Texto
1 Coríntios 1:30
Tradução por IA — aguardando revisão nativa
Em resumo
Whitefield chama este de um dos versículos mais abrangentes da Bíblia e o prega como o evangelho inteiro em miniatura: Cristo feito para o crente sabedoria, justiça, santificação e redenção — o dom quádruplo, cada parte em sua ordem, e tudo isso fluindo do eterno amor do Pai.
De todos os versículos do livro de Deus, este que acabo de vos ler é, creio eu, um dos mais abrangentes: que boas-novas ele traz aos crentes! De que preciosos privilégios eles são aqui revestidos! Como são aqui conduzidos à fonte de todos esses privilégios — refiro-me ao amor, ao eterno amor de Deus, o Pai! ‘Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção.'
Sem vos remeter ao contexto, a partir destas palavras hei de,
Primeiro, apontar-vos a fonte da qual fluem todas essas bênçãos de que os eleitos de Deus participam em Jesus Cristo: ‘o qual para nós foi feito por Deus'. E,
Segundo, considerarei quais são essas bênçãos: ‘sabedoria, justiça, santificação e redenção'.
Primeiro, gostaria de apontar-vos a fonte da qual fluem todas essas bênçãos de que os eleitos de Deus participam em Jesus, ‘o qual para nós foi feito por Deus': é do Pai que aqui se fala. Não como se Jesus Cristo também não fosse Deus; mas Deus, o Pai, é a fonte da Divindade; e, se considerarmos Jesus Cristo atuando como Mediador, Deus, o Pai, é maior do que ele. Houve um pacto eterno entre o Pai e o Filho: “Fiz aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi'; ora, Davi era figura de Cristo, com quem o Pai fez uma aliança: se ele obedecesse e padecesse, e se oferecesse a si mesmo em sacrifício pelo pecado, então ‘veria a sua semente, prolongaria os seus dias, e o bom prazer do Senhor prosperaria na sua mão'. A este pacto o nosso Senhor se refere naquela gloriosa oração registrada no capítulo dezessete de João; e por isso ele pede, ou antes, reclama com plena certeza, todos os que lhe foram dados pelo Pai: ‘Pai, quero que também aqueles que me deste estejam comigo onde eu estou.' Por esta mesma razão, o apóstolo irrompe em louvores a Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; pois ele amou os eleitos com amor eterno, ou, como o nosso Senhor o exprime, ‘antes da fundação do mundo'; e, portanto, para mostrar-lhes a quem deviam a sua salvação, o nosso Senhor, no capítulo vinte e cinco de Mateus, representa-se dizendo: ‘Vinde, benditos filhos de meu Pai, recebei o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo'. E assim, em resposta à mãe dos filhos de Zebedeu, ele diz: ‘Não me pertence concedê-lo, mas será dado àqueles para quem está preparado por meu Pai'. Por isso o apóstolo, ao falar aqui dos privilégios do cristão, para que não sacrifiquem à sua própria rede, nem pensem que a sua salvação se devia à sua própria fidelidade, ou ao bom uso do seu livre-arbítrio, lembra-lhes que olhem para trás, para o eterno amor de Deus, o Pai: ‘o qual para nós foi feito por Deus', etc.
Prouvera a Deus que este ponto de doutrina fosse mais considerado, e que as pessoas fossem mais aplicadas ao estudo da aliança da redenção entre o Pai e o Filho! Não teríamos, então, tanta disputa contra a doutrina da eleição, nem a ouviríamos condenada (mesmo por homens bons) como doutrina de demônios. De minha parte, não consigo ver como se possa alcançar a verdadeira humildade de espírito sem o conhecimento dela; e, embora eu não diga que todo aquele que nega a eleição seja um homem mau, direi, contudo, com aquele doce cantor, o Sr. Trail, que é um péssimo sinal: tal pessoa, seja quem for, penso eu, não pode verdadeiramente conhecer a si mesma; pois, se negamos a eleição, havemos, ao menos em parte, de nos gloriar em nós mesmos; mas a nossa redenção foi de tal modo ordenada que nenhuma carne se glorie na presença Divina; e daí é que o orgulho do homem se opõe a esta doutrina, porque, segundo esta doutrina, e nenhuma outra, ‘aquele que se gloria, glorie-se somente no Senhor'. Mas que direi? A eleição é um mistério que resplandece com tão fulgente brilho que, para usar as palavras de alguém que bebeu profundamente do amor eletivo, ela ofusca os olhos fracos até de alguns dos caros filhos de Deus; contudo, ainda que o não saibam, todas as bênçãos que recebem, todos os privilégios de que desfrutam ou hão de desfrutar, por meio de Jesus Cristo, fluem do eterno amor de Deus, o Pai: ‘Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção.'
Segundo, passo a mostrar quais são essas bênçãos que aqui, por meio de Cristo, são transferidas aos eleitos. E,
1: Primeiro, Cristo é feito para eles sabedoria; mas em que consiste a verdadeira sabedoria? Se eu perguntasse a alguns de vós, talvez respondêsseis que consiste em satisfazer os desejos da carne e em dizer à vossa alma: come, bebe e alegra-te; mas esta é apenas a sabedoria dos brutos, que têm tão bom gosto e prazer pelos deleites sensuais quanto o maior epicurista da terra. Outros me diriam que a verdadeira sabedoria consistia em ajuntar casa a casa e campo a campo, e em dar às terras os seus próprios nomes; mas isto não pode ser a verdadeira sabedoria, pois as riquezas muitas vezes criam asas e voam para longe, como a águia rumo ao céu. A própria sabedoria nos assegura ‘que a vida do homem não consiste na abundância dos bens que possui'; vaidade, vaidade, tudo isto é vaidade; pois, se as riquezas não deixam o seu dono, o dono em breve há de deixá-las; ‘porque também os ricos hão de morrer e deixar a outros as suas riquezas'; as suas riquezas não lhes podem obter redenção da sepultura, para a qual todos nós nos apressamos velozmente.
Mas talvez desprezeis as riquezas e o prazer, e ponhais, portanto, a sabedoria no conhecimento dos livros; mas é possível que conteis o número das estrelas e as chameis a todas pelos seus nomes, e ainda assim sejais meros tolos. Os homens instruídos nem sempre são sábios; antes, o nosso saber comum, tão exaltado, faz dos homens apenas outros tantos tolos consumados. Para não vos deixar, pois, por mais tempo em suspense, e ao mesmo tempo para vos humilhar, hei de mandar-vos à escola de um pagão, a fim de aprenderdes o que é a verdadeira sabedoria: ‘Conhece-te a ti mesmo', era um dito de um dos sábios da Grécia; esta é certamente a verdadeira sabedoria, e é a sabedoria de que fala o texto, e que Jesus Cristo é feito para todos os pecadores eleitos — eles são levados a conhecer-se a si mesmos, de modo a não terem de si mais alta opinião do que convém ter. Antes, eram trevas; agora, são luz no Senhor; e nessa luz veem as suas próprias trevas; agora se lamentam como criaturas decaídas por natureza, mortas em ofensas e pecados, filhos e herdeiros do inferno, e filhos da ira; agora veem que todas as suas justiças não passam de trapos imundos; que não há saúde nas suas almas; que são pobres e miseráveis, cegos e nus; e que não há outro nome dado debaixo do céu pelo qual possam ser salvos, senão o de Jesus Cristo. Veem a necessidade de se unirem a um Salvador, e contemplam a sabedoria de Deus em designá-lo como Salvador; são também tornados dispostos a aceitar a salvação nos termos do próprio Senhor, e a recebê-lo como o seu tudo em tudo; assim, Cristo é feito para eles sabedoria.
2. Segundo, justiça, ‘o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça': toda a justiça pessoal de Cristo é transferida a eles e lhes é imputada. São capacitados a lançar mão de Cristo pela fé, e Deus, o Pai, apaga as suas transgressões, como que por meio de espessa nuvem: dos seus pecados e das suas iniquidades não mais se lembra; são feitos justiça de Deus em Cristo Jesus, ‘o qual é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê'. Num sentido, Deus já não vê pecado neles; toda a aliança das obras é cumprida neles; estão, de fato, justificados, absolvidos e considerados justos à vista de Deus; são perfeitamente aceitos no Amado; estão completos nele; a espada flamejante da ira de Deus, que antes se movia em toda direção, é agora removida, e livre acesso é dado à árvore da vida; são capacitados a estender o braço da fé, colher e viver para sempre. Daí é que o apóstolo, sob o senso deste bendito privilégio, irrompe nesta linguagem triunfante: ‘É Cristo quem justifica; quem é o que condena?' Condena o pecado? A justiça de Cristo livra os crentes da culpa dele: Cristo é o seu Salvador e se tornou propiciação pelos seus pecados; quem, pois, intentará acusação contra os eleitos de Deus? Condena a lei? Por lhes ser imputada a justiça de Cristo, estão mortos para a lei, como aliança de obras; Cristo a cumpriu por eles e em seu lugar. Ameaça-os a morte? Não precisam temer: o aguilhão da morte é o pecado, a força do pecado é a lei; mas Deus lhes deu a vitória, imputando-lhes a justiça do Senhor Jesus.
E que privilégio se acha aqui! Bem podiam os anjos, no nascimento de Cristo, dizer aos humildes pastores: ‘Eis que vos trago boas-novas de grande alegria'; para vós que credes em Cristo ‘nasceu um Salvador'. E bem podem os anjos alegrar-se com a conversão de pobres pecadores; pois o Senhor é a justiça deles; têm paz com Deus pela fé no sangue de Cristo, e jamais entrarão em condenação. Ó crentes! (pois este discurso vos é dirigido de modo especial) levantai as vossas cabeças; ‘alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos'. Cristo foi feito para vós, da parte de Deus, justiça; que, então, haveis de temer? Sois feitos justiça de Deus nele; podeis ser chamados ‘O Senhor, justiça nossa'. De que, então, haveis de ter medo? Que vos separará doravante do amor de Cristo? ‘Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Não; estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura vos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor', o qual, da parte de Deus, é feito para vós justiça.
Este é um glorioso privilégio, mas é apenas o começo da felicidade dos crentes; pois,
3: Terceiro, Cristo é feito para eles não só justiça, mas também santificação; por santificação não entendo uma mera e hipócrita participação nas ordenanças exteriores, ainda que os cristãos bem instruídos hão de considerar seu dever e privilégio participar constantemente de todas as ordenanças exteriores. Tampouco entendo por santificação uma simples reforma exterior, com algumas convicções passageiras, ou uma pequena tristeza legal; pois tudo isto um homem não santificado pode ter; mas, por santificação, entendo uma total renovação de todo o homem: pela justiça de Cristo os crentes tornam-se legalmente vivos, pela santificação tornam-se espiritualmente vivos; por uma têm direito à glória, pela outra são tornados aptos para ela. São, portanto, santificados por inteiro, em espírito, alma e corpo.
Os seus entendimentos, que antes eram trevas, tornam-se agora luz no Senhor; e as suas vontades, antes contrárias à vontade de Deus, tornam-se agora uma só com ela; os seus afetos estão agora postos nas coisas do alto; a sua memória está agora cheia de coisas divinas; as suas consciências naturais estão agora iluminadas; os seus membros, que antes eram instrumentos da impureza e da iniquidade para a iniquidade, são agora novas criaturas; ‘as coisas velhas já passaram; tudo se fez novo' nos seus corações: o pecado já não tem domínio sobre eles; estão libertos do poder dele, ainda que não do seu ser interior; são santos tanto no coração como na vida, em todo o seu proceder: são feitos participantes da natureza divina e, de Jesus Cristo, recebem graça; e toda graça que há em Cristo é copiada e transcrita nas suas almas; são transformados à sua semelhança; ele é formado dentro deles; eles habitam nele, e ele neles; são guiados pelo Espírito e produzem os seus frutos; sabem que Cristo é o seu Emanuel, Deus com eles e neles; são templos vivos do Espírito Santo. E, portanto, sendo santa habitação para o Senhor, toda a Trindade neles habita e neles anda; ainda aqui, assentam-se juntamente com Cristo nos lugares celestiais, e estão vitalmente unidos a ele, a sua Cabeça, por uma fé viva; o seu Redentor, o seu Criador, é o seu esposo; são carne da sua carne, osso dos seus ossos; falam e andam com ele, como um homem fala e anda com o seu amigo; em suma, são um com Cristo, assim como Jesus Cristo e o Pai são um.
Assim é Cristo feito santificação para os crentes. E ó, que privilégio é este! Ser transformado de feras em santos, e, de uma natureza diabólica, ser feito participante de uma natureza divina; ser transferido do reino de Satanás para o reino do amado Filho de Deus! Despir o velho homem, que está corrompido, e vestir o novo homem, criado segundo Deus, em justiça e verdadeira santidade! Ó, que bênção inefável é esta! Quase fico assombrado ao contemplá-la. Bem podia o apóstolo exortar os crentes a se alegrarem no Senhor; de fato, têm razão para se alegrar sempre, sim, para se alegrar até no leito de morte; pois o reino de Deus está neles; são transformados de glória em glória, pelo próprio Espírito do Senhor. Bem pode isto ser um mistério para o homem natural, pois é um mistério até para o próprio homem espiritual, um mistério que ele não pode sondar. Não vos ofusca muitas vezes os olhos, ó filhos de Deus, contemplar o vosso próprio resplendor, quando a lâmpada do Senhor brilha e o vosso Redentor levanta sobre as vossas almas a luz do seu bendito rosto? Não ficais atônitos, quando sentis o amor de Deus derramado nos vossos corações pelo Espírito Santo, e Deus estende o cetro de ouro da sua misericórdia e vos manda pedir o que quiserdes, e vos será dado? Aquela paz de Deus, que guarda e governa os vossos corações, não excede os últimos limites do vosso entendimento? E a alegria que sentis não é inefável? Não é cheia de glória? Estou persuadido de que sim; e, na vossa comunhão secreta, quando o amor do Senhor jorra sobre as vossas almas, ficais como que absortos nele, ou, para usar a expressão do apóstolo, ‘cheios de toda a plenitude de Deus'. Não estais prontos a exclamar com Salomão: ‘E habitará o Senhor, de fato, assim com os homens!'? Como é que havemos de ser assim teus filhos e filhas, ó Senhor Deus Todo-Poderoso!
Se sois filhos de Deus, e sabeis o que é ter comunhão com o Pai e com o Filho; se andais por fé, e não por vista; tenho por certo que esta é, com frequência, a linguagem dos vossos corações.
Mas olha adiante, e vê a ilimitada perspectiva de eterna felicidade que se estende diante de ti, ó crente! O que já recebeste são apenas as primícias, como o cacho de uvas trazido da terra de Canaã; apenas o penhor e a garantia de coisas infinitamente melhores ainda por vir: a colheita há de seguir-se; a tua graça há de ser, mais tarde, absorvida na glória. O teu grande Josué, e misericordioso Sumo Sacerdote, há de conceder-te ampla entrada na terra da promessa, aquele descanso que aguarda os filhos de Deus: pois Cristo é feito para os crentes não só sabedoria, justiça e santificação, mas também redenção.
Mas, antes de entrarmos na explicação e contemplação deste privilégio,
Primeiro, aprendei daqui o grande erro daqueles escritores e clérigos que, embora falem de santificação e de santidade interior (como, de fato, às vezes fazem, ainda que de maneira muito vaga e superficial), no entanto, geralmente a tomam como a causa, quando deveriam considerá-la o efeito da nossa justificação. ‘Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça (e depois) santificação.' Pois a justiça de Cristo, ou aquilo que Cristo fez em nosso lugar, fora de nós, é a única causa da nossa aceitação à vista de Deus, e de toda santidade operada em nós: é a ela, e não à luz interior, nem a coisa alguma operada por dentro, que os pobres pecadores devem buscar a justificação à vista de Deus; é unicamente por causa da justiça de Cristo, e não de coisa alguma operada em nós, que Deus olha favoravelmente para nós; a nossa santificação, na melhor das hipóteses, nesta vida, não é completa: embora sejamos livres do poder do pecado, não estamos livres do seu ser interior; mas não só o domínio, mas o próprio ser interior do pecado é proibido pela perfeita lei de Deus: pois não está dito ‘não cederás à concupiscência', mas ‘não cobiçarás'. De modo que, enquanto o princípio da concupiscência permanecer no menor grau em nossos corações, ainda que de resto sejamos santíssimos, não podemos, por causa disso, esperar aceitação diante de Deus. Devemos, portanto, buscar primeiro uma justiça fora de nós, a saber, a justiça de nosso Senhor Jesus Cristo: por esta razão o apóstolo a menciona e a coloca antes da santificação, nas palavras do texto. E todo aquele que ensina qualquer outra doutrina não prega a verdade como ela é em Jesus.
Segundo, daqui também podem ser refutados os antinomianos e os hipócritas formais, que falam de um Cristo exterior, mas nada sabem, por experiência, de uma obra de santificação operada dentro deles. Seja lá o que pretendam, visto que Cristo não está neles, o Senhor não é a sua justiça, e não têm esperança bem fundada de glória: pois, embora a santificação não seja a causa, é, contudo, o efeito da nossa aceitação diante de Deus; ‘o qual para nós foi feito por Deus justiça e santificação'. Aquele, portanto, que está realmente em Cristo é uma nova criatura; não é voltar a uma aliança de obras olhar para dentro dos nossos corações e, vendo que estão mudados e renovados, daí formar uma confortadora e bem fundada certeza da segurança do nosso estado: não; mas isto é o que a Escritura nos ensina: pelos frutos que produzimos havemos de julgar se de fato alguma vez participamos verdadeiramente do Espírito de Deus. ‘Nós sabemos (diz João) que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.' E, por mais que falemos da justiça de Cristo e clamemos contra os pregadores legalistas, contudo, se não formos santos no coração e na vida, se não formos santificados e renovados pelo Espírito na nossa mente, somos enganadores de nós mesmos, somos apenas hipócritas formais: pois não devemos separar o que Deus uniu; devemos guardar o meio-termo entre os dois extremos; não insistir tanto, por um lado, no Cristo exterior, a ponto de excluir o Cristo interior como evidência de que lhe pertencemos e como preparação para a felicidade futura; nem, por outro lado, depender de tal modo da justiça ou santidade inerente operada em nós, a ponto de excluir a justiça de Jesus Cristo fora de nós. Mas,
4: Quarto, prossigamos agora e contemplemos o outro elo, ou antes, o fim, da corrente de ouro dos privilégios do crente: a redenção. Mas temos de olhar bem alto, pois o seu topo, como a escada de Jacó, alcança o céu, aonde todos os crentes hão de subir e ser postos à direita de Deus. ‘O qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção.'
Esta é, de fato, uma corrente de ouro! e, o que é melhor de tudo, nenhum elo pode jamais ser separado de outro. Ainda que não houvesse outro texto no livro de Deus, este único prova suficientemente a perseverança final dos verdadeiros crentes: pois nunca Deus justificou um homem sem o santificar, nem santificou alguém sem completamente o redimir e glorificar: não! Quanto a Deus, o seu caminho, a sua obra, é perfeita; ele sempre levou avante e concluiu a obra que começou; assim foi na primeira, assim é na nova criação; quando Deus diz ‘Haja luz', há luz, que resplandece cada vez mais até ao dia perfeito, quando os crentes entram no seu eterno descanso, como Deus entrou no seu. Aqueles a quem Deus justificou, ele, com efeito, glorificou: pois, assim como o merecimento de um homem não foi a causa de Deus lhe dar a justiça de Cristo, tampouco o seu demérito será causa de lha tirar; os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis: e não posso crer que tenham noção clara da justiça de Cristo aqueles que negam a perseverança final dos santos; receio que entendam a justificação naquele sentido baixo em que eu a entendia poucos anos atrás, como não implicando mais do que a remissão dos pecados: mas ela não significa apenas a remissão dos pecados passados, mas também um direito federal a todos os bens vindouros. Se Deus nos deu o seu único Filho, como não nos dará também, com ele, gratuitamente todas as coisas? Por isso o apóstolo, depois de dizer ‘o qual para nós foi feito por Deus justiça', não diz que talvez ele venha a ser feito para nós santificação e redenção; mas diz: ‘foi feito'; pois há uma conexão eterna e indissolúvel entre estes benditos privilégios. Assim como a obediência de Cristo é imputada aos crentes, também a sua perseverança nessa obediência lhes há de ser imputada; e denota grande ignorância da aliança da graça e da redenção objetar contra isto.
Pela palavra redenção havemos de entender não só um completo livramento de todo mal, mas também o pleno gozo de todo bem, tanto no corpo como na alma: digo, tanto no corpo como na alma; pois o Senhor é também para o corpo; os corpos dos santos, nesta vida, são templos do Espírito Santo; Deus faz aliança com o pó dos crentes; depois da morte, ainda que os vermes os destruam, contudo, na sua própria carne verão a Deus. Receio, de fato, que haja alguns saduceus em nossos dias, ou ao menos hereges, que dizem, ou que não há ressurreição do corpo, ou que a ressurreição já passou, a saber, na nossa regeneração: daí é que se nega a vinda do nosso Senhor em carne, no dia do juízo; e, por consequência, teríamos de lançar fora o sacramento da ceia do Senhor. Pois por que haveríamos de anunciar a morte do Senhor até que ele venha para o juízo, se ele já veio para julgar os nossos corações e não virá uma segunda vez? Mas tudo isto é apenas o raciocínio de homens ignorantes e inconstantes, que certamente não sabem o que dizem, nem o que afirmam. Que devemos seguir o nosso Senhor na regeneração, ser participantes de um novo nascimento, e que Cristo deve entrar nos nossos corações, francamente o confessamos; e esperamos, ao falar destas coisas, não dizer mais do que aquilo que sabemos e sentimos: mas então é claro que Jesus Cristo virá, no porvir, para o juízo, e que ele subiu ao céu com o corpo que teve aqui na terra; pois ele diz, depois da sua ressurreição: ‘Apalpai-me e vede; um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho'. E é claro que a ressurreição de Cristo foi o penhor da nossa: pois diz o apóstolo: ‘Cristo ressuscitou dos mortos e se tornou as primícias dos que dormem; e, como em Adão todos morrem e estão sujeitos à mortalidade, assim também todos os que estão em Cristo, o segundo Adão, que representou os crentes como seu cabeça federal, certamente serão vivificados, ou ressuscitarão com os seus corpos no último dia'.
Eis, pois, ó crentes! um, ainda que o mais baixo, grau daquela redenção de que sereis participantes no porvir; refiro-me à redenção dos vossos corpos: pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e este corpo mortal se revista da imortalidade. Os vossos corpos, tanto quanto as vossas almas, foram dados a Jesus Cristo pelo Pai; foram companheiros no vigiar, no jejuar e no orar: os vossos corpos, portanto, tanto quanto as vossas almas, Jesus Cristo ressuscitará no último dia. Não temais, pois, ó crentes, olhar para dentro da sepultura: pois, para vós, ela não é senão um dormitório consagrado, onde os vossos corpos dormirão tranquilos até a manhã da ressurreição; quando soar a voz do arcanjo, e a trombeta de Deus der o alarme geral: ‘Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao juízo'; a terra, o ar, o fogo e a água entregarão os vossos átomos dispersos, e, tanto no corpo como na alma, estareis para sempre com o Senhor. Não duvido de que muitos de vós gemam sob corpos combalidos, e se queixem muitas vezes de que o corpo mortal oprime a alma imortal; ao menos este é o meu caso; mas tenhamos um pouco de paciência, e seremos libertos das nossas prisões terrenas; dentro em pouco, estes tabernáculos de barro serão desfeitos, e seremos revestidos da nossa habitação que vem do céu; no porvir, os nossos corpos serão espiritualizados, e, longe de estorvarem as nossas almas pela fraqueza, tornar-se-ão fortes; tão fortes que suportarão um excelente e eterno peso de glória; outros, ainda, podem ter corpos deformados, também emaciados pela doença, e gastos pelo trabalho e pela idade; mas esperai um pouco, até que venha a vossa bendita mudança pela morte; então os vossos corpos serão renovados e feitos gloriosos, semelhantes ao corpo glorioso de Cristo: do qual podemos formar alguma tênue ideia pelo relato que se nos dá da transfiguração do nosso Senhor no monte, quando se diz: ‘As suas vestes tornaram-se brilhantes e resplandecentes, e o seu rosto mais claro que o sol'. Bem pode, então, um crente irromper na linguagem triunfante do apóstolo: ‘Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó sepultura, onde está a tua vitória?'
Mas que é a redenção do corpo, em comparação com a redenção da parte melhor, a nossa alma? Devo, portanto, dizer-vos, crentes, como o anjo disse a João: ‘Sobe para cá'; e tomemos a mais clara visão que pudermos, a tamanha distância, da redenção que Cristo comprou para vós e de cuja posse real em breve vos porá. Já estais justificados, já estais santificados, e assim livres da culpa e do domínio do pecado: mas, como observei, o ser e a habitação do pecado ainda permanecem em vós; Deus julga conveniente deixar alguns amalequitas na terra, para manter em ação o seu Israel. O mais perfeito cristão, estou persuadido, há de concordar, segundo um dos nossos Artigos, que ‘a corrupção da natureza permanece até nos regenerados; que a carne sempre cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne'. De modo que os crentes não podem fazer as coisas para Deus com aquela perfeição que desejam; isto aflige as suas almas justas dia após dia, e, com o santo apóstolo, os faz clamar: ‘Quem nos livrará do corpo desta morte?' Graças a Deus, o nosso Senhor Jesus Cristo o fará, mas não completamente antes do dia da nossa dissolução; então o próprio ser do pecado será destruído, e será posto um fim eterno à corrupção inata e habitante. E não é esta uma grande redenção? Estou certo de que os crentes assim a estimam: pois nada aflige tanto o coração de um filho de Deus como os resquícios do pecado que nele habita. Além disso, os crentes muitas vezes estão em pesar por causa de múltiplas tentações; Deus vê que isto lhes é necessário e bom; e, ainda que sejam grandemente favorecidos e arrebatados em comunhão com Deus, até ao terceiro céu, contudo, muitas vezes lhes é enviado um mensageiro de Satanás para os esbofetear, para que não se ensoberbeçam com a grandeza das revelações. Mas não vos canseis, não desfaleçais no vosso ânimo: aproxima-se o tempo da vossa completa redenção. No céu, o maligno cessará de vos perturbar, e as vossas almas cansadas gozarão de um eterno descanso; os seus dardos inflamados não podem alcançar aquelas regiões bem-aventuradas: Satanás jamais tornará a apresentar-se para inquietar ou acusar os filhos de Deus, uma vez que o Senhor Jesus Cristo feche a porta. As vossas almas justas estão agora afligidas, dia após dia, com o proceder ímpio dos perversos; o joio cresce agora no meio do trigo; lobos vêm em pele de ovelha: mas a redenção de que fala o texto libertará as vossas almas de toda ansiedade a esse respeito; no porvir, gozareis de uma perfeita comunhão dos santos; nada que seja profano ou não santificado entrará no santo dos santos, que vos está preparado no alto: disto, e de todo e qualquer mal, sereis livres, quando a vossa redenção, no porvir, for consumada no céu; e não só isto, mas entrareis no pleno gozo de todo bem. É verdade que nem todos os santos terão o mesmo grau de felicidade, mas todos serão tão felizes quanto os seus corações puderem desejar. Crentes, vós julgareis os anjos maus, e conversareis familiarmente com os bons: assentar-vos-eis com Abraão, Isaque, Jacó e todos os espíritos dos justos aperfeiçoados; e, para resumir toda a vossa felicidade numa só palavra, vereis a Deus — Pai, Filho e Espírito Santo; e, por ver a Deus, tornar-vos-eis cada vez mais semelhantes a ele, e passareis de glória em glória, por toda a eternidade.
Mas devo parar — as glórias do mundo superior afluem tão depressa sobre a minha alma que me perco na sua contemplação. Irmãos, a redenção de que se fala é indizível; não a podemos aqui compreender; nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem entrou no coração dos mais santos homens que vivem conceber quão grande ela é. Ainda que eu vos entretivesse por eras inteiras com um relato dela, quando chegásseis ao céu, teríeis de dizer, com a rainha de Sabá: ‘Nem a metade, não, nem a milésima parte se nos disse'. Tudo o que podemos fazer aqui é subir ao monte Pisga e, com os olhos da fé, tomar uma visão distante da terra prometida: podemos vê-la, como Abraão viu Cristo, de longe, e nela nos alegrar; mas aqui só conhecemos em parte. Bendito seja Deus, há de vir um tempo em que conheceremos a Deus, assim como somos conhecidos, e Deus será tudo em todos. Senhor Jesus, completa o número dos teus eleitos! Senhor Jesus, apressa o teu reino!
E agora, onde estão os escarnecedores destes últimos dias, que têm a vida dos cristãos por loucura e o seu fim por desonra? Homens infelizes! não sabeis o que fazeis. Se os vossos olhos estivessem abertos, e tivésseis sentidos para discernir as coisas espirituais, não falaríeis toda sorte de mal contra os filhos de Deus, mas os estimaríeis como os ilustres da terra, e invejaríeis a sua felicidade: as vossas almas teriam fome e sede dela: também vós vos tornaríeis loucos por amor de Cristo. Gloriais-vos da sabedoria; assim faziam os filósofos de Corinto: mas a vossa sabedoria é a insensatez da loucura à vista de Deus. De que vos aproveitará a vossa sabedoria, se ela não vos fizer sábios para a salvação? Podeis vós, com toda a vossa sabedoria, propor um plano mais coerente sobre o qual firmar as vossas esperanças de salvação do que o que agora vos foi apresentado? Podeis vós, com toda a força da razão natural, descobrir um caminho melhor de aceitação diante de Deus do que pela justiça do Senhor Jesus Cristo? É acertado pensar que as vossas próprias obras possam, em alguma medida, merecê-la ou obtê-la? Se não, por que não credes nele? Por que não vos submeteis à sua justiça? Podeis negar que sois criaturas decaídas? Não sentis que estais cheios de desordens, e que essas desordens vos fazem infelizes? Não percebeis que não podeis mudar os vossos próprios corações? Não resolvestes muitas e muitas vezes, e ainda não têm as vossas corrupções domínio sobre vós? Não sois escravos dos vossos apetites, e levados cativos pelo diabo à sua vontade? Por que, então, não vindes a Cristo para a santificação? Não desejais morrer a morte dos justos, e que o vosso estado futuro seja como o deles? Estou persuadido de que não podeis suportar o pensamento de ser aniquilados, e muito menos de ser miseráveis para sempre. Seja lá o que pretendais, se dizeis a verdade, haveis de confessar que a consciência irrompe em vós, nos intervalos mais sóbrios, queirais ou não, e até vos constrange a crer que o inferno não é um fogo pintado. E por que, então, não vindes a Cristo? Só ele vos pode obter a redenção eterna. Apressai-vos, apressai-vos para ele, pobres pecadores iludidos. Falta-vos sabedoria; pedi-a a Cristo. Quem sabe se ele não vo-la dará? Ele é poderoso: pois é a sabedoria do Pai; é aquela sabedoria que existe desde a eternidade. Não tendes justiça; ide, pois, a Cristo: ‘Ele é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê.' Sois profanos: fugi para o Senhor Jesus: ele está cheio de graça e de verdade; e da sua plenitude todos os que nele creem podem receber. Tendes medo de morrer; que isto vos impila a Cristo: ele tem as chaves da morte e do inferno; nele há abundante redenção; só ele pode abrir a porta que conduz à vida eterna.
Não se glorie, pois, o raciocinador enganado por mais tempo da sua pretensa razão. Penseis o que pensardes, é a coisa mais irracional do mundo não crer em Jesus Cristo, a quem Deus enviou. Por que, por que quereis morrer? Por que não vindes a ele, para que tenhais vida? ‘Ó! todos vós que tendes sede, vinde às águas da vida e bebei de graça: vinde, comprai sem dinheiro e sem preço.' Se estes benditos privilégios do texto houvessem de ser comprados com dinheiro, poderíeis dizer: somos pobres e não podemos comprar; ou, se houvessem de ser conferidos somente a pecadores de tal categoria ou grau, então poderíeis dizer: como podem pecadores como nós esperar ser tão altamente favorecidos? Mas eles hão de ser dados gratuitamente por Deus aos piores dos pecadores. ‘A nós', diz o apóstolo, a mim, um perseguidor, a vós, coríntios, que éreis ‘impuros, bêbados, avarentos, idólatras.' Portanto, cada pobre pecador pode então dizer: por que não a mim? Tem Cristo uma só bênção? E que importa se ele já abençoou milhões, apartando-os das suas iniquidades? ainda assim, ele continua o mesmo: vive para sempre para interceder e, por isso, abençoará a vós, sim, também a vós. Ainda que, à semelhança de Esaú, tenhais sido profanos e até aqui desprezado o direito de primogenitura do vosso Pai celestial; ainda agora, se crerdes, ‘Cristo vos será feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção'.
Mas devo voltar-me de novo aos crentes, para cuja instrução, como observei antes, este discurso foi particularmente destinado. Vede, irmãos, participantes da vocação celestial, que grandes bênçãos vos estão reservadas em Jesus Cristo, a vossa Cabeça, e a que tendes direito por crerdes no seu nome. Cuidai, portanto, de andar de modo digno da vocação a que fostes chamados. Pensai muitas vezes em quão altamente sois favorecidos; e lembrai-vos: não escolhestes vós a Cristo, mas Cristo vos escolheu a vós. Revesti-vos (como eleitos de Deus) de humildade de espírito, e gloriai-vos, mas que seja somente no Senhor; pois nada tendes senão o que recebestes de Deus. Por natureza éreis insensatos, tão legalistas, tão profanos e em condição tão condenável quanto os outros. Sede, portanto, compassivos, sede corteses; e, como a santificação é uma obra progressiva, guardai-vos de pensar que já a alcançastes. Aquele que é santo seja santo ainda; sabendo que o que é mais puro de coração há de gozar, no porvir, da mais clara visão de Deus. Seja o pecado que em vós habita o vosso fardo diário; e não somente o lamenteis e prancteeis, mas cuidai de subjugá-lo dia a dia pelo poder da graça divina; e olhai continuamente para Jesus, para que ele seja o consumador, bem como o autor, da vossa fé. Não edifiqueis sobre a vossa própria fidelidade, mas sobre a imutabilidade de Deus. Guardai-vos de pensar que estais firmes pelo poder do vosso próprio livre-arbítrio. O eterno amor de Deus, o Pai, deve ser a vossa única esperança e consolação; que isto vos sustente em todas as provações. Lembrai-vos de que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis; de que Cristo, tendo-vos amado uma vez, vos amará até o fim. Que isto vos constranja à obediência, e vos faça anelar e aguardar aquele bendito tempo em que ele será, não só a vossa sabedoria, e justiça, e santificação, mas também a vossa completa e eterna redenção.
Glória a Deus nas alturas!
Domínio público. Texto de origem de a edição original.