Capítulo 5 · 3 min de leitura · 4 min de escuta
O Segundo Grau: A Oração de Simplicidade
O segundo grau tem sido chamado de várias maneiras: Contemplação, Oração de Silêncio e de repouso; enquanto outros ainda o chamaram de Oração de Simplicidade; e é deste último termo que farei uso aqui, por ser mais apropriado do que o de Contemplação, que significa um grau de oração mais avançado do que aquele de que falo.
Depois de algum tempo, como eu disse, a alma percebe em si uma facilidade em reconhecer a presença de Deus; ela se recolhe mais facilmente; a oração se torna natural e agradável; ela sabe que a oração a conduz a Deus; e percebe o aroma dos seus perfumes.
Então ela deve mudar o seu método e observar com atenção o que estou para dizer, sem se espantar com a sua aparente inverossimilhança.
Antes de tudo, quando você se colocar na presença de Deus pela fé, permaneça por um breve tempo numa atitude de silêncio respeitoso. Se, desde o início, ao fazer esse ato de fé, você sentir um pouco o gosto da presença de Deus, permaneça como está, sem se inquietar com assunto algum, e guarde aquilo que lhe foi dado enquanto isso permanecer.
Se isso o deixar, desperte a sua vontade por meio de alguma afeição terna, e, se você então perceber que o seu estado anterior de paz voltou, permaneça nele. É preciso soprar o fogo de leve, e, assim que ele estiver aceso, parar de soprá-lo, ou você o apagará. É também necessário que você vá a Deus não tanto para obter dele alguma coisa, mas para agradá-lo e fazer a sua vontade; pois um servo que só serve o seu senhor na proporção da recompensa que recebe é indigno de qualquer remuneração.
Vá, pois, à oração, não somente para desfrutar de Deus, mas para ser como Ele quer: isso manterá você igual nos tempos de aridez e nos tempos de abundância; e você não se deixará abater pelas recusas de Deus, nem pela sua aparente indiferença.
Sobre a Aridez Espiritual
Como o único desejo de Deus é dar-se à alma amorosa que deseja buscá-lo, Ele muitas vezes se esconde para despertá-la e obrigá-la a buscá-lo com amor e fidelidade. Mas como Ele recompensa a fidelidade da sua amada! E como as suas aparentes fugas são seguidas de carícias amorosas!
A alma imagina que é prova da sua fidelidade e do seu amor crescente buscar a Deus com esforço, ou que pelo menos essa busca logo o fará voltar.
Mas não! Não é esse o caminho neste grau. Com uma impaciência amorosa, com profunda humildade e rebaixamento, com uma afeição profunda e, ao mesmo tempo, repousada, com um silêncio respeitoso, você deve aguardar a volta do seu Amado.
Assim você lhe mostrará que é somente a Ele mesmo que você ama, e o seu beneplácito, e não o prazer que encontra em amá-lo. Por isso se diz: “Não se apresse no tempo da aflição. Apegue-se a Ele e não se afaste, para que você seja engrandecido no seu fim” (Eclo 2:2, 3). Suporte as suspensões e as demoras das consolações visíveis de Deus.
Seja paciente na oração, ainda que você não fizesse outra coisa em toda a sua vida senão esperar com paciência, com o coração humilhado, abandonado, resignado e contente, pela volta do seu Amado. Ó excelente oração! Como ela comove o coração de Deus e o obriga a voltar, mais do que qualquer outra coisa!
Capítulo 5 concluído
O Segundo Grau: A Oração de Simplicidade