Sermão · 30 min de leitura · Moderado

Cristo Tudo em Todos

Retrato de Dwight L. Moody Dwight L. Moody

Texto

Colossenses 3:11

Tradução por IA — aguardando revisão nativa

Leia Colossenses iii. 11.

Cristo é tudo em todos para cada um que verdadeiramente o encontrou. Ele é o nosso Salvador, Redentor, Libertador, Pastor e Mestre, e ainda exerce em nosso favor muitos outros ofícios, para os quais desejo chamar a vossa atenção.

1. Se recorrermos a Lucas ii. 10, 11, encontramos ali Cristo anunciado como o nosso

SALVADOR:

“Eis que vos trago boas-novas de grande alegria, que o serão para todo o povo. Pois hoje, na cidade de Davi, vos nasceu um Salvador, que é Cristo, o Senhor.” Aprendemos a conhecer Cristo como o nosso Salvador, a encontrá-lo no monte Calvário, a contemplá-lo como o Cordeiro de Deus que sangra, antes de conhecê-lo como o nosso Redentor, Libertador e Pastor. Ora, olhando ao redor para esta vasta assembleia, eu, que não conheço o coração das pessoas, não posso saber se podeis dizer que Cristo é o vosso Salvador. Há muitos, confio, que o podem dizer e que se alegram na sua salvação; ao mesmo tempo, sem falta de caridade, receio que haja muitos que nada sabem pessoalmente de Jesus como seu Salvador.

Ele é oferecido hoje a cada um de vós como Salvador; “Deus o entregou livremente por todos nós”, para que todos, por meio dele, fôssemos salvos. Se pertenceis a este mundo, posso provar que tendes um Salvador. Se pertencêsseis a algum outro planeta, como a lua ou qualquer das estrelas, então eu não poderia dizer que um Salvador vos é oferecido; pois não foi revelado se os habitantes desses mundos distantes, ainda que sejam habitados, precisam ou não de salvação. Mas isto eu sei: que a todo homem sobre este globo é oferecido um Salvador.

SALVAÇÃO GRATUITA PARA TODOS.

Não tenho nenhuma simpatia por aqueles que tentam limitar a salvação de Deus a uns poucos escolhidos. Creio que Cristo morreu por todos os que quiserem vir. Tenho recebido muitas cartas censurando-me e dizendo que certamente não creio na doutrina da eleição. Eu creio na eleição; mas não me cabe pregar essa doutrina ao mundo em geral. O mundo nada tem a ver com a eleição; tem a ver somente com o convite: “Quem quiser, tome de graça da água da vida.” Essa é a mensagem para o pecador. Fui enviado a pregar o evangelho a todos.

Depois de terdes recebido a salvação, poderemos falar de eleição. É uma doutrina para os cristãos, para a Igreja, não para o mundo não convertido. A nossa mensagem é: “boas-novas, que o serão para todo o povo; pois hoje vos nasceu um Salvador, que é Cristo, o Senhor”. A todo o povo este Salvador é oferecido. Aceitai-o, e Deus vos aceitará; rejeitai-o, e Deus vos rejeitará. O vosso destino eterno depende de recusardes ou não o Salvador que vos é oferecido. O caso é simplesmente de dar e receber. Deus dá; eu recebo. Devemos, pois, antes de tudo, conhecer Cristo como o nosso Salvador.

2. Mas ele é ainda mais: é o nosso

REDENTOR.

Suponhamos que eu visse um homem cair num rio e me lançasse à água para resgatá-lo; eu seria para ele um salvador — eu o teria salvado. Mas, depois de trazê-lo até a margem, provavelmente eu o deixaria e nada mais faria.

O Senhor, porém, faz mais. Ele não somente nos salva, mas nos redime — isto é, compra-nos de volta. Ele nos resgata do poder do pecado, como se eu prometesse velar para sempre por aquele homem resgatado e cuidar para que não caísse novamente na água. O Senhor não somente nos salva da morte espiritual, mas nos redime para sempre, de modo que a morte jamais nos possa tocar.

LIBERDADE AOS CATIVOS.

Quando estive em Richmond, nos Estados Unidos, os negros iam realizar uma reunião. Era o primeiro dia da sua liberdade. Fui à igreja africana e nunca, antes ou depois, ouvi tais arroubos de eloquência espontânea. “Mãe”, disse um deles, “alegra-te hoje. Teu filhinho te foi vendido pela última vez; a tua posteridade é livre para sempre. Glória a Deus nas alturas! Rapazes, ouvistes o chicote do feitor pela última vez; hoje sois livres! Jovens donzelas, fostes postas no palanque do leilão pela última vez!” Falavam sem rodeios, gritavam de alegria; as suas orações haviam sido respondidas, aquilo era o evangelho para eles. Do mesmo modo Jesus Cristo proclama liberdade aos cativos. Alguns a aceitaram; outros, como aqueles pobres negros, mal conseguem crer nas boas-novas; mas nem por isso elas são menos verdadeiras. Cristo veio para nos redimir da escravidão do pecado. Ora, quem aceitará essa redenção? Havia uma mulher negra, criada numa hospedaria dos Estados do Sul, que não conseguia crer que era livre. “Eu sou livre, ou não sou?”, perguntava ela a um visitante. O seu senhor lhe dizia que não; os seus irmãos negros lhe diziam que sim. Havia dois anos que era livre sem o saber. Ela representa muitos na Igreja de Deus hoje. Podem ter liberdade e, no entanto, não o sabem.

3. Ainda mais: Cristo é o nosso

LIBERTADOR.

Os filhos de Israel não somente foram salvos e redimidos da servidão dos egípcios, mas também foram libertados, para que não fossem levados de volta à escravidão. Muitos têm medo; pensam que não conseguirão perseverar e por isso recuam de fazer profissão de fé. Mas Cristo é poderoso para vos guardar de tropeçar; ele é capaz de vos livrar, na hora escura da provação e da tentação, de toda cilada de Satanás e do laço do passarinheiro.

Em Isaías xlix. 24 lemos: “Tirar-se-ia a presa ao valente, ou seria libertado o cativo justo? Mas assim diz o Senhor: Até os cativos do valente lhe serão tirados, e a presa do tirano será libertada; pois eu contenderei com os que contendem contigo e salvarei os teus filhos.” Eu o salvarei; eu o libertarei. Os filhos de Israel foram salvos da cruel servidão do Egito, foram tirados da terra de Gósen; mas ainda assim não estavam plenamente libertados. A grande hoste dos egípcios trovejava atrás deles. Só depois de haverem passado a salvo pelo mar Vermelho, que, fechando-se atrás deles, engoliu a hoste do inimigo — só então é que estavam livres, é que estavam libertados.

E, de modo semelhante, em nossas horas de perigo havemos de achar verdadeiro a respeito de Cristo: “Ele livrou a minha alma”; e ainda em Jó xxxiii. 24: “Então terá compaixão dele e dirá: Livra-o de descer à cova; achei resgate. A sua carne se tornará mais fresca do que a de uma criança; ele voltará aos dias da sua mocidade! Orará a Deus, e este lhe será propício; verá a sua face com júbilo, e Deus restituirá ao homem a sua justiça. Livrará a sua alma de descer à cova, e a sua vida verá a luz.”

Aqui temos a salvação, a redenção e a libertação da cova. O homem caiu na cova profunda; ali é retido como cativo legítimo por alguém que é poderoso. Se ele há de ser trazido de volta das trevas da cova para ver a luz, então é preciso haver um resgate. Aqui Deus se adianta e diz: “Achei resgate.” Cristo é o resgate, e ele nos libertará. Proclamai bem alto: “Cristo é o nosso libertador.” Ele é poderoso para salvar; ele é capaz de libertar.

UM GUIA.

4. Mas agora precisamos de algo mais. Olhai novamente para os filhos de Israel: depois de terem marchado gloriosamente pelo mar Vermelho, estavam salvos, redimidos e libertados; mas era isso tudo de que precisavam? Não; haviam sido levados ao deserto. De que precisavam agora? Precisavam de um caminho por onde andar naquele ermo sem trilhas. Precisavam de um guia. Ora, Cristo é o caminho e o guia. Estamos em dificuldades, em dúvida ou em perplexidade? Cristo é o nosso caminho. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João x.).

Já ouvi alguns dizerem: “Bem, se eu me converter e me tornar religioso, não sei a que igreja iria. Há tantas igrejas e denominações diferentes. Realmente não sei qual é a certa.” Por isso algumas pessoas ficam desnorteadas e não sabem qual é o verdadeiro caminho. Pois bem, a essas eu diria: Olhai somente para aquele que diz:

“EU SOU O CAMINHO.”

Ele é o único caminho verdadeiro e, se quereis alcançar o reino, basta segui-lo. Podemos estar em trevas, mas ele é capaz de nos conduzir pela senda certa. Ele é o Pastor do seu rebanho. Irá adiante de nós e nos guiará. Está chamando-nos a levantar e a segui-lo, e nos conduzirá por um caminho que não conhecemos; guiar-nos-á aos verdes pastos, se apenas olharmos para ele.

A COLUNA DE NUVEM.

Tudo o que os filhos de Israel tinham a fazer era seguir a nuvem. Se a nuvem parava, eles paravam; se a nuvem avançava, eles avançavam. Imagino que a primeira coisa que Moisés fazia, quando rompia a cinzenta madrugada, era olhar para cima e ver se a nuvem ainda estava sobre o acampamento. De noite era uma coluna de fogo, iluminando o acampamento e enchendo-os do senso do cuidado protetor de Deus; de dia era uma nuvem que os abrigava do calor ardente dos raios do sol e os escondia dos olhos de seus inimigos.

O Pastor de Israel podia conduzi-los pelo deserto sem trilhas. Por quê? Porque ele o havia feito. Conhecia nele cada grão de areia. Não poderiam ter guia melhor pelo ermo do que o seu próprio Criador.

E tu, pecador, poderias ter, em todas as tuas dificuldades, dúvidas e temores, guia melhor do que Jeová? Ah, como gosto daquele bom e velho hino:

“Guia-me, ó grande Jeová,

peregrino nesta terra estéril;

sou fraco, mas tu és poderoso,

sustém-me com tua mão possante.

Pão do céu,

alimenta-me até que eu nada mais deseje.”

Sim, essa é a verdadeira oração do pecador desnorteado. Deus é capaz e, mais ainda, está disposto a nos conduzir e a nos alimentar. “Deste-lhes pão do céu para a sua fome, e da rocha lhes fizeste sair água para a sua sede” (Neemias ix. 15). Ele é hoje tão capaz de conduzir a qualquer um de nós quanto era, há quatro mil anos, de conduzir os filhos de Israel, pois “eu sou o Senhor, eu não mudo”. A cada um de nós ele diz: “Não temas, eu te conduzirei; eu te ajudarei.” Coisa admirável, não é, ter a Deus para nos ajudar no caminho?

Em nossas regiões do Oeste, quando os homens vão caçar nas matas cerradas, onde não há estradas nem trilhas de espécie alguma, levam consigo um machado e vão cortando um pedacinho da casca das árvores por onde passam; assim acham facilmente o caminho por essas marcas. Chamam a isso “marcar o caminho”. E, assim, se me permitis a expressão, Cristo “marcou o caminho”. Ele mesmo percorreu a estrada e, conhecendo o caminho, diz-nos que o sigamos, e ele nos levará em segurança ao alto.

5. Vimos agora que Cristo é o nosso Salvador, Redentor, Libertador, Guia ou Caminho. Mas ele é mais do que tudo isso;

ELE É A NOSSA LUZ.

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” Terá a própria “luz da vida”. Sim, é privilégio de todo cristão andar sob um céu sem nuvens.

Mas andamos nós assim, sob um céu sem nuvens? Não; a maioria dos cristãos anda muitas vezes em trevas. Se eu perguntasse a esta congregação se todos andam na luz, creio que dificilmente haveria um só que, falando o verdadeiro sentimento do seu coração, não respondesse: “Não, muitas vezes estou em trevas.” Por que é assim? É porque não estamos seguindo a Cristo nem nos conservando perto dele. Andamos muito nas trevas quando poderíamos estar na luz.

Suponde que todas as janelas deste edifício estivessem fechadas e que nos queixássemos da escuridão; que nos diria alguém? Ora, diria: “Deixai entrar a luz; abri as janelas ao redor, e logo tereis luz em abundância.” Da mesma forma, devemos deixar entrar Cristo, que é a luz, e abrir a nossa mente para recebê-lo, e logo andaremos na luz. Há muita escuridão nos dias de hoje, mesmo no coração do próprio povo de Deus. Mas segui-o, e então tereis luz em abundância. Então Cristo mostrará a cada um de nós que ele é “a Luz”; e fará ainda mais: incendiar-nos-á com a sua luz, para que também nós brilhemos como luzeiros neste mundo escuro.

Que Deus ajude o seu próprio povo a

BRILHAR INTENSAMENTE,

a resplandecer em meio às trevas, para que os homens reconheçam que estivemos com Jesus. Mas lembrai-vos: o mundo odeia a luz. Cristo era a luz do mundo, e o mundo procurou apagá-la no Calvário. Agora ele deixou o seu povo para brilhar. “Vós sois a luz do mundo.” Ele nos deixou aqui para brilhar. Quer que sejamos “cartas vivas, conhecidas e lidas por todos os homens”. O mundo certamente há de observar-nos e ler-nos, a mim e a vós. Se formos incoerentes, podeis ter certeza de que o mundo achará ocasião de tropeçar em nós.

O mundo encontra dificuldades de sobra pelo caminho; cuidemos de que nós, cristãos, não acrescentemos mais pedras de tropeço com um viver que não se parece com Cristo. Que Deus nos ajude a manter as nossas luzes ardendo claras e brilhantes! Lá no Oeste, um amigo meu caminhava por uma das ruas numa noite escura e viu vir em sua direção um homem com uma lanterna. Ao chegar bem perto dele, notou, à luz clara, que o homem não tinha olhos. Passou adiante, mas veio-lhe o pensamento: “Certamente aquele homem é cego.” Voltou-se e perguntou: “Amigo, não és cego?” “Sou.” “Então para que levas a lanterna?” “Levo a lanterna para que as pessoas não tropecem em mim, é claro”, disse o cego. Tomemos uma lição daquele cego e levantemos a nossa luz, ardendo com o claro resplendor do céu, para que os homens não tropecem em nós.

6. Alguns objetores disseram que é tudo luar essa conversa de que o povo de Cristo é luz pelo caminho. Pois bem, é exatamente isso que cremos: nós refletimos a luz de Cristo.

LUZ REFLETIDA.

Tal como o luar, a nossa luz é luz emprestada. Quando vivemos na luz do nosso Salvador, brilhamos com a luz dele — algo semelhante ao rosto de Moisés, que resplandecia depois de ele ter estado no monte com Deus. Vivamos numa atmosfera de céu, e não poderemos deixar de brilhar. Mas, sempre que ficamos abatidos e fracos na fé, certamente perdemos a nossa luz.

Lembro-me de que, durante a guerra americana, eu estava numa reunião de oração. Estávamos todos muito sombrios e desanimados. As coisas vinham correndo contra nós havia algum tempo. Por fim um velho se levantou e disse: “O que há conosco, que estamos abatidos e tristes? É simplesmente a nossa falta de fé.” Moisés, Josué e Davi foram homens fortes na fé. Creram, e por isso Deus os honrou. De onde vem a nossa falta de fé? Deus não morreu. Ele é tão poderoso e tão disposto a ajudar hoje quanto sempre foi. Por que, então, não estamos cheios de fé nele? É desonroso para Deus esquecer que ele ainda tem poder, embora os nossos exércitos sejam derrotados e tudo pareça escuro e sombrio.

SUBI ACIMA DAS NUVENS.

Vou contar-vos o que me aconteceu há algum tempo, quando eu estava no Oeste. Eu queria chegar ao cume de uma das montanhas do Oeste. Haviam-me dito que o nascer do sol era belíssimo visto do cume. Chegamos certa tarde ao abrigo de meio caminho, onde íamos descansar até a meia-noite, para então partir rumo ao topo. Logo um pequeno grupo de nós partiu com um bom guia. Não demorou muito e começou a chover, e depois veio uma verdadeira tempestade de trovões e relâmpagos. Achei que de pouco adiantava prosseguir e disse ao guia: “Acho melhor voltarmos; não veremos nada esta manhã, com todas estas nuvens.” “Ah”, disse o guia, “espero que logo atravessemos estas nuvens e subamos acima delas, e então teremos uma vista gloriosa.” Assim seguimos adiante, enquanto os trovões roncavam bem junto aos nossos ouvidos. Mas logo começamos a subir acima da nuvem de tempestade; o ar ficou completamente limpo e, quando o sol se levantou, tivemos uma vista esplêndida de seus raios tingindo os cumes dos montes; e então, à medida que o glorioso sol começou a irromper onde estávamos, pudemos ver a nuvem escura muito abaixo da altura da nossa montanha. É disso que o povo de Deus precisa: chegar ao ar puro acima das nuvens de tempestade e

SUBIR MAIS ALTO

bem lá em cima, até o pico da montanha. Ali apanhareis os primeiros raios do Sol da Justiça, muito acima das nuvens e das névoas. Alguns de vós talvez estejam em grande escuridão e tristeza; mas não temais: subi mais alto, chegai mais perto do Mestre, e logo apanhareis os seus raios luminosos sobre a vossa própria alma, e eles brilharão de volta sobre os outros.

MANTENDE ACESAS AS LUZES DE BAIXO.

Devemos viver como filhos da luz, não como filhos das trevas. Se andamos sombrios e tristes, como saberá o mundo que somos filhos da paz, da alegria e do contentamento? A nossa determinação deve ser manter as nossas luzes acesas. Há alguns anos, na entrada do porto de Cleveland, havia duas luzes, uma de cada lado da baía, chamadas as luzes de cima e as luzes de baixo; e, para entrar no porto com segurança à noite, os navios tinham de avistar ambas as luzes. Estes lagos do Oeste são, às vezes, mais perigosos do que o grande oceano. Numa noite selvagem e tempestuosa, um vapor tentava entrar no porto. O capitão e o piloto vigiavam ansiosamente à procura das luzes. Dali a pouco ouviu-se o piloto dizer: “Vês as luzes de baixo?” “Não”, foi a resposta; “mas receio que já as tenhamos ultrapassado.” “Ah, ali estão as luzes”, disse o piloto, “e devem ser, pela altura do penhasco em que estão, as luzes de cima. Passamos as luzes de baixo e perdemos a nossa chance de entrar no porto.” Que fazer? Olharam para trás e viram o contorno indistinto do farol de baixo contra o céu. As luzes se haviam apagado. “Não podes virar a proa?” “Não; a noite está brava demais para isso. Ele não obedece ao leme.” A tempestade era tão terrível que nada podiam fazer. Tentaram outra vez alcançar o porto, mas foram de encontro às rochas e afundaram. Pouquíssimos escaparam; a grande maioria achou um túmulo nas águas. Por quê? Simplesmente porque as luzes de baixo se haviam apagado.

E, quanto a nós, as luzes de cima estão perfeitamente bem. O próprio Cristo é a luz de cima, e nós somos as luzes de baixo, e o clamor que nos é dirigido é este: mantende acesas as luzes de baixo; é isso que temos a fazer. No lugar em que Deus nos colocou, ele espera que brilhemos, que sejamos testemunhas vivas, uma luz clara e resplandecente. Enquanto estamos aqui, a nossa obra é brilhar para ele, e ele nos conduzirá em segurança à praia ensolarada de Canaã, onde não há mais noite.

7. Mas Cristo é mais do que a nossa Luz no caminho; pois ele é

O NOSSO MESTRE.

Que coisa admirável ter um mestre enviado do céu! “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não censura, e ser-lhe-á dada” (Tiago i. 5).

“Se algum tem falta de sabedoria”: receio que haja muitos de nós com falta de sabedoria, e até os melhores dentre nós às vezes se veem perplexos. Há momentos na vida de todos nós em que parecemos num beco sem saída; simplesmente paramos e dizemos: “Que farei? Não sei qual é o melhor caminho.” Ah, entregai isso a Deus; ele mesmo será o nosso mestre!

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim.” Eis um mestre admirável. Ele tem uma escola há muitos milhares de anos; teve na sua escola os melhores homens; e ainda há lugar ali para mais um aluno. O seu colégio ainda não está cheio demais, e o mestre é aquele que foi enviado do céu. Qualquer pessoa, toda pessoa nesta assembleia pode matricular-se nesta escola. Jesus vos dará ali as boas-vindas. Estais em dúvida a respeito de alguma coisa? Perguntai a Jesus; ele vos dirá.

Pecador angustiado, busca o bom mestre, como fez Nicodemos: “Mestre, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus.” Se assim o buscares, ele te dirigirá. Ele te guardará e te levará a verdes pastos e a águas tranquilas. Encontrei outro dia uma mulher cheia de dúvidas e fantasias incrédulas. Não conseguia crer. A leitura, durante algum tempo, de obras incrédulas havia lançado um véu escuro e sombrio sobre a sua mente. Entristeceu-me vê-la em tal estado. Alguns de vós talvez estejam como ela. Quisera que tomásseis Cristo por vosso mestre, e então toda a escuridão fugiria.

Cristo é capaz de nos ensinar. Vede como ensinou os discípulos. Nunca se cansou de que aprendessem dele. Assim também nos ensinará, se apenas o quisermos ouvir.

O VELHO JUIZ CONVERTIDO.

Lembro-me de que, ao sair da reunião diária de oração numa de nossas cidades americanas, há alguns anos, uma senhora disse que desejava falar comigo; a sua voz tremia de emoção, e logo percebi que estava fortemente carregada por alguma coisa. Disse que havia muito tempo vinha orando pelo marido e queria saber se eu iria vê-lo; pensava que talvez lhe fizesse algum bem. Qual é o nome dele? “Juiz ---”, e mencionou um dos políticos mais eminentes do Estado. “Já ouvi falar dele”, disse eu; “receio que não valha a pena eu ir; é um incrédulo declarado; não posso discutir com ele.” “Não é disso que ele precisa”, disse a senhora. “Já teve argumentos demais. Ide e falai-lhe da sua alma.” Disse que iria, embora não estivesse muito esperançoso. Fui à casa dele, fui admitido ao seu gabinete e apresentei-me como tendo vindo falar-lhe da salvação. “Então veio por um motivo bem tolo”, disse ele; “não adianta atacar-me, já lhe digo. Estou à prova de todas essas coisas; não creio nelas.”

Pois bem, vi que não adiantava discutir com ele; então disse: “Orarei pelo senhor, e quero que me prometa que, quando for convertido, me avisará.” “Ah, sim, eu lhe aviso”, disse ele em tom de sarcasmo. “Ah, sim, eu lhe aviso quando estiver convertido!” Deixei-o, mas continuei a orar por ele. Algum tempo depois, ouvi dizer que o velho juiz se havia convertido. Estava eu de novo pregando naquela cidade pouco depois disso e, quando terminei de falar, o próprio juiz veio ter comigo e disse: “Prometi avisá-lo quando eu me convertesse; venho contar-lhe. Não soube do caso?” “Soube; mas gostaria de ouvir do senhor mesmo como aconteceu.”

“Pois bem”, disse o juiz, “certa noite, algum tempo depois de o senhor me visitar, minha esposa tinha ido à reunião; não havia ninguém em casa senão os empregados. Sentei-me junto à lareira da sala e comecei a pensar: Suponhamos que minha esposa tenha razão, que exista um céu e um inferno; e suponhamos que ela esteja no caminho certo para o céu — para onde vou eu? Afastei logo o pensamento. Mas veio um segundo: Certamente aquele que me criou é capaz de me ensinar. Sim, pensei, é assim mesmo. Então, por que não pedir a ele? Lutei contra isso, mas por fim, embora tivesse orgulho demais para pôr-me de joelhos, disse simplesmente: ‘Pai, tudo está escuro; tu, que me criaste, podes ensinar-me.’

Por alguma razão, quanto mais eu orava, pior me sentia. Estava muito triste. Não queria que minha esposa chegasse em casa e me encontrasse assim; por isso fui de mansinho para a cama e, quando ela entrou no quarto, fingi estar dormindo. Ela pôs-se de joelhos e orou. Eu sabia que estava orando por mim, e que por longos anos vinha fazendo isso. Senti que poderia ter-me levantado de um salto para ajoelhar-me ao lado dela; mas não: o meu coração orgulhoso não me deixou, e assim fiquei quieto, fingindo dormir. Mas naquela noite não dormi. Logo mudei a minha oração; agora era: ‘Ó Deus, salva-me; tira de mim este fardo terrível.’

Eu ainda não cria em Cristo. Pensei em ir diretamente ao próprio Pai. Mas, quanto mais eu orava, mais infeliz me tornava; o meu fardo ficava mais pesado. Na manhã seguinte não quis ver minha esposa, e por isso disse que ‘não estava bem e que não esperaria pelo café da manhã’. Fui para o escritório e, quando o rapaz chegou, mandei-o para casa de folga. Quando os funcionários chegaram, disse-lhes que podiam sair pelo dia. Fechei as portas do escritório: queria estar a sós com Deus. Estava quase fora de mim na agonia do coração. Clamei a Deus que tirasse aquele peso de pecado. Por fim caí de joelhos e clamei: ‘Por amor de Jesus Cristo, tira este peso de pecado.’ Enfim resolvi ir ao pastor de minha esposa, que havia anos orava com ela pela minha conversão, o mesmo ministro que orara com minha mãe antes de ela morrer. Enquanto descia a rua, veio-me à mente o versículo que minha mãe me ensinara: ‘Tudo quanto pedirdes em oração, crede que o recebestes, e assim será convosco.’ Pois bem, pensei eu, pedi a Deus, e aqui estou eu indo pedir a um homem. Não irei. Creio que sou cristão. Voltei e fui para casa. Encontrei minha esposa no vestíbulo ao entrar. Tomei-lhe a mão e disse: ‘Agora sou cristão.’ Ela empalideceu; havia vinte e um anos que orava por mim e, no entanto, não conseguia crer que a resposta tivesse chegado. Fomos ao nosso quarto e nos ajoelhamos junto àquela mesma cama onde ela tantas vezes se ajoelhara para orar pelo marido. Ali erguemos o nosso altar familiar; e, pela primeira vez, as nossas vozes se uniram em oração. E só posso dizer que estes últimos três meses foram os meses mais felizes que já vivi em toda a minha vida.”

Desde então aquele juiz tem vivido uma vida cristã coerente; e tudo porque veio a Deus pedindo direção.

Se há alguém aqui hoje cuja mente esteja cheia de tais pensamentos de incredulidade, vai honestamente a Deus, e ele te ensinará o caminho certo através do escuro deserto da incredulidade. Ele não te deixará em trevas nem em dúvida. É obra própria do diabo levar os homens a tais dúvidas; ele bem sabe que, uma vez que os tenha ali, os tem bem seguros.

É obra de Satanás manter-te na ignorância ou na dúvida. É obra de Deus ensinar-te. O mestre é Cristo; ele foi designado por Deus para essa obra. Que Deus nos ajude a todos a aceitá-lo como o nosso mestre.

8. Vimos agora Cristo como o nosso Salvador, Redentor, Libertador, Guia, Luz e Mestre. Mas ele é ainda mais; ele é também

O NOSSO PASTOR.

É para mim um pensamento muito doce: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.”

Não há aqui ninguém, exceto as crianças bem pequenas, que não compreenda o trabalho de um pastor. Ele vela pelo seu rebanho, protege-o do perigo, alimenta-o, conduz as ovelhas aos melhores pastos. De fato, o Salmo 23 é apenas uma exposição dos deveres de um bom pastor: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”, e assim por diante.

Queres ser alimentado; vais andar por aí procurando algo que satisfaça os anseios da tua alma? Então eu te digo: nunca acharás nada que satisfaça os desejos do teu coração. O mundo não pode, e nunca pôde, satisfazer uma alma faminta. O Senhor Jesus pode — ele é o verdadeiro Pastor. Ele procura restaurar a tua alma, conduzir-te de volta às veredas da justiça. Até na morte ele te conduzirá e, através da sua sombra, te guiará em segurança a uma terra melhor. Mãe, pai, tomareis a ele como vosso Pastor?

Jovem, moça, aceitarás a ele como teu Pastor?

Minha criancinha, aceitarás a Jesus como teu Pastor? Ele te conduzirá com segurança e brandura.

Todos vós podeis, se quiserdes. Pois “Deus o entregou livremente por todos nós”, para que nos tivesse como o seu rebanho. Ele nos conduzirá pela vida, até as margens do Jordão; conduzir-nos-á através do rio escuro até o seu reino. Ele é um Pastor terno e amoroso.

Às vezes encontro, na sala dos que buscam a Deus, pessoas que alimentam sentimentos duros e amargos contra Deus, geralmente porque foram afligidas. Uma mãe me disse outro dia: “Ah, senhor Moody, Deus foi injusto comigo; veio e levou o meu filho.” Queridas mães aflitas, não terá Deus levado os vossos filhos para uma vida pura e feliz? Podeis não entender isso agora, mas entendereis um dia. Ele quer conduzir-vos até lá.

O PASTOR DO ORIENTE.

Um amigo meu, que estivera em terras do Oriente, contou-me que viu um pastor que queria fazer o seu rebanho atravessar um rio. Ele mesmo entrou na água e as chamou; mas não, elas não queriam segui-lo água adentro. Que fez ele? Ora, cingiu os lombos, tomou um cordeirinho debaixo de cada braço e mergulhou direto na corrente, atravessando-a sem sequer olhar para trás. Assim que ele levantou os cordeiros, as ovelhas velhas olharam para o seu rosto e começaram a balir por eles; mas, quando ele entrou na água, as mães mergulharam atrás dele, e então todo o rebanho o seguiu. Ao chegarem à outra margem, ele pôs os cordeiros no chão, e logo se juntaram a eles as suas mães, e houve um alegre reencontro.

Meu amigo diz que notou que os pastos do outro lado eram muito melhores e os campos mais verdes; e era por isso que o pastor as estava fazendo atravessar. É isso que faz o nosso grande Pastor da Palestina. Aquela criança que ele tirou da terra foi apenas transferida para os verdes pastos de Canaã, e o Pastor quer atrair para lá o vosso coração, ensinar-vos a “pensar nas coisas lá do alto”. Quando ele levar a vossa pequena Maria, Edith ou Júlia, aceitai isso como um chamado para olhar para cima e para além. E tu, mãe, choras lágrimas amargas pelo teu pequenino? Não chores! O teu filho foi para o lugar onde não há pranto nem tristeza. Quererias que ele voltasse? Certamente que não.

Cristo é o nosso Pastor — fiel e amoroso. Ainda que a doença, ou a tribulação, ou a própria morte venha à nossa casa e nos tome os mais queridos, eles não estão perdidos, mas apenas partiram antes de nós. Que Deus ajude a cada um de nós a tê-lo como o nosso Pastor.

Se o tempo permitisse, gostaria de tratar do tema de Cristo como a nossa Justificação, a nossa Sabedoria, a nossa Justiça, o Amigo mais chegado do que um irmão; mas seria preciso toda uma eternidade para contar o que Cristo é para o seu povo e o que faz por ele.

Lembro-me de que, quando eu pregava sobre este assunto na Escócia, ao terminar disse a um homem que “sentia não ter podido esgotar o assunto por falta de tempo”. “Esgotar o assunto”, disse o escocês, “ora, isso exigiria toda a eternidade, e mesmo assim não estaria completo; será a ocupação do céu.”

9. Mais uma vez, olhemos para Cristo como

AQUELE QUE LEVA OS NOSSOS FARDOS.

Ah, como gosto de pensar nele como aquele que leva os nossos fardos, além de levar o nosso pecado. Ele carrega os nossos pecados, ainda que sejam mais numerosos do que os cabelos da nossa cabeça. Por maiores e mais terríveis que sejam esses fardos, Deus os lançou todos sobre Jesus.

“Ó Cristo, que fardos curvaram tua cabeça!

Sobre ti foi posta a nossa carga.”

Esse aspecto do seu ofício de levar fardos já o consideramos em sua obra como Salvador e Redentor. Desejo agora tratar do doce pensamento que tem sido para mim grande consolo.

“Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores.” Não é glorioso saber que temos tal Salvador? Podeis sentir que ele tirou o vosso fardo dos vossos ombros para os seus? Então tereis o coração leve.

UM CORAÇÃO LEVE.

Em certa ocasião, depois de eu ter falado desse modo, uma mulher se apresentou e disse: “Ah, senhor Moody, é muito fácil para o senhor falar assim, de um coração leve. Mas o senhor é um homem jovem e, se tivesse um fardo pesado como o meu, falaria de outra maneira. Eu não poderia falar assim; o meu fardo é grande demais.” Respondi: “Mas não é grande demais para Jesus.” “Ah”, disse ela, “não consigo lançá-lo sobre ele.” “Por que não? Certamente não é grande demais para ele. Não é que ele seja fraco. É porque a senhora não quer deixá-lo com ele. A senhora é como muitos outros. Não querem deixá-lo com ele. Andam por aí abraçados ao seu fardo e, ao mesmo tempo, queixando-se dele. O que o Senhor quer é que a senhora o deixe com ele, que permita que ele o carregue pela senhora. Então terá o coração leve, a tristeza fugirá e não haverá mais suspiros. Qual é o seu fardo, minha amiga, que não pode deixar com Cristo?” Ela respondeu: “Tenho um filho que anda errante pela face da terra. Só Deus sabe onde ele está.” “Não pode Cristo achá-lo e trazê-lo de volta?” “Suponho que pode.” “Então vá e conte a Jesus, e peça-lhe que a perdoe por duvidar do seu poder e da sua boa vontade; a senhora não tem o direito de desconfiar dele.” Ela se foi muito consolada, e creio que por fim teve o seu filho errante de volta!

A ORAÇÃO DE UMA MÃE RESPONDIDA.

Esse fato me lembra um pai e uma mãe piedosos do nosso país, cujo filho mais velho tinha ido para Chicago ocupar um emprego. Um vizinho deles estava na cidade a negócios e encontrou o rapaz cambaleando pelas ruas, bêbado. Pensou: “Como vou contar isso aos pais dele?” Ao voltar à sua aldeia, foi chamar o pai à parte e lhe contou. Foi um golpe terrível para aquele pai, mas ele nada disse à mãe até que os pequeninos tivessem ido todos dormir; os empregados se haviam recolhido, e tudo estava quieto naquela pequena fazenda das pradarias do Oeste. Aproximaram as cadeiras da mesinha da sala, e então ele lhe contou a triste notícia: “O nosso filho foi visto bêbado nas ruas de Chicago — bêbado.” Ah, como aquela mãe ficou profundamente ferida! Não dormiram muito naquela noite, mas passaram as horas em orações fervorosas pelo filho. Perto do amanhecer, a mãe sentiu uma convicção interior de que tudo iria bem. Disse ao pai “que havia lançado aquilo sobre o Senhor, que havia deixado o filho com Jesus, e que sentia que ele o salvaria”. Uma semana depois daquilo, o rapaz deixou Chicago, fez uma viagem de trezentas milhas pelo interior; e, ao chegar à sua casa, entrou e disse: “Mãe, vim para casa pedir-lhe que ore por mim.” Ah, a oração dela havia chegado ao céu; ela havia lançado o seu fardo sobre Jesus, e ele o havia carregado por ela. Ele tomou o fardo, apresentou a oração dela aspergida com o sangue expiatório e obteve a resposta. Dois dias depois, aquele rapaz voltou a Chicago alegrando-se no Salvador. Que coisa admirável é ter Cristo como aquele que leva os nossos fardos! Quão fáceis, quão leves se tornam os nossos cuidados quando lançados sobre ele!

Dizeis que Cristo nada é para vós? Se assim é, é somente porque não o quereis. Ele é, para todos os que o aceitarem, Salvador da morte, Redentor do poder do pecado, Libertador dos nossos inimigos, Guia através do deserto; ele mesmo é o caminho, é Luz nas trevas, é Mestre do seu povo, é o Pastor do seu rebanho, a nossa Justificação, Sabedoria, Justiça, Irmão mais velho, aquele que leva os nossos fardos. Ele é, de fato, “o nosso tudo em todos”.

Vinde, pois, a Cristo; ah, vinde hoje,

dizem o Pai, o Filho e o Espírito,

e a Esposa repete o chamado,

pois ele lavará as vossas culpas,

o seu amor aliviará as vossas dores cansadas,

porque Cristo é Tudo em Todos.

Escrituras neste sermão Colossenses 3:11

Domínio público. Texto de origem de a edição original.