Capítulo 3 · 23 min de leitura

A Fé Salvadora

"Então os levou para fora e disse: 'Senhores, que devo fazer para ser salvo?' E eles disseram: 'Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e a tua casa.'" Atos 16:30–31 Este é um dos textos mais mal compreendidos e mal usados da Bíblia, e talvez um dos que mais tenham trabalhado tanto para o diabo quanto para Deus. Que cada crente aqui presente peça em fé a luz do Espírito Santo, enquanto procuramos entendê-lo e aplicá-lo corretamente. Consideremos: quem deve crer?

Quando devem crer?

Como devem crer?

1. Quem deve crer?

A quem diz o Espírito Santo: "Crê no Senhor Jesus, e serás salvo"? Repare bem: não a todos os pecadores indistintamente.

Aqui está um erro grave que se encontra em boa parte do ensino dos nossos dias. Essas palavras são frequentemente separadas do seu contexto e de muitas outras passagens que as explicam. São apresentadas independentemente das condições que sempre as acompanhavam no ensino e na prática dos apóstolos. De fato, foi só nos últimos sessenta ou setenta anos que esta nova abordagem se tornou comum — pregar indistintamente a pecadores não despertados, não convertidos e não arrependidos: "Crê no Senhor Jesus Cristo."

Parece-me que grande dano foi feito à causa de Cristo por esse manejo incorreto da Palavra de Deus. Além de não ser bíblico, também não é razoável. Como pode um pecador não despertado, não convencido e não arrependido crer de verdade? Seria quase o mesmo que esperar que Satanás cresse. É impossível.

Milhares dessas pessoas dizem: "Eu creio, sim." Há pouco tempo, o meu querido filho conversava com um homem no alto de um ônibus, um homem embriagado e de linguagem muito imprópria. Meu filho procurava mostrar-lhe o perigo da sua conduta pecaminosa como transgressor da lei de Deus. "Ah!", disse o homem, "não é pelas obras, é pela fé, e eu creio tanto quanto o senhor."

"Sim", respondeu meu filho, "mas no que é que o senhor crê?"

"Ah", respondeu ele, "creio em Jesus Cristo, e é claro que serei salvo."

Aquele homem é uma amostra de milhares. Encontro pessoas assim todos os dias.

Elas creem que houve um homem chamado Jesus e que ele morreu pelos pecadores — até por elas. Mas, quanto ao exercício da fé salvadora, não sabem mais a respeito dele do que Agripa ou Félix. Isso fica evidente quando se aproximam da morte. Então essas mesmas pessoas torcem as mãos, se desesperam e chamam cristãos para virem orar com elas.

Se realmente tivessem crido, por que todo esse medo e sobressalto diante da chegada da morte? Eram crentes apenas na mente, não no coração. Aceitavam os fatos registrados nas Escrituras, mas não criam no sentido bíblico da palavra. Se cressem, a sua fé as teria salvado. Sustentamos que é inútil e antibíblico pregar "basta crer" a tais pessoas.

Os cristãos não cumpriram a sua responsabilidade quando simplesmente dizem aos pecadores que Jesus morreu por eles e que devem crer nele. Têm uma tarefa mais difícil: ajudá-los a abrir os olhos para a sua verdadeira condição, de modo que, pelo poder do Espírito, percebam que são pecadores necessitados de salvação.

Quando as pessoas reconhecem que estão espiritualmente doentes, correm ao grande Médico. Os olhos da alma precisam ser abertos para a realidade do pecado e para as consequências do pecado. Essa percepção deve criar um desejo ardente de ser salvo dele. O grande instrumento de Deus para realizar isso é a sua lei, que serve de aio para conduzir os pecadores a Cristo como Salvador.

Não há um só caso no Novo Testamento em que os apóstolos tenham exortado alguém a crer, ou em que alguém seja descrito como crendo, sem que haja boa razão para concluir que a convicção de pecado e o arrependimento já haviam ocorrido.

A única exceção aparente é Simão, o mago.

Como muitas pessoas em tempos de movimentos religiosos poderosos, Simão foi levado pela influência das reuniões e pelo exemplo dos que o cercavam. Professou fé.

Sem dúvida ele aceitou o fato de que Jesus morreu na cruz. Recebeu os fatos do cristianismo na sua mente e, nesse sentido, tornou-se crente — exatamente como fazem dezenas de milhares hoje. Chegou até a ser batizado. Mas, quando veio o ponto de prova — se o que mais lhe importava eram os seus próprios interesses ou os interesses de Deus —, a sua verdadeira condição ficou clara.

Como disse o apóstolo: "O teu coração não é reto diante de Deus." Atos 8:21 Ninguém está convertido se o seu coração não está reto para com Deus. Essa é a prova.

Se Simão estivesse verdadeiramente convertido, o seu coração estaria reto para com Deus, e ele jamais teria imaginado que o dom do Espírito Santo pudesse ser comprado com dinheiro. Pedro prosseguiu, dizendo: "Porque vejo que estás em fel de amargura e em laço de iniquidade." Atos 8:23 E o que disse a seguir?

Disse ele: "Crê imediatamente"?

Não.

Pelo contrário, disse: "Arrepende-te, pois, desta tua maldade, e roga ao Senhor para que, se possível, te seja perdoado o intento do teu coração."

Arrepende-te primeiro, e então recebe o perdão.

Assim, recebemos desta passagem uma dupla lição.

Simão é o único caso registrado de alguém que professou crer sem que haja, na própria passagem, evidência clara de que a convicção e o arrependimento precederam a fé. E, ainda assim, mesmo aqui o desfecho prova o ponto.

Simão possuía a fé da mente, mas não a fé do coração. Por isso a sua profissão terminou em fracasso e desespero. Algumas pessoas me escreveram esta semana dizendo que haviam crido.

Foram persuadidas a fazer uma profissão de fé, mas nenhum fruto se seguiu.

Ah, não era fé do coração. Era meramente fé intelectual — como a de Simão. Deixou você pior do que o encontrou, e desde então você vem lutando e vagando em trevas espirituais.

Mas não conclua que aquilo era fé genuína e que a fé genuína falhou. Antes, tome ânimo e comece de novo. Arrependa-se e busque a coisa verdadeira.

Satanás sempre fornece uma falsificação. Portanto, não caia em desespero porque o tipo errado de fé não deu certo. Esse fracasso não torna ineficaz a verdadeira fé de Deus. De modo nenhum!

Considere outro exemplo — os três mil convertidos num único dia. Certamente esta é uma ilustração bíblica. Ninguém pode chamá-la de antievangélica ou legalista.

Qual foi a primeira coisa que Pedro fez?

Cravou-lhes no coração a verdade penetrante de Deus e trouxe-os à convicção.

Despertou-os para a gravidade da sua condição, até que clamaram: "Irmãos, que faremos?" Atos 2:37 Estavam profundamente perturbados. Os seus corações foram traspassados. Os seus olhos se abriram para as terríveis consequências do seu pecado.

Em consequência, clamaram diante da grande multidão, buscando o caminho da salvação.

Pedro primeiro os convenceu do pecado e, ao fazê-lo, seguiu a ordem estabelecida por Deus.

Também o eunuco é muitas vezes citado como ilustração da fé; mas em que estado de espírito ele estava? Era um pecador descuidado e sem convicção? Ali estava ele — um etíope, um pagão; mas onde tinha estado?

Em Jerusalém, para adorar o Deus vivo e verdadeiro do melhor modo que sabia e conforme o entendimento que tinha. E o que estava fazendo quando Filipe o encontrou? Não se contentava em apenas adorar no templo e depois voltar à vida comum sem nenhuma preocupação. Estava examinando as Escrituras. Buscava a Deus honestamente, e o Espírito Santo sempre sabe onde estão tais almas. Por isso disse a Filipe: “Aproxima-te e ajunta-te a esse carro.” Ali está um homem que me busca; ali está um homem cujo coração está sinceramente decidido a me encontrar. Vai e prega a Cristo, e dize-lhe que creia. Aquele homem teria sacrificado, feito ou perdido qualquer coisa pela salvação e, assim que Filipe lhe explicou o caminho da fé, ele o recebeu — como é claro que fará toda alma assim.

Saulo, a caminho de Damasco, é outro exemplo. Ali o pregador foi o próprio Jesus Cristo e, certamente, ele não poderia errar. O seu método era perfeito. Por onde começou? O que disse a Saulo? Ele viu um homem de coração honesto. Saulo era sincero, dentro do que compreendia, e se em algum caso parecia haver necessidade da recepção imediata de Cristo pela fé, era no dele.

Mas o Senhor Jesus Cristo não disse uma só palavra sobre fé. “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4) — arrancando-lhe dos olhos as vendas do engano e deixando-o ver a maldade da sua conduta.

Quando Saulo disse: “Quem és tu, Senhor?” (Atos 9:5), ele repetiu a acusação. Não veio com palavras de consolo. Não curou imediatamente a ferida; mas disse: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Atos 9:5). Aprofundou ainda mais a verdade, abrindo mais os olhos de Saulo e tornando-o mais consciente da sua culpa. Depois o enviou a Damasco, onde passou três dias antes de receber cura. Deus lhe enviou um humilde instrumento humano, e Saulo teve de ouvir e obedecer às suas palavras antes que lhe caíssem as escamas dos olhos, antes que viesse a certeza do perdão e antes que o Espírito Santo lhe enchesse a alma.

Pergunto-me o que Paulo estaria fazendo durante aqueles três dias! Não estava cantando cânticos de ação de graças e louvor. Isso viria depois. O que você acha que ele fazia? Não comeu nem bebeu, e permaneceu em trevas. O que fazia? Sem dúvida estava orando. Sem dúvida buscava aquele Cristo que lhe falara no caminho. Sem dúvida olhava com horror para a sua vida passada e renunciava para sempre à sua oposição a Jesus Cristo e ao seu Evangelho.

É claro que estava produzindo frutos dignos de arrependimento, segundo a ordem divina (Atos 26). Então veio Ananias e lhe pregou a Cristo. Ele creu para salvação, as escamas lhe caíram dos olhos e a sua boca se encheu de louvor e gratidão a Deus.

Cornélio é outro exemplo — mas qual era o estado da sua mente e do seu coração? Sabemos que temia a Deus e praticava a justiça na medida do que lhe era possível. Dava generosamente ao povo e orava continuamente. Isso é mais do que alguns de vocês jamais fizeram, embora vivam em tempos de Evangelho. Vocês nunca passaram uma noite inteira orando pela sua alma — nem meia noite, alguns de vocês. Cornélio passou. Ele buscava a Deus. Queria sinceramente conhecê-lo. Estava disposto, custasse o que custasse, a fazer a sua vontade. Por isso o Senhor lhe enviou a gloriosa mensagem da revelação de Jesus Cristo.

Eu poderia continuar dando exemplos, mas preciso parar. Já dissemos o bastante para mostrar quem deve crer: pecadores verdadeiramente arrependidos, e somente eles.

Este texto é dirigido a um pecador arrependido, iluminado, convencido. Alguns de vocês estão iluminados, convencidos e tão perturbados que não conseguem dormir. Vocês realmente se arrependem. Vocês são, então, precisamente as pessoas a quem este texto vem: Creia. Vocês estão exatamente na condição do carcereiro.

“Crê no Senhor Jesus, e serás salvo” (Atos 16:31). Consideremos agora o estado de espírito em que o carcereiro estava. Vemos, por todo o relato, como os seus olhos foram abertos. O terremoto fez isso. Algumas pessoas precisam de um terremoto para que os seus olhos se abram, e tem de ser um terremoto forte. Os olhos do carcereiro se abriram, e ele aproveitou a oportunidade da melhor maneira.

Pouco antes, ele vinha tratando os apóstolos com crueldade. Falam em mudança — eis aqui uma mudança.

Então ele clamou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” (Atos 16:30). Na prática, dizia: “Estou pronto a fazer qualquer coisa; digam-me apenas o quê.” Quando uma alma chega a esse estado de espírito, não lhe resta senão crer no Senhor Jesus Cristo. Ele veio tremendo, prostrou-se diante deles e depois lhes lavou as feridas. Quando você chegar a esse estado de espírito, logo será salvo. Não lhe restará senão crer. Então achará fácil.

2. Quando deve o pecador crer?

Quando se arrepende.

Aqui, mais uma vez, vou responder a algumas das suas cartas. Uma pessoa escreve: “Receio não perceber suficientemente o meu pecado. Não sinto nenhuma agonia especial por causa do pecado, mas vejo toda a minha vida como um enorme erro e pecado.”

Nada é mais comum do que as pessoas se enganarem neste ponto. Essa pessoa está confundindo sentimento com convicção. Pensa que, por não ter experimentado a agonia extrema que alguns experimentaram, não está suficientemente convencida do pecado. No entanto, o Espírito Santo lhe abriu os olhos para ver que toda a sua vida foi um grande erro e pecado. Ela está convencida de que tudo foi pecado — não meramente pecados isolados aqui e ali, separados do resto da vida, mas uma percepção da sua verdadeira condição que a leva a ver toda a sua vida como pecaminosa.

Certamente, meu amigo, você está convencido. Quem, senão o Espírito Santo, poderia ter-lhe mostrado isso? Ora, a alma verdadeiramente arrependida, primeiro, vê o pecado; segundo, odeia o pecado; terceiro, renuncia ao pecado.

Deixe-me examiná-lo por cada uma dessas marcas. Não permita que Satanás o engane e o leve a negar o que Deus tem feito no seu coração. Encare os fatos. Quando você tiver chegado a uma conclusão, não deixe que ele comece uma discussão na sua mente. Segure firme aquilo que você sabe ser verdade e avance a partir daí, ou nunca encontrará paz. Satanás é o acusador dos irmãos — e, suponho, também das irmãs.

Serei com você tão honesta e tão penetrante quanto puder. Não fugirei do exame; mas, uma vez examinada e achada a verdade, permaneça sobre ela por amor de Cristo, e não a deixe escapar de debaixo dos seus pés. Satanás tentará roubar-lhe o bom senso, a consciência e as convicções.

Você vê o pecado. Uma alma inteiramente não despertada não vê o pecado no seu verdadeiro caráter, na sua gravidade, nas suas consequências. Tal pessoa admite que todos são pecadores. Ah, sim; mas não vê a natureza mortífera e condenatória do pecado. Não vê que coisa má e amarga o pecado é em si mesmo.

Ora, somente o Espírito Santo pode abrir os olhos de alguém para ver isso. Sem ele, toda a minha pregação — ou a de qualquer outro, e até a dos anjos, se lhes fosse permitido pregar — poderia continuar para sempre sem jamais produzir convicção de pecado. Se você vê o pecado, foi o Espírito Santo quem lhe abriu os olhos. Agradeça-lhe e tome ânimo, meu amigo. Se Deus tratou com você até aqui e lhe abriu os olhos para ver o caráter e as consequências do pecado, isso não sugere que ele também deseja salvá-lo dele? Ele lhe abriu os olhos para poder ungi-los com colírio e capacitá-lo a ver luz na sua luz.

Pois bem: você chegou até aqui? Você me disse que a sua vida tem sido um grande pecado. Outros falam de um pecado específico. Seja o que for, se você está convencido do pecado, foi o Espírito Santo quem o convenceu. Portanto, dê graças a Deus e tome ânimo até aqui.

Além disso, o verdadeiro penitente odeia o pecado; isto é, a sua atitude para com o pecado é inteiramente diferente do que era antes. Houve um tempo em que você podia cometer pecado quase sem notá-lo e sem se importar. As pessoas muitas vezes não percebem a grande mudança que se operou nelas nesse aspecto, porque foram levadas a ela gradualmente.

Recorde o seu estado de não despertado. Como você vivia então? As próprias coisas que agora lhe causam tanta angústia eram coisas que você praticava todos os dias sem nenhuma preocupação. As coisas que agora o horrorizam, mesmo em pensamento ou em tentação, faziam parte da sua vida diária sem nenhum senso de culpa.

Você não tinha ódio ao pecado nem temor dele. Era escravo voluntário de Satanás. Agora é escravo contra a vontade. Antes você corria para o pecado; agora ele tem de empurrá-lo até lá. Quando você cai, é contra a sua vontade. Você odeia o pecado.

Ora, isso não significa que você já esteja salvo dele. Nem significa que você tenha poder para salvar-se dele. Na verdade, esta é exatamente a luta que o apóstolo descreve ao retratar os esforços malsucedidos de um pecador convencido. As coisas que você não quer fazer, você se vê fazendo; e as coisas que deseja fazer, falta-lhe poder para realizar. Ainda assim, você deseja fazer o que é certo. Essa é a diferença.

Antes você não tinha desejo algum de fazer essas coisas. Aliás, talvez até pensasse que os que as faziam eram hipócritas. Agora você sente de modo bem diferente. Luta, esforça-se, ora e mantém-se vigilante.

Alguns de vocês me disseram isso e, mesmo assim, dizem: “Sou vencido vezes sem conta.”

Claro que é, porque ainda não está salvo. Mas você não vê que deseja ser? Você odeia o pecado que o mantém cativo. Luta contra ele. Vigia contra ele. Talvez não seja vencido nem de longe tantas vezes quanto antes.

As pessoas não percebem quanto devem ao poder convencedor e refreador do Espírito Santo, que socorre a sua fraqueza já agora, capacitando-as a cortar a mão direita e arrancar o olho direito, e trazendo-as a uma atitude de espera diante de Deus, como Cornélio e o eunuco.

Alguns de vocês, meus ouvintes, estão buscando a Deus. Anseiam por libertação e lutam contra o pecado.

Tomemos outra ilustração. Não quero dizer que a alma tenha poder para salvar-se da sua corrupção interior. É isso que Jesus Cristo dá quando salva. Mas considere o seguinte: aqui está um homem viciado em bebida. É um beberrão. Então ele é convencido do pecado. O Espírito de Deus lhe diz: “Você deixará o copo?” E então começa a luta.

Ora, deve-se ensinar a esse homem que continue bebendo e simplesmente espere que Deus o salve? Você deve ficar dizendo-lhe: “Não se preocupe com a bebida; basta crer no Senhor Jesus Cristo e você será salvo”? Ou deve dizer-lhe: “Você precisa afastar o seu pecado. Corte essa mão direita. Arranque esse olho direito. Renuncie para sempre a essa bebida no coração, no propósito e na vontade. Enquanto não fizer isso, você não pode exercer verdadeiramente fé no Senhor Jesus”?

Eis aqui outra pessoa, viciada em mentir. Quando é convencida do pecado, começa a guardar os lábios para não pecar com a boca. Consegue até certo ponto — ou melhor, o Espírito Santo a ajuda a conseguir —, de modo que já não mente como antes. Ainda falha de vez em quando, porque ainda não encontrou pleno poder sobre isso, mas está firmemente decidida e, no que depende da sua vontade, está cortando fora esse pecado exterior e esperando em obediência pela libertação e salvação completas.

Há também o empregado que rouba regularmente o caixa do patrão. Ele vai a uma reunião religiosa e é convencido. Então o Espírito de Deus lhe diz: “Você precisa parar com essa desonestidade. Não pode vir a esta reunião noite após noite, dizendo que quer a salvação, enquanto todos os dias continua roubando o seu patrão. Você precisa cortar essa mão direita. Abandone esse furto. Decida-se a restituir e espere diante de mim, produzindo frutos dignos de arrependimento.”

Você entende o que quero dizer. Alguns de vocês estão exatamente nessa posição — e sabem disso. Seja qual for o hábito pecaminoso que o domine, o princípio é o mesmo. Jesus Cristo quer que você renuncie a esse hábito na sua vontade, na sua determinação e no seu propósito. Você não tem poder para livrar-se dele. Você pode lutar, como alguns de vocês dizem que estão fazendo, mas ele ainda o vence. Ele sabe muito bem disso. Mas aprova a luta, o esforço, a vigilância e a determinação.

Quando ele o salvar, dar-lhe-á o poder, e então você ficará de pé em vez de cair, porque ele mesmo o sustentará.

Ora, você sabe que chegou até aqui. Sabe que, se tivesse agora mesmo o poder de destruir para sempre e por completo o domínio daquele hábito mau sobre a sua vida, você o faria sem um instante de hesitação. Você diz: “Ah, sim, eu faria. Se ao menos eu tivesse o poder.” Isso é arrependimento. Isso é arrependimento genuíno.

Aquilo que você não pode fazer por si mesmo, Cristo vem encontrá-lo onde você está e diz: “Eu o farei por você. Quebrarei o poder daquele hábito. Livrá-lo-ei da mão do inimigo. Libertá-lo-ei daquela escravidão. Apenas ponha em mim a sua fé, e eu o levantarei. Encher-te-ei do meu Espírito.

Você ficará de pé em mim e por mim, e aquilo que agora luta para fazer por si mesmo, eu o farei por você.”

Então você chegou até aqui — a odiar o pecado?

“Sim, eu odeio.”

Você o escreveu nas suas cartas para mim, e outros o dizem sem terem escrito.

“Sim”, você diz, “desejo ser salvo dele. Se eu pudesse salvar-me do pecado neste mesmo instante e nunca mais pecar, eu o faria.”

Você faria? Isso não é arrependimento? Que outra coisa poderia ser?

Suponha que você tivesse um filho desobediente e rebelde. Ele viveu desafiando a sua autoridade, desperdiçou o seu dinheiro e pisou as suas ordens sob os pés. Suponha então que ele venha a ver o erro dos seus caminhos. Talvez o sofrimento lhe tenha aberto os olhos. Talvez a pobreza. Talvez outra coisa. De qualquer modo, ele vê.

Ele volta para casa e diz: “Pai, que tolo eu fui. Que perverso eu fui. Agora vejo tudo. Não via enquanto fazia. Vejo o meu caminho pecaminoso, os pecados que lhe causaram dor e trouxeram tristeza à sua vida. Ah, como odeio tudo isso. Arrependo-me no pó e na cinza. Pai, abandono tudo. Volto para casa, para o senhor.”

O que você diria?

Diria: “Meu filho, você não se arrependeu o bastante. Vá embora e volte quando sentir mais tristeza”?

Não. O seu coração de pai transbordaria em amor e perdão. Você o abraçaria e o receberia de volta em casa.

“Assim vos digo, há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lucas 15:10).

Haveria alegria naquela família pelo retorno do filho que se perdera.

Mas suponha que o filho dissesse: “Pai, arrependo-me de verdade e abandono os meus pecados; mas há companheiros que podem tornar a me influenciar, e há hábitos tão fortes que temo que me vençam. Deixe-me ficar perto do senhor. Preciso da sua força.”

O que você diria?

Não responderia: “Então entre, meu filho. Fique comigo, e eu o protegerei. Eu o ajudarei. Você não andará sozinho. Estarei com você e o sustentarei”?

Na medida em que um pai humano pode proteger outra pessoa, você protegeria o seu filho. Nunca lhe faltaria a sua solidariedade nem o seu apoio, de dia ou de noite.

Ao seu Pai celestial não falta nem solidariedade nem força. O seu olho nunca dorme. O seu braço nunca se cansa. Basta que você traga a sua fraqueza desamparada à força todo-poderosa dele por meio deste ato de fé, e ele o sustentará, ainda que uma legião de demônios o cerque.

Por fim, você renuncia aos seus pecados — isto é, na sua vontade, no seu propósito, na sua determinação.

Você diz: “Nunca mais quero entristecê-lo.”

Você canta isso, e é sincero.

“Não quero mais entristecê-lo.”

Se você pudesse viver sem entristecê-lo, consideraria valioso qualquer sacrifício. Isso não é arrependimento? Você sabe que é.

Você renuncia ao pecado. Você não diz: “Senhor Jesus, salva-me enquanto me agarro a esta mão direita e a este olho direito. Salva-me enquanto me apego a estas coisas proibidas.”

Não.

Você diz: “Senhor Jesus, salva-me delas. Purifica-me.”

Isso é arrependimento. Você vê o pecado. Odeia o pecado. Renuncia ao pecado.

Pois bem: creia no Senhor Jesus Cristo.

Ó Espírito Santo, revela o caminho simples da fé.

Você pergunta: “Como devo crer?”

Uma alma atribulada certa vez me fez esta pergunta em letras grandes: “Como devo crer?”

Como é que uma noiva crê no seu marido quando se entrega a ele diante do altar? Ela confia-se a ele. Crê nele. Entra com ele numa aliança e depois vai para casa e vive como se essa aliança fosse verdadeira.

Isso é fé.

Como você confia num médico quando está doente e deitado na cama, seja em paz, seja em sofrimento? Você põe o seu caso nas mãos dele. Entrega-se aos seus cuidados. Confia na sua perícia e segue as suas instruções.

Tenha em Jesus Cristo uma fé assim.

Confie e obedeça, e espere que lhe seja feito segundo a palavra dele.

Em vez disso, a fé de muita gente é como a de alguém que sofre de uma doença grave. Um amigo lhe fala de um médico admirável que curou centenas de casos semelhantes e apresenta provas abundantes de que o médico é capaz e está disposto a curá-lo, se ele apenas se colocar sob os seus cuidados. O doente pode crer plenamente no testemunho do amigo a respeito do médico e, no entanto, por alguma razão oculta, recusar-se a confiar-se a ele.

Muitas pessoas tratam Jesus Cristo do mesmo modo. Creem que ele pode curar a doença do pecado nos termos que ele estabeleceu. Creem que ele não faz acepção de pessoas. Creem que ele salvou centenas tão pecadores quanto elas. E, mesmo assim, por alguma razão, não confiam nele. Ficam para trás.

O que você precisa fazer é pôr o seu caso nas mãos dele e dizer: “Senhor Jesus, venho como me convidaste, confessando e abandonando o meu pecado. Se eu pudesse, deixá-lo-ia para sempre neste mesmo instante. Tu sabes que venho renunciando a ele, mas sem poder para me salvar dele. E agora, Senhor Jesus, tu disseste: ‘Aquele que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora’” (João 6:37).

“Eu venho, sim. Tu não me lanças fora. Tu me recebes. Bendito Pai celestial, entrego-me a ti. Ponho os meus pecados sobre o sacrifício do teu Filho. Tu disseste que me receberias e me perdoarias por amor dele. Agora rolo sobre ele a minha carga de culpa, e creio na tua promessa. Confio que serás fiel à tua palavra.”

Isso é fé.

“Mas”, disse uma querida senhora, “eu não sinto isso.”

Não. Você precisa confiar primeiro.

Repare bem: você não deve primeiro crer que está salvo, mas crer que ele o está salvando agora, segundo a sua promessa.

“Tudo quanto pedirdes em oração, crede que já o recebestes, e assim será convosco” (Marcos 11:24).

Esse é o princípio da fé. Creia que recebe antes de sentir. Quando receber, então sentirá. Deus se mostrará verdadeiro, e todo homem ou demônio que o contradisser será achado mentiroso.

Lance os braços em torno do Crucificado. Segure a mão do Filho de Deus. Traga a sua alma culpada ao pé da cruz e diga: “Tu me recebes. Tu me perdoas. Tu me purificas. Tu me salvas.”

Continue falando a linguagem da fé.

Tenho visto muitas almas entrarem na liberdade enquanto repetiam pessoalmente estas preciosas palavras: “Ele foi ferido pelas minhas transgressões e moído pelas minhas iniquidades; o castigo que me traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fui sarado” (Isaías 53:5).

Continue falando a linguagem da fé por todo o caminho de volta para casa esta noite.

Entre no seu quarto e diga: “Estou decidido a ser salvo, se a salvação me é realmente oferecida.”

Resolva que, se você perecer, perecerá ali, ao pé da cruz, implorando misericórdia. Mas você não perecerá, porque ele prometeu misericórdia aos que vêm.

Nunca vi uma alma chegar a esse ponto e não encontrar em breve a salvação.

Entre no bote salva-vidas. Deixe para trás os destroços da sua própria justiça e dos seus próprios esforços.

Entre inteiramente no bote salva-vidas do sacrifício de Cristo. Agarre-se firme a ele e decida-se a nunca soltá-lo até que o Espírito dê testemunho dentro da sua alma, clamando: “Aba, Pai!” (Romanos 8:15), e você saiba com certeza que passou da morte para a vida (João 5:24).

Que o Senhor o ajude.

Amém.

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