Capítulo 90 · 2 min de leitura · 3 min de escuta
O homem não deve julgar-se digno de consolação, mas antes merecedor de castigo
O Discípulo
SENHOR, não sou digno da Tua consolação nem de nenhuma visita espiritual. Por isso me tratas com justiça quando me deixas pobre e desolado. Pois, ainda que eu pudesse derramar um mar de lágrimas, nem assim seria digno da Tua consolação. Por isso, mereço apenas ser flagelado e castigado, porque Te ofendi muitas vezes e gravemente, e pequei muito em muitas coisas. Com toda a justiça, pois, não sou digno de nenhuma consolação.
Mas Tu, ó Deus clemente e misericordioso, que não queres que as Tuas obras pereçam, dignas-Te consolar o Teu servo além de todo o seu merecimento e acima da medida humana, para mostrar as riquezas da Tua bondade para com os vasos de misericórdia. Pois as Tuas consolações não são como as palavras dos homens.
Que fiz eu, Senhor, para que me concedas algum conforto celeste? Lembro-me de que nada fiz de bom, mas de que sempre fui inclinado ao pecado e lento para me emendar. Isto é verdade. Não o posso negar. Se dissesse outra coisa, Tu Te levantarias contra mim e não haveria quem me defendesse. Que mereci pelos meus pecados senão o inferno e o fogo eterno?
Na verdade, confesso que sou digno de todo escárnio e desprezo. Nem convém que eu seja lembrado entre os Teus servos devotos. E, embora me seja duro ouvir isto, todavia, por amor da verdade, alegarei contra mim os meus pecados, para que mais facilmente mereça implorar a Tua misericórdia. Que direi eu, culpado como sou e cheio de toda confusão? A minha língua nada pode dizer senão isto somente: “Pequei, Senhor, pequei; tem misericórdia de mim e perdoa-me. Deixa-me um pouco, para que eu derrame a minha dor, antes que eu vá para a terra tenebrosa, coberta da sombra da morte.”
Que exiges Tu especialmente de um pecador culpado e miserável, senão que se arrependa e se humilhe pelos seus pecados? Na verdadeira contrição e humildade de coração nasce a esperança do perdão, a consciência perturbada se reconcilia, a graça é encontrada, o homem é preservado da ira vindoura, e Deus e o penitente se encontram num santo ósculo.
Para Ti, Senhor, a humilde dor dos pecados é sacrifício aceitável, sacrifício muito mais suave que o perfume do incenso. Este é também o unguento agradável que quiseste fosse derramado sobre os Teus sagrados pés, pois nunca desprezaste um coração contrito e humilhado. Aqui está o lugar de refúgio contra a força da ira do inimigo. Aqui se emenda e se lava toda mancha contraída em outro lugar.
Capítulo 90 concluído
O homem não deve julgar-se digno de consolação, mas antes merecedor de castigo