Capítulo 15 · 9 min de leitura

Caminhando na Sua Cura

De várias maneiras, este é o capítulo mais difícil de escrever. Ensinei os princípios expostos nos capítulos anteriores a muitos grupos diferentes de pessoas. Houve grupos de jovens e de idosos, congregações litúrgicas e não conformistas, seminários bíblicos e grupos caseiros. Em quase todos houve uma reação emocional, com muitas pessoas chorando ao me procurar em busca de aconselhamento.

Entristece-me o fato de que normalmente estou apenas de passagem, sem poder me comprometer com o longo processo de caminhar na cura que tantos deles precisam percorrer. Tenho consciência de que muitas vezes “abri uma ferida” — uma lembrança havia muito reprimida — que agora precisa de cura.

Às vezes a reação é bem inesperada. Lembro-me de uma congregação episcopal formada por adultos maduros que irrompeu em aplausos quando o pastor e eu nos abraçamos, encenando a reconciliação que se segue à libertação. Eles tinham plena consciência da necessidade de perdoar e soltar um antigo pastor daquela igreja, e o entusiasmo com a nova compreensão de como poderiam ser aliviados da dor que carregavam os levou a aplaudir espontaneamente. Nós imediatamente elevamos aquele aplauso como oferta de louvor ao Senhor.

Espero que este livro desperte muitos pastores e conselheiros para a tremenda responsabilidade que temos de trazer reconciliação e cura aos relacionamentos rompidos e às almas feridas que são tão comuns nas nossas igrejas. Espero também que muitos crentes aprendam a manejar as chaves que abrem o reino dos céus para os seus entes queridos e que tragam a si mesmos a libertação das feridas que carregaram por tempo demais.

Já é hora de Satanás ser posto no seu devido lugar e de o povo de Deus poder andar em inteireza e poder, em vez de seguir mancando, como tantos fazem!

Para aqueles que talvez tenham se reconhecido como feridos ao ler este livro, encerro com algumas orientações que os capacitarão a “caminhar” na sua própria cura. Se for possível encontrar um bom conselheiro que percorra esse caminho ao seu lado, um companheiro assim terá enorme valor. Eu o incentivo a pedir a essa pessoa que se familiarize com este livro antes de vocês começarem.

Peça ao Senhor que dirija os seus pensamentos Fique certo de que o Senhor quer curar as feridas da sua alma. Ele as conhece, mas deu a você a chave da cura e quer que você a use! Ele não responderá à oração nas áreas da nossa vida em que já conquistou a vitória na cruz e nas quais entregou a nós a autoridade ou o mandato.

Não tenha pressa A cura raramente vem depressa. A maioria das histórias que posso contar envolve muitos meses de aconselhamento. Leva tempo para voltar a andar depois de uma ferida grave.

Assim como a fisioterapia é essencial para voltarmos a andar depois de um acidente grave que feriu as pernas, também a terapia espiritual é essencial para caminharmos na nossa cura depois de feridas antigas na alma.

Fale sobre o seu passado Costumo incentivar o aconselhado a dividir o seu passado em períodos curtos. Por exemplo: pré-escola, ensino fundamental, adolescência, juventude e assim por diante. Faço perguntas sobre a casa, a escola, os amigos, as coisas que ele ama e as que detesta, enquanto observo padrões de atitudes ou de mágoas. “Como se sentia a criancinha dentro de você?”

Peça ao Senhor que toque cada ferida à medida que ela for revelada.

Anote tudo o que lhe parecer relevante Sempre tenho papel e caneta à mão para anotar padrões que estejam surgindo ou pensamentos que me ocorram. Nos dias em que nenhum conselheiro ou amigo estiver com você, você vai se surpreender com as lembranças que vêm de coisas havia muito esquecidas — mas por que se surpreender, se você já pediu ao Senhor que se envolvesse ativamente no seu processo de cura? Anote essas lembranças.

Reconheça se você foi ferido pelo pecado de outra pessoa Não culpe o outro se o pecado é seu. Se você se ofendeu, precisa lidar com isso conforme descrevi no capítulo nove.

Não entre em negação se quem o ofendeu é alguém que você ama, e certamente não arranje desculpas para essa pessoa. Deus a vê como pecadora, exatamente como você e eu — e pecadores pecam! Não é preciso ficar rodeando o assunto: chame as coisas pelo nome — pecado! Ela pode até ser uma pecadora remida, mas continua capaz de feri-lo.

Na maioria das vezes as feridas foram causadas sem intenção, mas são feridas reais; e, se o ofensor não fosse pecador, elas não teriam sido tão prejudiciais a você.

Ao compreender esse princípio, percebi como eu provavelmente havia ferido a minha própria filha por ignorância.

Anne ficou algumas semanas no hospital antes do nascimento da nossa primeira filha, Corinne; por isso, quando o trabalho de parto começou, eu estava em casa, sem saber o que estava acontecendo. Dois amigos foram os primeiros a me contar do parto, pois haviam ligado para o hospital pouco antes de sair de férias. A equipe de enfermagem lhes disse que o bebê havia nascido, mas não quis dar detalhes, especialmente o sexo da criança — o pai seria o primeiro a ser informado. Eles insistiram que eu ligasse para o hospital para que pudessem saber dos detalhes antes de começar as férias. Eu lhes disse que ligaria depois de terminar o romance de Agatha Christie que estava lendo! É claro que era brincadeira, só para deixá-los em suspense, e logo fomos juntos até o orelhão público para ouvir a emocionante notícia de que eu era agora pai de uma linda menina.

Contudo, essa história foi repetida muitas vezes a amigos que nos visitavam ao longo dos anos, e às vezes na presença da minha filha. Nunca pensei em como ela ouvia aquela história — que o papai não se importava muito com o momento em que ela nasceu. Será que ele não a queria?

Apenas dois anos depois da primeira publicação deste livro, escrevi a Corinne pedindo perdão pelas feridas causadas pela minha falta de sensibilidade.

Escreva uma carta, sendo específico sobre as suas mágoas Você não precisa mostrar essa carta a ninguém, embora possa optar por confiá-la ao seu conselheiro. Faça isso, porém, somente se ele for digno de confiança quanto ao sigilo e se você souber que não permitirá que aquilo que leu afete a sua atitude para com você ou para com quem o feriu. Procure ser abrangente e objetivo na carta, escrevendo como você se sentiu quando foi ferido: rejeitado, diminuído, humilhado, e assim por diante.

Procure acrescentar também tudo o que puder dizer de positivo.

Ser objetivo pode ser bem difícil, pois essa carta é capaz de despertar emoções fortes e dor. O seu propósito é permitir que você traga à superfície emoções que reprimiu por anos.

Curativos que viraram amarras precisam ser retirados! Não tenha pressa!

Escolha perdoar Reconheça que quem o feriu é um pecador andando em trevas. Essa pessoa está cega quanto ao que fez à sua alma. O seu verdadeiro adversário é Satanás, cujo exército o marcou como alvo desde o nascimento, e o seu ofensor não passa de um instrumento, ignorante das artimanhas de Satanás. Fique irado contra Satanás e perdoe o cego. Certifique-se de estar disposto a perdoar cada item mencionado na carta que você escreveu.

Não espere que o Senhor cure aquilo que você não está disposto a perdoar.

Escolha soltar Por que não usar a oração de Santo Estêvão? “Pai, não lhes imputes estes pecados! Hoje eu escolho soltá-los de toda culpa.”

Depois de fazer essa oração, sugiro que você anote a data, guardando-a na memória como guardaria um aniversário.

Queime a carta!

O assunto foi resolvido — para que mantê-lo por perto?

Esse dia deve ficar registrado na sua memória apenas como aquele em que você começou a caminhar na sua cura — um dia para celebrar!

Ore por quem o feriu Comprometa-se a orar todos os dias para que Deus abençoe quem o feriu. Os filhos dessa pessoa estão longe do Senhor? Ore por eles. O negócio dela vai mal? Ore pelo sucesso dele. Ao continuar orando dessa maneira, Deus agirá através do canal entre Ele e essa pessoa — um canal que você abriu com o seu perdão e a sua libertação. Ao fazer isso, você estará se livrando da escravidão à prisão emocional das suas feridas e se tornando o servo que Jesus o chamou a ser.

Se alguém o prejudica tomando a sua túnica, ele o faz seu escravo; mas, ao dar-lhe também a sua capa, você se faz servo dele. Se ele o prejudica obrigando-o a andar uma milha, ele o faz seu escravo; mas, ao andar duas milhas, você se faz servo dele (Mateus 5:40-41). Se ele fere a sua alma, você se torna um escravo emocional; mas, ao orar por ele, você se torna servo dele.

O primeiro chamado do discipulado é tornar-se servo, assim como Jesus se fez servo por você.

Esteja aberto à reconciliação Se surgir uma oportunidade de se reconciliar com quem o feriu, não deixe que a apreensão ou o medo o impeçam.

A prioridade do Senhor não é apenas a cura, que abençoa você, mas a reconciliação, que abençoa a Ele!

Caminhe na sua cura Todos os dias, vista toda a armadura de Deus, conforme se encontra em Efésios 6:10-18. Faça disso um ato consciente, declarando em voz alta enquanto o faz: “Visto o cinto da verdade, para que o meu ‘homem interior’ não seja ferido pelas mentiras do inimigo. Visto a couraça da justiça, para que o inimigo jamais divida o meu coração em seu compromisso e amor pelo Senhor”, e assim por diante. Somente os “limpos de coração” verão a Deus — aqueles cujo coração não está misturado com a escória deste mundo (Mateus 5:8).

Entregue cada ferida ao Grande Médico Tão certamente quanto o inimigo sabe onde estão as suas feridas, o Senhor também sabe. Ele sentiu a sua dor quando você foi ferido e anseia pela sua cura; a chave, porém, Ele entregou a você.

Quando você começa a usá-la, Ele se dispõe de bom grado a ajudá-lo a caminhar na cura. Assim como revelou a você as feridas, Ele também remove as amarras e traz inteireza em lugar delas; afinal, Ele é o “Grande Médico”, o curador, que tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas dores e por cujas feridas somos sarados (Isaías 53:4-5).

Por fim, agradeça a Ele pela cura!

Página 1 / 7 · 9 min restantes no capítulo