Capítulo 9 · 16 min de leitura

O Coração Perfeito

"Porque os olhos do Senhor percorrem toda a terra, para se mostrar forte a favor daqueles cujo coração é perfeito para com ele." — 2 Crônicas 16:9 Esta passagem aparece na história de Asa, um dos reis mais piedosos e dedicados que já se sentaram no trono de Judá. O capítulo catorze nos conta que ele começou o seu reinado dispondo-se a destruir a idolatria à qual toda a nação havia sido levada pelo governante anterior, e a restaurar a adoração e o serviço do Deus de Israel. Ele se empenhou em trazer a nação de volta à lealdade e à obediência a Deus; e o seu êxito é um grande estímulo para qualquer pessoa que se disponha, sozinha e com um coração perfeito para com Deus, a fazer o mesmo em qualquer círculo, sob quaisquer circunstâncias.

E ele conseguiu. Deus o abençoou nos seus esforços para purificar o reino por dentro, e Deus também o livrou dos seus inimigos por fora, capacitando-o pelo seu poder a derrotar o rei da Etiópia, que veio contra ele com um exército imenso — porque o rei Asa tinha um coração perfeito para com Deus.

Quando esse rei veio contra ele, Asa foi e clamou ao Senhor, e lançou-se sobre o seu Deus, confiando que Ele o livraria; e Deus nunca decepcionou ninguém, nem antes nem depois dos dias de Asa, que tenha feito isso. Deus entregou os seus inimigos nas mãos dele e fez dele um rei bem-sucedido e feliz sobre um povo próspero e crescente.

Mas, com o passar do tempo, depois de muitos anos — pois Asa teve um coração perfeito para com o Senhor durante muitos anos do seu longo reinado — não sabemos se foi, como infelizmente tantas vezes acontece, que uma vida de conforto e prosperidade produziu em Asa os efeitos de um desvio parcial; o certo é que, com o correr dos anos, outra guerra foi declarada, e desta vez foi o rei de Israel que subiu contra o rei de Judá. O que fez Asa? Foi ele, como antes, clamar ao Senhor e entregar a sua batalha nas mãos dEle? Não, não foi. Ele havia deixado o seu primeiro amor; havia-se tornado, em certa medida, infiel ao Senhor Deus de Israel. Esqueceu-se de onde vinha a sua força; a sua percepção espiritual se obscurecera; perdera a consciência da capacidade que Deus tem de socorrê-lo e livrá-lo das mãos dos seus inimigos, e por isso recorreu à política mundana. Desceu à Síria e cortejou Ben-Hadade, rei da Síria, dizendo: "Vem ajudar-me, para que os meus inimigos se retirem de mim, pois estou em grande aperto." Ah! que retrato dos desviados.

Em outra ocasião, quando Josafá fez uma aliança ímpia, um profeta veio ao seu encontro e disse: "Devias tu ajudar o ímpio e amar os que odeiam o Senhor?" Ninguém jamais fez isso sem ser severamente corrigido, como foi o pobre Asa. É verdade que ele teve êxito na batalha e ganhou a vitória.

O objetivo era legítimo, mas ele o alcançou por meios ilegítimos. Ganhou a vitória e, atrevo-me a dizer, estava se felicitando e alisando a barba com toda a satisfação quando — vejam! — chega o profeta para lhe entregar a mensagem de Deus, e diz: "Porque confiaste no rei da Síria, e não confiaste no Senhor teu Deus, o exército do rei da Síria escapou das tuas mãos.

Não eram os etíopes e os líbios um exército imenso, com carros e cavaleiros em grande número? Contudo, porque confiaste no Senhor, ele os entregou nas tuas mãos.

Porque os olhos do Senhor percorrem toda a terra, para se mostrar forte a favor daqueles cujo coração é perfeito para com ele. Nisto procedeste loucamente; por isso, de agora em diante haverá guerras contra ti" — 2 Crônicas 16:7-9 — exatamente aquilo que ele fora à Síria tentar evitar. Ele queria paz, não guerra, e desceu à Síria para poder passar o resto dos seus dias em paz quando — vejam! — sai a Palavra de Deus: "Terás guerras." Foi corrigido justamente naquilo pelo qual vendeu a si mesmo e ao seu Deus. "Sabei que o vosso pecado vos há de descobrir." É o jeito de Deus corrigir os seus filhos: precisamente por aquilo em que eles venderam os interesses dEle. "Terás guerras."

Mas queremos tratar de modo especial da lição que o profeta extrai deste acontecimento; pois ele diz: "Por que foste à Síria? Por que pecaste contra Deus? Esqueceste quem era o Deus de Israel? Não sabias que os olhos do Senhor percorrem toda a terra?"

Ele o teria ajudado agora, Asa, tanto quanto no passado. Ele ajudará qualquer pessoa que seja inteira de coração para com Ele — que nEle confie. Ora, esta é a lição que o profeta extrai, não apenas para Asa, mas para todos os Asas que vieram depois dele, e para os que ainda hão de vir; para cada homem e cada mulher que professa ser servo de Deus, o profeta faz ecoar através dos séculos que "os olhos do Senhor percorrem toda a terra, para se mostrar forte a favor daqueles cujo coração é perfeito para com ele."

Ora, o que é esse coração perfeito? "Ah!", você diz, "aí está a questão." Sim, aí está a questão, e vamos tentar mostrar que espécie de coração é esse. Tem de ser um coração diferente dos corações em geral; nem todos os corações são perfeitos para com Deus, ou então os seus olhos não teriam de percorrer toda a terra para encontrá-los. Seriam abundantes o bastante se fossem do tipo comum; mas é evidente que são de um tipo diferente dos corações comuns. E outra coisa salta à vista no texto: que esse tipo de coração é muito precioso aos olhos de Deus.

Ele se deleita nele; valoriza um só desses mais do que milhares dos outros tipos de coração, dos quais há tantos. Digo eu que estas duas lições qualquer pessoa de bom senso admitirá de imediato — que esses corações não são os corações comuns, e que são muito preciosos aos olhos de Deus.

Ora, qual é o sentido dessa expressão "coração perfeito", aplicada aos corações dos filhos de Deus ao longo de toda a Bíblia? Como vocês sabem, gosto de firmar os meus pontos pela boca de duas ou três testemunhas; por isso vou dar dois ou três textos, para que descubramos o sentido que Deus dá a esse termo, e depois apresentarei a interpretação mais modesta de todas, aquela em que todos os lados concordam, pois não quero controvérsia. Vejamos apenas o Salmo 37:37: "Observa o homem íntegro e contempla o reto, porque há futuro para o homem de paz." — Salmo 37:37 Existem de fato pessoas como as que Deus tem em vista nesse versículo.

"para dispararem das emboscadas contra o íntegro" — Salmo 64:4 — que sempre foi o alvo predileto do diabo. Ele não atira muito contra pessoas cujo coração não é perfeito para com o Senhor. É contra essas pessoas íntegras que ele atira.

"disparando contra ele de repente e sem nenhum temor" — Salmo 64:4 — talvez enquanto ele pensa que são seus amigos.

"Portanto, sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial." — Mateus 5:48 Isso significa alguma coisa. Vamos tentar descobrir o que significa.

"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me." — Mateus 19:21 E ainda, em 1 Coríntios 2:6 — "Entretanto, entre os maduros falamos sabedoria" — 1 Coríntios 2:6. E em 2 Timóteo 3:17 — "para que o homem de Deus seja completo, plenamente habilitado para toda boa obra" — 2 Timóteo 3:17. Há muitos outros, mas estes servem de amostra, e suponho que todos os cristãos atribuem algum sentido a essas expressões. Devem ser expressões que indicam uma grande diferença entre as pessoas de quem se fala e os homens e mulheres comuns. Ora, o que significam? Pois bem, a interpretação mais modesta de todos os eruditos e de todas as escolas é esta: significam sinceridade e inteireza. E isso me basta. Deem-me uma pessoa sincera e inteira no seu amor, e é tudo o que peço; isso vai se estender por todas as áreas da sua existência; vai chegar às pontas dos dedos das mãos e dos pés, aos olhos e à língua, ao cônjuge e à família, à loja e aos negócios, e ao seu círculo no mundo. É isso que quero dizer com santidade! Então, tomando a tradução mais modesta, significa que a pessoa é inteira de coração no amor e inteira, de ponta a ponta, no serviço! Amém. E por essa pessoa, assim perfeita para com Deus, Deus certamente se mostrará forte de mais de uma maneira!

Isto não pode significar um coração meramente natural; tem de significar um coração renovado, porque não existem corações perfeitos por natureza. Não há, nesse sentido, ninguém que faça o bem e não peque, pois todo filho de Adão se desviou como ovelha perdida, fez as coisas que não devia ter feito e deixou por fazer as coisas que devia ter feito, e o mundo inteiro se tornou culpado diante de Deus.

Não há corações naturalmente perfeitos. Então isso tem de significar um coração renovado pelo Espírito Santo, acertado com Deus e depois mantido em ordem. Um coração não pode ser mantido em ordem enquanto não for acertado, e aí está o segredo do fracasso de alguns de vocês. Vocês estão tentando produzir fruto antes de a árvore ser plantada. Estão procurando os frutos de um coração perfeito antes de terem um. Não é de admirar que se decepcionem. Vocês precisam ter o coração renovado e, depois, mantido em ordem pelo poder do Espírito Santo.

Então, o que implica esse coração perfeito?

1. Um coração perfeito na sua lealdade a Deus, inteiramente entregue ao lado de Deus, custe o que custar — leal. São esses os corações que Deus quer. Era essa a diferença entre Davi e Saul. Não havia tanta diferença assim na maior parte da vida exterior de Saul quando comparada com a vida de Davi. Talvez só o profeta Samuel percebesse a diferença, e alguns observadores atentos; mas a diferença era que Davi era leal a Deus, e é por isso que Deus o chama de homem segundo o seu coração.

Desde o primeiro chamado de Davi nos apriscos até o fim, com uma ou duas exceções, durante toda a sua vida ele foi leal a Deus; e, se vocês examinarem com cuidado a sua história, verão que em todas as suas guerras, em todo o seu trato com as nações vizinhas e com os líderes do seu próprio reino — em tudo, Davi foi leal a Deus. Eram os interesses do reino de Deus que estavam no coração de Davi — não a sua própria honra, o seu conforto ou a sua promoção; não a sua fama, nem as suas riquezas, nem construir uma casa para si mesmo — era a casa do seu Deus que lhe era cara ao coração. Ele era leal; ao passo que Saul era leal apenas enquanto isso servia aos seus próprios propósitos e interesses. Oh! quantos Sauis assim existem nos nossos dias. Quando os mandamentos de Deus contrariavam as suas ideias, ele abertamente desprezava a Deus e fazia o que bem entendia. Sacrificava os interesses de Deus aos seus. Era desleal de coração; por isso era um traidor, e nunca conseguiu aprender o caminho do Senhor. Nunca foi perfeito para com o Senhor seu Deus e, por fim, Deus o rejeitou, e Samuel também, e vocês sabem qual foi o seu fim. Simplesmente a diferença entre os dois — leal e desleal.

Um coração perfeito para com Deus! O que significa isso? Significa — 2. Perfeito na sua obediência. O homem ou a mulher que tem esse tipo de coração deixa de escolher a dedo, entre os mandamentos de Deus, quais vai obedecer e quais não vai — deixa de ter vontade própria. Às vezes ainda pode haver uma luta com a própria vontade, e o caminho a que Deus o chama pode lhe parecer perigoso ou arriscado, e ele pode esperar um pouco até se convencer plenamente; mas, uma vez convencido de que é o caminho de Deus, o verdadeiro filho não hesita. Não consulta a carne e o sangue: segue adiante, custe o que custar. Era essa a obediência de Paulo. Ele não consultou a carne e o sangue; considerou todas as coisas como perda e refugo, e continuou assim até o fim — inteiro na sua obediência.

Há pessoas que vêm até nós querendo saber o que devem fazer; sentem que estão apenas meio entregues ao serviço de Deus; não têm alegria nem poder, e dizem: "O que devo fazer?" E nós tomamos, na medida em que Deus nos ajuda, o bisturi e tentamos localizar a dificuldade. Nós as colocamos sob o clarão da luz do Espírito Santo e tentamos sondá-las e descobrir onde está o erro. Talvez o Senhor nos conduza ao ponto dolorido, e nós apontamos a dificuldade; mas, em vez de obedecerem, elas recuam.

Olham para a frente e veem que obedecer à luz vai implicar alguma espécie de perda — talvez de reputação, de riqueza, de laços familiares, de comodidade; ou perda de amigos, perda de confortos temporais, perda de um bom negócio. A perda está ali no fundo, e elas a enxergam. Sabem para onde as estamos levando, e escapam; não querem ver e, no entanto, também não querem se considerar desonestas, por isso viram o rosto e não olham na direção da luz, disfarçam tudo e cantam: "Fosse meu todo o reino da natureza, seria oferta pequena demais", e por aí vai.

Isso não é um coração perfeito, mas um coração parcial para com o Senhor Deus.

O coração parcial — tão comum, infelizmente, nos dias de hoje — quer servir a Deus um pouco. Está disposto a andar um trecho com Deus, mas não o caminho todo; de modo que, mesmo tomando a interpretação mais modesta, isso não é um coração perfeito para com o Senhor. Dá para esperar que o Senhor se mostre forte a favor de gente assim? Você mostraria, se fosse Deus?

Suponha que você fosse rei e tivesse um príncipe ou um ministro que o servisse com muita bravura e devoção enquanto isso servisse a ele mesmo; mas suponha que a situação se invertesse, e você fosse destronado e lançado no exílio, com o seu nome arrastado em desgraça e desonra por toda a nação onde um dia reinou; suponha que esse ministro o abandonasse e dissesse: "Ah! eu vou ficar do lado do monarca que reina agora. Eu era muito dedicado a este homem enquanto ele reinava, mas não posso me dar ao luxo de ser dedicado a ele agora que os seus interesses estão sendo arrastados no pó; tenho de estar do lado vencedor."

O que você pensaria de um homem desses? E, se fosse restaurado ao seu reino e ao seu poder, você se mostraria forte a favor de um homem assim? Não; você se lembraria, como Davi se lembrou, do homem que o amaldiçoou. Mas se você tivesse um príncipe ou um ministro que o seguisse ao exílio, que o servisse em segredo, que procurasse sustentar os seus interesses, que defendesse a sua retidão e a sua justiça, e erguesse o seu nome e tentasse fazer o povo ver que você era um homem bom e verdadeiro, que se manteve firme ao seu lado quando a nação inteira o chamava de traidor — se você voltasse ao seu trono, não se mostraria forte a favor desse homem? É claro que sim. E o Senhor diz que se mostrará forte a favor daqueles cujo coração é assim para com Ele.

Vocês, patrões que estão aqui, têm um empregado — um homem hábil, esperto; sabem como ele pode servi-los bem, e como poderia ser valioso, se fosse verdadeiro; mas têm razões para crer que ele só vai com vocês enquanto isso for do interesse dele; vai servi-los enquanto puder servir também a si mesmo, mas, se puder subir derrubando vocês, podem ficar caídos ali mesmo. O que vocês diriam de um homem desses? Diriam: "Nunca vou me mostrar forte a favor dele." Assim também não é de esperar que Deus se mostre forte a favor de pessoas que não têm um coração perfeito. Uma senhora me disse: "Faço isto e aquilo há anos, mas não tenho poder; por que não tenho?" Eu respondi: "Porque a senhora não é verdadeira para com Deus. Ele dá poder a qualquer pessoa que seja verdadeira para com Ele, e Ele vê dentro do seu coração e sabe que a senhora não é." Por que Ele não se mostra forte a seu favor? Porque você não se mostra inteira a favor dEle. No instante em que você se mostrar inteira, nesse instante Ele se mostrará forte a seu favor.

Se você estivesse no lugar de Daniel, não teria feito o que ele fez. Daniel era um daqueles homens de coração perfeito; serviu ao seu Deus enquanto estava na prosperidade. Todos os dias deixava a janela aberta.

Então os seus inimigos persuadiram o rei a assinar um decreto de que ninguém orasse a outro senão a esse rei, durante certo número de dias. "Agora", disseram eles, "vamos pegá-lo." Mas Daniel simplesmente fez o que sempre fazia: foi orar de janela aberta. Você dirá: "Isso era religião ostensiva, isso era provocar oposição. Que necessidade havia de fazer essa demonstração? Não podia ele fechar a janela e entrar num quarto interior? Isso é bem coisa de vocês, gente do Exército de Salvação — vocês vivem fazendo demonstração. Por que ele não podia entrar num aposento e orar?" Porque ele queria ser inteiro para o seu Deus na adversidade, diante dos seus inimigos, exatamente como era na prosperidade. Por isso foi orar de janela aberta ao Deus do céu; e, porque Ele é o Deus do céu, é capaz de cuidar dos que são seus. O coração de Daniel era perfeito para com o Senhor seu Deus.

3. Este coração perfeito é perfeito na sua confiança — e talvez isso devesse ter vindo primeiro, pois é a raiz de tudo.

Oh, como Abraão era belo aos olhos de Deus; como Deus se gloriava nele! Como sei que Abraão tinha um coração perfeito para com Deus? Porque confiou nEle. Nenhuma outra prova — nenhuma prova menor — teria servido de alguma coisa. Atrevo-me a dizer que ele estava cercado de fraquezas e tinha muitas ideias equivocadas a respeito dos homens e das coisas da terra, mas o seu coração era perfeito para com Deus. Você acha que Deus teria falhado na promessa que fez a Abraão? Abraão confiou nEle quase até o sangue de Isaque, e Deus se mostrou forte a favor dele, e o livrou, e fez dele o pai dos fiéis; coroou-o de honra eterna, de modo que o seu nome, de geração em geração, tem sido uma coluna de força para o povo do Senhor e uma coroa de glória para o seu Deus.

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