Capítulo 3 · 11 min de leitura

Prioridades

A Festa da Aliança Era um dia quente e poeirento quando Pedro e João, discípulos de Jesus, entraram na cidade de Jerusalém. Tinham vindo celebrar o Pessach, a Festa da Páscoa, e naquele momento seguiam um homem que carregava um cântaro de água e que os levaria ao lugar onde a festa deveria ser preparada.

Como o Senhor lhes havia dito, não foi difícil encontrar o guia, pois ver um homem carregando um cântaro de água era coisa incomum. Essa era uma tarefa que normalmente cabia às mulheres.

Ele os conduziu a uma agradável casa de dois andares, onde o anfitrião os recebeu com calor. Quando lhe contaram o motivo da visita, foram levados a uma sala grande e mobiliada, no andar de cima.

Não demoraram muito a preparar a mesa baixa, pois ambos conheciam bem o que a festa exigia. Tigelas de ervas amargas alternavam-se com pratos de maçã, canela e amêndoas. Um frasco de água salgada e alguns ovos cozidos foram colocados ao lado das vasilhas de vinho, e havia várias porções do pão sem fermento a que chamavam “matzá”. Logo chegou a hora, e Jesus veio com os demais discípulos.

Havia um burburinho de entusiasmo e conversa animada quando entraram no cenáculo. Aquele seria um tempo de celebração, a época mais feliz do ano para todos os judeus, quando eram lembrados mais uma vez da grande fidelidade de Jeová. Não os havia Ele libertado da escravidão do Egito tantos anos antes? Não poderia Ele libertá-los também da opressão presente dos romanos?

Para os discípulos de Jesus, aquele momento era provavelmente ainda mais empolgante. Perguntavam-se se estaria próximo o dia em que seu mestre se revelaria à nação como o tão esperado Messias, que viera para libertá-los, conforme haviam profetizado os profetas antigos. Sentiam que estavam num momento decisivo da história do seu povo. De fato, aquela última semana tinha sido bastante fora do comum, e as coisas caminhavam para um desfecho. Era evidente que os líderes religiosos estavam muito abalados tanto pelos ensinos como pela popularidade de Jesus.

Imagino que a conversa dos discípulos girasse inteiramente em torno dos acontecimentos daquela semana e do que eles poderiam significar. Tenho certeza de que Pedro não conseguia parar de falar da entrada triunfal em Jerusalém, apenas cinco dias antes, quando a multidão estendeu suas capas sobre a estrada poeirenta e arrancou ramos das palmeiras para agitá-los, enquanto clamava: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!” (João 12:13).

Posso imaginá-lo de cabeça erguida e peito estufado, conduzindo o jumentinho sobre o qual o mestre ia sentado. João e Tiago, os zelotes (filhos do trovão), teriam ficado mais impressionados com a maneira como o mestre virara as mesas dos cambistas e os expulsara do templo. “Você viu a cara do sumo sacerdote? Rapaz, como ele ficou furioso!”

Todos se reclinaram ao lado da mesa, ainda alegres em seu clima de celebração: era hora de festa. Jesus os observava com prazer enquanto Seus amigos comemoravam, mas Ele sabia algo que escapava ao entendimento deles: no dia seguinte Ele morreria.

O que você faria se o seu médico lhe dissesse que lhe resta pouco tempo de vida? É claro que você pediria uma segunda opinião! E se essa também confirmasse que em breve você deixaria este mundo, seus companheiros de todos os dias e seus amigos? Eu sei o que faria. Encerraria depressa as atividades em que estivesse envolvido e faria de tudo para estar com aqueles que me são mais preciosos: minha esposa, nossas filhas e suas famílias.

Eu iria querer dizer-lhes quanto os amo e quanto me orgulho deles. Eu os encorajaria a prosseguir com Jesus, servindo-O e vivendo uma vida para o louvor da Sua glória.

Eu lhes perguntaria se há alguma coisa pela qual eu precise pedir desculpas: alguma mágoa, alguma palavra dura, alguma falta de consideração. Eu iria querer ter absoluta certeza de que nada ficou por fazer daquilo que podia ser feito para estreitar o nosso vínculo uns com os outros.

Sobraria muito pouco tempo para falar de coisas triviais, como o resultado do último jogo ou as fofocas, que em outras circunstâncias ocupam boa parte dos meus dias. Na verdade, tudo o que eu estaria fazendo seria cuidar das prioridades. E naquela noite, na festa pascal, foi exatamente isso que o Senhor fez com Seus discípulos: cuidou das prioridades!

Suas exigências Como era costume, todos haviam tirado as sandálias ao entrar naquele cenáculo. Seus pés estavam empoeirados, e a areia entre os dedos causava certo desconforto.

Logo se ouviu um murmúrio de insatisfação. As bacias de água estavam sobre uma mesa perto da porta e havia toalhas disponíveis, mas onde estava a serva encarregada de lavar-lhes os pés e refrescá-los? Ela deveria estar ali quando chegaram!

Imagino que tenha sido Pedro o primeiro a dizer em voz alta o que todos pensavam. Ele é tão parecido comigo — sempre metendo os pés pelas mãos! “Cadê a moça? Meus pés estão coçando. Será que alguém errou e esqueceu de avisá-la? Quem organizou esta festa? Quem está na comissão?” Ouvir-se-ia então um cochicho constrangido, enquanto os outros tentavam fazê-lo calar-se. Afinal, fora o Mestre quem havia providenciado tudo! E Ele não comete erros, mesmo quando não conseguimos compreender Seus propósitos.

Jesus levantou-se da mesa e caminhou em direção às bacias de água.

“Ótimo”, pensou Pedro, “Ele vai chamar a moça.”

Jesus tirou a veste de cima, cingiu-se com uma toalha, pegou uma bacia de água e virou-se… para Pedro!

“Ah, não”, pensou Pedro, “Ele vai me pedir para fazer isso!”

Em vez disso, Jesus lava os pés empoeirados de Pedro e, depois, os de todos os outros, inclusive os de Judas Iscariotes, que O trairia e provocaria o sofrimento que Ele antevia para aquela noite. Você consegue imaginar o Senhor erguendo os olhos para os olhos de Judas enquanto lhe lavava os pés? O que Ele viu naqueles olhos?

Medo? Ou culpa? E o que Judas viu nos olhos do seu mestre? Pergunto-me se ele foi capaz de olhar. Que amor!

Jesus devolveu a bacia e a toalha ao seu lugar junto à porta, vestiu novamente a veste de cima e voltou-se para os discípulos.

“Eu vos dei o exemplo”, disse Ele, “para que, como eu vos fiz, façais vós também uns aos outros” (João 13:1-20).

A primeira prioridade do discipulado é o servir. Fomos incumbidos pelo Senhor de sermos servos. Isso é essencial se desejamos ser como Ele, que não veio para ser servido, mas para servir (Mateus 20:28). É a condição da grandeza no Reino dos Céus e uma evidência de estar cheio do Espírito (Efésios 5:18,21).

Não creio que o Senhor tenha querido que O seguíssemos literalmente lavando os pés uns dos outros (embora seja uma grande bênção viver isso), mas sim que procuremos refrescar uns aos outros da poeira e da sujeira de caminhar neste mundo. É impossível viver neste mundo sem que um pouco da sua sujeira grude em nós. Com que raridade se pode ler um jornal, assistir à televisão ou conversar com vizinhos e colegas sem ser contaminado pelo seu veneno! A fofoca e a murmuração, tão comuns até entre os crentes, logo nos roubam a alegria de andar no caminho cristão. Precisamos das palavras que purificam, do alívio e do encorajamento de outros crentes. Precisamos ter os nossos pés lavados! Esse é o propósito da comunhão cristã; no entanto, muitas vezes há tanta “sujeira” sendo jogada de um lado para o outro entre os crentes quanto entre os que estão no mundo!

Não somos chamados apenas a servir uns aos outros no Corpo de Cristo; somos também desafiados a ser servos daqueles que chegariam a trair o nosso Senhor e que não são Seus seguidores.

Jesus lavou os pés de Judas sabendo tudo o que havia em seu coração. Ele via suas dúvidas e frustrações, conhecia suas manobras e seu engano e, ainda assim, não hesitou em lavar-lhe os pés.

Quando terminou essa tarefa, convidou todos os que O reconhecessem como mestre a fazer o mesmo.

Ter a atitude de um servo não é fácil no nosso mundo centrado em si mesmo. Isso exige humildade — conhecer-se tal como se é de fato — e aceitação de si mesmo. Quando nos vemos “em Cristo”, não nos sentimos ameaçados pelo que os outros possam pensar de nós. Que importa o que os outros digam, se sabemos que somos agradáveis ao Senhor? Nossa confiança está Nele e em Suas promessas.

Jesus sabia qual era a Sua missão, de onde tinha vindo e qual era o Seu destino (João 13:3). Essa certeza era o fundamento do Seu servir. O Pai lhe havia dado autoridade, o havia enviado ao mundo e o receberia de volta.

Nós temos a mesma missão e o mesmo destino! O mundo pode nos chamar de fracos ou sem caráter e tentar manipular a nossa atitude de servo para os seus próprios fins. Ele tomará a sua capa, o obrigará a caminhar uma milha e fará de você seu escravo.

Jesus nos disse que, se isso acontecer, demos também a túnica e caminhemos a segunda milha! Ao fazer isso, você se retira da escravidão deles e se torna um servo voluntário (Mateus 5:40-41).

Pouco depois de Judas ter saído da sala para fazer o seu trabalho sujo, Jesus ensinou aos discípulos uma segunda exigência: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:34-35). Note que isso é um mandamento, não uma opção! Você já tentou medir quanto Ele o ama? Essa é a única medida pela qual Ele vai medir quanto você ama “uns aos outros”!

Seria impossível, não fosse a Sua graça e o Espírito Santo que Ele nos dá para habitar em nós.

“Viver lá em cima com quem eu amo, ah, isso será glória! Viver aqui embaixo com quem eu conheço… bem, aí a história é outra!”

(Autor desconhecido).

Podemos não simpatizar uns com os outros, mas temos o mandamento de amar uns aos outros! Isso significa nada de fofoca e nada de punhaladas pelas costas, mas, em lugar disso, honrar, dar preferência uns aos outros, levar as cargas uns dos outros, e muito mais… Uma terceira exigência foi colocada diante dos discípulos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15). Ele nos chama à obediência à Sua palavra. O profeta Samuel, no Antigo Testamento, repreendeu o desobediente rei Saul, dizendo: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.

Porque a rebelião é como o pecado da adivinhação, e a presunção é como a iniquidade e a idolatria. Visto que rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou, para que não sejas rei” (1 Samuel 15:22-23).

Porque Saul não obedeceu à palavra do Senhor Deus, perdeu o seu reino e a sua autoridade. Quando Jesus falava às multidões, os que O ouviam ficavam maravilhados, pois Ele falava como quem tem grande autoridade (Mateus 7:28-29).

Nós, que O reconhecemos como Salvador, precisamos também reconhecer que Ele é o Senhor. O que Ele diz tem a mais alta autoridade.

Precisamos estar sensíveis para ouvir e reconhecer a Sua voz dia após dia. Ele disse que nós, as Suas ovelhas, reconheceríamos a Sua voz. Acima de tudo, devemos ouvi-Lo falar conosco por meio das Escrituras e obedecer ao que Ele diz. Todo crente deveria ser um estudioso da Palavra escrita, vivendo em obediência aos seus preceitos.

As exigências de Jesus para os Seus discípulos são estas: que sirvamos uns aos outros, que amemos uns aos outros e que obedeçamos à Sua Palavra.

Suas promessas Além das três exigências que colocou diante dos discípulos, Jesus também lhes prometeu ricas bênçãos. Ele voltaria e os receberia para Si mesmo, tendo preparado um lugar “na casa de [Seu] Pai” (João 14:2) para eles. Eles fariam obras maiores do que as Suas, pois Ele lhes enviaria outro Consolador e responderia às orações que fizessem segundo a Sua vontade. Eles haveriam de conhecer a bênção de estar em Cristo e de experimentar o amor do Pai.

O Consolador, o Espírito Santo, viria habitar neles e os conduziria à verdade e ao conhecimento da vontade de Deus; traria à sua memória tudo o que Jesus lhes havia ensinado.

“Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim” (João 14:1).

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27).

“Estas coisas vos tenho dito para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (João 15:11).

Ele prometeu a eles — e a nós — uma paz que o mundo não pode dar nem tirar, uma alegria cuja medida é a plenitude, e uma presença que não é outra senão a do próprio Espírito, que nunca nos deixará nem nos desamparará (Deuteronômio 31:6).

Você já experimentou essas coisas na sua caminhada com o Senhor? Eu certamente já, mas anseio por mais!

Experimentar essas promessas depende de sermos servos, de sermos pessoas que amam e de sermos obedientes à Sua Palavra.

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