Capítulo 4 · 11 min de leitura
Amor
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior deles é o amor.” — 1 Coríntios 13:13 Deve ser coisa preciosa ser maior do que a fé e maior do que a esperança — precioso, sem dúvida! E, na mesma proporção em que as coisas são valiosas e preciosas entre os homens, tanto esforço e tanto risco as pessoas assumem para falsificá-las.
Suponho que em nenhuma área da desonestidade, neste mundo desonesto, se tenha gasto mais tempo e mais engenho do que na fabricação de dinheiro falso, sobretudo de cédulas. Assim como os maus procuraram imitar, para lucro próprio, os produtos mais valiosos da habilidade humana, também o diabo vem tentando desde o princípio falsificar as coisas mais preciosas de Deus e produzir algo tão parecido que, de modo geral, as pessoas não percebam a diferença. Talvez em nenhuma área ele tenha tido mais êxito do que ao produzir um amor falsificado. Chego quase a pensar que o aperfeiçoou nestes dias. Não creio que pudesse melhorar muito a imitação atual.
Este amor — este amor — é o tesouro mais precioso de Deus. É mais caro ao seu coração do que todos os vastos domínios do seu universo — mais caro do que todos os gloriosos seres que ele criou. Tanto assim que, quando alguns dos mais elevados espíritos entre as hostes angélicas violaram este amor, ele os lançou do mais alto céu ao mais profundo inferno.
Por quê?
Não porque não valorizasse aqueles seres maravilhosos, mas porque valorizava mais este amor. Ele viu que era mais importante, para o bem-estar do seu universo, preservar a harmonia do amor no céu do que poupar aqueles espíritos que tinham permitido ao egoísmo rompê-la.
Por isso o nosso Senhor diz: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.” (Lucas 10:18) Vem chegando o dia em que ele verá cair também todos os terríveis resultados daquela primeira rebelião. Que esse dia glorioso se apresse!
Mas consideremos por alguns momentos este amor precioso e belo. Tentemos primeiro defini-lo.
O que é ele?
Primeiro: é divino. Precisa ser derramado no coração pelo Espírito Santo.
Em vão procuramos esta planta celestial entre os homens não renovados. Ela não cresce no solo corrompido da natureza humana. Brota somente onde o arado do verdadeiro arrependimento quebrou o chão duro do coração, onde a fé num Salvador crucificado o purificou e onde o bendito Espírito Santo tomou posse permanente.
É o amor de Deus — não meramente amor a Deus, mas um amor que é semelhante a Deus, vem de Deus e se dirige aos mesmos fins e objetos que ele ama.
É uma obra divina plantada no coração pelo Espírito Santo.
Talvez alguns de vocês estejam dizendo: “Então é inútil eu tentar cultivá-lo, porque não o tenho.”
Exatamente.
Você pode podar, aparar e regar para sempre, mas nunca conseguirá cultivar aquilo que não foi plantado.
A sua primeira necessidade é que este amor seja derramado no seu coração.
Um dos grandes erros desta época é a crença de que a natureza humana só precisa ser podada, melhorada e desenvolvida, e então tudo acabará bem.
Não, não!
“Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada.” (Mateus 15:13) Se você quer este amor divino, precisa lavrar o campo endurecido do seu coração e convidar o Lavrador celestial a vir semeá-lo ali — a derramá-lo na sua alma.
Segundo: é um princípio divino. Quero que você repare que este amor é um princípio divino, distinto da mera afeição natural.
Todas as pessoas têm amor como instinto natural. Amam naturalmente aqueles de quem gostam ou aqueles que as tratam bem.
“Pois, se amais os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mateus 5:46) Pessoas más se amam umas às outras por afeição natural, do mesmo modo que um tigre ama os seus filhotes.
Há grande confusão entre as pessoas religiosas quanto a este assunto. Sentem compaixão e generosidade para com os seus semelhantes, e podem até distribuir os seus bens para alimentar os pobres, sem possuir no coração uma centelha de amor divino.
Saul, depois que Deus se afastou dele, não estava inteiramente destituído de sentimentos generosos para com a sua família e o seu reino.
O rico, no inferno, tinha alguma preocupação com os seus irmãos.
Mas nenhum dos dois possuía uma centelha deste amor divino.
Cuidado para não se enganar. Milhões se enganam.
Notemos um ou dois pontos em que o amor falsificado e o amor divino diferem por completo e para sempre em natureza.
Primeiro: o amor falsificado é egoísta. O amor falsificado é egoísta. Nunca é exercido senão para satisfazer algum motivo egoísta da natureza humana. Milhares de motivos podem inspirá-lo — muitos demais para enumerar —, mas consideraremos dois ou três.
Lemos neste capítulo que alguém pode distribuir todos os seus bens para alimentar os pobres e até entregar o próprio corpo ao sofrimento e, ainda assim, estar sem o amor verdadeiro.
Que pensamento surpreendente.
E, no entanto, há muitos exemplos mostrando que tal coisa é possível.
Primeiro, uma pessoa pode fazer essas coisas para sustentar e promover um sistema de crenças predileto ao qual se afeiçoou. Assim como há quem se absorva na política ou naquilo que considera o bem da sua nação, tal pessoa pode até estar disposta a enfrentar grande perigo para fazer avançar a sua causa.
Além disso, alguém pode fazer tais coisas no esforço de merecer a vida eterna. Paulo fez isso quando procurou estabelecer a sua própria justiça. Mais tarde ele nos diz que o eu era a força motriz por trás de todo o seu zelo. Era tudo em vista do seu próprio avanço. Não havia nisso amor divino nenhum. Naquele tempo ele estava não renovado, sem Cristo e egoísta, mesmo enquanto fazia aquelas coisas.
Ou, em terceiro lugar, alguém pode agir simplesmente para satisfazer um temperamento naturalmente generoso.
Eu costumava dizer a um amigo meu muito generoso, quando ele me falava em confiança das suas doações e do prazer que lhe davam, atribuindo tudo à graça divina: “Espere, meu amigo. Não tenho certeza de que seja tudo graça. O senhor gosta mais de dar do que algumas pessoas gostam de receber. Cuide para não perder a sua recompensa por não examinar para onde vão as suas doações. Não dê o seu dinheiro a toda causa que apareça. Lembre-se de que é responsável diante de Deus pelos seus recursos, e de que Deus lhe pedirá conta do uso que fez deles.”
O amor verdadeiro toma o tempo necessário para examinar as diferentes necessidades e busca as melhores oportunidades de dar para a glória de Deus e para a salvação das pessoas.
Não atribua automaticamente a sua generosidade ao Espírito Santo se ela não for dessa espécie, pois você não receberá recompensa alguma por ela, nem nesta vida nem na outra.
O amor falso começa no eu e termina na terra.
Eis um modo de distingui-lo do amor de Deus.
O amor do diabo se concentra principalmente no lado terreno do ser humano e dá menos importância ao lado espiritual. Nisso ele se opõe diretamente ao amor divino, que vê as pessoas como seres inteiros e sempre dá primeiro lugar à alma.
Vemos hoje em dia muitas caridades falsificadas.
Outro dia peguei uma publicação supostamente religiosa e li o elogio rasgado que fazia a certo homem recém-falecido. Pensei comigo mesma: alguém imaginaria que esta era uma publicação cristã num país cristão?
Não havia o mínimo reconhecimento de uma alma. Não havia referência alguma à condição espiritual do homem nem ao seu destino eterno. Uma ou duas qualidades humanas comuns eram destacadas e louvadas até que ele parecesse algo extraordinário. Mas não havia menção de uma alma, nem menção de Deus, que o julgará, nem menção de céu ou de inferno.
As pessoas costumam dizer, ao falar de indivíduos ímpios ou até perversos: “É preciso ter caridade. Não se deve julgar.”
Satanás não se importa com a quantidade desse amor unilateral que exista. Quanto mais houver, melhor serve ao seu propósito. Deixa as pessoas mais confortáveis nos seus pecados e ajuda a conduzi-las com mais facilidade à perdição.
Meus amigos, vocês se preocupam mais em aliviar a aflição temporal do que em alimentar almas famintas? Se é assim, já sabem de onde vem o seu amor! Não me interpretem mal, dizendo que eu ensino só uma coisa e nada da outra. Deus me livre; pois, se alguém "tiver bens deste mundo e vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar as entranhas de compaixão, como está nele o amor de Deus?" Mas, do outro lado, se ele o vir faminto espiritualmente — morrendo por falta do pão da vida —, como está nele o amor de Cristo, se não socorrer essa penúria espiritual? Sei que o cristianismo verdadeiro cuida do corpo e da alma. Bendito seja Deus, cuida sim; mas repare sempre que ele põe a alma em PRIMEIRO lugar. Sei que o Mestre alimentou a multidão; mas, antes disso, ele a teve consigo três dias, procurando salvar-lhes as almas e, quando no processo ficaram com fome, então os fez sentar-se e alimentou-lhes os corpos. Ele sempre cuidou primeiro da alma, e assim faz todo aquele que possui o amor divino.
Por quê? Porque o amor divino lhe abriu os olhos. Ele percebe o valor das almas. Vê-as morrendo de fome. Vê-as sendo condenadas, e não consegue conter-se. O seu desejo de salvá-las jorra dele como uma torrente; ele as contempla e tem compaixão delas. Prove o seu amor por esta marca: você contempla as almas moribundas, famintas e meio perdidas dos seus semelhantes? Você olha ao redor para o estado do mundo e o estado da igreja? Você pensa nisso? Você entra no seu quarto e expõe isso diante do Senhor, como fizeram Ezequias, Jeremias e Oseias? Você olha para isso, revolve isso, chora por isso, e ora e clama, como fizeram Daniel e Paulo? Provem-se, meus irmãos, minhas irmãs, por esta marca.
O amor divino está sempre centrado naquela grande pergunta do amor infinito: Mateus 16:26: “Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?
Ou que dará o homem em troca da sua alma?”
Ah, nunca consigo tirar isso dos meus ouvidos nem afastá-lo do meu coração! Como vejo claramente o vazio e a vaidade de tudo, comparado com a salvação da alma! Que importa que um homem morra num asilo de indigentes — que morra numa soleira de porta, coberto de chagas como Lázaro —, que importa isso, se a sua alma for salva? Você crê tanto quanto eu que a alma é imortal e que a morte do corpo é apenas a sua entrada, se for salva, num futuro glorioso de alegria, progresso e santidade sem fim.
Será que uma criança se lembra de como chorava sobre as suas lições quando se torna adulta? Fica ela remoendo todas as pequenas dificuldades dos dias de escola quando desfruta dos benefícios que elas lhe trouxeram? Do mesmo modo, todos os nossos sofrimentos, provações e tristezas aqui parecerão bem menos importantes se salvarmos a nossa alma e ajudarmos a salvar a alma de outros.
Este amor divino faz com que tudo o mais sirva à salvação das almas; usa tudo o mais para salvar e abençoar o ser interior e espiritual. Você se lembra da ocasião em que o Mestre havia alimentado as multidões e, quando elas vieram outra vez a ele para serem alimentadas, ele disse: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes.” João 6:26 Você poderia dizer: “E com razão; o povo quer comida, está com fome.” Mas você percebe a tristeza divina expressa nessas palavras — a de que estavam tão embotados espiritualmente que davam mais valor ao pão terreno do que ao pão celestial? Dê às pessoas todo o pão material que puder, mas cuide de lhes dar primeiro o pão espiritual, pois esta é uma marca do amor verdadeiro.
Você tem este amor? Toda alma sabe se o tem ou não. As pessoas são muitas vezes tão irracionais em matéria de religião: dizem que não sabem. Mas você pode descobrir em dois minutos se ama mais a Deus ou a si mesmo. Venha alguém dizer-me que uma esposa não sabe se ama mais o marido ou a si mesma! Que absurdo! Qual é a prova? Ela procura agradá-lo e está disposta a sacrificar-se por ele; na verdade, faz dos interesses dele os seus próprios.
Você ama a Deus acima de tudo? Está disposto a pôr de lado os seus próprios interesses e buscar os dele? Você tem este amor divino, nascido do Céu e que conduz ao Céu? Se não, meu amigo, decida-se a tê-lo agora. Comece a clamar fervorosamente a Deus para que o Espírito Santo o derrame no seu coração. Abandone os seus argumentos e desculpas, venha ao pé da cruz e peça-lhe: “Vem, Senhor, quebranta este meu pobre coração pecador e derrama nele este belo, puro e divino amor.” Então você já não buscará os seus próprios interesses, mas as coisas que pertencem a Jesus Cristo.