Capítulo 6 · 8 min de leitura
A verdade trágica
O desejo de Deus, e a prioridade no coração de Jesus, é que Ele tenha um povo cujo amor de uns pelos outros e cuja atitude de servo sejam um testemunho tão forte diante deste mundo que homens e mulheres clamem por conhecer o nosso Senhor. Eles vão querer saber o segredo da nossa paz, da nossa alegria e da nossa harmonia. Vão observar os nossos casamentos, os nossos lares, os nossos filhos e os nossos ambientes de trabalho, não para criticar, mas para descobrir os nossos segredos.
Depois de exortar os seus leitores a serem “cheios do Espírito” e de apontar, como uma das evidências dessa plenitude, o “sujeitar-se uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5:21), Paulo dá exemplos de como isso deve acontecer nos nossos relacionamentos.
O casamento cristão → Efésios 5:22-33 Se os casamentos cristãos fossem o que deveriam ser, com ambos os cônjuges cheios do Espírito e submissos um ao outro, honrando e dando preferência ao outro, eles seriam o mistério revelado a um mundo que observa. As pessoas veriam o relacionamento que Jesus tem com a Sua noiva, a igreja, e seriam atraídas a conhecê-Lo também como fundamento do seu próprio casamento. Haveria um fluxo constante de gente batendo à porta da nossa casa ou da nossa igreja em busca de respostas, em vez de correr, como fazem hoje, para os tribunais de divórcio!
As esposas iriam querer honrar o próprio marido acima de todos os outros homens, por causa do amor que recebem, e os maridos iriam querer amar as suas esposas por causa da honra que recebem.
Em lugar do círculo vicioso de abuso e retaliação, tão comum no mundo, haveria um círculo delicioso de abençoar um ao outro em Cristo.
É tão trágico que o divórcio seja tão comum entre os cristãos. Que tipo de testemunho é esse?
O lar cristão → Efésios 6:1-4 Onde os pais estão em relacionamento correto com o Senhor e um com o outro, os filhos amadurecem num lar seguro e cheio de amor. A maior parte do aconselhamento que faço como pastor tem a ver com feridas recebidas por crianças que cresceram numa situação bem diferente dessa, embora muitas vezes sejam pais “cristãos” que deixam de discipular (ou de disciplinar) os filhos e, em vez disso, os provocam à ira (Colossenses 3:21).
Os conselheiros cristãos falam hoje de famílias disfuncionais, nas quais o “tanque de amor” da criança não é enchido com o amor que ela foi criada para receber, porque os pais disfuncionais são incapazes de oferecer esse amor. A criança não experimenta o amor cujo fruto é segurança, identidade, autoestima, aceitação e encorajamento. A criança não experimenta o amor cujo fruto é segurança, identidade, autoestima, aceitação e encorajamento.
Em vez de crescerem emocional e espiritualmente saudáveis, tornam-se exatamente como os pais: disfuncionais. Nunca aprendem a andar de cabeça erguida num mundo de ombros curvados e corações partidos. O espaço vazio do seu tanque de amor é preenchido por uma coisa só: raiva, que produz uma vida de rebeldia contra os propósitos de Deus. Essas crianças nunca aprendem a obedecer aos pais no Senhor.
“Pais, não provoqueis a ira em vossos filhos” (Colossenses 3:21).
É tão trágico que tantos filhos rebeldes sejam fruto de lares “cristãos”. Que tipo de testemunho é esse?
O ambiente de trabalho → Efésios 6:5-9 O crente cheio do Espírito é chamado a ser testemunha no seu ambiente de trabalho, demonstrando a atitude de um servo diante dos colegas e dos patrões, e deve ser digno de confiança, fazendo bem o seu trabalho.
Conheço bem o caso de um professor cuja escola seria fundida com outras duas numa grande reorganização. Todos os professores das três escolas se reuniram para formar uma Associação de Docentes que falasse em nome deles junto ao conselho diretor, expressando o que desejavam quanto ao projeto dos novos prédios e quanto às suas condições de trabalho.
Um homem foi indicado e apoiado para o cargo de presidente dessa nova associação. Outro também foi indicado e apoiado. Então, para grande surpresa dele, o meu amigo foi indicado. Imediatamente, os dois outros indicados retiraram os seus nomes para apoiar a indicação do meu amigo. Nenhum outro nome foi apresentado, e ele foi eleito por unanimidade para representar todo o corpo docente. Ao sair da sala, manifestou seu espanto a um colega. “Espere só até eu contar isso para a minha esposa”, disse ele. “Ela nunca vai acreditar!” “Por que não?”, respondeu o colega. “Todos nós sabemos que você é o único em quem podemos confiar para sempre dizer a verdade!”
O meu amigo era o único cristão entre os professores mais graduados daquelas escolas.
Infelizmente, muitas vezes ouço de homens de negócios (cristãos entre eles) que as piores pessoas com quem fazer negócios são os cristãos.
Eles querem tirar de você o máximo pelo menor pagamento. São os que menos dão gorjeta e, muitas vezes, os últimos a quitar dívidas! É claro que pode muito bem ser que o mundo nos julgue com mais severidade do que julga os incrédulos, mas isso é de se esperar!
Somos chamados a ter a atitude de servos. Deveríamos viver num nível de compromisso e de excelência no trabalho mais alto que o do mundo! Infelizmente, todos conhecemos patrões e empregados cristãos que não demonstram uma ética de trabalho ou um relacionamento com os colegas próprios de quem é cheio do Espírito. Que tipo de testemunho é esse?
A desistência dos obreiros As pesquisas mais relevantes revelam que a razão número um para missionários deixarem o campo são os relacionamentos interpessoais ruins! Eles estudaram durante anos em escolas bíblicas e em institutos de línguas, estagiaram em igrejas locais, investiram boa parte da vida em preparação e, depois de um único período no exterior, voltaram para casa amargurados, desiludidos, envergonhados e feridos. Não deveria ser assim!
Na América do Norte, o tempo médio de permanência de um pastor numa igreja local é de menos de cinco anos. O primeiro ano é a lua de mel; o segundo, a familiaridade. No terceiro ano instala-se a desilusão, com murmúrios de insatisfação; tanto o pastor quanto os membros da igreja têm expectativas não atendidas em relação uns aos outros.
No quarto ano a insatisfação vem à tona, muitas vezes com aspereza e acusações. As pessoas tomam partido, gera-se muito calor, e o pastor vai embora, normalmente dizendo: “Eu não preciso aturar isso!” Que tipo de testemunho é esse?
Brigas de igreja Você já se envolveu numa briga de igreja? Não é coisa agradável! Conheço uma igreja que já teve mais de trezentas pessoas e hoje não existe mais. Todo mundo naquela cidade parece conhecer algum pedaço da história, e há muita gente que antes frequentava fielmente e que hoje diz que nunca mais vai pôr os pés numa igreja!
As feridas são reais porque a briga foi amarga. Os crentes disparavam “tiros” uns contra os outros, assassinando-se mutuamente, e o eco daqueles tiros percorreu a cidade inteira. Satanás se regozijou, e o Senhor chorou!
Claro que a maior parte das nossas brigas fica entre quatro paredes, ou é mais sutil. Li um artigo interessante de jornal que falava de um grupo de ministros que estava criando grupos de apoio para pastores com queixas contra a sua igreja ou organização eclesiástica. Contava que ministros de uma denominação estavam “processando por altas quantias”, e acrescentava que as igrejas são bem mais brutais com os seus pastores do que as empresas com os seus empregados, e que os casos mais cruéis se dão na tradição evangélica (Christian Week (Canadá), 21 de junho de 1994).
Dê uma olhada nos anúncios de igrejas no jornal local de sábado à noite e veja como competimos uns com os outros na arena de ganhar mais gente para a nossa igreja — normalmente vinda de alguma outra igreja! Está bem documentado que a maior parte do crescimento das igrejas é crescimento por transferência, não por conversão. Anedotas pessoais não são coisa recomendável, mas certa vez tive uma experiência interessante que vale a pena contar.
Era o começo do ano letivo na universidade, e todos os pastores da região foram convidados a se encontrar com os estudantes para falar sobre as suas igrejas. Cada um teve dois minutos para se apresentar.
Fiquei ouvindo enquanto, um após o outro, os pastores exaltavam as virtudes das suas igrejas. “Temos um grupo maravilhoso de universitários e jovens profissionais, e podemos mandar o nosso ônibus buscar você.” “Você vai adorar a nossa música — é animada, do jeito que os jovens gostam!”
“A maioria dos seus colegas frequenta a nossa igreja, porque ficamos pertinho do campus.” Eu era mais ou menos o trigésimo pastor da fila e pastoreava um trabalho pequeno, que lutava para sobreviver. Quando me levantei, disse aos estudantes que éramos uma igreja pequena, sem programas especiais. Não tínhamos nada a lhes oferecer, exceto trabalho, se quisessem nos ajudar a alcançar o nosso bairro para Cristo.
Sentei-me — e os estudantes irromperam em aplausos!
À medida que a igreja cresceu, boa parte da nossa congregação passou a ser de universitários. Por que competimos uns com os outros pelas ovelhas, se todos servimos ao mesmo Grande Pastor? Que tipo de testemunho é esse?
Por que nos é tão difícil honrar uns aos outros, amar e servir uns aos outros? Será simplesmente o nosso orgulho atravessando o caminho, enquanto ao mesmo tempo falamos em ser cheios do Espírito? Ou será que apenas ignoramos que estamos numa batalha, e que o inimigo é muito astuto?
Esteja certo disto! Se é prioridade do Senhor ter um povo em relacionamentos corretos uns com os outros, em obediência à Sua Palavra, é certamente prioridade de Satanás estragar esses relacionamentos! “Dividir para conquistar” bem poderia ser o lema dele.