Capítulo 9 · 7 min de leitura
Fazer e Conhecer
Mas Jesus disse: “Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” Lucas 11:28.
“Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo.” João 7:17.
Algum tempo atrás, recebi a carta de alguém que era evidentemente um cristão sincero, pedindo-me algumas sugestões que o ajudassem no estudo da Bíblia. Meu primeiro impulso foi responder que há tantas palestras e folhetos sobre o assunto, que ele encontraria tudo o que eu poderia dizer já melhor dito por outros. Passado algum tempo, certas experiências em meu próprio círculo mais próximo fizeram-me sentir quão necessária era a instrução sobre este assunto tão importante, e percebi que havia pontos aos quais convinha dar especial destaque. Tomo da pena com a oração sincera e a esperança de que o que escrevo venha de Deus, a fonte da Luz e da Vida, para ajudar os seus jovens filhos a ver como podem extrair da sua preciosa Palavra toda aquela instrução e alimento divinos, toda aquela abundante alegria e força que ele lhes tem reservado.
Suponho estar dirigindo-me a um jovem cristão que me disse: “Ajude-me a estudar a minha Bíblia. Dê-me algumas regras que me orientem sobre como começar e como prosseguir, para que eu conheça bem a minha Bíblia.” A primeiríssima coisa que tenho a lhe dizer, a que vem antes de todas as outras, é esta: no seu estudo da Bíblia, tudo dependerá do espírito com que você a ela se achega, do Objetivo ou Fim que você propõe a si mesmo. Nas coisas do mundo, um homem é governado e impelido pelo Fim ou Alvo que coloca diante de si. Com a Bíblia não é diferente. Se o seu alvo é simplesmente conhecer bem a Bíblia, você ficará desapontado. Se você pensa que um conhecimento completo da Bíblia será necessariamente uma bênção, está enganado.
Para alguns, é uma maldição. Para outros, é sem poder: não os torna nem santos nem felizes. Para alguns é um fardo, que os deprime em vez de vivificá-los ou levantá-los. Qual deveria, então, ser o Alvo ou Fim, a verdadeira disposição do estudante da Bíblia? A palavra de Deus é alimento, pão do céu; a primeira necessidade para o estudo da Bíblia é: UMA GRANDE FOME DE JUSTIÇA, um grande desejo de fazer toda a vontade de Deus. A Bíblia é luz: a primeira condição para desfrutá-la é um coração que anseia andar nos caminhos de Deus. Não é isto o que nos ensinam os textos que coloquei acima?
“Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.” Não há bem-aventurança em ouvir ou conhecer a palavra de Deus se ela não for guardada. A palavra nada é se não for guardada, obedecida ou praticada. “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá.” João 7:17. Segundo esta palavra do nosso Senhor, todo verdadeiro conhecimento da palavra de Deus depende, primeiro, da vontade de praticá-la.
Não é esta a própria lição que estamos enfatizando? Deus recusará abrir o verdadeiro sentido e a bênção da sua palavra a todos, exceto àqueles cuja vontade está decididamente firmada em praticá-la. Devo ler a minha Bíblia com um só propósito: “Tudo o que ele vos disser, fazei-o.”
Por que deve ser assim, verifica-se facilmente quando pensamos para que servem as palavras. Elas estão entre a vontade e a ação. Um homem quer fazer algo por você; antes de fazê-lo, exprime o seu pensamento ou propósito em palavras; depois cumpre as palavras fazendo o que prometeu. Assim também com Deus. As suas palavras têm o seu valor daquilo que ele faz. Na criação, a sua palavra vinha com poder: ele falou, e tudo se fez. Na graça, ele faz o que diz. Davi ora (2 Samuel 7:25): “Faze como falaste.” Salomão diz, na consagração do templo: “que com a tua mão cumpriste o que com a tua boca prometeste”; “que cumpriu a palavra que falou”; “que guardaste o que lhe prometeste”; “que o falaste com a tua boca, e o cumpriste com a tua mão”; “confirme-se a tua palavra que falaste” (2 Crônicas 6:4, 10, 15, 16, 17). Pelos profetas, Deus diz: “Eu, o Senhor, o falei; eu o farei.” E eles dizem: “O que falaste está feito.”
A verdade e o valor daquilo que Deus promete consistem nisto: que ele o faz. A sua palavra de promessa é destinada a ser cumprida. Isto não é menos verdadeiro da sua palavra de mandamento, das coisas que ele quer que façamos. Se não as fazemos, se procuramos conhecê-las, se admiramos a sua beleza e louvamos a sua sabedoria, mas não as fazemos, enganamos a nós mesmos. Elas foram feitas para ser cumpridas; é somente ao cumpri-las que o seu verdadeiro sentido e a sua bênção podem desdobrar-se para nós.
É somente ao praticá-las que podemos verdadeiramente crescer na vida divina. “Para que possais andar de modo digno do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus.” É somente quando nos achegamos às palavras de Deus com o mesmo objetivo que Deus tinha em vista — que fossem cumpridas — que podemos ter alguma esperança de bênção.
Não é isto o que vemos ao nosso redor na busca do conhecimento ou em qualquer ramo de ofício? Espera-se que o aprendiz ou o aluno ponha em prática as lições que recebe; só então está preparado para ensino maior. E assim também na vida cristã: o estudo da Bíblia é mais teórico, um agradável exercício da mente e da imaginação, de pouco ou nenhum valor para uma vida de verdadeira santidade ou semelhança com Cristo, até que o estudante esteja pronto a nunca abrir ou fechar a sua Bíblia sem fazer seu próprio o propósito de Deus, e a escutar quando ele diz: “Faze tudo o que eu falo.” Esta foi a marca dos santos de outrora. “Assim partiu Abrão, como o Senhor lhe dissera.” “Assim fez Moisés; conforme tudo o que o Senhor lhe ordenara, assim fez.” Esta é a descrição do homem que, como servo, foi fiel em toda a casa de Deus. E de Davi lemos: “Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.”
No Salmo 119, ouvimo-lo falando com Deus acerca da sua palavra, e orando por luz e ensino divinos, mas sempre acompanhado do voto de obediência, ou de alguma outra expressão de amor e deleite. É o fazer a vontade de Deus que, mesmo com o próprio Filho de Deus, é o único segredo para entrar no favor e na mente de Deus.
Acabo de ler o novo livro do Sr. Moody, “Prazer e Proveito no Estudo da Bíblia.” Não duvido de que muitos se valerão das sugestões que ele contém. Pensarão, com razão: o que ajudou um homem como Moody também pode ajudar a mim. E, contudo, podem ficar desapontados. E ficarão, a menos que tragam à Bíblia o que o Sr. Moody trouxe: um desejo honesto de fazer tudo o que via que Deus queria que fizesse. Jovem cristão! Rogo-te, pelas misericórdias de Deus, que, quando pedires a Deus que te conduza aos tesouros da sua palavra, ao palácio onde Cristo habita, o faças como quem se apresenta em sacrifício vivo, pronto a fazer tudo o que Deus disser.
Não penses que isto é coisa natural e evidente. É de mais profunda importância do que sabes. Isto falta ao estudo da Bíblia com mais frequência do que imaginas. Busca-o com profunda humildade. A primeira necessidade para desfrutar do alimento é a fome. O primeiro requisito para o estudo da Bíblia é um simples e resoluto anseio de descobrir o que Deus quer que faças, e uma determinação inteiramente séria de fazê-lo. “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo.” A esse a palavra de Deus será aberta.