As Epístolas de Inácio e a história de sua vida
Antioquia e o portador de Deus

Capítulo 1 · 3 min de leitura · 4 min de escuta

Antioquia e o portador de Deus

No primeiro século, na grande cidade de Antioquia, na Síria, vivia um homem que assinava suas cartas com um nome estranho e belo. Chamava-se Inácio. Mas, quando tomava a pena, apresentava-se de outro modo: Inácio, também chamado Teóforo — o portador de Deus, aquele que leva Deus consigo. É a primeira coisa que ele nos conta a seu respeito e, no fim das contas, talvez seja a coisa mais verdadeira que se pode dizer dele.

Antioquia não era um lugar pequeno. Era uma das maiores cidades do mundo romano, uma encruzilhada onde vidas gregas, sírias, judaicas e romanas se misturavam em ruas apinhadas. Foi ali, registra o livro de Atos, que os seguidores de Jesus foram chamados cristãos pela primeira vez. Assim, a igreja que Inácio servia não era uma experiência recente à margem das coisas. Erguia-se num dos grandes centros da fé, numa cidade que conhecia o evangelho desde os primeiros dias, e precisava de um pastor capaz de mantê-la unida.

Esse pastor foi Inácio. Ele foi um dos primeiros bispos da igreja de Antioquia — segundo a antiga contagem, sucessor de um bispo chamado Evódio —, posto sobre a congregação como seu supervisor e pastor. Não sabemos o ano de seu nascimento. Ele veio ao mundo em algum momento de meados do primeiro século, na Síria, e os registros que poderiam nos dizer mais não sobreviveram. O que temos, em vez disso, é o próprio homem, em suas próprias palavras, perto do fim da vida.

Um homem no fim da era apostólica

Para entender Inácio, ajuda sentir onde ele estava no tempo. Ele pertencia à geração que veio logo depois dos apóstolos. Os homens que haviam andado com Jesus estavam deixando a terra, ou já tinham partido. As testemunhas oculares iam se tornando lembranças. E a igreja que elas haviam plantado precisava agora aprender a viver sem elas — a guardar a fé inteira quando as vozes que primeiro a anunciaram já haviam se calado.

Segundo uma longa tradição, o próprio Inácio foi discípulo do apóstolo João, e dizia-se que Pedro teve participação em colocá-lo sobre Antioquia. São histórias antigas e queridas, e talvez guardem algo de verdadeiro; mas são tradição, não fato comprovado, e é honesto chamá-las assim. O que é certo é mais simples e basta: ele foi um bispo da era apostólica, perto o bastante de seu início para respirar o seu ar, e encarregado de levar a sua fé adiante, para um tempo mais duro.

Há também uma lenda segundo a qual Inácio teria sido a criancinha que Jesus certa vez tomou nos braços e colocou diante dos discípulos. É uma imagem encantadora, e leitores posteriores gostavam dela — mas os historiadores a rejeitam, e quase certamente não é verdadeira. Não vamos fingir que aconteceu. O Inácio real não precisa de tal enfeite.

O sentido de um nome

Voltemos, então, ao nome que ele escolheu carregar: Teóforo, o portador de Deus. Não era uma vanglória. Nas cartas que você está prestes a ler, encontrará um homem que cria, com simplicidade e sem drama, que Cristo habitava nele — que o cristão é um lugar onde Deus veio morar, um vaso que carrega algo maior do que ele mesmo. Inácio não sustentava isso apenas como doutrina. Estava prestes a prová-lo com o próprio corpo.

Pois esta é a sombra que paira sobre tudo o que ele escreveu. As cartas deste livro não foram compostas numa escrivaninha na tranquila Antioquia. Foram escritas numa estrada, sob escolta, por um homem que era levado através do império para a morte. Em algum momento dos últimos anos de sua vida — por volta do reinado do imperador Trajano —, Inácio foi preso, condenado e enviado a Roma para ser lançado às feras.

Antes de percorrer essa estrada com ele, vale a pena fazer uma pausa aqui, em Antioquia, para vê-lo por inteiro: bispo de uma das primeiras grandes igrejas, homem da geração que sucedeu aos apóstolos, que se chamava portador de Deus e falava sério. Tudo o que vem a seguir é a história de como ele fez jus a esse nome.

Capítulo 1 concluído

Antioquia e o portador de Deus

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