegria e uma bênção. Traze de volta todos os que estão desanimados porque não encontram nada que te trazer em oração. Que compreendam que basta virem com o seu vazio Àquele que tem tudo para dar e que se deleita em dar. Que o seu único pensamento não seja o que têm para trazer ao Pai, mas o que o Pai espera para lhes dar.
E abençoa de modo especial o aposento interior de todos os teus servos que trabalham para ti, como o lugar onde a verdade de Deus e a graça de Deus lhes são reveladas, onde são diariamente ungidos com óleo fresco, onde as suas forças são renovadas e onde recebem pela fé as bênçãos com que hão de abençoar os seus semelhantes. Senhor, atrai a todos nós, no lugar secreto, para mais perto de ti e do Pai. Amém.