Texto
Jeremias 23:6
Tradução por IA — aguardando revisão nativa
Em resumo
A autojustiça, diz Whitefield, é o último ídolo a ser arrancado do coração. Contra ela ele opõe a doutrina que moldou todo o seu ministério: a justiça de Cristo imputada ao crente, de modo que o próprio Senhor é a nossa justiça. Um sermão que se propõe a despojar o ouvinte de todo apelo que não seja Cristo.
“O Senhor, nossa justiça.”
Quem quer que conheça a natureza da humanidade em geral, ou a inclinação do próprio coração em particular, há de reconhecer que a autojustiça é o último ídolo a ser arrancado do coração: tendo nascido uma vez sob um pacto de obras, é natural que todos nós recorramos a um pacto de obras para a nossa salvação eterna. E contraímos, por nossa queda de Deus, um orgulho tão diabólico que desejaríamos, se não inteiramente, ao menos em parte, gloriar-nos de ser a causa da nossa própria salvação. Clamamos contra o papado, e com toda a razão; mas todos nós somos papistas — ou, ao menos, tenho certeza, todos nós somos arminianos por natureza; e por isso não é de admirar que tantos homens naturais abracem esse sistema. É verdade que renegamos a doutrina do mérito, que temos vergonha de dizer diretamente que merecemos algum bem das mãos de Deus; e por isso, como o Apóstolo tão excelentemente observa, “andamos ao redor”, damos um rodeio, “para estabelecer uma justiça própria, e”, como os fariseus de outrora, “não nos submetemos inteiramente àquela justiça que vem de Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.”
Este é o mais doloroso, e — ai! — o mais comum de todos os males já vistos debaixo do sol. Um mal contra o qual, em qualquer época, e especialmente nestas fezes do tempo em que vivemos, nunca se poderá clamar o bastante. Pois, assim como é com o povo, assim é com os sacerdotes; e é de temer que, mesmo naqueles lugares onde outrora a verdade como ela está em Jesus foi eminentemente pregada, muitos ministros tenham degenerado tão tristemente de seus piedosos antepassados, que as doutrinas da graça, especialmente a pessoal e Toda-SuficienteJustiça de Jesus, são mencionadas rara e superficialmente demais. Daí o amor de muitos esfriar; e muitas vezes pensei que, se fosse possível, esta única consideração bastaria para levantar novamente da sepultura os nossos veneráveis antepassados, que trovejariam aos seus ouvidos o seu fatal erro.
A justiça de Jesus Cristo é um daqueles grandes mistérios que os anjos desejam perscrutar, e parece ter sido uma das primeiras lições que Deus ensinou aos homens após a queda. Pois o que eram as túnicas que Deus fez para vestir os nossos primeiros pais senão figuras da aplicação dos méritos da justiça de Jesus Cristo ao coração dos crentes? É-nos dito que aquelas túnicas eram feitas de peles de animais; e, como os animais não eram então alimento para os homens, podemos justamente inferir que aqueles animais foram mortos em sacrifício, em comemoração do grande sacrifício, Jesus Cristo, que mais tarde haveria de ser oferecido. E as peles dos animais assim mortos, sendo postas sobre Adão e Eva, ensinavam-lhes como a sua nudez havia de ser coberta com a justiça do Cordeiro de Deus.
É isto o que se quer dizer quando nos é dito: “Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi contado como justiça.” Em suma, é disto que tanto a lei como os profetas falaram, especialmente Jeremias nas palavras do texto: “O Senhor, nossa justiça.”
Proponho-me, pela graça divina,
I. Considerar quem devemos entender pela palavra Senhor.
II. Como o Senhor é a justiça do homem.
III. Considerarei algumas das principais objeções que geralmente se levantam contra esta doutrina.
IV. Mostrarei algumas consequências muito nefastas que decorrem naturalmente de negar esta doutrina.
V. Concluirei com uma exortação a todos, para que venham a Cristo pela fé, a fim de que sejam capacitados a dizer com o profeta no texto: “O Senhor, nossa justiça.”
I. Devo considerar quem havemos de entender pela palavra Senhor. O Senhor, nossa justiça.
Se alguns arianos ou socinianos foram trazidos pela curiosidade a ouvir o que este tagarela tem a dizer, que se envergonhem de negar a divindade daquele Senhor que comprou os pobres pecadores com o seu precioso sangue. Pois a pessoa mencionada no texto, sob o título de Senhor, é Jesus Cristo. No versículo 5: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e prosperará, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias (v. 6) Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome pelo qual será chamado: O Senhor, nossa justiça.” Pelo Renovo justo, todos concordam que devemos entender Jesus Cristo. É ele quem é chamado o Senhor no nosso texto. Se assim é, ainda que não houvesse nenhum outro texto na Bíblia para provar a divindade de Cristo, este seria suficiente; pois, se a palavra Senhor pode propriamente pertencer a Jesus Cristo, então ele há de ser Deus. E, como vocês têm à margem das suas Bíblias, a palavra Senhor é, no original, Jeová, que é o título essencial do próprio Deus. Vinde, então, ó arianos, beijai o Filho de Deus, prostrai-vos diante dele e honrai-o, assim como honrais o Pai. Aprendei dos anjos, aquelas estrelas da alva, e adorai-o como verdadeiramente Deus; pois, do contrário, sois tão idólatras quanto aqueles que adoram a Virgem Maria. E quanto a vós, socinianos, que dizeis que Cristo era um mero homem e, contudo, professais que ele era o vosso Salvador, segundo os vossos próprios princípios estais amaldiçoados; pois, se Cristo é um mero homem, então é apenas um braço de carne; e está escrito: “Maldito o que confia num braço de carne.” Mas quero esperar que não haja tais monstros aqui; ou, ao menos, que, depois destas considerações, se envergonhem de propagar tais monstruosos absurdos de novo. Pois é evidente que, pela palavra Senhor, devemos entender o Senhor Jesus Cristo, que aqui toma para si o título de Jeová, e que, portanto, há de ser Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; ou, como o Apóstolo devotamente o expressa, “Deus bendito para sempre.”
II. Como o Senhor há de ser a justiça do homem é o que vem a seguir a ser considerado.
E isto se dá, numa só palavra, por Imputação. Pois aprouve a Deus, depois de haver feito todas as coisas pela palavra do seu poder, criar o homem à sua própria imagem. E tão infinita foi a condescendência do Alto e Sublime, que habita a eternidade, que, embora pudesse ter exigido a obediência eterna dele e da sua posteridade, quis, contudo, obrigar-se a si mesmo, por um pacto ou acordo feito com as suas próprias criaturas, sob a condição de uma obediência sem pecado, a conceder-lhes a imortalidade e a vida eterna. Pois, quando se diz: “No dia em que dele comeres, certamente morrerás”, podemos justamente inferir que, enquanto permanecesse obediente e dele não comesse, certamente viveria. O capítulo 3 de Gênesis nos dá um relato completo, porém lamentável, de como os nossos primeiros pais quebraram este pacto, e assim ficaram necessitados de uma justiça melhor do que a sua, a fim de obter a sua futura aceitação diante de Deus. Pois o que haviam de fazer? Estavam tão sob um pacto de obras como sempre. E, ainda que, depois da sua desobediência, estivessem sem força, estavam obrigados não apenas a fazer, mas a continuar a fazer todas as coisas, e isso da maneira mais perfeita, que o Senhor lhes exigira; e não só isso, mas a dar satisfação à justiça infinitamente ofendida de Deus, pela transgressão de que já se haviam tornado culpados. Aqui, então, se abre a espantosa cena da DivinaFilantropia — quero dizer, o amor de Deus para com o homem. Pois eis que aquilo que o homem não podia fazer, Jesus Cristo, o Filho do amor de seu Pai, se compromete a fazer por ele. E, para que Deus fosse justo ao justificar o ímpio, embora “estivesse na forma de Deus, e por isso não considerasse usurpação ser igual a Deus, contudo tomou sobre si a forma de servo”, a saber, a natureza humana. Nessa natureza ele obedeceu e, assim, cumpriu toda a lei moral em nosso lugar; e também morreu uma morte dolorosa na cruz e, desse modo, tornou-se maldição por, ou em lugar de, aqueles que o Pai lhe havia dado. Como Deus, ele satisfez, ao mesmo tempo em que obedecia e sofria como homem; e, sendo Deus e homem numa só pessoa, realizou uma justiça plena, perfeita e suficiente para todos aqueles a quem ela havia de ser imputada.
Aqui, então, vemos o sentido da palavra justiça. Ela implica tanto a obediência ativa como a passiva do Senhor Jesus Cristo. Geralmente, quando falamos dos méritos de Cristo, mencionamos apenas a última — a sua morte; ao passo que a primeira — a sua vida e obediência ativa — é igualmente necessária. Cristo não é um Salvador tal como nos convém, a menos que unamos as duas coisas. Cristo não apenas morreu, mas viveu; não apenas sofreu, mas obedeceu por, ou em lugar de, pobres pecadores. E ambas, unidas, compõem aquela justiça completa que há de ser imputada a nós, assim como a desobediência dos nossos primeiros pais nos foi feita nossa por imputação. Neste sentido, e em nenhum outro, devemos entender aquele paralelo que o apóstolo Paulo traça, no capítulo 5 de Romanos, entre o primeiro e o segundo Adão. É isto o que ele em outro lugar chama de “sermos nós feitos justiça de Deus nele”. Este é o sentido em que o Profeta quer que entendamos as palavras do texto; por isso, Jeremias 33:16: “Ela (isto é, a própria igreja) será chamada (tendo esta justiça imputada a ela): O Senhor, nossa justiça.” Uma passagem, penso eu, digna da mais profunda meditação de todos os filhos e filhas de Abraão.
Muitas são as objeções que os corações soberbos dos homens caídos continuamente levantam contra esta salutar, esta divina, esta salvadora doutrina. Passo agora,
III. A responder a algumas poucas daquelas que julgo mais dignas de consideração.
E, Primeiro, dizem eles, porque querem parecer amigos da moralidade, “que a doutrina de uma justiça imputada é “destruidora das boas obras e conduz à licenciosidade.”
E quem, pergunto eu, são as pessoas que geralmente levantam esta objeção? Serão homens cheios de fé, homens realmente preocupados com as boas obras? Não; quaisquer que sejam as poucas exceções que possa haver, se é que há alguma, é notório que geralmente são homens de mente corrompida, reprovados quanto à fé. O melhor título que lhes posso dar é o de moralistasprofanos, ou moralistas assim chamados falsamente. Pois apelo à experiência tanto da presente como das épocas passadas: não abundou e não abunda a iniquidade justamente onde a doutrina de toda a justiça pessoal de Cristo é mais rebaixada e mais raramente mencionada? Sendo os princípios arminianos princípios anticristãos, sempre conduziram, e sempre conduzirão, a práticas anticristãs. E nunca houve uma reforma realizada na igreja senão pela pregação da doutrina de uma justiça imputada. Esta doutrina, como a chama o homem de Deus, Lutero, é o “Articulus stantis aut cadentis Ecclesiae”, o artigo pelo qual a Igreja permanece de pé ou cai. E, embora os pregadores desta doutrina sejam geralmente marcados pelos do lado oposto com os nomes injuriosos de antinomianos, enganadores e que mais não seja, creio, contudo, que, se a verdade da doutrina de ambos os lados houvesse de ser julgada pela vida dos pregadores ou professores dela, do nosso lado a questão levaria vantagem em todos os aspectos.
É verdade que esta, como toda outra doutrina da graça, pode ser abusada. E talvez o andar não cristão de alguns que falaram da justiça imputada de Cristo, da justificação pela fé e coisas semelhantes, e que, contudo, nunca a sentiram imputada às suas próprias almas, tenha dado aos inimigos do Senhor ocasião para blasfemar. Mas esta é uma maneira de argumentar tão insegura quanto injusta. A única questão deveria ser: acaso esta doutrina de uma justiça imputada, em si mesma, corta a ocasião das boas obras, ou inclina à licenciosidade? A isto podemos ousadamente responder: De modo nenhum. Ela exclui as obras, de fato, de serem qualquer causa da nossa justificação aos olhos de Deus; mas exige as boas obras como prova de termos esta justiça imputada a nós, e como evidência declarativa da nossa justificação aos olhos dos homens. E, sendo assim, como pode a doutrina de uma justiça imputada ser uma doutrina que conduz à licenciosidade?
É tudo calúnia. O apóstolo Paulo introduz um incrédulo fazendo esta objeção, na sua epístola aos Romanos; e ninguém senão os incrédulos, que nunca sentiram nas suas almas o poder da ressurreição de Cristo, tornará a levantá-la. E, portanto, não obstante esta objeção, com o Profeta no texto, podemos ousadamente dizer: “O Senhor é a nossa justiça.”
Mas Satanás (e não é de admirar que os seus servos o imitem) muitas vezes se transforma em anjo de luz; e por isso (tais coisas perversas farão a incredulidade e o arminianismo os homens dizerem), a fim de vestir as suas objeções com as melhores cores, alguns alegam “que o nosso Salvador não pregou tal doutrina; que, no seu sermão do monte, ele menciona apenas a moralidade”; e, por conseguinte, a doutrina de uma justiça imputada cai por terra inteiramente.
Mas certamente os homens que levantam esta objeção ou nunca leram, ou nunca entenderam, o bendito discurso do nosso Senhor, no qual a doutrina de uma justiça imputada é ensinada tão claramente que até quem passa correndo, se tiver olhos que vejam, poderá ler.
Na verdade, o nosso Senhor recomenda a moralidade e as boas obras (como todos os ministros fiéis farão) e purifica a lei moral de muitas glosas corruptas que sobre ela puseram os fariseus doutos na letra. Mas, então, antes de chegar a isto, é digno de nota que ele fala da piedade interior, tal como a pobreza de espírito, a mansidão, o santo pranto, a pureza de coração e, sobretudo, o ter fome e sede de justiça; e depois recomenda as boas obras como evidência de termos a sua justiça imputada a nós, e de estarem operadas em nossos corações essas graças e disposições divinas. “Assim brilhe a vossa luz (isto é, a luz divina que antes venho mencionando) diante dos homens, numa vida santa, para que eles, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.” E logo acrescenta: “Não penseis que vim destruir a lei moral; não vim destruí-la (tirar a sua força como regra de vida), mas cumpri-la (obedecê-la em toda a sua extensão e dar-lhe o sentido completo).” E então prossegue mostrando quão excessivamente ampla é a lei moral. De modo que o nosso Senhor, longe de pôr de lado uma justiça imputada no seu sermão do monte, não apenas a confirma, mas também responde à objeção precedente que contra ela se levantou, ao fazer das boas obras uma prova e evidência de estar ela imputada às nossas almas. Aquele, pois, que tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Profeta diz nas palavras do texto: “O Senhor, nossa justiça.”
Mas, assim como Satanás não apenas citou a Escritura, mas apoiou nela uma tentação após outra, quando atacou a Cristo no deserto, assim os seus filhos geralmente tomam o mesmo método ao tratar da doutrina dele. E, por isso, levantam outra objeção contra a doutrina de uma justiça imputada, a partir do exemplo do jovem no evangelho.
Podemos formulá-la assim: “O Evangelista Marcos, dizem eles, no capítulo 10, menciona um jovem que veio a Cristo correndo e lhe perguntou o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Cristo o remeteu aos mandamentos, para saber o que devia fazer para herdar a vida eterna. É evidente, portanto, que as obras haviam de ser, ao menos em parte, a causa da sua justificação; e, por conseguinte, a doutrina de uma justiça imputada é contrária às Escrituras.” Esta é a objeção em toda a sua força — e bem pouca força há em toda a sua plenitude. Pois, se eu tivesse de provar a necessidade de uma justiça imputada, dificilmente saberia como trazer um exemplo melhor para demonstrá-la.
Tomemos uma vista mais de perto deste jovem, e do comportamento do nosso Senhor para com ele. Em Marcos 10:17, o Evangelista nos diz que, “quando Cristo estava saindo para o caminho, veio um homem correndo (parece que era algum nobre; que raridade, de fato, ver um tal correndo a Cristo!) e não só isso, mas ajoelhou-se diante dele (talvez muitos da sua condição, hoje, mal saibam quando foi a última vez que se ajoelharam diante de Cristo) e lhe perguntou, dizendo: Bom Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” Então Jesus, para ver se ele o cria ser aquilo que realmente era, verdadeira e propriamente Deus, disse-lhe: “Por que você me chama de bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.” E, para responder diretamente à sua pergunta, diz ele: “Você conhece os mandamentos: Não adulterarás, Não darás falso testemunho, Não defraudarás, Honra a teu pai e a tua mãe.” Esta foi uma resposta direta à sua pergunta, a saber: que a vida eterna não havia de ser alcançada pelas suas próprias obras. Pois o nosso Senhor, ao remetê-lo aos mandamentos, não insinuou de modo algum (como os objetores dão a entender) que a sua moralidade o recomendaria ao favor e à misericórdia de Deus; antes, pretendia com isso fazer da lei o seu aio, para conduzi-lo a si mesmo; para que o jovem, vendo como havia quebrado cada um destes mandamentos, ficasse por isso convencido da insuficiência da sua própria justiça e, por conseguinte, da absoluta necessidade de buscar uma justiça melhor, na qual pudesse depender para a vida eterna.
Isto foi o que o nosso Senhor tencionava. O jovem, sendo cheio de autojustiça e disposto a justificar-se a si mesmo, disse: “A tudo isso tenho obedecido desde a minha juventude”; mas, se se conhecesse a si mesmo, teria confessado: a tudo isso tenho desobedecido desde a minha juventude. Pois, supondo que não houvesse de fato cometido adultério, nunca cobiçara uma mulher no seu coração? E, ainda que não tivesse realmente matado a outrem, nunca se irara sem causa, ou falara inconsideradamente com os seus lábios? Se assim é, quebrando um dos menores mandamentos no menor grau, tornou-se sujeito à maldição de Deus; pois “maldito (diz a lei) aquele que não permanece em fazer todas as coisas que estão escritas neste livro”. E, portanto, como já observei, o nosso Senhor esteve tão longe de falar contra a justiça imputada, que tratou o jovem daquela maneira de propósito, para convencê-lo da necessidade de uma justiça imputada.
Mas talvez repliquem: está dito que “Jesus, olhando para ele, o amou”. E daí? Isto ele o podia fazer com um amor humano, e, ao mesmo tempo, este jovem não ter parte alguma no seu sangue. Assim se diz que Cristo se admirou, que chorou sobre Jerusalém e disse: “Oh, se tivesses conhecido a Mim!” Mas tais passagens hão de ser referidas apenas à sua natureza humana. E há uma grande diferença entre o amor com que Cristo amou este jovem e aquele com que amou a Maria, a Lázaro e à irmã deles, Marta. Para ilustrar isto por comparação: um ministro do Senhor Jesus Cristo, vendo em muitos muitas disposições amáveis, tais como a prontidão em ouvir a palavra, um comportamento decente no culto público e uma vida exteriormente imaculada, não pode deixar de os amar até certo ponto; mas há muita diferença entre o amor que um ministro sente por tais pessoas e aquele amor divino, aquela união e simpatia de alma que ele sente por aqueles que está convencido de que realmente nasceram de novo de Deus. Aplica isto ao caso do nosso Senhor, como uma pálida ilustração dele. Considera o que se disse acerca do caso do jovem em geral, e então, se antes eras afeiçoado a esta objeção, em vez de triunfares, como ele te irás embora triste. A resposta do nosso Salvador a ele cada vez mais nos convence da verdade da afirmação do profeta no texto, de que “o Senhor é a nossa justiça”.
Mas há ainda uma quarta e grande objeção por trás, tirada do capítulo 25 de Mateus, “onde o nosso Senhor é descrito como recompensando as pessoas com a vida eterna, porque alimentaram os famintos, vestiram os nus, e coisas semelhantes. As suas obras, portanto, foram causa da sua justificação; por conseguinte, a doutrina da justiça imputada não está de acordo com a Escritura.”
Esta, confesso, é a objeção mais plausível que se levanta contra a doutrina sustentada a partir do texto; e, para que a respondamos da maneira mais clara e breve possível, confessamos, com o Artigo da Igreja da Inglaterra, “que, ainda que as boas obras não nos justifiquem, elas seguirão à justificação, como frutos dela; e, embora brotem da fé em Cristo e de uma alma renovada, receberão uma recompensa de graça, ainda que não de dívida; e, por conseguinte, quanto mais abundarmos em tais boas obras, tanto maior será a nossa recompensa quando Jesus Cristo vier para o juízo.”
Levemos conosco estas considerações, e elas muito nos ajudarão a responder à objeção que agora temos diante de nós. Pois assim diz Mateus: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos filhos de meu Pai, herdai o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estive na prisão, e viestes a mim. Recompensar-vos-ei, portanto, porque fizestes estas coisas por amor a mim, e assim vos mostrastes verdadeiros discípulos meus.” E que o povo não dependia destas boas ações para a sua justificação aos olhos de Deus é evidente. “Pois quando foi, dizem eles, que te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando foi que te vimos estrangeiro, e te acolhemos, ou nu, e te vestimos? Ou quando foi que te vimos enfermo, ou na prisão, e viemos a ti?” Linguagem e perguntas de todo impróprias para pessoas que confiam na sua própria justiça para a aceitação e absolvição aos olhos de Deus.
Mas então replicam contra ti: “Na última parte do capítulo, é evidente que Jesus Cristo rejeita e condena os outros por não fazerem estas coisas. E, portanto, se ele condena estes por não fazerem, salva aqueles por fazerem; e, por conseguinte, a doutrina de uma justiça imputada não vale nada.”
Mas isso não é consequência alguma; pois Deus pode justamente condenar qualquer homem por omitir o menor dever da lei moral, e, contudo, em si mesmo, não está obrigado a dar a ninguém recompensa alguma, ainda supondo que tenha feito tudo o que podia. “Somos servos inúteis; nem de longe fizemos tanto quanto era o nosso dever fazer” — há de ser esta a linguagem das almas mais santas que vivem; e, portanto, de nós mesmos, ou em nós mesmos, não podemos ser justificados aos olhos de Deus. Este era o estado de espírito das almas devotas há pouco referidas. Conscientes disto, estavam tão longe de depender das suas obras para a justificação aos olhos de Deus, que se enchiam, por assim dizer, de um santo rubor ao pensar que o nosso Senhor se dignasse mencionar — muito menos recompensar — as suas pobres obras de fé e trabalhos de amor. Estou persuadido de que os seus corações se levantariam com uma santa indignação contra aqueles que alegam esta passagem como objeção à afirmação do profeta, de que “o Senhor é a nossa justiça”.
Assim, penso eu, respondemos honestamente a estas grandes objeções que geralmente se levantam contra a doutrina de uma justiçaimputada. Se aqui eu me detivesse, creio que poderia dizer: “Somos mais que vencedores por aquele que nos amou.” Mas há uma maneira de argumentar que sempre admirei, porque sempre a julguei muito convincente: mostrar os absurdos que decorrem de negar qualquer proposição particular em disputa.
IV. Esta é a próxima coisa que foi proposta. E nunca decorreram maiores nem mais numerosos absurdos da negação de qualquer doutrina do que os que decorrerão de negar a doutrina da justiça imputada de Cristo.
E, Primeiro, se negarmos esta doutrina, transformamos a verdade — refiro-me à palavra de Deus — tanto quanto nos é possível, numa mentira, e subvertemos inteiramente todas aquelas passagens da Escritura que dizem que somos salvos pela graça; que não é das obras, para que ninguém se glorie; que a salvação é o dom gratuito de Deus, e que aquele que se gloria deve gloriar-se somente no Senhor. Pois, se toda a justiça pessoal de Jesus Cristo não for a única causa da minha aceitação diante de Deus — se alguma obra feita por mim, ou prevista em mim, houvesse de ser, ao mínimo que fosse, unida a ela, ou considerada por Deus como causa indutora e impulsiva de absolver a minha alma da culpa —, então eu teria algo de que me pudesse gloriar em mim mesmo. Toda vanglória está excluída da grande obra da nossa redenção; mas isso não pode ser, se formos inimigos da doutrina de uma justiça imputada. Seria interminável enumerar quantos textos da Escritura teriam de ser falsos, se esta doutrina não fosse verdadeira. Baste afirmar em geral que, se negarmos uma justiça imputada, bem podemos negar de uma vez toda a revelação divina; pois ela é o alfa e o ômega, o princípio e o fim do livro de Deus. Ou havemos de descrer disto, ou de crer no que o profeta falou no texto, “que o Senhor é a nossa justiça”.
Mas, além disso: observei no princípio deste discurso que todos nós somos arminianos e papistas por natureza; pois, como diz alguém, “o arminianismo é o caminho dos fundos para o papado”. E aqui ouso ainda afirmar que, se negarmos a doutrina de uma justiça imputada, sejam quais forem os títulos com que a nós mesmos nos chamemos, somos realmente papistas no coração, e não merecemos dos homens nenhum outro título.
Senhores, que pensais? Suponde que eu viesse e vos dissesse que deveis interceder junto aos santos, para que eles intercedam junto a Deus por vós; não diríeis que eu, por alguns, seria justamente tido por um emissário papista, e, por outros, merecidamente lançado fora das vossas sinagogas? Suponho que sim. E por quê? Porque diríeis que a intercessão de Jesus Cristo era suficiente por si mesma, sem a intercessão dos santos, e que era blasfêmia unir a deles à dele, como se ele não bastasse.
Suponde que eu tomasse um caminho um pouco mais tortuoso e vos dissesse que a morte de Cristo não era suficiente sem que a vossa morte lhe fosse acrescentada; que deveis morrer tanto quanto Cristo, unir a vossa morte à dele, e então ela seria suficiente. Não poderíeis então, com uma santa indignação, lançar pó ao ar e com razão chamar-me de “propagador de estranhas doutrinas”? E, então, se é não apenas absurdo, mas blasfemo unir a intercessão dos santos à intercessão de Cristo, como se a sua intercessão não fosse suficiente, ou a nossa morte à morte de Cristo, como se a sua morte não fosse suficiente — julgai vós se não é igualmente absurdo, igualmente blasfemo, unir a nossa obediência, no todo ou em parte, à obediência de Cristo, como se ela não fosse suficiente. E, se assim é, que absurdos decorrerão de negar que o Senhor, tanto na sua obediência ativa como na passiva, é a nossa justiça?
Mencionarei mais um absurdo que decorre de negar esta doutrina, e então terei concluído.
Lembro-me de uma história de certo prelado que, depois de muitos argumentos em vão empregados para convencer o Conde de Rochester das realidades invisíveis do outro mundo, despediu-se de sua senhoria com palavras mais ou menos assim: “Pois bem, meu senhor, se não há inferno, estou seguro; mas, se houvesse tal coisa como o inferno, que será de vós?” Aplico isto àqueles que se opõem à doutrina ora sustentada. Se não existe tal coisa como a doutrina de uma justiça imputada, aqueles que a sustentam e produzem fruto para a santidade estão seguros; mas, se ela existe (como certamente existe), que será de vós que a negais? Não é difícil de determinar. A vossa porção há de ser no lago de fogo e enxofre para todo o sempre. Visto que quereis confiar nas vossas obras, pelas vossas obras sereis julgados. Elas serão pesadas na balança do santuário, e serão achadas em falta. Pelas vossas obras, portanto, sereis condenados; e vós, estando fora de Cristo, achareis que Deus é, para as vossas pobres e miseráveis almas, um fogo consumidor.
O grande Stoddard, de Northampton, na Nova Inglaterra, intitulou, pois, muito bem um livro que escreveu (e que aproveito esta oportunidade para recomendar): “A Segurança de Comparecer na Justiça de Cristo”. Pois por que haveria eu de apoiar-me numa cana quebrada, quando posso ter a Rocha das eras sobre a qual firmar-me, que jamais pode ser abalada?
E agora, antes de chegar a uma aplicação mais particular, permiti-me, na linguagem do apóstolo, clamar triunfante: “Onde está o escriba? Onde o questionador?” Onde está o incrédulo raciocinador desta geração? Pode algo parecer mais razoável, mesmo segundo a vossa própria maneira de argumentar, do que a doutrina aqui exposta? Não sentistes um poder convincente acompanhar a palavra? Por que, então, não credes no Senhor Jesus Cristo, para que ele se torne o Senhor, vossa justiça?
Mas é tempo de eu chegar um pouco mais perto das vossas consciências.
Irmãos, ainda que alguns se ofendam com esta doutrina e a tenham por loucura, para muitos de vós, não duvido, ela é preciosa, por estar de acordo com a fôrma das sãs palavras que, desde a vossa infância, vos foi transmitida; e, vindo de um lado de onde menos a esperaríeis, pode ser recebida com maior prazer e satisfação. Mas permiti que vos faça uma pergunta: podeis dizer “o Senhor, nossa justiça”? Digo, o Senhor nossa justiça. Pois entreter esta doutrina na cabeça, sem receber o Senhor Jesus Cristo salvificamente, por uma fé viva, no coração, apenas aumentará a vossa condenação. Como muitas vezes vos disse, assim vos digo de novo: um Cristo não aplicado não é Cristo algum. Podeis, então, com o crente Tomé, clamar: “Senhor meu, e Deus meu”? É Cristo a vossa santificação, tanto como a vossa justiça exterior? Pois a palavra justiça, no texto, não implica apenas a justiça pessoal de Cristo imputada a nós, mas também a santidade operada em nós. Estas duas coisas Deus as uniu. Ele nunca as separou, nunca as separa, nunca as separará. Se sois justificados pelo sangue, sois também santificados pelo Espírito do nosso Senhor. Podeis, então, neste sentido, dizer: O Senhor, nossa justiça? Fostes alguma vez levados a abominar-vos a vós mesmos por causa dos vossos pecados atuais e originais, e a detestar a vossa própria justiça? Pois, como o profeta belamente o exprime, “a vossa justiça é como trapos imundos”. Fostes alguma vez levados a ver e a admirar a toda-suficiência da justiça de Cristo, e movidos pelo Espírito de Deus a ter fome e sede dela? Pudestes alguma vez dizer: a minha alma tem sede de Cristo, sim, da própria justiça de Cristo? Ó, quando chegarei a comparecer diante da presença do meu Deus na justiça de Cristo! Nada senão Cristo! Nada senão Cristo! Dá-me Cristo, ó Deus, e estarei satisfeito! A minha alma te louvará para sempre.
Foi esta alguma vez a linguagem dos vossos corações? E, depois destes conflitos interiores, fostes alguma vez capacitados a estender o braço da fé e a abraçar o bendito Jesus nas vossas almas, de modo que pudésseis dizer: “o meu amado é meu, e eu sou dele”? Se assim é, não temais, quem quer que sejais. Salve, mil vezes salve, ó almas felizes! O Senhor, o Senhor Cristo, o Deus eterno, é a vossa justiça. Cristo vos justificou; quem é o que vos condena? Cristo morreu por vós, ou antes, ressuscitou, e vive para sempre para interceder por vós. Estando agora justificados pela sua graça, tendes paz com Deus e, dentro em pouco, estareis com Jesus na glória, colhendo frutos eternos e inexprimíveis, tanto no corpo como na alma. Pois não há condenação para os que estão verdadeiramente em Cristo Jesus. “Seja Paulo, ou Apolo, seja a vida, ou a morte, tudo é vosso, se sois de Cristo, porque Cristo é de Deus.” Meus irmãos, o meu coração se dilata para convosco! Ó, pensai no amor de Cristo em morrer por vós! Se o Senhor é a vossa justiça, esteja a justiça do vosso Senhor continuamente na vossa boca. Falai, ó falai, e recomendai a justiça de Cristo, quando vos deitardes e quando vos levantardes, ao sairdes e ao entrardes! Pensai na grandeza do dom, bem como do doador! Mostrai a todo o mundo em quem crestes! Que todos, pelos vossos frutos, saibam que o Senhor é a vossa justiça, e que aguardais o vosso Senhor dos céus! Ó, esforçai-vos por ser santos, assim como é santo aquele que vos chamou e vos lavou no seu próprio sangue! Não seja a justiça do Senhor mal falada por vossa causa. Não seja Jesus ferido na casa dos seus amigos; antes, crescei na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, dia após dia. Ó, pensai no seu amor que o levou a morrer! Que esse amor vos constranja à obediência! Tendo sido muito perdoados, amai muito. Perguntai sempre: Que farei para exprimir a minha gratidão ao Senhor, por me haver dado a sua justiça? Esteja sempre na vossa boca aquela pergunta que humilha a si mesmo e exalta a Deus: “Por que a mim, Senhor? Por que a mim?” Por que sou eu tomado, e outros deixados? Por que é o Senhor a minha justiça? Por que se tornou ele a minha salvação, eu que tantas vezes mereci das suas mãos a condenação?
Meus amigos, confio que sinto algo de um senso do amor distintivo de Deus sobre o meu coração; por isso, devo desviar-me um pouco de vos felicitar, para convidar os pobres pecadores sem Cristo a virem a ele e a aceitarem a sua justiça, para que tenham vida.
Ai, o meu coração quase sangra! Que multidão de almas preciosas está agora diante de mim! Dentro de quão pouco tempo todas serão introduzidas na eternidade! E, contudo — ó pensamento pungente! —, se Deus agora exigisse todas as vossas almas, quão poucos, comparativamente falando, poderiam realmente dizer: o Senhor, nossa justiça!
E pensas tu, ó pecador, que serás capaz de subsistir no dia do juízo, se Cristo não for a tua justiça? Não; somente ela é a veste nupcial com a qual deves comparecer. Ó pecadores sem Cristo, estou aflito por vós! Os desejos da minha alma se dilatam. Ó, que este seja um tempo aceitável! Que o Senhor seja a vossa justiça! Pois para onde fugiríeis, se a morte vos encontrasse nus? De fato, não há esconder-se da sua presença. As mesquinhas folhas de figueira da vossa própria justiça não cobrirão a vossa nudez, quando Deus vos chamar a comparecer diante dele. Adão as achou inúteis, e vós também as achareis. Ó, pensai na morte! Ó, pensai no juízo! Ainda um pouco, e o tempo não mais existirá; e então, que será de vós, se o Senhor não for a vossa justiça? Pensais que Cristo vos poupará? Não; aquele que vos formou não terá misericórdia de vós. Se não sois de Cristo, se Cristo não for a vossa justiça, o próprio Cristo vos declarará condenados. E podeis suportar o pensamento de serdes condenados por Cristo? Podeis suportar ouvir o Senhor Jesus dizer-vos: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos”? Podeis viver, pensais vós, em chamas eternas? É de bronze a vossa carne, e de ferro os vossos ossos? E ainda que o fossem? O fogo do inferno, aquele fogo preparado para o diabo e os seus anjos, os traspassaria de lado a lado. E podeis suportar apartar-vos de Cristo? Ó, pensamento que trespassa o coração! Perguntai àquelas almas santas que, em algum momento, lamentam um Deus ausente, que andam em trevas e não veem luz, ainda que por apenas alguns dias ou horas; perguntai-lhes o que é perder a luz e a presença de Cristo. Vede como o buscam com pesar e andam a lamentar-se após ele o dia todo! E, se é tão terrível perder a presença sensível de Cristo apenas por um dia, que será ser banido dele por toda a eternidade!
Mas assim há de ser, se Cristo não for a vossa justiça. Pois a justiça de Deus há de ser satisfeita; e, a menos que a justiça de Cristo vos seja aqui imputada e aplicada, tereis de estar, no além, satisfazendo eternamente a justiça divina nos tormentos do inferno; sim, o próprio Cristo vos condenará àquele lugar de tormento. E quão pungente é esse pensamento! Parece-me ver pobres, trêmulos e desgraçados sem Cristo, de pé diante do tribunal de Deus, clamando: Senhor, se havemos de ser condenados, que algum anjo, ou algum arcanjo, pronuncie a sentença condenatória; mas tudo em vão. O próprio Cristo pronunciará a irrevogável sentença. Conhecendo, pois, os terrores do Senhor, permiti que vos persuada a unir-vos a Cristo, e a nunca descansardes enquanto não puderdes dizer: “o Senhor, nossa justiça”. Quem sabe se o Senhor não terá misericórdia de vós — ou melhor, se não vos perdoará abundantemente? Suplicai a Deus que vos dê fé; e, se o Senhor vo-la der, por ela recebereis a Cristo, com a sua justiça e com o seu tudo. Não precisais temer a grandeza ou o número dos vossos pecados. Pois sois pecadores? Também eu o sou. Sois os principais dos pecadores? Também eu o sou. Sois pecadores reincidentes? Também eu o sou. E, contudo, o Senhor (para sempre seja adorada a sua rica, gratuita e soberana graça) — o Senhor é a minha justiça. Vem, então, ó jovem, que (como eu mesmo outrora agi) andas bancando o pródigo e vagueando para longe da casa do teu Pai celestial; volta para casa, volta para casa, e deixa o teu chiqueiro. Não te alimentes mais das bolotas dos prazeres sensuais; pelo amor de Cristo, levanta-te e volta para casa! O teu Pai celestial agora te chama. Vê ali a melhor veste, a própria justiça do seu amado Filho, que te espera. Contempla-a, olha-a de novo e de novo. Considera a que preço tão elevado foi comprada, nada menos que pelo sangue de Deus. Considera quão grande necessidade dela tens. Estás perdido, arruinado, condenado para sempre, sem ela. Vem, então, ó pobre e culpado pródigo, volta para casa: por certo, não me irarei, como o irmão mais velho no evangelho; não, alegrar-me-ei com os anjos no céu. E ó, que Deus agora incline os céus e desça! Desce, ó Filho de Deus, desce; e, assim como mostraste em mim tamanha misericórdia, ó, faze que o teu bendito Espírito aplique a tua justiça a alguns jovens pródigos agora diante de ti, e revista as suas almas nuas com a tua melhor veste!
Mas devo dizer uma palavra a vós, jovens donzelas, tanto como aos jovens. Vejo muitas de vós adornadas quanto ao corpo; mas não estão nuas as vossas almas? Qual de vós pode dizer: o Senhor é a minha justiça? Qual de vós jamais se preocupou em ser vestida com esta veste de valor inestimável, e sem a qual não sois melhores do que sepulcros caiados aos olhos de Deus? Não deixeis, pois, tantas de vós, jovens donzelas, esquecer por mais tempo o vosso principal e único ornamento. Ó, buscai que o Senhor seja a vossa justiça, ou de outra maneira o fogo em breve virá sobre vós, em lugar da beleza!
E que direi a vós, os de meia-idade, atarefados comerciantes, vós, sobrecarregadas Martas, que, com todos os vossos ganhos, ainda não ganhastes que o Senhor seja a vossa justiça? Ai! que proveito haverá de todo o vosso labor debaixo do sol, se não assegurardes esta pérola de valor inestimável? Esta única coisa, tão absolutamente necessária, que só ela vos poderá valer, quando todas as outras coisas vos forem tiradas. Não trabalheis, portanto, com tanta ansiedade pela comida que perece, mas de agora em diante buscai que o Senhor seja a vossa justiça, uma justiça que vos dará direito à vida eterna. Vejo também muitas cabeças encanecidas aqui, e talvez a maior parte delas não possa dizer: o Senhor é a minha justiça. Ó pecador de cabelos brancos, eu poderia chorar sobre ti! Os teus cabelos grisalhos, que deveriam ser a tua coroa, e nos quais talvez te glories, são agora a tua vergonha. Não sabes que o Senhor é a tua justiça: ó, apressa-te, pois, apressa-te, ó pecador idoso, e busca ter parte no amor redentor! Ai, já tens um pé na sepultura, a tua ampulheta está a esgotar-se, o teu sol está a pôr-se, e ele se porá e te deixará em trevas eternas, a menos que o Senhor seja a tua justiça! Foge, pois, ó foge para salvar a tua vida! Não temas. Todas as coisas são possíveis a Deus. Se vieres, ainda que seja à undécima hora, Cristo Jesus de modo nenhum te lançará fora. Busca, então, que o Senhor seja a tua justiça, e roga-lhe que te dê a conhecer como um homem pode nascer de novo, sendo velho! Mas não devo esquecer os cordeirinhos do rebanho. Apascentá-los foi um dos últimos mandamentos do meu Senhor. Sei que ele se irará comigo, se eu não lhes disser que o Senhor pode ser a justiça deles, e que dos tais é o reino dos céus. Vinde, pois, ó criancinhas, vinde a Cristo; o Senhor Cristo será a vossa justiça. Não penseis que sois jovens demais para serdes convertidas. Talvez muitas de vós tenhais nove ou dez anos e, contudo, não possais dizer: o Senhor é a nossa justiça — o que muitos disseram, ainda mais novos do que vós. Vinde, então, enquanto sois jovens. Talvez não vivais para ser velhos. Não espereis pelos outros. Se os vossos pais e mães não quiserem vir a Cristo, vinde vós sem eles. Deixai que as crianças os conduzam, e lhes mostrem como o Senhor pode ser a justiça deles. O nosso Senhor Jesus Cristo amava as criancinhas. Vós sois os seus cordeiros; ele me manda apascentar-vos. Rogo a Deus que vos faça dispostos, desde cedo, a tomar o Senhor por vossa justiça.
Aqui, pois, eu poderia concluir; mas não devo esquecer os pobres negros; não, não devo. Jesus Cristo morreu por eles, tanto como pelos outros. Nem vos menciono por último por desprezar as vossas almas, mas porque quero que o que hei de dizer cause impressão mais profunda nos vossos corações. Ó, que buscásseis que o Senhor fosse a vossa justiça! Quem sabe se ele não se deixará achar de vós? Pois em Jesus Cristo não há nem homem nem mulher, nem escravo nem livre; até vós podeis ser filhos de Deus, se crerdes em Jesus. Nunca lestes acerca do eunuco que pertencia à rainha Candace? Um negro como vós. Ele creu. O Senhor foi a sua justiça. Foi batizado. Crede vós também, e sereis salvos. Cristo Jesus é o mesmo agora como o era ontem, e vos lavará no seu próprio sangue. Ide, pois, para casa, transformai as palavras do texto numa oração e suplicai ao Senhor que seja a vossa justiça. Ora, vem, Senhor Jesus, vem depressa, a todas as nossas almas! Amém, Senhor Jesus, amém e amém!
Domínio público. Texto de origem de a edição original.