Sermão · 56 min de leitura · Avançado

Segurança, Plenitude e Doce Refrigério em Cristo

Retrato de Jonathan Edwards Jonathan Edwards

Texto

Isaías 32:2

Em resumo

“Como a sombra de uma grande rocha em terra cansada.” A partir das quatro imagens de Isaías — um esconderijo contra o vento, um refúgio contra a tempestade, ribeiros de águas em lugar seco, a sombra de uma rocha —, Edwards extrai o que Cristo é para a alma que vem a ele: segurança, plenitude e doce refrigério. Um sermão de consolação, para ser lido devagar.

E será aquele homem como um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade; como ribeiros de águas em lugar seco, como a sombra de uma grande rocha em terra cansada.

Nestas palavras podemos observar:

1. A pessoa que aqui é profetizada e exaltada, a saber, o Senhor Jesus Cristo, o Rei de quem se fala no versículo anterior, que reinará em justiça. Este Rei é abundantemente profetizado no Antigo Testamento, e especialmente nesta profecia de Isaías. De tempos em tempos os profetas proferiram predições gloriosas acerca daquele grande Rei que havia de vir: não há assunto de que os profetas do Antigo Testamento falem em estilo tão magnífico e exaltado como o Messias. Eles viram o seu dia e se alegraram, e investigaram diligentemente, juntamente com os anjos, essas coisas. 1 Pedro 1:11, 12. "Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar."

É-nos dito aqui que "um homem será um esconderijo contra o vento", etc. Há uma ênfase nas palavras, em que "um homem" havia de ser isto. Se tais coisas fossem ditas de Deus, não seria estranho sob o Antigo Testamento; pois Deus é frequentemente chamado de esconderijo para o seu povo, refúgio no tempo da angústia, rocha forte e torre alta. Mas o que é tão notável é que essas coisas são ditas de "um homem". Ora, esta é uma profecia do Filho de Deus encarnado.

2. As coisas aqui preditas a seu respeito, e os louvores que lhe são dados. "Ele será um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade": isto é, ele será a segurança e a defesa do seu povo, a quem eles recorrerão em busca de proteção no tempo do seu perigo e da sua angústia. A ele fugirão, como aquele que, estando ao ar livre e vendo levantar-se uma terrível tempestade, se apressa a buscar algum abrigo para se pôr a salvo; de modo que, por mais furiosa que seja a tempestade, ele está seguro lá dentro, e o vento e a chuva, ainda que batam com toda a impetuosidade sobre o telhado e as paredes, em nada o incomodam.

Ele será como "ribeiros de águas em lugar seco". Esta é uma alusão aos desertos da Arábia, que era uma terra excessivamente quente e seca. Ali se pode viajar muitos dias sem ver sinal de rio, ribeiro ou fonte, nada além de um deserto seco e ressequido; de modo que os viajantes estão prestes a ser consumidos pela sede, como estavam os filhos de Israel quando se achavam naquele deserto, desfalecidos por não haver água. Ora, quando um homem encontra Jesus Cristo, é como alguém que viajou por aqueles desertos até quase se consumir de sede, e que enfim encontra um rio de água fresca e clara. E Cristo foi prefigurado pelo rio de água que brotou da rocha para os filhos de Israel naquele deserto: ele é comparado a um rio, porque há nele tal abundância e plenitude.

Ele é a "sombra de uma grande rocha em terra cansada". A alusão ainda é feita ao deserto da Arábia. Não se diz, como a sombra de uma árvore, porque em alguns lugares daquele país não há senão areia seca e rochas por vastos espaços, sem uma árvore à vista; e o sol bate excessivamente quente sobre as areias, e toda a sombra que ali se encontra, onde os viajantes possam descansar e abrigar-se do sol escaldante, é debaixo de alguma grande rocha. Os que vêm a Cristo encontram tal descanso e refrigério como o viajante cansado, naquela terra quente e desolada, encontra debaixo da sombra de uma grande rocha.

Propõemo-nos a tratar de três proposições que explicam as várias partes do texto.

I. Há em Cristo Jesus abundante fundamento de paz e segurança para os que estão em temor e perigo. "Um homem será um esconderijo contra o vento, um refúgio contra a tempestade."

II. Há em Cristo provisão para a satisfação e o pleno contentamento da alma necessitada e sedenta. Ele será "como ribeiros de águas em lugar seco".

III. Há tranquilo descanso e doce refrigério em Cristo Jesus para aquele que está cansado. Ele será "como a sombra de uma grande rocha em terra cansada".

I. Há em Cristo Jesus abundante fundamento de paz e segurança para os que estão em temor e perigo.

Os temores e perigos a que os homens estão sujeitos são de dois tipos: temporais e eternos. Os homens muitas vezes se acham em aflição pelo temor de males temporais. Vivemos num mundo mau, onde estamos expostos a uma abundância de tristezas e calamidades. Grande parte da nossa vida é gasta em lamentar males presentes ou passados, e em temer os que estão por vir. Que criaturas pobres e aflitas somos nós, quando Deus é servido enviar os seus juízos entre nós! Se ele visita um lugar com enfermidade mortal e assoladora, que terror se apodera dos nossos corações! Se alguma pessoa adoece e treme pela vida, ou se os nossos amigos mais chegados estão à beira da morte, ou em muitos outros perigos, quão temerosa é a nossa condição! Ora, há fundamento suficiente de paz e segurança para os que são exercitados com tais temores e lançados em tais perigos. Cristo é um refúgio em toda a angústia; há nele fundamento para amparo racional e paz, seja o que for que nos ameaça. Aquele cujo coração está firme, confiando em Cristo, não precisa temer nenhuma má notícia. "Como os montes estão ao redor de Jerusalém, assim Cristo está ao redor dos que o temem."

Mas é ao outro tipo de temor e perigo que temos principal respeito: o temor e o perigo da ira de Deus. Os temores de uma consciência aterrorizada, a temerosa expectação dos terríveis frutos do pecado e o ressentimento de um Deus irado — estes são infinitamente os mais pavorosos. Se os homens estão em perigo dessas coisas, e não estão adormecidos, ficarão mais aterrorizados do que com os temores de qualquer mal exterior. Os homens estão na mais lastimável das condições, por estarem por natureza expostos à ira de Deus; e, se têm consciência de quão sombrio é o seu caso, estarão em pavorosos temores e sombrias expectações.

Deus é servido tornar alguns sensíveis da sua verdadeira condição. Ele lhes deixa ver a tempestade que os ameaça, quão negras são as nuvens e quão carregadas de trovões, que é uma tempestade ardente, que estão em perigo de serem por ela rapidamente alcançados, que nada têm para se abrigar dela, e que estão em perigo de serem arrebatados pelo furor da sua ira.

É uma condição temerosa a daquele que é ferido por um senso da terribilidade da ira de Deus, quando tem o coração marcado pela convicção de que o grande Deus não está reconciliado com ele, de que o tem por culpado destes e daqueles pecados, e de que está suficientemente irado para condená-lo para sempre. É terrível deitar-se e levantar-se, é terrível comer e beber, e andar de um lado para o outro, sob a ira de Deus dia após dia. Alguém, em tal caso, está pronto a temer todas as coisas; teme deparar com a ira de Deus por onde quer que vá. Não tem paz na mente, mas há um som pavoroso em seus ouvidos; a sua mente é afligida e sacudida pela tempestade, e não é consolada, e a coragem está prestes a faltar, e o espírito prestes a afundar de medo; pois como pode um pobre verme suportar a ira do grande Deus, e o que não daria ele pela paz de consciência, o que não daria se pudesse achar segurança! Quando tais temores existem em grande grau, ou se prolongam por muito tempo, enfraquecem grandemente o coração, e o levam a uma postura e disposição trêmulas.

Ora, para tais como estes há abundante fundamento de paz e segurança em Jesus Cristo, e isto ficará evidente pelas seguintes coisas:

1. Cristo se comprometeu a salvar todos esses do que temem, se vierem a ele. É o seu ofício; a obra em que se empenhou antes da fundação do mundo. É o que sempre teve em seus pensamentos e intenções; comprometeu-se desde a eternidade a ser o refúgio dos que temem a ira de Deus. A sua sabedoria é tal que ele jamais empreenderia uma obra para a qual não fosse suficiente. Se houvesse alguns em caso tão terrível que ele não pudesse defender, ou tão culpados que não conviesse que os salvasse, então jamais se teria comprometido por eles. Os que estão em angústia e temor aflitivo, se vierem a Jesus Cristo, têm isto para aliviar os seus temores: que Cristo lhes prometeu que os protegerá; que vêm por convite dele; que Cristo empenhou a sua palavra pela segurança deles, se se unirem a ele; e que está comprometido por aliança com Deus Pai a salvar aquelas almas aflitas e angustiadas que vêm a ele.

Cristo, por seu próprio ato livre, fez-se fiador de tais; voluntariamente pôs-se no lugar deles; e, se a justiça tem algo contra eles, comprometeu-se a responder por eles. Por seu próprio ato, empenhou-se a ser responsável por eles; de modo que, se se expuseram à ira de Deus e ao golpe da justiça, não é problema deles, mas dele, como responder ou satisfazer pelo que fizeram. Ainda que haja tanta ira que hajam merecido, estão tão seguros como se nunca tivessem merecido nenhuma; porque ele se comprometeu a colocar-se por eles, seja mais ou menos. Se estão em Cristo Jesus, a tempestade, naturalmente, cai sobre ele, e não sobre eles; assim como, quando estamos sob um bom abrigo, a tempestade que de outro modo viria sobre a nossa cabeça cai sobre o abrigo.

2. Ele foi escolhido e designado pelo Pai para esta obra. Não é preciso haver temor nem receio de que o Pai desaprove esta empresa de Cristo Jesus, de que não o aceite como fiador, ou de que não esteja disposto a que a sua ira seja derramada sobre o seu próprio amado Filho, em vez de sobre nós, misérimos pecadores. Pois houve com ele um acordo a este respeito antes que o mundo existisse; era coisa muito no coração de Deus que o seu Filho Jesus Cristo empreendesse esta obra, e foi o Pai que o enviou ao mundo. É tanto ato de Deus Pai quanto do Filho. Por isso, quando Cristo estava perto da hora da sua morte, disse ao Pai que havia terminado a obra que ele lhe dera para fazer. Cristo é muitas vezes chamado de eleito de Deus, ou seu escolhido, porque foi escolhido pelo Pai para a sua obra; e ungido de Deus, pois as palavras Messias e Cristo significam ungido, porque ele é por Deus designado e apto para esta obra.

3. Se estamos em Cristo Jesus, a justiça e a lei seguem o seu curso quanto aos nossos pecados, sem dano para nós. O fundamento do temor e da aflição do pecador é a justiça e a lei de Deus; estão contra ele, e são inalteráveis, hão de seguir o seu curso. Todo jota e til da lei precisa ser cumprido; céu e terra serão destruídos, antes que a justiça deixe de prevalecer; não há possibilidade de o pecado escapar à justiça.

Mas, ainda assim, se a alma aflita e trêmula que teme a justiça fugir para Cristo, ele lhe será um seguro esconderijo. A justiça e a ameaça da lei seguirão o seu curso tão plenamente, estando ele seguro e intocado, como se ele houvesse de ser eternamente destruído. Cristo suporta o golpe da justiça, e a maldição da lei cai plenamente sobre ele; Cristo suporta toda aquela vingança que pertence ao pecado que foi cometido por ele, e não há necessidade de que seja suportada duas vezes. Os seus sofrimentos temporais, em razão da infinita dignidade da sua pessoa, são plenamente equivalentes aos sofrimentos eternos de uma mera criatura. E então os seus sofrimentos respondem por aquele que foge para ele tão bem como se fossem seus próprios, pois, na verdade, são seus próprios em virtude da união entre Cristo e ele. Cristo fez-se um com eles; ele é a cabeça, e eles são os membros. Portanto, se Cristo sofre pelo crente, não há necessidade de que este sofra; e de que precisa ele temer? A sua segurança não é apenas compatível com a justiça absoluta, mas é compatível com o teor da lei. A lei deixa amplo espaço para uma coisa como a resposta de um fiador. Se o fim da punição — manter a autoridade da lei e a majestade do governo — está plenamente garantido pelos sofrimentos de Cristo como fiador, então a lei de Deus, segundo a sua verdadeira e justa interpretação, segue o seu curso tanto nos sofrimentos de Cristo quanto seguiria nos sofrimentos do próprio pecador. A ameaça, "certamente morrerás", cumpre-se devidamente na morte de Cristo, como deve ser justamente entendida. Portanto, se os que temem forem a Jesus Cristo, nada precisam temer da ameaça da lei. A ameaça da lei nada tem a ver com eles.

4. Os que vêm a Cristo não precisam temer a ira de Deus por seus pecados; pois a honra de Deus não sofrerá por escaparem eles da punição e serem feitos felizes. A alma ferida tem consciência de que afrontou a majestade de Deus, e olha para Deus como vindicador da sua honra; como um Deus zeloso que não se deixa escarnecer, um Deus infinitamente grande que não suportará ser afrontado, que não permitirá que a sua autoridade e majestade sejam pisadas, que não suportará que a sua bondade seja abusada. Uma visão de Deus sob esta luz aterroriza as almas despertadas. Elas pensam em quanto pecaram, em como pecaram contra a luz, contra frequentes e prolongados chamados e advertências; e em como desprezaram a misericórdia, e foram culpadas de converter a graça de Deus em dissolução, tomando da misericórdia de Deus encorajamento para prosseguir no pecado contra ele; e temem que Deus esteja tão afrontado pelo desprezo e desdém que lhe lançaram, que ele, zeloso da sua honra, jamais as perdoará, mas as punirá. Mas, se forem a Cristo, a honra da majestade e da autoridade de Deus não será em nada ferida por serem elas libertadas e feitas felizes. Pois o que Cristo fez reparou plenamente a honra de Deus. É maior honra para a autoridade e majestade de Deus que, antes que fossem lesadas, pessoa tão gloriosa sofresse o que a lei exigia. É certamente uma maravilhosa demonstração da honra da majestade de Deus ver uma pessoa infinita e eterna morrendo por ter ela sido lesada. E então Cristo, pela sua obediência — aquela obediência que empreendeu por amor de nós — honrou a Deus muito mais abundantemente do que os pecados de qualquer de nós o desonraram, por mais numerosos e por maiores que sejam. Que grande honra é para a lei de Deus que pessoa tão grande se disponha a submeter-se a ela e a obedecê-la! Deus odeia os nossos pecados, mas não mais do que se deleita na obediência de Cristo, que ele realizou por conta deles. Isto é um suave aroma para ele, um aroma de repouso. Deus está abundantemente compensado, não deseja mais; a justiça de Cristo é de infinito valor e mérito.

5. Cristo é pessoa tão querida ao Pai, que os que estão em Cristo não precisam de modo algum recear ser aceitos por causa dele. Se Cristo é aceito, eles, por consequência, hão de ser aceitos, pois estão em Cristo, como membros, como partes, como uma mesma coisa. São o corpo de Cristo, a sua carne e os seus ossos. Os que estão em Cristo Jesus são um só espírito; e, portanto, se Deus ama a Cristo Jesus, há de necessariamente aceitar os que estão nele, e que são dele. Ora, Cristo é pessoa excessivamente querida ao Pai; o amor do Pai ao Filho é verdadeiramente infinito. Deus necessariamente ama o Filho; Deus poderia tão depressa deixar de existir quanto deixar de amar o Filho. Ele é o eleito de Deus, em quem a sua alma se compraz; é o seu Filho amado, em quem se agrada; amou-o antes da fundação do mundo, e teve nele infinito deleite desde toda a eternidade.

Uma consciência aterrorizada pode, portanto, ter aqui repouso, e abundante satisfação de que está segura em Cristo, e de que não há o menor perigo, mas que será aceita, e que Deus estará em paz com ela em Cristo.

6. Deus deu um testemunho público de que Cristo fez e sofreu o suficiente, e de que está satisfeito com isso, ao ressuscitá-lo dentre os mortos. Cristo, quando estava em sua paixão, achava-se nas mãos da justiça; era prisioneiro de Deus pelos crentes, e aprouve a Deus moê-lo, e afligi-lo, e trazê-lo a um estado baixo; e, quando o ressuscitou dentre os mortos, pôs-no em liberdade, pelo que declarou que era suficiente. Se Deus não estivesse satisfeito, por que pôs Cristo em liberdade tão cedo? Ele estava nas mãos da justiça; por que não derramou Deus mais ira sobre ele, e não o reteve por mais tempo nas cadeias das trevas? Deus o ressuscitou e lhe abriu as portas da prisão, porque não desejava mais. E agora, certamente, há livre acesso para todos os pecadores ao favor de Deus por meio deste Salvador ressurreto; está feito o bastante, e Deus está satisfeito, como o declarou e o selou pela ressurreição de Cristo, que está vivo, e vive para todo o sempre, e intercede pelas pobres almas aflitas que vêm a ele.

7. Cristo tem em suas próprias mãos a dispensação da segurança e do livramento, de modo que não precisamos temer, mas que, se estamos unidos a ele, podemos estar seguros. Deus lhe deu todo o poder no céu e na terra, para dar a vida eterna a todo aquele que vem a ele. Ele foi feito cabeça sobre todas as coisas para a igreja, e a obra da salvação foi deixada a ele mesmo; ele pode salvar a quem quiser, e defender pelo seu próprio poder os que estão nele. Que maior fundamento de confiança poderia Deus ter-nos dado do que o de que o Mediador, que morreu por nós e por nós intercede, tivesse a ele confiada a dispensação da própria coisa que morreu para adquirir e pela qual intercede?

8. O amor, a compaixão e a graciosa disposição de Cristo são tais que podemos estar certos de que ele está inclinado a receber todos os que vêm a ele. Se não o fizesse, faltaria à sua própria empresa, e também à sua promessa ao Pai e a nós; e a sua sabedoria e fidelidade não o permitiriam. Mas ele está tão cheio de amor e bondade, que a nada está disposto senão a receber-nos e defender-nos, se viermos a ele. Cristo está sumamente pronto a compadecer-se de nós; os seus braços estão abertos para nos receber; ele se deleita em receber as almas aflitas que vêm a ele, e em protegê-las; ele as ajuntaria como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; é uma obra em que ele se regozija sobremaneira, porque se deleita em atos de amor, de piedade e de misericórdia.

Tomarei ocasião do que agora se disse para convidar os que temem a ira de Deus a virem a Cristo Jesus. Estais, na verdade, em condição terrível. É sombrio ter a ira de Deus pairando sobre a nossa cabeça, e não saber quão cedo cairá sobre nós. E, em certa medida, tendes consciência de que é condição terrível; estais cheios de temor e angústia, e não sabeis para onde fugir em busca de socorro; a vossa mente está, por assim dizer, sacudida por uma tempestade. Mas quão lamentável é que gasteis a vossa vida em tal condição, quando Cristo vos abrigaria, como a galinha abriga os seus pintos debaixo das asas, se ao menos o quisésseis; e que vivêseis vida tão temerosa e aflita, quando há tanta provisão feita para a vossa segurança em Cristo Jesus!

Quão felizes seríeis se os vossos corações fossem apenas persuadidos a unir-se a Jesus Cristo! Então estaríeis fora de todo perigo: por mais que houvesse tempestades e temporais lá fora, poderíeis repousar seguros lá dentro; poderíeis ouvir o assobio do vento e o troar do trovão lá fora, enquanto estivésseis a salvo neste esconderijo. Ó, deixai-vos persuadir a esconder-vos em Cristo Jesus! Que maior garantia de segurança podeis desejar? Ele se comprometeu a defender-vos e salvar-vos, se vierdes a ele: ele o considera a sua obra; nela se empenhou antes que o mundo existisse, e deu a sua fiel promessa, que não quebrará; e, se apenas para lá fugirdes, a sua vida responderá pela vossa; ele responderá por vós, nada tereis a fazer senão repousar tranquilamente nele; podeis estar quietos e ver o que o Senhor fará por vós. Se houver algo a sofrer, o sofrimento é de Cristo, nada tereis a sofrer; se houver algo a fazer, o fazê-lo é de Cristo, nada tereis a fazer senão estar quietos e contemplá-lo.

Certamente sereis aceitos pelo Pai se a vossa alma lançar mão de Jesus Cristo. Cristo é escolhido e ungido pelo Pai, e enviado para este mesmo fim: salvar os que estão em perigo e temor; e é grandemente amado de Deus, até infinitamente, e aceitará os que estão nele. A justiça e a lei não estarão contra vós, se estais em Cristo; aquela ameaça, "no dia em que dele comeres, morrerás", no seu devido sentido, não vos tocará. A majestade e a honra de Deus não estão contra vós. Não precisais temer, mas que sereis justificados, se vierdes a ele; há um ato de justificação já passado e declarado para todos os que vêm a Cristo, pela ressurreição de Cristo, e, tão logo venhais, por ela sois declarados livres. Se vierdes a Cristo, será sinal certo de que Cristo vos amou desde toda a eternidade, e de que morreu por vós; e podeis estar certos de que, se morreu por vós, não perderá o fim da sua morte, pois a dispensação da vida lhe está confiada.

Não precisais, portanto, continuar em condição tão perigosa; há socorro para vós. Não precisais permanecer na tempestade por tanto tempo, havendo tão bom abrigo perto de vós, cujas portas estão abertas para vos receber. Ó, apressai-vos, pois, para aquele homem que é um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade!

Que esta verdade também leve os crentes a estimar mais o Senhor Jesus Cristo. Considerai que é ele, e só ele, quem vos defende da ira, e que é uma defesa segura; a vossa defesa é uma torre alta; a vossa cidade de refúgio é inexpugnável. Não há rocha como a vossa rocha. Não há ninguém como Cristo, "o Deus de Jesurum, que cavalga sobre os céus em teu socorro, e na sua alteza sobre as mais altas nuvens; o Deus eterno é o teu refúgio, e por baixo estão os braços eternos." Aquele em quem confiais é um escudo para todos os que nele confiam. Ó, estimai aquele Salvador, que guarda a vossa alma em segurança, enquanto milhares de outros são arrebatados pelo furor da ira de Deus, e sacudidos por tempestades ardentes e furiosas no inferno! Ó, quanto melhor é o vosso caso do que o deles! e a quem se deve isso senão ao Senhor Jesus Cristo? Lembrai-vos de qual era outrora o vosso caso, e de qual é agora, e estimai a Jesus Cristo.

E que aqueles cristãos que estão em dúvidas e temores acerca da sua condição voltem de novo a fugir para Jesus Cristo, que é um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade. A maioria dos cristãos teme, às vezes, se não virão afinal a naufragar. Tais dúvidas são sempre por alguma falta do exercício da fé, e o melhor remédio para elas é um renovado recurso da alma a este esconderijo; o mesmo ato que a princípio deu conforto e paz, dará paz de novo. Os que veem claramente a suficiência de Cristo, e a segurança de confiar-se a ele para os salvar do que temem, descansarão nisto: que Cristo os defenderá; sede, pois, dirigidos, em tais tempos, a fazer como o salmista. Salmo 56:3, 4. "No dia em que eu temer, hei de confiar em ti. Em Deus louvarei a sua palavra; em Deus pus a minha confiança; não temerei o que me possa fazer a carne."

II. Há provisão em Cristo para a satisfação e o pleno contentamento da alma necessitada e sedenta.

Este é o sentido daquelas palavras do texto, "como ribeiros de águas em lugar seco", num deserto seco e ressequido, onde há grande falta de água, e onde os viajantes estão prestes a perecer de sede, tal como era aquele deserto em que os filhos de Israel vaguearam. Esta comparação é usada em outros lugares das Escrituras. Salmo 63:1. "Ó Deus, tu és o meu Deus; de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja muito numa terra seca e cansada, onde não há água." Salmo 143:6. "Estendo para ti as minhas mãos; a minha alma tem sede de ti como terra sedenta." Os que viajam por tal terra, que vagueiam por tal deserto, têm extrema necessidade de água; estão prestes a perecer por falta dela; e, assim, têm grande sede e anseio por ela.

Diz-se que Cristo é um rio de água, porque há nele tal plenitude, provisão tão abundante para a satisfação da alma necessitada e anelante. Quando alguém tem extrema sede, ainda que não seja um pequeno gole de água o que o satisfará, contudo, quando chega a um rio, encontra uma plenitude, e ali pode beber a longos haustos. Cristo é como um rio, em que tem suficiência não só para uma alma sedenta, mas, ao supri-la, a fonte não diminui; não há menos para dar aos que vêm depois. Um homem sedento não diminui sensivelmente um rio ao saciar a sua sede. Cristo é como um rio em outro aspecto. Um rio flui continuamente; há frescas provisões de água vindo continuamente da nascente, de modo que um homem pode viver junto a ele, e ser suprido de água toda a sua vida. Assim Cristo é uma fonte que sempre jorra; está continuamente suprindo o seu povo, e a fonte não se esgota. Os que vivem de Cristo podem ter frescas provisões dele por toda a eternidade; podem ter um aumento de bem-aventurança que é sempre novo, e sempre novo ainda, e que jamais chegará ao fim.

Ao ilustrar esta segunda proposição, indagarei:

1. O que é que a alma de todo homem natural e necessariamente anseia.

Primeiro. A alma de todo homem necessariamente anseia a felicidade. Este é um apetite universal da natureza humana, idêntico no bom e no mau; é tão universal quanto a própria essência da alma, porque necessária e imediatamente flui dessa essência. Não é apenas natural a toda a humanidade, mas aos anjos; é universal entre todos os seres racionais e inteligentes, no céu, na terra ou no inferno, porque flui necessariamente de uma natureza inteligente. Não há ser racional, nem pode haver, sem amor e desejo de felicidade. É impossível que exista qualquer criatura feita que ame a miséria, ou que não ame a felicidade, pois isso implica manifesta contradição; porque a própria noção de miséria é estar num estado que a natureza abomina, e a noção de felicidade é estar num estado que é o mais agradável à natureza.

Portanto, este anseio de felicidade há de ser insuperável, e algo que jamais pode ser mudado; nunca pode ser vencido, nem de modo algum abrandado. Jovens e velhos amam igualmente a felicidade, e bons e maus, sábios e insensatos; ainda que haja grande variedade quanto às ideias que os homens têm de felicidade. Alguns pensam que ela se acha numa coisa, e outros noutra; contudo, quanto ao desejo de felicidade em geral, não há variedade. Há apetites particulares que podem ser refreados, reprimidos e vencidos, mas este apetite geral de felicidade jamais pode ser.

Segundo. A alma de todo homem anseia uma felicidade igual à capacidade da sua natureza. A alma do homem é como um vaso; a capacidade da alma é como a grandeza ou o conteúdo do vaso. E, portanto, ainda que o homem tenha muito prazer e felicidade, contudo, se o vaso não está cheio, o anseio não cessará. Toda criatura está inquieta até desfrutar do que é igual à capacidade da sua natureza. Assim podemos observar nos brutos: quando têm aquilo que é conveniente à sua natureza, e proporcional à sua capacidade, ficam contentes. O homem é de tal natureza que é capaz de um grau de felicidade excessivamente grande; foi feito de natureza muito mais elevada que os brutos, e, portanto, precisa de felicidade muito mais elevada para se satisfazer. Os prazeres dos sentidos exteriores, que contentam os animais, não contentarão o homem. Ele tem outras faculdades de natureza mais elevada, que carecem de algo que as encha; se o sentido está saciado, contudo, se as faculdades da alma não estão cheias, o homem estará num estado anelante e inquieto.

É mais especialmente em razão da faculdade do entendimento que a alma é capaz de felicidade tão grande, e deseja tanto. O entendimento é uma faculdade extremamente ampla; estende-se para além dos limites da terra, para além dos limites da criação. Como somos capazes de entender imensamente mais do que entendemos, quem pode dizer até onde o entendimento dos homens é capaz de estender-se? e, à medida que o entendimento se amplia, o desejo se ampliará com ele. Deve, portanto, ser um objeto incompreensível o que há de satisfazer a alma; ela jamais se contentará com aquilo, e só aquilo, cujo fim consegue ver; jamais se satisfará com aquela felicidade a que consegue achar fundo. Um homem pode parecer tomar contentamento por um pouco de tempo num objeto finito, mas, depois de ter alguma experiência, verifica que carece de algo mais. Isto é bem evidente pela experiência deste mundo inquieto e anelante. Cada um pergunta: Quem nos mostrará o bem?

2. Os homens, no seu estado caído, estão em grandíssima falta desta felicidade. Outrora a desfrutavam, mas a humanidade afundou-se num estado muito baixo; somos por natureza criaturas pobres e destituídas. Viemos nus ao mundo, e as nossas almas, tanto quanto os nossos corpos, estão em condição miserável e desgraçada; estamos tão longe de ter alimento conveniente à nossa natureza, que cobiçamos as bolotas que os porcos comem.

A pobreza do homem em condição natural aparece no seu espírito descontente e ávido; mostra que a alma está muito vazia, quando, como a sanguessuga, clama: "Dá, dá, e não diz: Basta!" Somos por natureza como o pródigo, pois outrora éramos ricos, mas partimos da casa de nosso pai, e esbanjamos a nossa riqueza, e nos tornamos pobres, famintos e esfaimados desgraçados. Os homens em condição natural podem achar algo para gratificar os seus sentidos, mas não há nada para alimentar a alma; aquela parte mais nobre e mais essencial perece por falta de alimento. Podem banquetear-se sumptuosamente todos os dias, podem regalar os seus corpos, mas a alma não pode ser alimentada de uma mesa sumptuosa; podem beber vinho em taças, contudo a parte espiritual não é refrigerada. As faculdades superiores carecem de ser supridas tanto quanto as inferiores. A verdadeira pobreza e a verdadeira miséria consistem na falta daquelas coisas de que a nossa parte espiritual necessita.

3. Os pecadores que estão plenamente despertados têm consciência da sua grande falta. Multidões de homens não têm consciência da sua condição miserável e necessitada. Há muitos que assim são pobres, e se julgam ricos e acrescentados em bens. Na verdade, não há homens naturais que tenham verdadeiro contentamento: estão todos inquietos, e clamando: "Quem nos mostrará o bem?" mas multidões não têm consciência de quão extremamente necessitada é a sua condição. Mas a alma plenamente desperta vê que está muito longe da verdadeira felicidade, que aquelas coisas que possui jamais a farão feliz; que, apesar de todas as suas posses exteriores, é desgraçada, e miserável, e pobre, e cega, e nua. Torna-se consciente da curta duração e da incerteza dessas coisas, e da sua insuficiência para satisfazer uma consciência perturbada. Carece de algo mais que lhe dê paz e sossego. Se lhe dissésseis que poderia ter um reino, isso não o aquietaria; ele deseja que os seus pecados sejam perdoados, e estar em paz com o seu Juiz. É pobre, e faz-se como um mendigo; vem e clama por socorro. Não tem sede porque já vê onde a verdadeira felicidade se acha, mas porque vê que não a possui, e não a consegue achar. Está sem conforto, e não sabe onde achá-lo, mas anseia por ele. Ó, o que não daria ele, se pudesse achar alguma paz e conforto que o satisfizessem!

Tais são aquelas almas famintas e sedentas que Cristo tão frequentemente convida a virem a ele. Isaías 55:1, 2. "Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso trabalho naquilo que não pode fartar? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura." "Se alguém tem sede, venha a mim e beba; e aquele que tem sede, venha e tome de graça da água da vida."

4. Há em Cristo Jesus provisão para a plena satisfação e contentamento de tais como estes.

Primeiro. A excelência de Cristo é tal, que a descoberta dela é sumamente satisfatória e contentadora para a alma. A indagação da alma é por aquilo que é mais excelente. A alma carnal imagina que as coisas terrenas são excelentes; um pensa que as riquezas são o mais excelente, outro tem em mais alta estima a honra, e a outro o prazer carnal parece o mais excelente; mas a alma não pode achar contentamento em nenhuma dessas coisas, porque logo encontra um fim para a sua excelência. Os homens mundanos imaginam que há verdadeira excelência e verdadeira felicidade naquelas coisas que perseguem. Pensam que, se ao menos as pudessem obter, seriam felizes; e, quando as obtêm, e não conseguem achar felicidade, buscam felicidade em outra coisa, e continuam na perseguição.

Mas Jesus Cristo tem verdadeira excelência, e tão grande excelência, que, quando eles chegam a vê-la, não olham mais adiante, mas a mente ali repousa. Vê uma glória transcendente e uma inefável doçura nele; vê que até agora perseguira sombras, mas que agora encontrou a substância; que antes buscara felicidade no ribeiro, mas que agora encontrou o oceano. A excelência de Cristo é um objeto adequado aos anseios naturais da alma, e é suficiente para encher a sua capacidade. É uma excelência infinita, tal qual a mente deseja, na qual não pode achar limites; e quanto mais a mente se familiariza com ela, mais excelente ela aparece. Cada nova descoberta faz esta beleza parecer mais arrebatadora, e a mente não vê fim; aqui há espaço bastante para a mente ir mais fundo e mais fundo, e nunca chegar ao fundo. A alma é sumamente arrebatada quando primeiro contempla esta beleza, e nunca se cansa dela. A mente jamais tem saciação, mas a excelência de Cristo é sempre fresca e nova, e tende tanto a deleitar, depois de vista por mil ou dez mil anos, como quando foi vista no primeiro instante. A excelência de Cristo é um objeto adequado às faculdades superiores do homem, apropriado a entreter a faculdade da razão e do entendimento, e não há nada tão digno em que o entendimento possa empregar-se como esta excelência; nenhum outro objeto é tão grande, nobre e exaltado.

Esta excelência de Jesus Cristo é o alimento conveniente da alma racional. A alma que vem a Cristo alimenta-se disto, e disto vive; é aquele pão que desceu do céu, do qual quem come não morrerá; é comida de anjos, é aquele vinho e leite que se dão sem dinheiro e sem preço. Esta é aquela gordura em que a alma crente se deleita; aqui a alma anelante pode ser satisfeita, e a alma faminta pode ser cheia de bondade. O deleite e o contentamento que aqui se acham excedem todo o entendimento, e são inefáveis e cheios de glória. É impossível que os que provaram desta fonte, e conhecem a sua doçura, alguma vez a abandonem. A alma encontrou o rio da água da vida, e não deseja outra bebida; encontrou a árvore da vida, e não deseja outro fruto.

Segundo. A manifestação do amor de Cristo dá à alma abundante contentamento. Este amor de Cristo é sumamente doce e satisfatório, é melhor que a vida, porque é o amor de uma pessoa de tamanha dignidade e excelência. A doçura do seu amor depende muito da grandeza da sua excelência; quanto mais amável a pessoa, tanto mais desejável é o seu amor. Quão doce há de ser o amor daquela pessoa que é o eterno Filho de Deus, que é de igual dignidade com o Pai! Que grande felicidade há de ser ser objeto do amor daquele que é o Criador do mundo, e por quem todas as coisas subsistem, e que está exaltado à destra de Deus, e foi feito cabeça sobre principados e potestades nos lugares celestiais, que tem todas as coisas debaixo dos seus pés, e é Rei dos reis e Senhor dos senhores, e é o resplendor da glória do Pai! Certamente, ser amado por ele é bastante para satisfazer a alma de um verme do pó.

Este amor de Cristo é também sumamente doce e satisfatório pela grandeza dele; é um amor que morre; tal amor como jamais se viu antes, e tal que nenhum outro pode igualar. Houve exemplos de grandíssimo amor entre um amigo terreno e outro; houve um amor extraordinário entre Davi e Jônatas. Mas nunca houve amor algum como o que Cristo tem para com os crentes. A natureza satisfatória deste amor também se ergue dos seus doces frutos. Aqueles preciosos benefícios que Cristo concede ao seu povo, e aquelas preciosas promessas que lhes deu, são o fruto deste amor; a alegria e a esperança são as correntes contínuas que fluem desta fonte, do amor de Cristo.

Terceiro. Há provisão para a satisfação e o contentamento da alma sedenta e anelante em Cristo, como aquele que é o caminho para o Pai; não só pela plenitude de excelência e graça que ele tem em sua própria pessoa, mas porque por ele podemos vir a Deus, podemos ser reconciliados com ele, e podemos ser feitos felizes no seu favor e amor. A pobreza e a falta da alma no seu estado natural consistem em estar separada de Deus, pois Deus é a riqueza e a felicidade da criatura. Mas estamos por natureza alienados de Deus; e Deus está alienado de nós, o nosso Criador não está em paz conosco. Mas em Cristo há um caminho para livre comunicação entre Deus e nós; para nós virmos a Deus, e para Deus comunicar-se conosco pelo seu Espírito. João 14:6. "Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim." Efésios 2:13, 18, 19. "Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, chegastes perto pelo sangue de Cristo. Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus." Cristo, sendo assim o caminho para o Pai, é o caminho para a verdadeira felicidade e contentamento. João 10:9. "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens." Daí tomaria ocasião para convidar as almas necessitadas e sedentas a virem a Jesus. "No último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba." Vós, que ainda não viestes a Cristo, estais em condição pobre e necessitada; estais num deserto ressequido, numa terra seca e sedenta. E, se estais plenamente despertados, tendes consciência de que estais em aflição e prestes a desfalecer por falta de algo que satisfaça a vossa alma. Vinde àquele que é "como ribeiros de águas em lugar seco". Há nele abundância e plenitude; ele é como um rio que sempre flui, junto do qual podeis viver para sempre, e nunca padecer falta. Vinde àquele que tem tal excelência, bastante para dar pleno contentamento à vossa alma, que é pessoa de glória transcendente e inefável beleza, onde podeis entreter a visão da vossa alma para sempre sem cansaço, e sem enfado. Aceitai o amor oferecido daquele que é o Filho unigênito de Deus, e o seu eleito, em quem a sua alma se compraz. Por Cristo, vinde a Deus Pai, de quem vos apartastes pelo pecado. Ele é o caminho, a verdade e a vida; é a porta, pela qual, se alguém entrar, será salvo.

III. Há tranquilo descanso e doce refrigério em Cristo Jesus para os que estão cansados. Ele é "como a sombra de uma grande rocha em terra cansada".

A comparação que se usa no texto é muito bela e muito significativa. O deserto seco, estéril e escaldante da Arábia é uma representação muito viva da miséria que os homens trouxeram sobre si mesmos pelo pecado. É destituído de quaisquer habitantes, exceto leões e tigres e serpentes ardentes; é estéril e ressequido, e sem rio nem fonte; é uma terra de seca, onde raramente há chuva, uma terra excessivamente quente e inóspita. Os escaldantes raios do sol, que estão prestes a consumir os ânimos dos viajantes, são uma justa representação do terror da consciência, e do senso interior do desagrado de Deus. E, não havendo outra sombra em que os viajantes possam descansar, senão aqui e ali a de uma grande rocha, isto é uma justa representação de Jesus Cristo, que veio para nos redimir da nossa miséria. Cristo é muitas vezes comparado a uma rocha, porque é um fundamento seguro para os edificadores, e porque é um baluarte e defesa seguros. Os que habitam sobre o alto de uma rocha habitam num lugar sumamente defensável; lemos daqueles cuja habitação são as fortalezas das rochas. Ele também pode ser comparado a uma rocha, por ser eterno e imutável. Uma grande rocha permanece firme, imóvel e inquebrantada pelos ventos e tempestades de era em era; e, por isso, Deus escolheu uma rocha para ser um emblema de Cristo no deserto, quando fez brotar água para os filhos de Israel; e a sombra de uma grande rocha é uma justíssima representação do refrigério dado às almas cansadas por Jesus Cristo.

1. Há tranquilo descanso e pleno refrigério em Cristo para os pecadores que estão cansados e sobrecarregados com o pecado. O pecado é a coisa mais má e odiosa, bem como a mais malfazeja e fatal; é o mais mortal veneno; é, acima de tudo, o que arrisca a vida, e põe em perigo a alma, expõe à perda de toda a felicidade, e ao sofrimento de toda a miséria, e traz a ira de Deus. Todos os homens têm este pavoroso mal pendurado neles, e agarrado firmemente à alma, e dominando sobre ela, e mantendo-a em posse, e sob absoluto comando: pende como uma víbora do coração, ou antes o segura como o leão à sua presa.

Mas, ainda assim, há multidões que não têm consciência da sua miséria. Estão em tal sono que não estão muito inquietas nesta condição, ela não lhes é muito pesada, são tão estúpidas que não sabem qual é o seu estado, e o que há de ser delas. Mas há outras a quem o senso foi até certo ponto restaurado, de modo que sentem a dor, e veem a destruição que se aproxima, e o pecado jaz como pesada carga sobre os seus corações; é uma carga que jaz sobre elas dia e noite, não a podem depor para descansar, mas continuamente as oprime. Está firmemente atada a elas, e está prestes a afundá-las; é um contínuo labor do coração sustentar-se sob este fardo. Assim lemos daqueles "que estais cansados e sobrecarregados". Ou antes, é como o calor escaldante num deserto seco, onde o sol bate e queima o dia inteiro; onde nada têm para os defender; onde não podem achar sombra para se refrigerar. Se se deitam para descansar, é como deitar-se nas areias ardentes, onde nada há que impeça o calor.

Aqui pode ser oportuno indagar quem são os que estão cansados e sobrecarregados com o pecado; e em que sentido um pecador pode estar cansado e sobrecarregado com o pecado. Os pecadores não estão cansados do pecado por qualquer aversão a ele, ou desgosto dele. Não há pecador que esteja sobrecarregado com o pecado no sentido em que o homem piedoso carrega o seu pecado habitante, como o seu maior e diário fardo, porque o abomina, e anseia livrar-se dele; de bom grado estaria a grande distância dele, e nada mais teria com ele; está pronto a exclamar como Paulo: "Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" O homem irregenerado nada tem desta natureza, pois o pecado é ainda o seu deleite, ele o ama entranhavelmente. Se está sob convicções, o seu amor ao pecado em geral não está mortificado, ama-o tão bem como sempre, ainda o esconde como um doce bocado debaixo da língua. Mas há diferença entre estar cansado e sobrecarregado com o pecado, e estar cansado do pecado. Os pecadores despertados estão cansados com o pecado, mas não propriamente cansados dele.

Portanto, estão cansados apenas da culpa do pecado; a culpa que se apega às suas consciências é aquele grande fardo. Deus pôs o senso de sentir nas suas consciências, que antes eram como carne cauterizada, e é a culpa que os atormenta. A imundícia do pecado e a sua natureza má, como ofensa a um Deus santo, gracioso e glorioso, não é um fardo para eles. Mas é a conexão entre o pecado e a punição, entre o pecado e a ira de Deus, que o torna um fardo. As suas consciências estão sobrecarregadas de culpa, que é uma obrigação de punição; veem a ameaça e a maldição da lei unidas aos seus pecados, e veem que a justiça de Deus e a sua vingança estão contra eles. Estão sobrecarregados dos seus pecados, não porque haja neles qualquer coisa odiosa, mas porque há neles inferno. Este é o aguilhão do pecado, pelo qual ele ferroa a consciência, e aflige e cansa a alma.

A culpa de tais e tais grandes pecados está sobre a alma, e o homem não vê meio de livrar-se dela, mas tem dias cansativos e noites cansativas; isto o leva, às vezes, a dizer como o salmista: "Oh! quem me dera asas como de pomba! porque, então, voaria e estaria em descanso. Eis que fugiria para longe, e ficaria no deserto. Apressar-me-ia a escapar da fúria do vento e da tempestade." Mas, quando os pecadores vêm a Cristo, ele tira aquilo que era o seu fardo, isto é, o seu pecado e a sua culpa, aquilo que tão pesado estava sobre os seus corações, que a tal ponto lhes afligia as mentes.

Primeiro. Ele tira a culpa do pecado, da qual a alma antes não via como fosse possível ser libertada, e a qual, se não fosse removida, levava à eterna destruição. Quando o pecador vem a Cristo, ela é de uma vez toda tirada, e a alma é deixada livre, é aliviada do seu fardo, é libertada do seu cativeiro, e é como ave escapada do laço do passarinheiro. A alma vê em Cristo um caminho para a paz com Deus, e um caminho pelo qual a lei pode ser satisfeita, e a justiça saciada, e contudo ele pode escapar; um caminho maravilhoso, na verdade, mas contudo certo e glorioso. E que descanso dá à alma cansada ver-se assim libertada, ver que o fundamento das suas ansiedades e temores está inteiramente removido, e que a ira de Deus cessa, que ela é trazida a um estado de paz com Deus, e que não há mais ocasião de temer o inferno, mas que está para sempre segura! Quão refrigerante é para a alma ser de uma vez assim libertada daquilo que era tanto a sua aflição e terror, e ser aliviada daquilo que era tanto o seu fardo! Isto é como chegar a uma sombra fresca depois de se haver viajado por um deserto seco e quente, e quase desfalecendo sob o calor escaldante. E então Cristo também tira o próprio pecado, e mortifica aquela raiz de amargura que é a causa de todos os tumultos e inquietações interiores que há na mente, que a tornam como o mar agitado que não pode repousar, e a deixa toda calma. Quando a culpa é tirada e o pecado é mortificado, então o fundamento do temor, da aflição e da dor é removido, e a alma é deixada em paz e serenidade.

Segundo. Cristo põe força e um princípio de vida nova na alma cansada que vem a ele. O pecador, antes de vir a Cristo, é como um enfermo que está debilitado e abatido, e cuja natureza é consumida por alguma forte enfermidade: está cheio de dor, e tão fraco que não pode andar nem se ter em pé. Por isso, Cristo é comparado a um médico. "Mas Jesus, ouvindo isto, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas sim os que estão enfermos." Quando ele vem e fala a palavra, põe um princípio de vida naquele que antes estava como morto: dá um princípio de vida espiritual e o começo da vida eterna; vigora a mente com uma comunicação da sua própria vida e força, e renova a natureza e a cria de novo, e faz do homem uma nova criatura.

De modo que os ânimos desfalecidos e prestes a afundar são agora reavivados, e este princípio de vida espiritual é uma contínua fonte de refrigério, como um poço de água viva. "Quem beber da água que eu lhe der nunca terá sede; mas a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna." Cristo dá o seu Espírito, que acalma a mente, e é como uma refrigerante brisa de vento. Dá aquela força com que levanta as mãos que pendem, e fortalece os joelhos vacilantes.

Terceiro. Cristo dá aos que vêm a ele tal conforto e prazer, que são bastante para os fazer esquecer todo o seu labor e fadiga anteriores. Um pouco de verdadeira paz, um pouco das alegrias do amor manifestado de Cristo, e um pouco da verdadeira e santa esperança da vida eterna, são bastante para compensar toda aquela fadiga e cansaço, e para apagar da mente a sua lembrança. Aquela paz que resulta da verdadeira fé excede todo o entendimento, e aquela alegria é alegria indizível. Há algo peculiarmente doce e refrigerante nesta alegria, que não há em outras alegrias; e o que pode mais eficazmente amparar a mente, ou dar mais racional fundamento de regozijo, do que a perspectiva da glória eterna no gozo de Deus, pela própria promessa de Deus em Cristo? Se viermos a Cristo, poderemos não só ser refrigerados descansando à sua sombra, mas comendo o seu fruto: estas coisas são os frutos desta árvore. "Assentei-me à sua sombra com grande deleite, e o seu fruto era doce ao meu paladar." Antes de passar ao próximo particular desta proposição, dirigir-me-ia àqueles que estão cansados, para movê-los a repousar debaixo da sombra de Cristo.

A grande aflição de tal estado, dir-se-ia, deveria ser um motivo para vos levar a aceitar uma oferta de alívio e remédio. Estais cansados, e sem dúvida ficaríeis contentes de estar em descanso; mas aqui deveis considerar:

Primeiro. Que não há remédio senão em Jesus Cristo; não há outra coisa que vos dê verdadeira quietude. Se pudésseis voar para o céu, não a acharíeis lá; se tomásseis as asas da alva, e habitásseis nas extremidades da terra, em algum lugar solitário no deserto, não poderíeis fugir do vosso fardo. De modo que, se não vierdes a Cristo, ou continuareis ainda cansados e sobrecarregados, ou, o que é pior, tereis de voltar ao vosso antigo sono de morte, a um estado de estupidez; e não só isso, mas sereis eternamente afligidos pela ira de Deus.

Segundo. Considerai que Cristo é um remédio à mão. Não precisais desejar as asas de uma pomba para voar para longe, e estar em descanso, mas Cristo está perto, se dele tivésseis consciência. Romanos 10:6, 7, 8. "Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo;) ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer, dentre os mortos, a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos." Não há necessidade de fazer alguma grande obra para chegar a este descanso; o caminho para ele é plano; é apenas ir a ele, é apenas assentar-se debaixo da sombra de Cristo. Cristo não requer dinheiro para comprar dele o descanso; ele nos chama a virmos livremente, e por nada. Se somos pobres e não temos dinheiro, podemos vir. Cristo enviou os seus servos a convidar os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos. Cristo não precisa ser contratado para vos aceitar, e para vos dar descanso. É a sua obra, como Mediador, dar descanso aos cansados; é a obra para a qual foi ungido, e na qual se deleita. "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos que estão presos."

Terceiro. Cristo não é apenas um remédio para o vosso cansaço e aflição, mas vos dará uma abundância do contrário, alegria e deleite. Os que vêm a Cristo não vêm apenas a um lugar de descanso, depois de terem vagueado por um deserto, mas vêm a uma casa de banquete, onde podem descansar, e onde podem festejar. Podem cessar das suas aflições e labores anteriores, e podem entrar num curso de delícias e alegrias espirituais.

Cristo não só livra dos temores do inferno e da ira, mas dá esperanças do céu, e o gozo do amor de Deus. Livra dos tumultos interiores e da dor interior, daquela culpa de consciência que é como um verme roendo por dentro, e dá deleite e glória interior. Traz-nos para fora de um deserto de covas, e secas, e serpentes ardentes voadoras; e traz-nos a uma terra aprazível, uma terra que mana leite e mel. Livra-nos da prisão, e ergue-nos do monturo, e assenta-nos entre príncipes, e nos faz herdar o trono da glória. Portanto, se alguém está cansado, se alguém está na prisão, se alguém está em cativeiro, se alguém está no deserto, venha ao bendito Jesus, que é como a sombra de uma grande rocha em terra cansada. Não tardes, levanta-te e vem.

2. Há tranquilo descanso e doce refrigério em Cristo para o povo de Deus que está cansado.

Os próprios santos, enquanto permanecem neste estado imperfeito, e têm tantos resíduos de pecado em seus corações, ainda estão sujeitos a muitas aflições e tristezas, e a muito cansaço, e muitas vezes têm necessidade de recorrer de novo a Jesus Cristo em busca de descanso. Mencionarei três casos em que Cristo é um remédio suficiente.

Primeiro. Há descanso e doce refrigério em Cristo para os que estão cansados de perseguições. Tem sido a sorte da igreja de Deus neste mundo, na maior parte, ser perseguida. Tem tido de quando em quando alguns intervalos lúcidos de paz e prosperidade exterior, mas em geral tem sido de outro modo. Isto se conformou com a primeira profecia acerca de Cristo: "Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente." Aquelas duas sementes têm estado em inimizade desde o tempo de Abel. Satanás tem nutrido grande malícia contra a igreja de Deus, e assim também os que são a sua semente. E muitas vezes o povo de Deus tem sido perseguido em grau extremo, tem sido submetido aos mais requintados tormentos que a astúcia ou a arte pudessem inventar, e milhares deles foram atormentados até à morte.

Mas, mesmo em tal caso, há descanso e refrigério a achar-se em Cristo Jesus. Quando os seus cruéis inimigos não lhes deram descanso neste mundo; quando, como muitas vezes tem sido o caso, não podiam fugir, nem de modo algum evitar a fúria dos seus adversários, mas muitos deles foram atormentados gradualmente de dia em dia, para que os seus tormentos fossem prolongados; ainda assim, mesmo então, achou-se descanso em Cristo. Muitas vezes se achou pela experiência; os mártires muitas vezes mostraram claramente que a paz e a calma das suas mentes ficavam imperturbadas em meio ao maior tormento corporal, e às vezes se regozijaram e cantaram louvores sobre o potro e no fogo. Se Cristo é servido enviar o seu Espírito para manifestar o seu amor, e falar amigavelmente à alma, isto a amparará até no maior tormento exterior que o homem possa infligir. Cristo é a alegria da alma, e, se a alma é apenas alegrada e cheia de luz divina, tal alegria homem nenhum lhe pode tirar; por maior que seja a miséria exterior, o espírito a suportará.

Segundo. Há em Cristo descanso para o povo de Deus, quando exercitado com aflições. Se uma pessoa padece de grande fraqueza corporal, ou de alguma doença que lhe causa dores frequentes e fortes, tais coisas hão de esgotar criatura tão débil como o homem. Pode ser para tal um conforto e um eficaz amparo pensar que tem um Mediador, que conhece por experiência o que é a dor; que, pela sua dor, adquiriu para ele descanso e prazer eternos; e que fará os seus breves sofrimentos operar um peso de deleite muito mais excelente, a ser concedido quando ele descansar dos seus labores e tristezas.

Se uma pessoa é lançada em grandes apuros quanto ao sustento exterior, e a pobreza traz abundância de dificuldades e extremidades; contudo, pode ser uma amparadora e refrigerante consideração para tal pensar que tem um Salvador compassivo, que, quando esteve na terra, foi tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça, e que se fez pobre para o enriquecer, e adquiriu para ele riquezas duráveis, e fará a sua pobreza operar um eterno e excelente peso de glória.

Se Deus, na sua providência, chama o seu povo a chorar por parentes perdidos, e se ele repete o seu golpe e leva um após outro daqueles que lhe eram caros; é uma amparadora e refrigerante consideração pensar que Cristo declarou que será em lugar de todos os parentes para os que nele confiam. Eles são como sua mãe, e irmã, e irmão; ele os tomou numa relação muito chegada consigo: e em toda outra providência aflitiva, é grande conforto para a alma crente pensar que tem um intercessor junto a Deus, que por ele pode ter acesso com confiança ao trono da graça, e que em Cristo temos tantas grandes e preciosas promessas, de que todas as coisas hão de cooperar para o bem, e hão de resultar em bem-aventurança eterna. O povo de Deus, sempre que é escaldado por aflições como por quentes raios de sol, pode recorrer àquele que é como a sombra de uma grande rocha, e ser eficazmente abrigado, e docemente refrigerado.

Terceiro. Há em Cristo tranquilo descanso e doce refrigério para o povo de Deus, quando cansado dos assaltos de Satanás. O diabo, aquele malicioso inimigo de Deus e do homem, faz tudo quanto está em seu poder para escurecer, e estorvar, e tentar o povo de Deus, e tornar-lhes a vida sem conforto. Muitas vezes levanta escrúpulos desnecessários e infundados, e lança dúvidas, e enche a mente de tal temor que é atormentador, e tende a estorvá-los sobremaneira no curso cristão; e muitas vezes levanta névoas e nuvens de trevas, e desperta a corrupção, e assim enche a mente de inquietação e angústia, e às vezes esgota a alma. De modo que podem dizer como o salmista: "Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim as suas bocas, como leão que despedaça e que ruge."

Em tal caso, se a alma foge para Jesus Cristo, pode achar nele descanso, pois ele veio ao mundo para destruir Satanás, e para resgatar as almas das suas mãos. E ele tem todas as coisas debaixo dos seus pés, quer sejam coisas no céu, quer coisas na terra, quer coisas no inferno, e, portanto, pode refrear Satanás quando lhe apraz. E que ele está, sem dúvida, bastante pronto a compadecer-se de nós sob tais tentações, disso podemos estar certos, pois foi tentado e assaltado por Satanás tanto quanto nós. Ele é poderoso para socorrer os que são tentados, e prometeu que esmagará Satanás debaixo dos pés do seu povo. Portanto, quando o povo de Deus é exercitado com qualquer desses tipos de cansaço, recorra a Jesus Cristo em busca de refúgio e descanso.

REFLEXÕES

1. Podemos aqui ver grande motivo para admirar a bondade e a graça de Deus para conosco no nosso estado baixo, em que ele assim proveu ao nosso socorro e alívio. Nós, pelo nosso próprio pecado contra Deus, fomos lançados em toda sorte de mal, e Deus proveu-nos um remédio contra toda sorte de mal, não nos deixou desamparados em calamidade alguma. Nós, pelo nosso pecado, nos expusemos à ira, a uma justiça vindicativa; mas Deus fez grandíssimas coisas para que fôssemos salvos daquela ira; esteve disposto a um custo infinito para que a lei fosse satisfeita sem o nosso sofrimento. Nós, pelos nossos pecados, nos expusemos ao terror da consciência, na expectação da pavorosa tempestade da ira de Deus; mas Deus proveu-nos um esconderijo contra a tempestade, ele nos manda entrar nas suas câmaras, e esconder-nos da indignação. Nós, pelo pecado, nos fizemos criaturas pobres e necessitadas; mas Deus proveu-nos ouro provado no fogo. Nós, pelo pecado, nos fizemos nus; e, quando ele passou, notou a nossa falta, e proveu-nos vestes brancas para que fôssemos vestidos. Fizemo-nos cegos, e Deus, em misericórdia para conosco, proveu-nos colírio para que pudéssemos ver. Privámo-nos de todo alimento espiritual; somos como o filho pródigo que perecia de fome, e de bom grado se teria fartado com as bolotas. Deus notou esta nossa condição, e proveu-nos um banquete de coisas gordas, e enviou os seus servos a convidar os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos. Nós, pelo pecado, nos trouxemos a um deserto seco e sedento; mas Deus foi misericordioso, e notou a nossa condição, e proveu-nos ribeiros de águas, água tirada da rocha. Nós, pelo pecado, trouxemos sobre nós miserável escravidão e servidão; Deus fez provisão para a nossa liberdade. Expusemo-nos ao cansaço; Deus proveu-nos um lugar de descanso. Nós, pelo pecado, nos expusemos a muitas aflições e tribulações exteriores; Deus se compadeceu de nós, e em Cristo nos proveu verdadeiro conforto. Expusemo-nos ao nosso grande inimigo, o próprio Satanás, para sermos por ele tentados e assaltados; Deus se compadeceu, e proveu-nos um Salvador e Capitão da salvação, que venceu Satanás, e é poderoso para nos livrar. Assim, Deus proveu suficientemente, em Cristo, ao nosso socorro em toda sorte de males.

Como deveríamos bendizer a Deus por esta abundante provisão que fez para nós, pobres e pecadores como éramos, que éramos tão indignos e tão ingratos. Ele não fez tal provisão para os anjos caídos, que foram deixados sem remédio em todas as desgraças e misérias em que estão mergulhados.

2. Deveríamos admirar o amor de Cristo para com os homens, em que assim se deu a si mesmo para ser o remédio de todo o seu mal, e uma fonte de todo o bem. Cristo deu-se a si mesmo a nós, para ser todas as coisas de que necessitamos. Precisamos de vestimenta, e Cristo não só nos dá vestimenta, mas dá-se a si mesmo para ser a nossa vestimenta, para que o vistamos. Gálatas 3:27. "Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo." Romanos 13:14. "Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências."

Precisamos de alimento, e Cristo deu-se a si mesmo para ser o nosso alimento; deu a sua própria carne para ser a nossa comida, e o seu sangue para ser a nossa bebida, para nutrir a nossa alma. Assim Cristo nos diz que é o pão que desceu do céu, e o pão da vida. "Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo." Para que pudéssemos comer da sua carne, era necessário que ele fosse morto, como os sacrifícios deviam ser mortos antes que pudessem ser comidos; e tal foi o amor de Cristo para conosco, que consentiu em ser morto, foi como ovelha ao matadouro, para que nos desse a sua carne por alimento das nossas pobres almas esfaimadas.

Temos necessidade de habitação; nós, pelo pecado, por assim dizer, nos lançamos fora de casa e lar; Cristo deu-se a si mesmo para ser a habitação do seu povo. Salmo 90:1. "Senhor, tu tens sido a nossa morada, de geração em geração." É prometido ao povo de Deus que habitará no templo de Deus para sempre, e não sairá mais; e é-nos dito que Cristo é o templo da nova Jerusalém.

Cristo dá-se a si mesmo ao seu povo para ser todas as coisas de que necessitam, e todas as coisas que concorrem para a sua felicidade. Colossenses 3:11. "Onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo nem livre; mas Cristo é tudo em todos." E, para que assim pudesse ser, nada recusou do que era necessário para o preparar a sê-lo.

Quando foi necessário que se encarnasse, não o recusou, mas fez-se homem, e apareceu na forma de servo. Quando foi necessário que fosse morto, não o recusou, mas deu-se a si mesmo por nós, e deu-se a nós sobre a cruz.

Aqui há amor para nós admirarmos, para louvarmos, e em que nos regozijarmos, com alegria que é cheia de glória para sempre.

Escrituras neste sermão Isaías 32:2

Domínio público. Texto de origem de a edição original.