Sermão · 1 h 17 min de leitura · Avançado

A Excelência de Cristo

Retrato de Jonathan Edwards Jonathan Edwards

Texto

Apocalipse 5:5-6

Tradução por IA — aguardando revisão nativa

Em resumo

João é instruído a contemplar um Leão, e volta-se para ver um Cordeiro. Edwards toma esse instante e desdobra a “admirável conjunção de diversas excelências” em Cristo — infinita majestade com infinita condescendência, justiça com graça, soberania com obediência — primeiro em sua pessoa, depois em sua humilhação, e então em sua exaltação. O seu sermão mais amado, e o mais terno.

“E um dos anciãos me disse: Não chore; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e para soltar os seus sete selos. E eu olhei, e eis que, no meio do trono e dos quatro seres viventes, e no meio dos anciãos, estava em pé um Cordeiro, como se tivesse sido morto.

Introdução

As visões e revelações que o apóstolo João teve dos eventos futuros da providência de Deus são aqui introduzidas por uma visão do livro dos decretos de Deus, pelos quais esses eventos foram preordenados. Isso é representado (Apocalipse 5:1) como um livro na mão direita daquele que estava sentado no trono, “escrito por dentro e por fora, e selado com sete selos.” Os livros, na forma em que antigamente costumavam ser feitos, eram largas folhas de pergaminho ou de papel, ou algo dessa natureza, unidas por uma das bordas, e assim enroladas juntas, e depois seladas, ou de algum modo presas, para impedir que se desenrolassem e abrissem. Daí lermos do rolo de um livro, em Jr 36:2. Parece ter sido um livro assim que João teve em visão aqui; e por isso se diz que estava “escrito por dentro e por fora,” isto é, nas páginas internas, e também numa das páginas externas, a saber, aquela em que ficava enrolado ao se enrolar o livro. E se diz que estava “selado com sete selos,” para significar que o que nele estava escrito estava perfeitamente oculto e secreto; ou que os decretos de Deus acerca dos eventos futuros estão selados e fechados, sem qualquer possibilidade de serem descobertos pelas criaturas, até que Deus se agrade de torná-los conhecidos. Verificamos que o número sete é muitas vezes usado na Escritura como o número da perfeição, para significar o grau superlativo ou mais perfeito de qualquer coisa, o que provavelmente surgiu disto: que, no sétimo dia, Deus contemplou concluídas as obras da criação, e descansou e se alegrou nelas, como sendo completas e perfeitas.

Quando João viu esse livro, ele nos conta que “viu um anjo forte, proclamando em alta voz: Quem é digno de abrir o livro e de soltar os seus selos? E ninguém, nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para dentro dele.” E que ele chorou muito, porque “ninguém foi achado digno de abrir e ler o livro, nem de olhar para dentro dele.” E então nos conta como as suas lágrimas foram enxugadas, a saber, que “um dos anciãos lhe disse: Não chore; eis que o Leão da tribo de Judá venceu,” etc., como no texto. Ainda que nenhum homem, nem anjo, nem qualquer mera criatura fosse achado capaz de soltar os selos, ou digno de ser admitido ao privilégio de ler o livro, contudo isso foi declarado, para consolo deste discípulo amado: que Cristo foi achado tanto capaz quanto digno. E temos, nos capítulos seguintes, o relato de como ele de fato o fez, abrindo os selos em ordem, primeiro um, e depois outro, revelando o que Deus decretara que haveria de acontecer no futuro. E temos, neste capítulo, o relato de sua vinda e de como tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono, e dos alegres louvores que lhe foram cantados no céu e na terra naquela ocasião.

Muitas coisas poderiam ser observadas nas palavras do texto; mas, para o meu presente propósito, só me cabe notar as duas distintas designações aqui dadas a Cristo.

Ele é chamado de um Leão. Eis o Leão da tribo de Judá. Parece ser chamado de Leão da tribo de Judá em alusão ao que Jacó disse ao abençoar essa tribo em seu leito de morte; o qual, ao chegar a abençoar Judá, o compara a um leão, Gn 49:9. “Judá é um filhote de leão; da presa subiste, filho meu; ele se abaixou, agachou-se como leão, e como um leão velho: quem o despertará?” E também em alusão ao estandarte do acampamento de Judá no deserto, no qual se exibia um leão, segundo a antiga tradição dos judeus. É muito por causa dos feitos valorosos de Davi que a tribo de Judá, à qual Davi pertencia, é comparada a um leão na bênção profética de Jacó; mas ainda mais especialmente com os olhos postos em Jesus Cristo, que também era daquela tribo, e descendia de Davi, e é, em nosso texto, chamado “a Raiz de Davi”; e por isso Cristo é aqui chamado “o Leão da tribo de Judá.

Ele é chamado de um Cordeiro. João foi avisado de um Leão que prevalecera para abrir o livro, e provavelmente esperava ver um leão em sua visão; mas, enquanto espera, eis que um Cordeiro aparece para abrir o livro — um tipo de criatura extremamente diverso de um leão. O leão é um devorador, que costuma fazer terrível carnificina dos outros; e nenhuma criatura mais facilmente lhe cai como presa do que um cordeiro. E Cristo é aqui representado não apenas como um Cordeiro, criatura muito sujeita a ser morta, mas como um “Cordeiro como se tivesse sido morto,” isto é, com as marcas de suas feridas mortais aparecendo sobre ele.

O que eu gostaria de observar a partir dessas palavras, como assunto do meu presente discurso, é isto, a saber —

Há uma admirável conjunção de diversas excelências em Jesus Cristo.

O leão e o cordeiro, ainda que sejam tipos de criaturas muito diversos, têm, cada um, suas excelências peculiares. O leão sobressai na força e na majestade de sua aparência e de sua voz; o cordeiro sobressai na mansidão e na paciência, além da natureza excelente da criatura, boa como alimento, e que fornece o que é próprio para nossa vestimenta, e adequada a ser oferecida em sacrifício a Deus. Mas vemos que Cristo é, no texto, comparado a ambos, porque as diversas excelências de ambos maravilhosamente se encontram nele. — Ao tratar deste assunto, eu gostaria de,

Primeiro, mostrar em que consiste essa admirável conjunção de diversas excelências em Cristo. Segundo, mostrar como essa admirável conjunção de excelências aparece nos atos de Cristo. Terceiro, fazer a aplicação.

Parte Um

Primeiro, eu gostaria de mostrar em que consiste essa admirável conjunção de diversas excelências em Jesus Cristo, a qual aparece em três coisas:

A) Há em Cristo uma conjunção de excelências que, em nosso modo de conceber, são muito diversas umas das outras.

B) Há nele uma conjunção de excelências realmente tão diversas, que de outro modo nos teriam parecido totalmente incompatíveis num mesmo sujeito.

C) Tais diversas excelências são exercidas nele para com os homens, de um modo que, de outra forma, teria parecido impossível serem exercidas para com o mesmo objeto.

A) Há em Cristo uma conjunção de excelências que, em nosso modo de conceber, são muito diversas umas das outras. Tais são as várias perfeições e excelências divinas que Cristo possui. Cristo é uma pessoa divina, e portanto tem todos os atributos de Deus. A diferença entre esses atributos é principalmente relativa, e está em nosso modo de concebê-los. E aqueles que, nesse sentido, são os mais diversos, encontram-se na pessoa de Cristo. Mencionarei dois exemplos.

Encontram-se em Jesus Cristo a infinita altura e a infinita condescendência.

Cristo, enquanto é Deus, é infinitamente grande e elevado acima de tudo. É mais elevado do que os reis da terra, pois é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. É mais elevado do que os céus, e mais elevado do que os mais altos anjos do céu. Tão grande é ele, que todos os homens, todos os reis e príncipes, são como vermes do pó diante dele; todas as nações são como a gota de um balde e como o leve pó da balança; sim, e os próprios anjos são como nada diante dele. Ele é tão elevado, que está infinitamente acima de qualquer necessidade de nós; acima do nosso alcance, de modo que não lhe podemos ser proveitosos; e acima de nossas concepções, de modo que não o podemos compreender. Pv 30:4: “Qual é o seu nome, e qual é o nome do seu Filho, se é que o sabes?” Os nossos entendimentos, por mais que os estendamos, não podem alcançar a sua glória divina. Jó 11:8: “É alto como os céus; o que podes fazer?” Cristo é o Criador e o grande Possuidor do céu e da terra. É o soberano Senhor de tudo. Ele reina sobre todo o universo e faz tudo o que lhe apraz. O seu conhecimento é sem limites. A sua sabedoria é perfeita, e ninguém a pode iludir. O seu poder é infinito, e ninguém lhe pode resistir. As suas riquezas são imensas e inesgotáveis. A sua majestade é infinitamente temível.

E, contudo, ele é alguém de infinita condescendência. Ninguém é tão baixo ou inferior que a condescendência de Cristo não seja suficiente para tomar deles um gracioso conhecimento. Ele condescende não apenas com os anjos, humilhando-se para contemplar as coisas que se fazem no céu, mas também condescende com criaturas tão pobres como os homens; e isso não somente de modo a notar príncipes e grandes homens, mas os que são da mais humilde condição e grau, “os pobres deste mundo,” Tg 2:5. Aqueles que são comumente desprezados por seus semelhantes, Cristo não os despreza. 1Co 1:28: “Deus escolheu as coisas vis do mundo, e as que são desprezadas.” Cristo condescende em notar os mendigos, Lc 16:22, e os povos das nações mais desprezadas. Em Cristo Jesus não há “bárbaro, cita, escravo nem livre” (Cl 3:11). Aquele que é assim tão elevado condescende em tomar um gracioso conhecimento das criancinhas, Mt 19:14: “Deixai vir a mim as criancinhas.” Sim, e o que é mais, a sua condescendência é suficiente para tomar um gracioso conhecimento das criaturas mais indignas e pecadoras, daquelas que não têm mérito algum de bem, e daquelas que têm infinitos merecimentos de mal.

Sim, tão grande é a sua condescendência, que ela não só é suficiente para tomar algum gracioso conhecimento de tais como esses, mas é suficiente para tudo o que seja um ato de condescendência. A sua condescendência é grande o bastante para tornar-se amigo deles, para tornar-se companheiro deles, para unir a si as almas deles em casamento espiritual. É bastante para tomar sobre si a natureza deles, para tornar-se um deles, a fim de ser um com eles. Sim, é grande o bastante para rebaixar-se ainda mais por eles, até expor-se à vergonha e aos cuspes; sim, para entregar-se a uma morte ignominiosa por eles. E que ato de condescendência maior se pode conceber? Contudo, a um ato como este a sua condescendência se rendeu, por aqueles que são tão baixos e humildes, desprezíveis e indignos!

Tal conjunção de infinita altura e humilde condescendência, numa mesma pessoa, é admirável. Vemos, por múltiplos exemplos, que tendência tem uma posição elevada, nos homens, a torná-los de disposição inteiramente contrária. Se um verme é um pouco exaltado acima de outro, por ter mais pó, ou um monturo maior, quanto não se engrandece a si mesmo! Que distância mantém daqueles que estão abaixo dele! E uma pequena condescendência é o que ele espera que seja muito valorizada e grandemente reconhecida. Cristo condescende em lavar os nossos pés; mas como os grandes homens (ou, antes, os vermes maiores) se julgariam rebaixados por atos de condescendência muito menores!

Encontram-se em Jesus Cristo a infinita justiça e a infinita graça.

Enquanto Cristo é uma pessoa divina, ele é infinitamente santo e justo, odiando o pecado e disposto a executar o merecido castigo pelo pecado. Ele é o Juiz do mundo, e o seu Juiz infinitamente justo, e de modo algum absolverá os ímpios, nem por meio nenhum inocentará o culpado.

E, contudo, ele é infinitamente gracioso e misericordioso. Ainda que a sua justiça seja tão estrita a respeito de todo pecado e de toda transgressão da lei, ele tem, todavia, graça suficiente para todo pecador, e mesmo para o principal dos pecadores. E ela não é apenas suficiente para mostrar misericórdia aos mais indignos e conceder-lhes algum bem, mas para conceder-lhes o maior bem; sim, é suficiente para conceder-lhes todo bem, e fazer tudo por eles. Não há benefício ou bênção que possam receber tão grande que a graça de Cristo não seja suficiente para concedê-lo ao maior pecador que jamais viveu. E não só isso, mas tão grande é a sua graça, que nada é demasiado como meio deste bem. Ela é suficiente não só para fazer grandes coisas, mas também para padecer a fim de fazê-las; e não só para padecer, mas para padecer da forma mais extrema, até a morte, o mais terrível dos males naturais; e não só a morte, mas a mais ignominiosa e atormentadora, e sob todos os aspectos a mais terrível que os homens poderiam infligir; sim, e sofrimentos maiores do que os homens poderiam infligir, os quais só podiam atormentar o corpo. Ele teve sofrimentos na alma, que eram os frutos mais imediatos da ira de Deus contra os pecados daqueles por quem se comprometeu.

B) Encontram-se na pessoa de Cristo excelências realmente tão diversas, que de outro modo teriam sido tidas por totalmente incompatíveis num mesmo sujeito; tais como não se acham reunidas em nenhuma outra pessoa, seja divina, humana ou angelical; e tais que nem homens nem anjos jamais teriam imaginado que pudessem encontrar-se numa mesma pessoa, se não se tivessem visto na pessoa de Cristo. Darei alguns exemplos.

Na pessoa de Cristo encontram-se a infinita glória e a mais profunda humildade. A infinita glória e a virtude da humildade encontram-se em nenhuma outra pessoa senão em Cristo. Não se encontram em nenhuma pessoa criada, pois nenhuma pessoa criada tem infinita glória; e não se encontram em nenhuma outra pessoa divina senão em Cristo. Pois, ainda que a natureza divina seja infinitamente avessa ao orgulho, a humildade não se pode propriamente atribuir a Deus, o Pai, e ao Espírito Santo, que existem somente na natureza divina; porque ela é uma excelência própria apenas de uma natureza criada, pois consiste radicalmente num senso de comparativa baixeza e pequenez diante de Deus, ou da grande distância entre Deus e o sujeito desta virtude; ora, seria uma contradição supor tal coisa em Deus.

Mas em Jesus Cristo, que é tanto Deus quanto homem, essas duas diversas excelências estão docemente unidas. Ele é uma pessoa infinitamente exaltada em glória e dignidade. Fp 2:6: “Sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus.” É-lhe devida honra igual à do Pai. Jo 5:23: “Para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai.” O próprio Deus lhe diz: “o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre,” Hb 1:8. E é-lhe prestado, pelos anjos do céu, o mesmo supremo respeito e adoração divina que a Deus, o Pai, v. 6: “E todos os anjos de Deus o adorem.

Mas, ainda que esteja assim acima de tudo, é o mais humilde de todos na humildade. Nunca houve exemplo tão grande desta virtude, entre homens ou anjos, como Jesus. Ninguém jamais teve tão viva consciência da distância entre Deus e ele, ou teve coração tão humilde diante de Deus, como o homem Cristo Jesus, Mt 11:29. Que maravilhoso espírito de humildade apareceu nele, quando esteve aqui na terra, em todo o seu comportamento! Em seu contentamento com a sua humilde condição exterior, vivendo contentemente na família de José, o carpinteiro, e de Maria, sua mãe, por trinta anos seguidos, e escolhendo depois a baixeza exterior, a pobreza e o desprezo, em vez da grandeza terrena; em lavar os pés de seus discípulos, e em todas as suas palavras e em seu porte para com eles; em sustentar alegremente a forma de servo por toda a sua vida, e em submeter-se a tão imensa humilhação na morte!

Na pessoa de Cristo encontram-se a infinita majestade e a transcendente mansidão. Também estas são duas qualificações que se encontram em nenhuma outra pessoa senão em Cristo. A mansidão, propriamente assim chamada, é uma virtude própria somente da criatura: dificilmente encontramos a mansidão mencionada como um atributo divino na Escritura, ao menos não no Novo Testamento; pois por ela parece significar-se uma calma e quietude de espírito, que surge da humildade em seres mutáveis, naturalmente sujeitos a serem perturbados pelos assaltos de um mundo tempestuoso e injurioso. Mas Cristo, sendo tanto Deus quanto homem, tem tanto a infinita majestade quanto a mais elevada mansidão.

Cristo era uma pessoa de infinita majestade. É dele que se fala em Sl 45:3: “Cinge a tua espada à coxa, ó poderoso, com a tua glória e a tua majestade.” É ele o poderoso, que cavalga sobre os céus, e a sua excelência está nas alturas. É ele o temível desde os seus santos lugares; que é mais poderoso do que o fragor de muitas águas, sim, do que as poderosas ondas do mar; diante de quem um fogo avança e queima os seus inimigos ao redor; à cuja presença a terra treme e os montes se derretem; que se assenta sobre o círculo da terra, e todos os seus habitantes são como gafanhotos; que repreende o mar e o faz secar, e deixa secos os rios; cujos olhos são como chama de fogo; de cuja presença, e da glória de cujo poder, os ímpios serão punidos com eterna destruição; que é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, que tem o céu por trono e a terra por estrado dos pés, e é o Alto e Sublime que habita a eternidade, cujo reino é um reino eterno, e de cujo domínio não há fim.

E, contudo, ele foi o mais admirável exemplo de mansidão e de humilde quietude de espírito que jamais existiu; conforme às profecias a seu respeito, Mt 21:4s: “Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei vem a ti, manso, e assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, cria de animal de carga.” E conforme ao que Cristo declara de si mesmo, Mt 11:29: “Eu sou manso e humilde de coração.” E conforme ao que se manifestou em seu comportamento; pois nunca se viu na terra tal exemplo de comportamento manso, sob injúrias e ultrajes, e para com os inimigos; ele, que, sendo injuriado, não injuriava de volta. Tinha um maravilhoso espírito de perdão, estava pronto a perdoar os seus piores inimigos, e orava por eles com orações fervorosas e eficazes. Com que mansidão apareceu no círculo dos soldados que o desprezavam e escarneciam; ficou em silêncio, e não abriu a boca, mas foi como um cordeiro ao matadouro. Assim é Cristo um Leão em majestade e um Cordeiro em mansidão.

Encontram-se na pessoa de Cristo a mais profunda reverência para com Deus e a igualdade com Deus. Cristo, quando esteve na terra, mostrou-se cheio de santa reverência para com o Pai. Prestou-lhe a mais reverente adoração, orando a ele com posturas de reverência. Assim lemos que ele “pôs-se de joelhos e orou,” Lc 22:41. Isso convinha a Cristo, como alguém que havia tomado sobre si a natureza humana; mas, ao mesmo tempo, ele existia na natureza divina, pela qual a sua pessoa era, em todos os aspectos, igual à pessoa do Pai. Deus, o Pai, não tem atributo ou perfeição que o Filho não tenha, em igual grau e em igual glória. Estas coisas encontram-se em nenhuma outra pessoa senão em Jesus Cristo.

Estão conjugadas na pessoa de Cristo a infinita dignidade de receber o bem e a máxima paciência sob os sofrimentos do mal.

Ele era perfeitamente inocente e não merecia sofrimento algum. Nada merecia de Deus por qualquer culpa própria, e não merecia mal algum dos homens. Sim, ele não era apenas inofensivo e sem merecimento de sofrimento, mas era infinitamente digno; digno do infinito amor do Pai, digno de infinita e eterna felicidade, e infinitamente digno de toda estima, amor e serviço da parte de todos os homens.

E, contudo, ele foi perfeitamente paciente sob os maiores sofrimentos que jamais se suportaram neste mundo. Hb 12:2: “Suportou a cruz, desprezando a vergonha.” Ele sofreu de seu Pai, não por suas próprias faltas, mas pelas nossas; e sofreu dos homens não por suas faltas, mas por aquelas coisas em razão das quais era infinitamente digno do amor e da honra deles, o que tornou a sua paciência ainda mais maravilhosa e mais gloriosa. 1Pe 2:20: “Pois que glória há, se, quando pecais e sois esbofeteados, sofreis com paciência? Mas se, quando fazeis o bem, sois afligidos e o suportais com paciência, isso é agradável a Deus. Porque para isto fostes chamados, pois também Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais os seus passos; ele que não cometeu pecado, nem engano algum se achou em sua boca; ele que, sendo injuriado, não injuriava de volta; quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; ele que levou em seu próprio corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que nós, mortos para os pecados, vivêssemos para a justiça; e por cujas feridas fostes sarados.” Não há tal conjunção de inocência, dignidade e paciência sob os sofrimentos como na pessoa de Cristo.

Estão conjugados na pessoa de Cristo um extraordinário espírito de obediência e o supremo domínio sobre o céu e a terra.

Cristo é o Senhor de todas as coisas em dois sentidos: ele o é como Deus-homem e Mediador, e assim o seu domínio lhe é designado e dado pelo Pai. Tendo-o por delegação de Deus, ele é, por assim dizer, o vice-regente do Pai. Mas é Senhor de todas as coisas em outro sentido, a saber, enquanto é (por sua natureza original) Deus; e assim é, por direito natural, o Senhor de tudo, e supremo sobre tudo, tanto quanto o Pai. Assim, ele tem domínio sobre o mundo, não por delegação, mas por direito próprio. Ele não é um Deus subordinado, como supõem os arianos, mas, para todos os efeitos, o Deus supremo.

E, contudo, na mesma pessoa se encontra o maior espírito de obediência aos mandamentos e às leis de Deus que jamais houve no universo; o que se manifestou em sua obediência aqui neste mundo. Jo 14:31: “Como o Pai me ordenou, assim eu faço.” — Jo 15:10: “Assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” A grandeza de sua obediência aparece em sua perfeição, e em obedecer a mandamentos de tão extraordinária dificuldade. Nunca ninguém recebeu de Deus mandamentos de tal dificuldade, e que fossem tão grande prova de obediência, como Jesus Cristo. Um dos mandamentos de Deus a ele era que se entregasse àqueles terríveis sofrimentos que suportou. Ver Jo 10:18: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por mim mesmo.” “Recebi este mandamento de meu Pai.” E Cristo foi inteiramente obediente a esse mandamento de Deus. Hb 5:8: “Ainda que fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.” Fp 2:8: “Humilhou-se a si mesmo, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.” Nunca houve tal exemplo de obediência, em homem ou anjo, como este, ainda que ele fosse, ao mesmo tempo, o supremo Senhor tanto de anjos quanto de homens.

Estão conjugadas na pessoa de Cristo a absoluta soberania e a perfeita resignação. Esta é outra conjunção sem paralelo.

Cristo, enquanto é Deus, é o soberano absoluto do mundo, o soberano dispensador de todos os eventos. Os decretos de Deus são todos os seus soberanos decretos; e a obra da criação, e todas as obras de providência de Deus, são as suas soberanas obras. É ele quem opera todas as coisas segundo o conselho da sua própria vontade. Cl 1:16s: “Por ele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.Jo 5:17: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho.” Mt 8:3: “Quero; sê limpo.

Mas, contudo, Cristo foi o mais maravilhoso exemplo de resignação que jamais apareceu no mundo. Ele estava absoluta e perfeitamente resignado quando tinha diante de si a próxima e iminente perspectiva de seus terríveis sofrimentos, e do pavoroso cálice que havia de beber. A ideia e a expectativa disso tornaram a sua alma extremamente triste até a morte, e o lançaram em tal agonia que o seu suor era como que grandes gotas ou coágulos de sangue, caindo até o chão. Mas, em tais circunstâncias, ele estava inteiramente resignado à vontade de Deus. Mt 26:39: “Ó meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não como eu quero, mas como tu queres.” V. 42: “Ó meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.

Encontram-se em Cristo a autossuficiência e uma inteira confiança e dependência de Deus, o que é outra conjunção peculiar à pessoa de Cristo.

Enquanto é uma pessoa divina, ele é autossuficiente, não necessitando de nada. Todas as criaturas dependem dele, mas ele não depende de nenhuma, sendo absolutamente independente. O seu proceder do Pai, em sua geração eterna, não implica dependência própria da vontade do Pai; pois esse proceder foi natural e necessário, e não arbitrário.

Mas, contudo, Cristo confiava inteiramente em Deus: — os seus inimigos dizem isto dele, “Confiou em Deus; livre-o ele agora,” Mt 27:43. E o apóstolo testifica, 1Pe 2:23: “que ele se entregou a Deus.

C) Tais diversas excelências são exercidas nele para com os homens, de um modo que, de outra forma, teria parecido impossível serem exercidas para com o mesmo objeto; como, em particular, estas três: justiça, misericórdia e verdade. As mesmas que se mencionam no Sl 85:10: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram.

A estrita justiça de Deus, e mesmo a sua justiça vingadora, e isso contra os pecados dos homens, nunca foi tão gloriosamente manifestada como em Cristo. Ele manifestou um infinito respeito pelo atributo da justiça de Deus, em que, tendo o intento de salvar pecadores, esteve disposto a padecer sofrimentos tão extremos, antes que a salvação deles fosse em prejuízo da honra daquele atributo. E, como Juiz do mundo, ele mesmo exerce estrita justiça, não inocentará o culpado, nem de modo algum absolverá o ímpio em juízo.

Contudo, quão maravilhosamente se exibe nele a infinita misericórdia para com os pecadores! E que gloriosa e inefável graça e amor têm sido, e são, exercidos por ele para com os homens pecadores! Ainda que seja o justo Juiz de um mundo pecaminoso, é também o Salvador do mundo. Ainda que seja um fogo consumidor para o pecado, é a luz e a vida dos pecadores. Rm 3:25s: “Ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados anteriormente cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstrar, digo, neste tempo a sua justiça, a fim de que ele seja justo, e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

Assim também a imutável verdade de Deus, nas ameaças de sua lei contra os pecados dos homens, nunca foi tão manifestada como o é em Jesus Cristo; pois nunca houve outra prova tão grande da inalterabilidade da verdade de Deus naquelas ameaças, como quando o pecado veio a ser imputado ao seu próprio Filho. E então, em Cristo, viu-se já um real e completo cumprimento dessas ameaças, que nunca se viu, nem se verá, em nenhum outro caso; porque a eternidade que será ocupada no cumprimento dessas ameaças sobre os outros nunca terá fim. Cristo manifestou um infinito respeito por esta verdade de Deus em seus sofrimentos. E, ao julgar o mundo, ele faz do pacto das obras, que contém aquelas terríveis ameaças, a sua regra de juízo. Ele cuidará de que não seja infringido no mínimo jota ou til; nada fará contrário às ameaças da lei e ao seu completo cumprimento. E, contudo, nele temos muitas grandes e preciosas promessas, promessas de perfeita libertação da penalidade da lei. E esta é a promessa que ele nos prometeu: a vida eterna. E nele estão todas as promessas de Deus, sim, e amém.

Parte Dois

Segundo, para mostrar como essa admirável conjunção de excelências aparece nos atos de Cristo, [a saber:]

A) Ela aparece no que Cristo fez ao tomar sobre si a nossa natureza.

Neste ato, a sua infinita condescendência maravilhosamente apareceu: que aquele que era Deus se tornasse homem; que o Verbo se fizesse carne, e tomasse sobre si uma natureza infinitamente inferior à sua natureza original! E aparece ainda mais notavelmente nas humildes circunstâncias de sua encarnação: foi concebido no ventre de uma jovem pobre, cuja pobreza se evidenciou nisto — que, quando veio oferecer os sacrifícios de sua purificação, trouxe o que era permitido na lei somente em caso de pobreza, como em Lc 2:24: “Segundo o que se diz na lei do Senhor: um par de rolinhas ou dois pombinhos.” Isso era permitido somente no caso de a pessoa ser tão pobre que não pudesse oferecer um cordeiro. Lv 12:8.

E, ainda que a sua infinita condescendência assim aparecesse no modo de sua encarnação, contudo a sua dignidade divina também nela apareceu; pois, embora concebido no ventre de uma pobre virgem, foi ali concebido pelo poder do Espírito Santo. E a sua dignidade divina apareceu também na santidade de sua concepção e nascimento. Embora concebido no ventre de uma da raça corrompida da humanidade, foi concebido e nascido sem pecado; como disse o anjo à bendita Virgem, Lc 1:35: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o ente santo que de ti nascerá será chamado Filho de Deus.

A sua infinita condescendência maravilhosamente apareceu no modo de seu nascimento. Foi dado à luz numa estrebaria, porque não havia lugar para eles na hospedaria. A hospedaria estava ocupada por outros, tidos por pessoas de maior importância. A bendita Virgem, sendo pobre e desprezada, foi posta de lado, ou dela excluída. Ainda que estivesse em circunstâncias tão apertadas, aqueles que se julgavam melhores do que ela não lhe deram lugar; e por isso, no tempo de seu parto, foi forçada a recolher-se a uma estrebaria; e, quando a criança nasceu, foi envolta em faixas de pano e deitada numa manjedoura. Ali jazia Cristo, um pequenino infante, e ali eminentemente apareceu como um cordeiro.

Mas, contudo, este débil infante, assim nascido numa estrebaria e deitado numa manjedoura, nasceu para vencer e triunfar sobre Satanás, aquele leão que ruge. Ele veio para subjugar os poderosos poderes das trevas, e expô-los publicamente ao escárnio, e assim restaurar a paz na terra, e manifestar a boa vontade de Deus para com os homens, e trazer glória a Deus nas alturas; conforme o fim de seu nascimento foi declarado pelos alegres cânticos das gloriosas hostes de anjos, que apareceram aos pastores no mesmo tempo em que o infante jazia na manjedoura; pelo que a sua dignidade divina se manifestou.

B) Essa admirável conjunção de excelências aparece nos atos e nas várias passagens da vida de Cristo.

Ainda que Cristo habitasse em humildes circunstâncias exteriores, pelas quais especialmente apareceram a sua condescendência e humildade, e a sua majestade ficou velada; contudo a sua dignidade divina e glória, em muitos de seus atos, resplandeceu através do véu, e apareceu ilustremente que ele não era apenas o Filho do homem, mas o grande Deus.

Assim, nas circunstâncias de sua infância, apareceu a sua baixeza exterior; contudo, houve então algo que manifestou a sua dignidade divina, no fato de os magos serem movidos a vir do oriente para lhe render honra, sendo guiados por uma estrela miraculosa, e vindo prostrar-se e adorá-lo, e apresentando-lhe ouro, incenso e mirra. A sua humildade e mansidão maravilhosamente apareceram em sua sujeição à mãe e ao pai reputado, quando era menino. Nisto apareceu como um cordeiro. Mas a sua glória divina irrompeu e brilhou quando, aos doze anos, discutiu com os doutores no templo. Nisto apareceu, em certa medida, como o Leão da tribo de Judá.

E assim, depois de entrar no seu ministério público, a sua admirável humildade e mansidão se manifestaram em escolher aparecer em circunstâncias exteriores tão humildes, e em estar contente nelas, quando era tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça, e dependia da caridade de alguns de seus seguidores para o seu sustento, como se vê em Lucas 8, no início. Quão manso, condescendente e familiar era o seu trato com os seus discípulos; os seus discursos com eles, tratando-os como um pai a seus filhos, sim, como amigos e companheiros. Quão paciente, suportando tal aflição e opróbrio, e tantas injúrias dos escribas e fariseus, e de outros. Nestas coisas apareceu como um Cordeiro.

E, contudo, ele, ao mesmo tempo, de muitas maneiras manifestava a sua majestade e glória divinas, particularmente nos milagres que operava, os quais eram evidentemente obras divinas, e manifestavam poder onipotente, e assim o declaravam ser o Leão da tribo de Judá. As suas maravilhosas e miraculosas obras claramente o mostravam ser o Deus da natureza; visto que por elas se evidenciava que ele tinha toda a natureza em suas mãos, e podia detê-la, e parar e mudar o seu curso conforme lhe aprouvesse. Ao curar os enfermos, e abrir os olhos dos cegos, e destapar os ouvidos dos surdos, e sarar os coxos, ele mostrou que era o Deus que formou o olho, e criou o ouvido, e foi o autor da estrutura do corpo do homem. Pelo ressuscitar dos mortos ao seu comando, apareceu que ele era o autor e a fonte da vida, e que era “o Deus, o Senhor, a quem pertencem as saídas da morte.” Ao caminhar sobre o mar em meio a uma tempestade, quando as ondas se levantavam, mostrou-se ser aquele Deus de quem se fala em Jó 9:8: “Que pisa sobre as ondas do mar.” Ao acalmar a tempestade e apaziguar a fúria do mar, por seu poderoso comando, dizendo: “Cala-te, aquieta-te,” mostrou que tem o comando do universo, e que é aquele Deus que realiza as coisas pela palavra do seu poder, que fala e está feito, que ordena e permanece firme. Sl 65:7: “Que aquieta o rugido dos mares, o rugido das suas ondas.” E Sl 107:29: “Que transforma a tempestade em calmaria, de modo que as suas ondas se aquietam.” E Sl 89:8s: “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, ó Senhor? A tua fidelidade te rodeia. Tu dominas o ímpeto do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as aquietas.” Cristo, ao expulsar os demônios, notavelmente apareceu como o Leão da tribo de Judá, e mostrou que era mais forte do que o leão que ruge, que agarra a quem possa devorar. Ordenou-lhes que saíssem, e eles foram forçados a obedecer. Tinham terrível medo dele; prostram-se diante dele e suplicam-lhe que não os atormente. Ele força uma legião inteira deles a largar a sua presa, por sua poderosa palavra; e nem sequer podiam entrar nos porcos sem a sua licença. Ele mostrou a glória da sua onisciência, revelando os pensamentos dos homens, como muitas vezes temos relato. Nisto apareceu ser aquele Deus de quem se fala em Am 4:13: “Que declara ao homem qual é o seu pensamento.” Assim, em meio à sua baixeza e humilhação, a sua glória divina apareceu em seus milagres. Jo 2:11: “Este princípio de sinais fez Jesus em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória.

E, ainda que Cristo ordinariamente aparecesse sem glória exterior, e em grande obscuridade, contudo, em certo momento, ele lançou de si o véu e apareceu em sua majestade divina, na medida em que ela podia ser exteriormente manifestada aos homens neste estado frágil, quando foi transfigurado no monte. O apóstolo Pedro, 2Pe 1:16,17, foi “testemunha ocular da sua majestade, quando recebeu de Deus Pai honra e glória, quando lhe foi dirigida, da magnífica glória, tal voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; e essa voz, vinda do céu, nós a ouvimos, estando com ele no santo monte.

E, ao mesmo tempo em que Cristo costumava aparecer em tal mansidão, condescendência e humildade, em seus familiares discursos com os seus discípulos, aparecendo neles como o Cordeiro de Deus, ele também costumava aparecer como o Leão da tribo de Judá, com autoridade e majestade divinas, ao repreender tão severamente os escribas e fariseus, e outros hipócritas.

C) Essa admirável conjunção de excelências notavelmente aparece em sua oferta de si mesmo como sacrifício pelos pecadores, em seus últimos sofrimentos.

Como esta foi a maior coisa em toda a obra da redenção, o maior ato de Cristo naquela obra, assim também neste ato especialmente aparece aquela admirável conjunção de excelências de que se falou. Cristo nunca apareceu tanto como um cordeiro quanto quando foi morto: “Ele foi levado como um cordeiro ao matadouro,” Is 53:7. Então foi oferecido a Deus como um cordeiro sem defeito e sem mancha; então especialmente apareceu ser o antítipo do cordeiro da páscoa. 1Co 5:7: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.” E, contudo, naquele ato ele, de modo especial, apareceu como o Leão da tribo de Judá; sim, neste, acima de todos os outros atos, em muitos aspectos, como pode aparecer nas coisas seguintes.

Então estava Cristo no maior grau de sua humilhação, e, contudo, por isso, acima de todas as outras coisas, aparece a sua glória divina.

A humilhação de Cristo foi grande, em nascer em condição tão baixa, de uma pobre virgem, e numa estrebaria. A sua humilhação foi grande, em estar sujeito a José, o carpinteiro, e a Maria, sua mãe, e depois viver em pobreza, a ponto de não ter onde reclinar a cabeça; e em sofrer os múltiplos e amargos opróbrios que sofreu, enquanto andava pregando e operando milagres. Mas a sua humilhação nunca foi tão grande como o foi em seus últimos sofrimentos, começando com a sua agonia no jardim, até expirar na cruz. Nunca esteve sujeito a tal ignomínia como então; nunca sofreu tanta dor no corpo, ou tanta tristeza na alma; nunca esteve em tão grande exercício de sua condescendência, humildade, mansidão e paciência, como esteve nestes últimos sofrimentos; nunca a sua glória e majestade divinas foram cobertas com véu tão espesso e escuro; nunca ele de tal modo se esvaziou e se fez de nenhuma reputação, como neste tempo.

E, contudo, nunca a sua glória divina foi tão manifestada, por qualquer ato seu, como ao entregar-se a esses sofrimentos. Quando o fruto disso veio a aparecer, e o mistério e os fins disso vieram a desdobrar-se em seu resultado, então apareceu a glória disso, então apareceu como o mais glorioso ato de Cristo que ele jamais exerceu para com a criatura. Este ato seu é celebrado pelos anjos e pelas hostes do céu com louvores peculiares, como aquele que, acima de todos os outros, é glorioso, como se pode ver no contexto (Apocalipse 5:9-12): “E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus, de toda tribo, e língua, e povo, e nação; e para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra. E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos; e o número deles era milhares de milhares, e milhões de milhões, dizendo em alta voz: Digno é o Cordeiro que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.

Nunca, em ato algum, ele deu tão grande manifestação de amor a Deus, e, contudo, nunca tanto manifestou o seu amor àqueles que eram inimigos de Deus, como naquele ato.

Cristo nunca fez coisa alguma pela qual o seu amor ao Pai fosse tão eminentemente manifestado, como ao entregar a sua vida, sob sofrimentos tão inexprimíveis, em obediência ao seu mandamento e para a vindicação da honra de sua autoridade e majestade; nem jamais mera criatura alguma deu tal testemunho de amor a Deus como aquele.

E, contudo, esta foi a maior expressão do seu amor aos homens pecadores, que eram inimigos de Deus. Rm 5:10: “Quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho.” A grandeza do amor de Cristo por tais não aparece em nada tanto como no fato de ser um amor que morre. Aquele sangue de Cristo, que caiu em grandes gotas ao chão, em sua agonia, foi derramado por amor aos inimigos de Deus, e aos seus próprios. Aquela vergonha e aqueles cuspes, aquele tormento do corpo, e aquela imensa tristeza, até a morte, que ele suportou na alma, foi o que padeceu por amor aos rebeldes contra Deus, para salvá-los do inferno e adquirir para eles a glória eterna. Nunca Cristo tão eminentemente mostrou o seu respeito pela honra de Deus, como ao oferecer-se a si mesmo como vítima à Justiça. E, contudo, nisto acima de tudo, ele manifestou o seu amor por aqueles que desonravam a Deus, a ponto de trazerem sobre si tal culpa, que nada menos do que o seu sangue poderia expiá-la.

Cristo nunca tão eminentemente apareceu em favor da justiça divina, e, contudo, nunca sofreu tanto da justiça divina, como quando se ofereceu a si mesmo como sacrifício pelos nossos pecados.

Nos grandes sofrimentos de Cristo apareceu, de modo distintivo, o seu infinito respeito pela honra da justiça de Deus, pois foi por respeito a ela que assim se humilhou.

E, contudo, nesses sofrimentos, Cristo foi o alvo das expressões vingadoras daquela mesma justiça de Deus. A justiça vingadora então lançou sobre ele toda a sua força, por causa da nossa culpa; o que o fez suar sangue, e clamar sobre a cruz, e provavelmente dilacerou as suas entranhas — rompeu o seu coração, a fonte do sangue, ou algum outro vaso sanguíneo — e, pela violenta fermentação, converteu o seu sangue em água. Pois o sangue e a água que saíram do seu lado, quando traspassado pela lança, parecem ter sido sangue extravasado, e assim pode ter havido uma espécie de cumprimento literal do Sl 22:14: “Sou derramado como água, e todos os meus ossos estão desconjuntados; o meu coração é como cera, derreteu-se dentro de mim.” E este foi o modo e o meio pelo qual Cristo se levantou em favor da honra da justiça de Deus, a saber, padecendo assim as suas terríveis execuções. Pois, tendo-se ele comprometido pelos pecadores, e substituído a si mesmo no lugar deles, a justiça divina não podia ter a sua devida honra de outro modo senão pelo padecer dele das suas vinganças.

Nisto apareceram as diversas excelências que se encontraram na pessoa de Cristo, a saber, o seu infinito respeito pela justiça de Deus, e tal amor por aqueles que a si mesmos se expuseram a ela, que o induziu a entregar-se assim como sacrifício a ela.

A santidade de Cristo nunca resplandeceu tão ilustremente como o fez em seus últimos sofrimentos, e, contudo, nunca ele foi, em tal grau, tratado como culpado.

A santidade de Cristo nunca teve tal prova como teve então, e por isso nunca teve tão grande manifestação. Quando foi provada nessa fornalha, saiu como ouro, ou como prata purificada sete vezes. A sua santidade então, acima de tudo, apareceu em sua firme busca da honra de Deus, e em sua obediência a ele. Pois o entregar-se ele à morte foi, de modo transcendente, o maior ato de obediência que já foi prestado a Deus por alguém desde a fundação do mundo.

E, contudo, então Cristo foi, no mais alto grau, tratado como teria sido tratada uma pessoa perversa. Foi preso e amarrado como um malfeitor. Os seus acusadores o representaram como o mais perverso miserável. Em seus sofrimentos, antes de sua crucificação, foi tratado como se fora o pior e o mais vil da humanidade; e então foi submetido a um tipo de morte que somente os malfeitores da pior espécie costumavam sofrer, aqueles que eram os mais abjetos em sua condição, e culpados dos crimes mais negros. E ele sofreu como que culpado da parte do próprio Deus, em razão da nossa culpa a ele imputada; pois aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós; foi feito sujeito à ira, como se ele mesmo fosse pecador. Foi feito maldição por nós.

Cristo nunca manifestou tão grandemente o seu ódio ao pecado, como contra Deus, como ao morrer para tirar a desonra que o pecado havia feito a Deus; e, contudo, nunca esteve, em tal grau, sujeito aos terríveis efeitos do ódio de Deus ao pecado, e da sua ira contra ele, como esteve então. Nisto aparecem aquelas diversas excelências que se encontram em Cristo, a saber, o amor a Deus e a graça para com os pecadores.

Ele nunca foi tratado como indigno, como em seus últimos sofrimentos, e, contudo, é principalmente por causa deles que é tido por digno.

Ali foi tratado como se não fosse digno de viver: eles clamam: “Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o!Jo 19:15. E preferem Barrabás a ele. E ele sofreu da parte do Pai como alguém cujos merecimentos fossem infinitos, em razão dos nossos merecimentos que sobre ele foram lançados.

E, contudo, foi especialmente por aquele ato de submeter-se a esses sofrimentos que ele mereceu, e por causa do qual, principalmente, foi tido por digno da glória de sua exaltação. Fp 2:8,9: “Humilhou-se a si mesmo, e foi obediente até a morte; por isso também Deus o exaltou soberanamente.” E vemos que é principalmente por esta razão que ele é exaltado como digno pelos santos e anjos no contexto: “Digno,” dizem eles, “é o Cordeiro que foi morto.” Isto mostra nele uma admirável conjunção de infinita dignidade, e de infinita condescendência e amor para com os infinitamente indignos.

Cristo, em seus últimos sofrimentos, sofreu do modo mais extremo da parte daqueles para com quem então manifestava o seu maior ato de amor.

Ele nunca sofreu tanto da parte de seu Pai (ainda que não por qualquer ódio a ele, mas por ódio aos nossos pecados), pois então o abandonou, ou lhe retirou os confortos de sua presença; e então “agradou ao Senhor esmagá-lo, e o fez sofrer,” como em Is 53:10. E, contudo, ele nunca deu tão grande manifestação de amor a Deus como então, conforme já se observou.

Assim também Cristo nunca sofreu tanto das mãos dos homens como sofreu então; e, contudo, nunca esteve em tão alto exercício de amor aos homens. Nunca foi tão maltratado por seus discípulos; que estavam tão despreocupados com os seus sofrimentos, que não quiseram velar com ele uma só hora, em sua agonia; e, quando foi preso, todos o abandonaram e fugiram, exceto Pedro, que o negou com juramentos e maldições. E, contudo, então ele estava sofrendo, derramando o seu sangue e entregando a sua alma à morte por eles. Sim, ele provavelmente estava então derramando o seu sangue por alguns daqueles que derramaram o seu sangue, por quem orou enquanto o crucificavam; e que provavelmente foram depois trazidos a Cristo pela pregação de Pedro. (Comparar Lc 23:34; At 2:23,36,37,41; e cap. 3:17; e cap. 4.) Isto mostra um admirável encontro de justiça e graça na redenção de Cristo.

Foi nos últimos sofrimentos de Cristo, acima de tudo, que ele foi entregue ao poder de seus inimigos; e, contudo, foi por estes, acima de tudo, que ele obteve vitória sobre os seus inimigos.

Cristo nunca esteve tanto nas mãos de seus inimigos como no tempo de seus últimos sofrimentos. Antes buscavam a sua vida; mas, de tempos em tempos, eram refreados, e Cristo escapava de suas mãos, e esta é a razão que se dá para isso: que o seu tempo ainda não havia chegado. Mas agora foi-lhes permitido cumprir a sua vontade sobre ele; ele foi, em grande medida, entregue à malícia e à crueldade tanto dos homens perversos quanto dos demônios. E por isso, quando os inimigos de Cristo vieram prendê-lo, ele lhes diz, Lc 22:53: “Quando eu estava convosco todos os dias no templo, não estendestes as mãos contra mim; mas esta é a vossa hora, e o poder das trevas.

E, contudo, foi principalmente por meio daqueles sofrimentos que ele venceu e derrubou os seus inimigos. Cristo nunca tão eficazmente esmagou a cabeça de Satanás como quando Satanás lhe feriu o calcanhar. A arma com que Cristo guerreou contra o diabo, e obteve sobre ele a mais completa vitória e o mais glorioso triunfo, foi a cruz — o instrumento e a arma com que o diabo pensou ter derrubado a Cristo, e trazido sobre ele vergonhosa destruição. Cl 2:14,15: “Riscando o escrito de dívida das ordenanças, — cravando-o na sua cruz; e, despojando os principados e as potestades, expô-los publicamente ao escárnio, triunfando sobre eles nela.” Em seus últimos sofrimentos, Cristo abalou os próprios fundamentos do reino de Satanás; venceu os seus inimigos nos seus próprios territórios, e os feriu com as suas próprias armas, assim como Davi cortou a cabeça de Golias com a própria espada dele. O diabo tinha, por assim dizer, engolido a Cristo, como a baleia engoliu a Jonas — mas ele lhe foi veneno mortal; deu-lhe uma ferida mortal nas próprias entranhas. Logo ficou enjoado do seu bocado, e foi forçado a fazer com ele como a baleia fez com Jonas. Até o dia de hoje está enjoado do que então engoliu como sua presa. Naqueles sofrimentos de Cristo foi lançado o fundamento de toda aquela gloriosa vitória que ele já obteve sobre Satanás, na derrubada do seu reino pagão no império romano, e de todo o êxito que o evangelho teve desde então; e também de toda a sua futura e ainda mais gloriosa vitória, que há de ser obtida na terra. Assim, o enigma de Sansão é do modo mais eminente cumprido, Jz 14:14: “Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura.” E assim o verdadeiro Sansão faz mais para a destruição de seus inimigos em sua morte do que em sua vida; ao entregar-se à morte, ele derruba o templo de Dagom, e destrói muitos milhares de seus inimigos, mesmo enquanto eles se divertiam com os seus sofrimentos — e assim aquele cujo tipo era a arca derruba a Dagom, e lhe quebra a cabeça e as mãos no seu próprio templo, mesmo enquanto é ali introduzido como cativo de Dagom. (1 Samuel 5:1-4)

Assim, Cristo apareceu, ao mesmo tempo e no mesmo ato, como Leão e como Cordeiro. Apareceu como um cordeiro nas mãos de seus cruéis inimigos; como um cordeiro nas garras, e entre as devoradoras mandíbulas, de um leão que ruge; sim, ele foi um cordeiro realmente morto por este leão; e, contudo, ao mesmo tempo, como o Leão da tribo de Judá, ele vence e triunfa sobre Satanás, destruindo o seu próprio destruidor, assim como Sansão fez ao leão que rugiu contra ele, quando o rasgou como se fosse um cabrito. E em nada Cristo apareceu tanto como um leão, em gloriosa força a destruir os seus inimigos, como quando foi levado como um cordeiro ao matadouro. Em sua maior fraqueza, foi o mais forte; e, quando mais sofreu de seus inimigos, maior confusão trouxe sobre eles.

Assim, essa admirável conjunção de diversas excelências foi manifesta em Cristo, ao oferecer-se a si mesmo a Deus em seus últimos sofrimentos.

D) Ela ainda é manifesta em seus atos, em seu presente estado de exaltação no céu. Na verdade, em seu estado exaltado, ele aparece do modo mais eminente na manifestação daquelas excelências, em razão das quais é comparado a um leão; mas ainda assim aparece como um cordeiro. Ap 14:1: “E olhei, e eis um Cordeiro em pé sobre o monte Sião.” Assim como, em seu estado de humilhação, apareceu principalmente como um cordeiro, e, contudo, não apareceu sem manifestação de sua majestade e poder divinos, como o Leão da tribo de Judá. Ainda que Cristo esteja agora à direita de Deus, exaltado como Rei do céu e Senhor do universo, contudo, visto que ainda está na natureza humana, ele ainda sobressai em humildade. Ainda que o homem Cristo Jesus seja o mais alto de todas as criaturas no céu, contudo ele as excede a todas tanto em humildade quanto em glória e dignidade, pois ninguém vê tanto quanto ele a distância entre Deus e ele. E, ainda que agora apareça em tão gloriosa majestade e domínio no céu, contudo aparece como um cordeiro em seu condescendente, brando e doce trato com os seus santos ali, pois ele ainda é um Cordeiro, mesmo em meio ao trono de sua exaltação; e aquele que é o Pastor de todo o rebanho é ele mesmo um Cordeiro, e como tal vai adiante deles no céu. Ap 7:17: “Pois o Cordeiro, que está no meio do trono, os apascentará, e os guiará às fontes das águas da vida; e Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima.” Ainda que no céu todo joelho se dobre diante dele, e ainda que os anjos se prostrem diante dele adorando-o, contudo ele trata os seus santos com infinita condescendência, brandura e ternura. E, em seus atos para com os santos na terra, ele ainda aparece como um cordeiro, manifestando excelente amor e ternura em sua intercessão por eles, como alguém que teve experiência de aflição e tentação. Não se esqueceu do que estas coisas são, nem se esqueceu de como compadecer-se dos que a elas estão sujeitos. E ele ainda manifesta as suas excelências de cordeiro, em seu trato com os seus santos na terra, em admirável tolerância, amor, gentileza e compaixão. Vede-o instruindo, suprindo, sustentando e consolando-os; vindo muitas vezes a eles, e manifestando-se a eles pelo seu Espírito, para que ceie com eles, e eles com ele. Vede-o admitindo-os a doce comunhão, capacitando-os a virem a ele com ousadia e confiança, e alegrando os seus corações. E, no céu, Cristo ainda aparece, por assim dizer, com as marcas de suas feridas sobre ele, e assim aparece como um Cordeiro como se tivesse sido morto, tal como foi representado em visão a São João, no texto, quando apareceu para abrir o livro selado com sete selos, o que faz parte da glória de sua exaltação.

E) E, por fim, essa admirável conjunção de excelências será manifesta nos atos de Cristo no juízo final.

Ele então, acima de todos os outros tempos, aparecerá como o Leão da tribo de Judá, em infinita grandeza e majestade, quando vier na glória de seu Pai, com todos os santos anjos, e a terra tremer diante dele, e os montes se derreterem. Este é aquele (Ap 20:11) “que se assentará sobre um grande trono branco, de cuja face fugirão a terra e o céu.” Ele então aparecerá do modo mais terrível e assombroso aos ímpios. Os demônios tremem só de pensar naquela aparição; e, quando ela suceder, os reis, e os grandes, e os ricos, e os comandantes, e os poderosos, e todo escravo e todo livre, se esconderão nas cavernas e nas rochas dos montes, e clamarão aos montes e às rochas que caiam sobre eles, para escondê-los da face e da ira do Cordeiro. E ninguém pode declarar ou conceber as assombrosas manifestações de ira com que ele então aparecerá para com estes, ou o tremor e o pasmo, os gritos e o ranger de dentes, com que estarão diante do seu tribunal, e receberão a terrível sentença da sua ira.

E, contudo, ele, ao mesmo tempo, aparecerá como um Cordeiro para os seus santos; recebê-los-á como amigos e irmãos, tratando-os com infinita brandura e amor. Não haverá nele nada de terrível para eles, mas, para com eles, revestir-se-á inteiramente de doçura e ternura. A Igreja será então admitida a ele como sua noiva; aquele será o seu dia de núpcias. Os santos serão todos docemente convidados a virem com ele herdar o reino, e a reinar nele com ele por toda a eternidade.

Parte Três

A) Desta doutrina podemos aprender uma razão pela qual Cristo é chamado por tão grande variedade de nomes, e apresentado sob tão grande variedade de representações, na Escritura. É para melhor significar e exibir-nos aquela variedade de excelências que se encontram reunidas e conjugadas nele. Muitas designações são mencionadas juntas num só versículo, Is 9:6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será chamado Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” Mostra uma maravilhosa conjunção de excelências que a mesma pessoa seja um Filho, nascido e dado, e, contudo, seja o Pai da Eternidade, sem princípio nem fim; que seja um Menino, e, contudo, seja aquele cujo nome é Conselheiro e Deus Forte; e bem pode o seu nome, em quem tais coisas se conjugam, ser chamado Maravilhoso.

Em razão da mesma maravilhosa conjunção, Cristo é representado por uma grande variedade de coisas sensíveis, que são, sob algum aspecto, excelentes. Assim, em alguns lugares é chamado de Sol, como em Ml 4:2; em outros, de Estrela, Nm 24:17. E é especialmente representado pela Estrela da Manhã, por ser aquela que excede todas as outras estrelas em brilho, e é a precursora do dia, Ap 22:16. E, assim como em nosso texto ele é comparado a um leão num versículo, e a um cordeiro no seguinte, assim também às vezes é comparado a uma corça ou a um cervo novo, outra criatura muito diversa de um leão. Assim, em alguns lugares é chamado de rocha; em outros, é comparado a uma pérola. Em alguns lugares é chamado de homem de guerra e Capitão da nossa Salvação; em outros lugares é representado como um noivo. No segundo capítulo dos Cânticos, no primeiro versículo, é comparado a uma rosa e a um lírio, que são flores doces e belas; no versículo seguinte a esse, é comparado a uma árvore que dá fruto doce. Em Is 53:2 é chamado de Raiz de uma terra seca; mas, em outro lugar, em vez disso, é chamado de Árvore da Vida, que cresce (não numa terra seca ou estéril, mas) “no meio do paraíso de Deus.” Ap 2:7. B) Que a consideração deste maravilhoso encontro de diversas excelências em Cristo vos induza a aceitá-lo, e a unir-vos a ele como vosso Salvador. Assim como toda espécie de excelências se encontra nele, também concorrem nele toda espécie de argumentos e motivos para vos mover a escolhê-lo como vosso Salvador, e tudo o que tende a encorajar os pobres pecadores a virem e porem nele a sua confiança: a sua plenitude e toda a sua suficiência como Salvador gloriosamente aparecem naquela variedade de excelências de que se falou.

O homem caído está em estado de excessiva miséria, e nele se acha desamparado; é uma pobre criatura fraca, como uma criança lançada em seu sangue no dia em que nasce. Mas Cristo é o Leão da tribo de Judá; ele é forte, ainda que sejamos fracos; ele prevaleceu para fazer por nós o que nenhuma outra criatura poderia fazer. O homem caído é uma criatura vil e desprezível, um verme desprezível; mas Cristo, que se comprometeu por nós, é infinitamente honroso e digno. O homem caído está poluído, mas Cristo é infinitamente santo; o homem caído é odioso, mas Cristo é infinitamente amável; o homem caído é objeto da indignação de Deus, mas Cristo lhe é infinitamente caro. Provocamos terrivelmente a Deus, mas Cristo realizou aquela justiça que é infinitamente preciosa aos olhos de Deus.

E aqui não há apenas infinita força e infinita dignidade, mas infinita condescendência, e amor e misericórdia, tão grandes quanto o poder e a dignidade. Se és um pobre pecador angustiado, cujo coração está prestes a desfalecer, com medo de que Deus nunca tenha misericórdia de ti, não precisas ter medo de ir a Cristo, receoso de que ele seja incapaz ou pouco disposto a ajudar-te. Aqui há um firme fundamento, e um tesouro inesgotável, para atender às necessidades da tua pobre alma; e aqui há infinita graça e gentileza para convidar e encorajar uma pobre, indigna e temerosa alma a vir a ele. Se Cristo te aceita, não precisas temer senão que estarás seguro, pois ele é um forte Leão para a tua defesa. E, se vieres, não precisas temer senão que serás aceito; pois ele é como um Cordeiro para todos os que vêm a ele, e os recebe com infinita graça e ternura. É verdade que ele tem terrível majestade — é o grande Deus, e infinitamente elevado acima de ti; mas há isto para encorajar e animar o pobre pecador: que Cristo é homem tanto quanto Deus; é criatura tanto quanto Criador, e é o mais humilde e manso de coração de qualquer criatura no céu ou na terra. Isto bem pode tornar ousada a pobre e indigna criatura em vir a ele. Não precisas hesitar um só momento, mas podes correr a ele, e lançar-te sobre ele. Certamente serás por ele recebido com graça e mansidão. Ainda que seja um leão, ele só será um leão para os teus inimigos, mas será um cordeiro para ti. Não se poderia ter concebido, se não fosse assim na pessoa de Cristo, que pudesse haver em algum Salvador tanto que seja convidativo e que tenda a encorajar os pecadores a confiarem nele. Sejam quais forem as tuas circunstâncias, não precisas ter medo de vir a um tal Salvador como este. Por mais perversa criatura que sejas, aqui há dignidade suficiente; por mais pobre, humilde e ignorante criatura que sejas, não há perigo de seres desprezado, pois, embora ele seja tão maior do que tu, é também imensamente mais humilde do que tu. Qualquer um de vós que seja pai ou mãe não desprezará um de vossos próprios filhos que venha a vós em aflição; muito menos perigo há de que Cristo te despreze, se, de coração, vieres a ele. Aqui deixai-me raciocinar um pouco com a pobre alma sobrecarregada e angustiada.

De que tens medo, que não ousas confiar a tua alma a Cristo? Tens medo de que ele não te possa salvar, de que não seja forte o bastante para vencer os inimigos da tua alma? Mas como podes desejar alguém mais forte do que “o Deus Forte”? — como Cristo é chamado, Is 9:6. Haverá necessidade de alguém maior do que a força infinita? Tens medo de que ele não esteja disposto a abaixar-se tanto a ponto de tomar de ti algum gracioso conhecimento? Então olha para ele, como esteve no círculo dos soldados, expondo a sua bendita face a ser esbofeteada e cuspida por eles! Vede-o amarrado, com as costas descobertas àqueles que o feriam! E vede-o pendente na cruz! Pensas que aquele que teve condescendência bastante para abaixar-se a essas coisas, e isso por seus crucificadores, estará pouco disposto a aceitar-te, se vieres a ele? Ou tens medo de que, se ele te aceitar, Deus, o Pai, não o aceite em teu favor? Mas considera: rejeitará Deus o seu próprio Filho, em quem está, e tem estado, o seu infinito deleite, desde toda a eternidade, e que a ele está tão unido, que, se o rejeitasse, rejeitaria a si mesmo?

Que há que possas desejar que esteja num Salvador, e que não esteja em Cristo? Ou em que desejarias que um Salvador fosse diferente do que Cristo é? Que excelência falta? Que há de grande ou de bom; que há de venerável ou de cativante; que há de adorável ou de enternecedor; ou que podes imaginar que fosse encorajador, que não se ache na pessoa de Cristo? Quererias que o teu Salvador fosse grande e honroso, por não estares disposto a ficar em dívida com uma pessoa humilde? E não é Cristo uma pessoa suficientemente honrosa para ser digna de que dependas dele? Não é uma pessoa suficientemente elevada para ser designada a uma obra tão honrosa como a tua salvação? Não quererias apenas um Salvador de alto grau, mas o quererias, não obstante a sua exaltação e dignidade, feito também de baixo grau, para que tivesse experiência de aflições e provações, para que aprendesse, pelas coisas que sofreu, a compadecer-se dos que sofrem e são tentados? E não foi Cristo feito suficientemente baixo por ti? E não sofreu ele o bastante? Não quererias apenas que ele tivesse experiência das aflições que agora sofres, mas também daquela assombrosa ira que temes para o futuro, para que soubesse compadecer-se dos que estão em perigo dela, e dela têm medo? Disto Cristo teve experiência, a qual lhe deu um senso dela mil vezes maior do que o que tu tens, ou do que qualquer homem vivo tem. Quererias que o teu Salvador fosse alguém próximo de Deus, para que a sua mediação fosse prevalecente junto a ele? E podes desejá-lo mais próximo de Deus do que Cristo é, que é o seu Filho unigênito, da mesma essência do Pai? E não o quererias apenas próximo de Deus, mas também próximo de ti, para que tivesses livre acesso a ele? E o quererias mais próximo de ti do que estar na mesma natureza, unido a ti por uma união espiritual, tão estreita que possa ser adequadamente representada pela união da esposa com o marido, do ramo com a videira, do membro com a cabeça; sim, a ponto de ser um só espírito? Pois assim ele estará unido a ti, se o aceitares. Quererias um Salvador que houvesse dado algum grande e extraordinário testemunho de misericórdia e amor aos pecadores, por algo que tenha feito, e não apenas pelo que diz? E podes pensar ou conceber coisas maiores do que Cristo fez? Não foi grande coisa, para ele, que era Deus, tomar sobre si a natureza humana — ser não apenas Deus, mas homem, dali em diante por toda a eternidade? Mas não considerarias o padecer pelos pecadores um testemunho de amor aos pecadores ainda maior do que o mero fazer, por mais extraordinária que seja a coisa que ele fez? E desejarias que um Salvador padecesse mais do que Cristo padeceu pelos pecadores? Que falta, ou que acrescentarias, se pudesses, para torná-lo mais apto a ser o teu Salvador?

Quão grandemente Cristo aparece como o Cordeiro de Deus em seus convites para que venhas a ele e nele confies! Com que doce graça e bondade ele, de tempos em tempos, te chama e te convida, como em Pv 8:4: “A vós, ó homens, clamo, e a minha voz se dirige aos filhos dos homens.” E Is 55:1-3: “Ó, todos vós que tendes sede, vinde às águas; e vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei — sim, vinde, comprai vinho e leite sem dinheiro e sem preço.” Quão gracioso é ele aqui, ao convidar todo aquele que tem sede, e ao repetir o seu convite vezes e vezes: “Vinde às águas; vinde, comprai e comei — sim, vinde!” Nota a excelência daquele banquete que ele te convida a aceitar: “Vinde, comprai vinho e leite!” A tua pobreza, não tendo com que pagá-lo, não será objeção: “Vinde, ó que não tendes dinheiro; vinde sem dinheiro e sem preço!” Que graciosos argumentos e exortações ele usa contigo! “Por que gastais dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso trabalho naquilo que não satisfaz? Ouvi-me com atenção, e comei o que é bom, e deleite-se a vossa alma com a fartura.” Como quem diz: É de todo desnecessário que continueis a labutar e a afadigar-vos por aquilo que jamais vos poderá servir, buscando descanso no mundo e na vossa própria justiça — eu fiz abundante provisão para vós, daquilo que é realmente bom, e que plenamente satisfará os vossos desejos, e alcançará o vosso fim, e estou pronto a aceitar-vos: não precisais ter medo; se vierdes a mim, comprometo-me a ver todas as vossas faltas supridas, e a vós tornados criaturas felizes. Como ele promete no terceiro versículo: “Inclinai o vosso ouvido, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; e farei convosco uma aliança eterna, as firmes misericórdias de Davi.” E assim também em Pv 9, no início. Quão gracioso e doce é o convite ali! “Quem é simples, volte-se para cá;” por mais pobre, ignorante e cega criatura que sejas, serás bem-vinda. E, nas palavras seguintes, Cristo expõe a provisão que fez para ti: “Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que misturei.” Estás em pobre e faminto estado, e nada tens com que alimentar a tua alma que perece; tens buscado algo, mas permaneces destituída. Ouve como Cristo te chama a comer do seu pão, e a beber do vinho que ele misturou! E quão semelhante a um cordeiro Cristo aparece em Mt 11:28-30: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas; porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Ó pobre alma angustiada! quem quer que sejas, considera que Cristo menciona o teu próprio caso, quando chama os que estão cansados e sobrecarregados! Como ele repetidamente te promete descanso, se vieres a ele! No versículo 28 diz: “eu vos aliviarei.” E no versículo 29: “achareis descanso para as vossas almas.” É disto que precisas. Esta é a coisa que há tanto tempo tens buscado em vão. Ó, quão doce seria para ti o descanso, se ao menos o pudesses obter! Vem a Cristo, e o obterás. E ouve como Cristo, para te encorajar, se representa como um cordeiro! Ele te diz que é manso e humilde de coração; e tens medo de vir a um tal? E ainda, Ap 3:20: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele, e ele comigo.” Cristo condescende não só em chamar-te a si, mas ele vem a ti; vem à tua porta, e ali bate. Poderia enviar um oficial e prender-te como um rebelde e vil malfeitor, mas, em vez disso, vem e bate à tua porta, e busca que o recebas em tua casa, como teu Amigo e Salvador. E não só bate à tua porta, mas ali fica esperando, enquanto tu estás relutante e pouco disposta. E não só isso, mas faz promessas do que fará por ti, se o admitires, dos privilégios a que te admitirá; ceará contigo, e tu com ele. E ainda, Ap 22:16,17: “Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã. E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida.” Como Cristo aqui graciosamente põe diante de ti a sua própria cativante e atraente excelência! E como ele condescende em declarar-te não apenas o seu próprio convite, mas o convite do Espírito e da esposa, para, por algum meio, encorajar-te a vir! E como ele convida todo aquele que quiser, para que “tome de graça da água da vida,” para que a tome como dádiva gratuita, por mais preciosa que seja, ainda que seja a Água da vida.

Se de fato vieres a Cristo, ele aparecerá como um Leão, em seu glorioso poder e domínio, para te defender. Todas aquelas excelências suas, nas quais aparece como leão, serão tuas, e serão empregadas por ti, em tua defesa, para a tua segurança, e para promover a tua glória; ele será como um leão a lutar contra os teus inimigos. Aquele que te tocar, ou te ofender, provocará a sua ira, como quem incita um leão. A menos que os teus inimigos possam vencer este Leão, não poderão destruir-te ou ferir-te; a menos que sejam mais fortes do que ele, não poderão impedir a tua felicidade. Is 31:4: “Pois assim me disse o Senhor: Como o leão e o leãozinho rugem sobre a sua presa, quando se convoca contra ele uma multidão de pastores, e não se intimida com a voz deles, nem se abate pelo seu ruído; assim o Senhor dos Exércitos descerá para pelejar sobre o monte Sião e sobre o seu outeiro.

C) Que o que foi dito seja aproveitado para vos induzir a amar o Senhor Jesus Cristo, e a escolhê-lo como vosso amigo e porção. Assim como há nele tão admirável encontro de diversas excelências, também há nele tudo para torná-lo digno do vosso amor e da vossa escolha, e para conquistá-los e prendê-los. Tudo o que há, ou pode haver, de desejável num amigo, está em Cristo, e isso no mais alto grau que se possa desejar.

Escolherias para amigo uma pessoa de grande dignidade? É coisa que agrada aos homens ter por amigos aqueles que estão muito acima deles, porque se consideram honrados pela amizade de tais. Assim, quão agradável seria a uma humilde criada ser objeto do caro amor de algum grande e excelente príncipe. Mas Cristo está infinitamente acima de ti, e acima de todos os príncipes da terra, pois é o Rei dos reis. Uma pessoa tão honrosa como esta se te oferece, na mais próxima e mais cara amizade.

E não escolherias um amigo não apenas grande, mas bom? Em Cristo a infinita grandeza e a infinita bondade se encontram, e recebem lustre e glória uma da outra. A sua grandeza é tornada amável pela sua bondade. Quanto maior é alguém sem bondade, tanto maior é o mal; mas, quando a infinita bondade se une à grandeza, torna-a uma grandeza gloriosa e adorável. Assim, por outro lado, a sua infinita bondade recebe lustre da sua grandeza. Aquele que é de grande entendimento e capacidade, e é, além disso, de disposição boa e excelente, é merecidamente mais estimado do que um ser inferior e menor com a mesma espécie de inclinação bondosa e boa vontade. De fato, a bondade é excelente em qualquer sujeito em que se ache; é a própria beleza e excelência, e torna excelentes todos os que a possuem; e, contudo, é a mais excelente quando unida à grandeza. As mesmíssimas qualidades excelentes do ouro tornam o corpo em que estão presentes mais precioso, e de maior valor, quando unidas a maiores dimensões do que quando a menores. E quão gloriosa é a visão de ver aquele que é o grande Criador e supremo Senhor do céu e da terra cheio de condescendência, de terna piedade e misericórdia, para com os humildes e indignos! O seu poder onipotente, e a sua infinita majestade e autossuficiência, tornam o seu excessivo amor e graça tanto mais surpreendentes. E como a sua condescendência e compaixão tornam querida a sua majestade, poder e domínio, e tornam agradáveis aqueles atributos que, de outro modo, só seriam terríveis! Não desejarias que o teu amigo, ainda que grande e honroso, fosse de tal condescendência e graça, e que assim se abrisse o caminho para o livre acesso a ele, de modo que a sua exaltação acima de ti não impedisse o teu livre gozo de sua amizade? — E não desejarias apenas que a infinita grandeza e majestade do teu amigo fossem, por assim dizer, abrandadas e adoçadas com condescendência e graça, mas desejarias também ter o teu amigo trazido para mais perto de ti? Escolherias um amigo muito acima de ti, e, contudo, por assim dizer, também no teu nível? Ainda que agrade aos homens ter um próximo e caro amigo de dignidade superior, há também neles uma inclinação a ter o seu amigo como partícipe de suas circunstâncias. Assim é Cristo. Ainda que seja o grande Deus, ele, por assim dizer, abaixou-se a si mesmo para estar no teu nível, a ponto de tornar-se homem como tu, para que pudesse ser não apenas o teu Senhor, mas o teu irmão, e para que fosse tanto mais apto a ser companheiro para um tal verme do pó. Este é um dos fins de Cristo ao tomar sobre si a natureza do homem: que o seu povo tivesse vantagens para um convívio mais familiar com ele do que a infinita distância da natureza divina permitiria. E por esta razão a Igreja ansiava pela encarnação de Cristo, Ct 8:1: “Ah, quem me dera que fosses meu irmão, que mamou os seios de minha mãe! Quando eu te encontrasse na rua, eu te beijaria, e não seria desprezada.” Um dos desígnios de Deus no evangelho é levar-nos a fazer de Deus o objeto do nosso indiviso respeito, para que ele absorva a nossa consideração sob todos os aspectos, para que, qualquer que seja a inclinação natural que haja em nossas almas, ele seja o seu centro; para que Deus seja tudo em todos. Mas há na criatura uma inclinação, não apenas à adoração de um Senhor e Soberano, mas ao comprazimento em alguém como amigo, ao amar e deleitar-se em alguém com quem se possa conviver como com um companheiro. E a virtude e a santidade não destroem nem enfraquecem essa inclinação da nossa natureza. Mas assim ordenou Deus, no assunto da nossa redenção, que uma pessoa divina possa ser o objeto até desta inclinação da nossa natureza. E, para isso, um tal veio a nós, e tomou a nossa natureza, e tornou-se um de nós, e chama a si mesmo nosso amigo, irmão e companheiro. Sl 122:8: “Por amor de meus irmãos e companheiros, direi agora: Haja paz em ti.

Mas não basta, para convidar-te e encorajar-te ao livre acesso a um amigo tão grande e elevado, que ele seja alguém de infinita e condescendente graça, e que também tenha tomado a tua própria natureza, e se tenha feito homem? Mas quererias, para ainda mais te animar e conquistar, que ele fosse um homem de maravilhosa mansidão e humildade? Ora, um tal é Cristo! Ele não só se fez homem por ti, mas de longe o mais manso e humilde de todos os homens, o maior exemplo dessas doces virtudes que jamais houve ou haverá. E, além destas, tem todas as demais excelências humanas na mais alta perfeição. Estas, na verdade, não são propriamente um acréscimo às suas excelências divinas. Cristo não tem, em sua pessoa, mais excelência, desde a sua encarnação, do que tinha antes; pois a excelência divina é infinita, e a ela nada se pode acrescentar. Contudo, as suas excelências humanas são manifestações adicionais de sua glória e excelência para nós, e são recomendações adicionais dele à nossa estima e amor, a nós, que somos de finita compreensão. Ainda que as suas excelências humanas sejam apenas comunicações e reflexos das suas divinas, e ainda que esta luz, refletida, fique infinitamente aquém da divina fonte de luz em sua glória imediata, contudo o reflexo não brilha sem as suas próprias vantagens, quando apresentado à nossa vista e afeição. A glória de Cristo, nas qualificações de sua natureza humana, aparece-nos em excelências que são do nosso próprio gênero, e são exercidas ao nosso próprio modo e maneira, e assim, sob certo aspecto, são peculiarmente aptas a convidar o nosso conhecimento e atrair a nossa afeição. A glória de Cristo, tal como aparece em sua divindade, embora muito mais brilhante, mais deslumbra os nossos olhos, e excede a força da nossa vista ou da nossa compreensão; mas, tal como brilha nas excelências humanas de Cristo, é trazida mais ao nível das nossas concepções, e à conveniência da nossa natureza e maneira, retendo, contudo, uma semelhança da mesma beleza divina, e um sabor da mesma doçura divina. Mas, como tanto as excelências divinas quanto as humanas se encontram em Cristo, elas se realçam e se recomendam uma à outra para nós. Contribui para nos tornar querida a majestade e a santidade divinas de Cristo o fato de serem atributos de alguém que está na nossa natureza, um de nós, que se tornou nosso irmão, e é o mais manso e humilde dos homens. Isso nos encoraja a olhar para essas perfeições divinas, por mais altas e grandes que sejam, visto que nelas temos alguma íntima parte e liberdade de gozá-las livremente. E, por outro lado, quão mais gloriosas e surpreendentes aparecem a mansidão, a humildade, a obediência, a resignação, e as demais excelências humanas de Cristo, quando consideramos que estão em pessoa tão grande, como o eterno Filho de Deus, o Senhor do céu e da terra!

Ao escolheres a Cristo como teu amigo e porção, obterás estes dois infinitos benefícios.

Cristo dar-se-á a ti mesmo, com todas aquelas várias excelências que nele se encontram, para o teu pleno e eterno gozo. Ele te tratará dali por diante como seu caro amigo; e, dentro em pouco, estarás onde ele está, e contemplarás a sua glória, e habitarás com ele, na mais livre e íntima comunhão e gozo.

Quando os santos chegarem ao céu, não apenas verão a Cristo, e terão com ele algo a tratar como súditos e servos com um glorioso e gracioso Senhor e Soberano, mas Cristo os acolherá como amigos e irmãos. Isto podemos aprender do modo do convívio de Cristo com os seus discípulos aqui na terra: ainda que fosse o seu soberano Senhor, e não recusasse, mas exigisse, o seu supremo respeito e adoração, contudo não os tratava como os soberanos terrenos costumam tratar os seus súditos. Não os mantinha a uma temível distância, mas o tempo todo convivia com eles com a mais amistosa familiaridade, como um pai entre um grupo de filhos, sim, como com irmãos. Assim fez com os doze, e assim fez com Maria, Marta e Lázaro. Disse aos seus discípulos que não os chamava servos, mas amigos; e lemos de um deles que se reclinou sobre o seu peito; e, sem dúvida, ele não tratará os seus discípulos com menos liberdade e ternura no céu. Não os manterá a uma distância maior por estar num estado de exaltação; antes, os tomará para um estado de exaltação com ele. Este será o proveito que Cristo tirará da sua própria glória: fazer os seus amados amigos partícipes dela com ele, glorificá-los na sua glória, como diz ao seu Pai, Jo 17:22,23: “E a glória que me deste, eu a dei a eles, para que sejam um, assim como nós somos um; eu neles,” etc. Havemos de considerar que, ainda que Cristo esteja grandemente exaltado, contudo está exaltado, não como pessoa privada, só por si mesmo, mas como cabeça do seu povo; está exaltado em nome deles, e por conta deles, como as primícias, e como representando toda a colheita. Não está exaltado para ficar a uma distância maior deles, mas para que sejam exaltados com ele. A exaltação e honra da cabeça não é para tornar maior a distância entre a cabeça e os membros, mas os membros têm com a cabeça a mesma relação e união que antes tinham, e são honrados com a cabeça; e, em vez de a distância ser maior, a união será mais próxima e mais perfeita. Quando os crentes chegarem ao céu, Cristo os conformará a si mesmo; como ele está assentado no trono de seu Pai, assim também eles se assentarão com ele no seu trono, e, na sua medida, serão feitos semelhantes a ele.

Quando Cristo estava para ir ao céu, ele consolou os seus discípulos com o pensamento de que, dali a pouco, viria outra vez, e os tomaria para si mesmo, para que estivessem com ele. E não devemos supor que, quando os discípulos chegaram ao céu, o encontraram guardando distância maior do que costumava. Não; sem dúvida, ele os abraçou como amigos, e os deu as boas-vindas à casa de seu Pai — que é dele e deles — e à sua glória, que é dele e deles. Aqueles que haviam sido seus amigos neste mundo, que estiveram juntos com ele aqui, e que juntos partilharam tristezas e aflições, são agora por ele acolhidos ao descanso, e a partilhar da glória com ele. Ele os tomou e os conduziu aos seus aposentos, e lhes mostrou toda a sua glória; como orou, Jo 17:24: “Pai, quero que aqueles que me deste estejam também comigo onde eu estou, para que vejam a minha glória que me deste.” E ele os conduziu às suas fontes vivas de águas, e os fez partícipes de seus deleites, como ora em Jo 17:13: “Para que a minha alegria seja neles completa,” e os assentou consigo à sua mesa em seu reino, e os fez partícipes de suas iguarias, segundo a sua promessa, Lc 22:30, e os conduziu à sua casa do banquete, e os fez beber vinho novo com ele no reino de seu Pai celestial, como lhes predisse quando instituiu a Ceia do Senhor, Mt 26:29.

Sim, o convívio dos santos com Cristo no céu não só será tão íntimo, e o seu acesso a ele tão livre, quanto o dos discípulos na terra, mas, em muitos aspectos, muito mais. Pois, no céu, será perfeita aquela união vital que aqui é excessivamente imperfeita. Enquanto os santos estão neste mundo, há grandes resíduos de pecado e de trevas a separá-los ou desuni-los de Cristo, os quais serão então todos removidos. Este não é o tempo para aquele pleno conhecimento, e para aquelas gloriosas manifestações de amor, que Cristo destina ao seu povo para o futuro; o que parece ser significado por suas palavras a Maria Madalena, quando ela estava prestes a abraçá-lo, ao encontrá-lo depois de sua ressurreição, Jo 20:17: “Disse-lhe Jesus: Não me segures, pois ainda não subi para meu Pai.

Quando os santos virem a glória e a exaltação de Cristo no céu, isso, na verdade, encherá os seus corações de maior admiração e de adorador respeito, mas não os intimidará a qualquer separação, servindo apenas para intensificar a sua surpresa e alegria, quando acharem Cristo condescendendo em admiti-los a tão íntimo acesso, e comunicando-se a eles tão livre e plenamente. De modo que, se escolhermos a Cristo como nosso amigo e porção, seremos daqui por diante de tal modo por ele recebidos, que nada haverá que impeça o mais pleno gozo dele, até saciar os mais extremos anseios de nossas almas. Poderemos dar plena vazão à satisfação do nosso apetite espiritual por esses santos prazeres. Cristo então dirá, como em Ct 5:1: “Comei, ó amigos, bebei, sim, bebei abundantemente, ó amados.” E este será o nosso banquete por toda a eternidade! Nunca haverá fim para esta felicidade, nem coisa alguma que interrompa o nosso gozo dela, ou que no mínimo nos perturbe nele!

Por seres unido a Cristo, terás uma união mais gloriosa com Deus, o Pai, e um gozo dele, do que de outro modo poderias ter. Pois, por isso, a relação dos santos com Deus se torna muito mais próxima; eles são filhos de Deus de modo mais elevado do que de outra forma poderiam ser. Pois, sendo membros do próprio Filho de Deus, são, de certo modo, partícipes da relação dele com o Pai; não são apenas filhos de Deus pela regeneração, mas por uma espécie de comunhão na filiação do eterno Filho. Isto parece estar indicado em Gl 4:4-6: “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” A Igreja é filha de Deus, não apenas por ele a haver gerado pela sua palavra e Espírito, mas por ser ela a esposa do seu eterno Filho.

Assim, sendo nós membros do Filho, somos partícipes, na nossa medida, do amor do Pai ao Filho, e do seu comprazimento nele. Jo 17:23: “Eu neles, e tu em mim; — tu os amaste, assim como me amaste.” E v. 26: “Para que o amor com que me amaste esteja neles.” E cap. 16:27: “O próprio Pai vos ama, porque vós me amastes, e crestes que eu saí de Deus.” Assim, seremos, segundo a nossa capacidade, partícipes do gozo que o Filho tem de Deus, e teremos a sua alegria cumprida em nós mesmos, Jo 17:13. E, por este meio, chegaremos a um gozo de Deus imensamente mais elevado, mais íntimo e mais pleno do que de outro modo poderia haver. Pois há, sem dúvida, uma infinita intimidade entre o Pai e o Filho, a qual se exprime por estar ele no seio do Pai. E os santos, estando nele, serão, na sua medida e à sua maneira, partícipes dela com ele, e da bem-aventurança dela.

E assim está ordenado o assunto da nossa redenção, para que por ele sejamos levados a um gênero de união com Deus, e de gozo dele, imensamente mais exaltado — tanto do Pai quanto do Filho — do que de outro modo poderia haver. Pois, estando Cristo unido à natureza humana, temos vantagem para um gozo dele mais livre e pleno do que poderíamos ter se ele houvesse permanecido apenas na natureza divina. Assim também, estando nós unidos a uma pessoa divina, como seus membros, podemos ter uma união e um intercâmbio mais íntimos com Deus, o Pai, que está somente na natureza divina, do que de outro modo poderia haver. Cristo, que é uma pessoa divina, ao tomar sobre si a nossa natureza, desce da infinita distância e altura acima de nós, e é trazido para perto de nós; pelo que temos vantagem para o pleno gozo dele. E, por outro lado, nós, por estarmos em Cristo, uma pessoa divina, por assim dizer subimos a Deus, através da infinita distância, e temos por isso vantagem para o pleno gozo dele também.

Este foi o desígnio de Cristo: que ele, e o seu Pai, e o seu povo, todos fossem unidos em um. Jo 17:21,23: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E a glória que me deste, eu lhes dei, para que sejam um, assim como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que sejam aperfeiçoados em um.” Cristo fez com que aqueles que o Pai lhe deu fossem trazidos para dentro da família de Deus, para que ele, e o seu Pai, e o seu povo, fossem como uma só sociedade, uma só família; para que a Igreja fosse, por assim dizer, admitida à sociedade da bem-aventurada Trindade.

Domínio público. Texto de origem de a edição original.