A Cana Esmagada ·O governo de Cristo é vitorioso

Capítulo 22 · 15 min de leitura

O governo de Cristo é vitorioso

A terceira conclusão é que este governo é vitorioso. As razões são estas:

1. Porque Cristo primeiro venceu tudo em sua própria pessoa, e ele é Deus sobre todos, bendito para sempre (Romanos 9:5); e, portanto, venceu o pecado, a morte, o inferno, Satanás, o mundo, e assim por diante. E, assim como os venceu em si mesmo, também os vence em nossos corações e consciências. Costumávamos dizer que a consciência faz de um homem um rei ou um miserável, porque foi plantada em nós para julgar em favor de Deus, seja a nosso favor, seja contra nós. Ora, se a consciência natural é tão poderosa, o que será dela quando, além de sua própria luz, receber a luz da verdade divina? Sem dúvida prevalecerá, ou para nos fazer erguer a cabeça com ousadia, ou para nos rebaixar abaixo de nós mesmos. Se, pela graça, ela se submeter à verdade de Cristo, então olhará com ousadia por cima da morte, do inferno, do juízo e de todos os inimigos espirituais, porque então Cristo estabelece o seu reino na consciência e a torna uma espécie de paraíso.

O conflito mais agudo que a alma enfrenta é entre a consciência e a justiça de Deus. Ora, se a consciência, aspergida com o sangue de Cristo, já prevaleceu sobre os ataques que vinham da justiça de Deus — agora satisfeita por Cristo —, então prevalecerá sobre qualquer outra oposição, seja ela qual for.

2. Temos de enfrentar inimigos amaldiçoados e condenados; portanto, se eles começam a cair diante do espírito que há em nós, cairão de vez; e, se tornam a se levantar, é para terem queda ainda maior.

3. O Espírito da verdade, a cujo cuidado Cristo confiou a sua Igreja, e a verdade do Espírito, que é o cetro de Cristo, permanecem para sempre. Por isso, a alma gerada pela semente imortal do Espírito (1 Pedro 1:23) e por esta verdade não só há de viver para sempre, mas também há de prevalecer sobre tudo o que a ela se opõe, pois tanto a palavra como o Espírito são poderosos em sua ação (Hebreus 4:12). E, se o espírito maligno nunca está ocioso naqueles que Deus lhe entrega, não podemos supor que o Espírito Santo esteja ocioso naqueles cuja direção e governo lhe foram confiados. Não; assim como ele habita neles, também expulsará tudo o que se levanta contra ele, até que seja tudo em todos.

O que é espiritual é eterno; a verdade é um raio do Espírito de Cristo, tanto em si mesma como enquanto enxertada na alma. Por isso, ela e a graça que por ela é operada — por menor que seja — hão de prevalecer; uma coisa pequena na mão de um gigante realiza grandes feitos. Uma fé pequena, fortalecida por Cristo, fará maravilhas. 4. A quem tem, mais lhe será dado (Mateus 25:29); a vitória sobre qualquer corrupção ou tentação é um penhor da vitória final. Como disse Josué quando pôs o pé sobre os cinco reis que venceu: 'Assim fará o Senhor a todos os nossos inimigos' (Josué 10:25). O céu já é nosso; só nos resta lutar até tomarmos plena posse dele.

5. Cristo, como rei, introduz na alma uma luz que governa, dobra a cerviz e amolece o tendão de ferro do homem interior; e, onde ele começa a reinar, reina para sempre, pois o seu reino não tem fim (Lucas 1:33).

6. O propósito da vinda de Cristo foi destruir as obras do diabo, tanto por nós como em nós; e o propósito da ressurreição foi, além de selar em nós a certeza da sua vitória, também: 1. vivificar as nossas almas da morte em pecado; 2. livrar as nossas almas dos laços e das tristezas da morte espiritual que acompanham a culpa do pecado; 3. levantá-las mais consoladas, assim como o sol irrompe mais glorioso de uma nuvem espessa; 4. levantar-nos de deslizes e faltas particulares, tornando-nos mais fortes; 5. levantar-nos de todas as condições penosas e obscuras desta vida; e 6. por fim, levantar os nossos corpos do pó. Pois o mesmo poder que o Espírito manifestou ao ressuscitar a Cristo, nossa cabeça, das tristezas da morte e do grau mais baixo do seu rebaixamento — o mesmo poder obtido de Deus pela morte de Cristo, agora aplacado por aquele sacrifício —, esse mesmo poder o Espírito manifestará na Igreja, que é o seu corpo, e em cada membro dela em particular. E esse poder nos é transmitido pela fé, pela qual, depois de unidos a Cristo em ambos os seus estados, o de humilhação e o de exaltação, nos vemos não somente mortos com Cristo, mas também ressuscitados e assentados juntamente com ele nos lugares celestiais (Efésios 2:6). Ora, ao nos compreendermos mortos e ressuscitados — e, por isso, vitoriosos sobre todos os nossos inimigos em nossa cabeça — e ao compreendermos que o alvo dele em tudo isto é conformar-nos a si mesmo, somos, por esta fé, transformados à sua semelhança (2 Coríntios 3:18); e assim nos tornamos vencedores de todos os nossos inimigos espirituais, como ele o é, por aquele poder que dele derivamos, que é o celeiro de toda a força espiritual para todos os seus. Cristo, por fim, alcançará o seu propósito em nós, e a fé descansa segura disso; e essa certeza é muito eficaz, movendo-nos a nos unir a Cristo nos seus propósitos.

E assim também a Igreja em geral, por Cristo, terá a sua vitória. Cristo é aquela pedra pequena cortada do monte sem auxílio de mãos, que despedaça aquela bela estátua (Daniel 2:35) — isto é, todo governo que se lhe opõe —, até tornar-se um grande monte que enche toda a terra. De modo que a pedra que foi cortada do monte acaba, ela mesma, tornando-se um monte. Quem és tu, então, ó monte, que pensas resistir a este monte? Tudo cairá por terra, aplanado diante dele; ele derrubará todos os pensamentos altivos e soberbos como montanhas, e abaterá o orgulho de toda a carne. Quando a palha luta contra o vento, o restolho contra o fogo, quando o calcanhar dá coices contra os aguilhões, quando o caco de barro discute com o oleiro, quando o homem luta contra Deus, é fácil saber de que lado ficará a vitória. Os ventos podem sacudir o navio em que Cristo está, mas não podem emborcá-lo. As ondas podem arrebentar contra a rocha, mas apenas se despedaçam contra ela.

Se é assim, por que então acontece isto à Igreja de Deus e a muitos cristãos cheios de graça? A vitória parece ficar do lado do inimigo.

Como resposta, lembra-te: 1. Em suas tribulações, os filhos de Deus costumam vencer por meio do sofrimento; aqui os cordeiros vencem os leões, e as pombas, as águias, por meio do sofrimento, para que nisto sejam conformes a Cristo, que mais venceu quando mais sofreu; junto com o reino de paciência de Cristo havia também um reino de poder.

2. Esta vitória se dá por etapas; por isso são apressados demais em espírito os que quereriam vencer logo ao desferir o primeiro golpe, e estar no fim da corrida logo na partida. Os israelitas tinham a vitória assegurada em sua jornada rumo a Canaã e, mesmo assim, tiveram de combater até o fim. Deus não quer que esqueçamos de imediato quão cruéis inimigos Cristo venceu por nós; 'Não os mates, para que o meu povo não se esqueça', diz o salmista (Salmos 59:11). E isto para que, pela experiência do incômodo que eles nos causam, sejamos guardados no temor de vir a cair sob o poder deles.

3. Deus muitas vezes age por meio de contrários: quando pretende dar a vitória, permite que a princípio sejamos derrotados; quando pretende consolar, primeiro aterroriza; quando pretende justificar, primeiro nos condena; a quem pretende tornar glorioso, primeiro rebaixa. O cristão vence até mesmo quando é vencido; quando é vencido por certos pecados, alcança a vitória sobre outros mais perigosos, como o orgulho espiritual, a falsa segurança, e assim por diante.

4. A obra de Cristo, tanto na Igreja como no coração dos cristãos, muitas vezes recua para melhor avançar: assim como a semente apodrece na terra no inverno, mas depois brota melhor; e quanto mais rigoroso o inverno, mais viçosa a primavera; assim aprendemos a firmar-nos por meio das quedas, e ganhamos força por meio da fraqueza que descobrimos em nós; lançamos raízes mais profundas ao sermos sacudidos; e, como as tochas ardem mais vivamente quando movidas, assim apraz a Cristo, em sua liberdade, manter deste modo o seu governo em nós. Nisto, esforcemo-nos por exercitar a nossa fé, para que ela corresponda ao modo como Cristo age conosco: quando somos derrotados, creiamos que venceremos; quando caímos, creiamos que tornaremos a levantar-nos. Jacó, depois de receber um golpe que o deixou coxeando, ainda assim não desistiu de lutar (Gênesis 32:24), até obter a bênção; assim, nunca desistamos, mas, em nossos pensamentos, unamos o começo, o progresso e o fim, e então nos veremos no céu, fora do alcance de todos os inimigos. Convençamo-nos de que a graça de Deus, ainda neste estado imperfeito, é mais forte do que o livre-arbítrio do homem no estado da primeira perfeição, pois agora está fundada em Cristo, que, sendo o autor, será também o consumador da nossa fé (Hebreus 12:2); estamos sob uma aliança mais cheia de graça.

O que alguns dizem — que a fé enraizada permanece, mas a fé fraca pode reduzir-se a nada — parece ser contrariado por esta Escritura; pois, assim como a fé mais forte pode ser abalada, também a mais fraca, onde há verdade, está de tal modo enraizada que há de prevalecer. A fraqueza acompanhada de vigilância resistirá, ao passo que a força acompanhada de excesso de confiança fracassa. A fraqueza que se reconhece a si mesma é o assento e o objeto mais adequados para que Deus aperfeiçoe nela a sua força; pois a consciência de nossas fraquezas nos faz sair de nós mesmos rumo àquele em quem está a nossa força.

Daqui se segue que a fraqueza pode coexistir com a certeza da salvação; apesar de todas as suas fraquezas, os discípulos são exortados a alegrar-se (Lucas 10:20) por estarem os seus nomes escritos no céu. As faltas, acompanhadas de luta, na santificação não devem enfraquecer a paz da nossa justificação nem a certeza da salvação. Não importa tanto que mal há em nós, quanto que bem; não quais são as corrupções, mas como nos dispomos diante delas; não quais são as nossas faltas particulares, mas antes qual é o fio e o teor de nossa vida; pois o desagrado de Cristo para com aquilo que há de errado em nós não resulta em ódio às nossas pessoas, mas na subjugação vitoriosa de todas as nossas fraquezas. Alguns, depois da luta, admiraram-se da bondade de Deus por uma fé tão pequena e vacilante os ter sustentado em combates tão grandes, quando Satanás quase os havia apanhado. E, de fato, é de admirar quanto uma pequena graça prevalece diante de Deus para a aceitação, e sobre os nossos inimigos para a vitória, quando o coração é reto. Tão grande é a bondade do nosso doce Salvador, que ele ainda se compraz em mostrar a sua força na nossa fraqueza.

Portanto, em primeiro lugar, para grande consolo dos cristãos pobres e fracos, saibam eles que uma faísca vinda do céu, ainda que acesa sob lenha verde que chia e fumega, no fim consumirá tudo. O amor, uma vez aceso, é forte como a morte, e muitas águas não o podem apagar; por isso é chamado de chama veementíssima, ou chama do Senhor (Cânticos 8:6), acesa no coração pelo Espírito Santo. Aquele pouco que há em nós é alimentado por uma fonte eterna. Assim como o fogo que desceu do céu nos dias de Elias (1 Reis 18:38) lambeu toda a água, para mostrar que vinha de Deus, assim este fogo consumirá todas as nossas corrupções; nenhuma aflição de fora, nem corrupção de dentro, o apagará. De manhã, muitas vezes vemos as nuvens juntarem-se ao redor do sol, como se quisessem escondê-lo, mas o sol as dissipa pouco a pouco, até chegar à sua plena força. No início, os medos e as dúvidas impedem que este fogo irrompa, até que, por fim, ele se ergue acima de todos eles e Cristo prevalece; e então ele mesmo sustenta em nós as suas próprias graças. A graça primeiro nos vence a nós, e por ela vencemos todas as demais coisas, sejam as corrupções dentro de nós, sejam as tentações fora de nós.

A Igreja de Cristo, gerada pela palavra da verdade, tem por coroa a doutrina dos apóstolos e pisa sob os pés a lua — isto é, o mundo e todas as coisas mundanas (Apocalipse 12:1). 'Todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo' (1 João 5:4). A fé, por meio da qual Cristo especialmente reina, coloca a alma tão elevada que ela olha todas as outras coisas como muito abaixo de si, pois lhe são apresentadas, pelo Espírito de Cristo, riquezas, honra, beleza e prazeres de natureza mais elevada.

Ora, para que não fiquemos privados do consolo aqui pretendido, há duas coisas que sobretudo devemos observar: 1. se está estabelecido em nós esse juízo ou governo ao qual se faz esta promessa de vitória; 2. algumas regras ou orientações sobre como devemos proceder, para que o juízo de Cristo em nós seja de fato vitorioso.

As evidências pelas quais podemos vir a saber que o juízo de Cristo em nós é tal que será vitorioso são estas: 1. Se, a partir da experiência, formos capazes de justificar todos os caminhos de Cristo — diga a carne e o sangue o que disser em contrário — e pudermos subscrever de bom grado o rumo que Deus tomou em Cristo para nos levar ao céu, e ainda desejarmos uma medida maior de graça do que a que já alcançamos, planejando e buscando obtê-la. Nenhum outro homem consegue justificar os seus caminhos quando a sua consciência desperta. 2. Quando as razões da religião são para nós as razões mais fortes e prevalecem mais do que as razões tiradas da conveniência mundana. 3. Quando somos tão fiéis aos nossos fins e tão apegados à nossa regra que nenhuma esperança nem temor nos pode desviar para outro caminho, mas continuamos sempre atentos ao que concorda ou difere da nossa regra. 4. Quando nada podemos fazer contra a verdade, mas somente a favor da verdade (2 Coríntios 13:8), por nos ser ela mais cara do que a própria vida; a verdade não possui tal soberania no coração de nenhum homem carnal. 5. Quando, ainda que tivéssemos liberdade de escolher sob o governo de quem viveríamos, por deleite do homem interior no governo de Cristo, o escolheríamos somente a ele para nos governar, antes de qualquer outro; pois isto prova que temos o mesmo modo de sentir de Cristo, que somos um povo livre e voluntário, não obrigado ao serviço de Cristo senão pela doce coação do amor. Quando de tal modo nos agrada o governo do Espírito de Cristo, que estamos dispostos a entregar-nos a ele em todas as coisas; pois então o seu reino chegou até nós, quando a nossa vontade é submetida à sua vontade; é a inclinação da nossa vontade que nos torna bons ou maus.

6. Uma vida ordenada e constante, não feita de arrancos e recaídas, revela um coração bem ordenado; assim como, num relógio, quando o martelo bate corretamente e o ponteiro do mostrador marca corretamente, é sinal de que as engrenagens estão bem ajustadas. 7. Quando a vontade de Cristo entra em conflito com alguma perda ou ganho terreno e, mesmo assim, naquele caso particular, o coração se curva a Cristo, isto é um sinal verdadeiro; pois a mais autêntica prova do poder da graça está justamente nesses casos particulares que nos tocam mais de perto, porque é aí que a nossa corrupção mais levanta a cabeça. Quando Cristo se aproximou demais do jovem no evangelho (Mateus 10:22), perdeu-o como discípulo. 8. Quando conseguimos cumprir deveres agradáveis a Cristo, ainda que contrários à carne e ao rumo do mundo; e quando conseguimos vencer a nós mesmos naquele mal a que a nossa natureza é propensa e tão inclinada, que se ajusta ao espírito da época e sob o qual outros jazem escravizados — como o desejo de vingança, o ódio aos inimigos, os interesses egoístas, e assim por diante —, então se mostra que a graça está em nós acima da natureza, o céu acima da terra, e há de alcançar a vitória.

Para esclarecer melhor isto e nos ajudar em nossa provação, devemos saber que há três graus de vitória: 1. quando resistimos, ainda que sejamos derrotados; 2. quando a graça leva a melhor, ainda que com luta; 3. quando toda a corrupção é perfeitamente subjugada. Ora, mesmo quando temos força apenas para resistir, ainda assim podemos saber que o governo de Cristo em nós será vitorioso; porque o que se diz do diabo se diz de todos os nossos inimigos espirituais: se resistirmos, com o tempo fugirão de nós (Tiago 4:7); porque maior é aquele que está em nós, que toma o partido da sua própria graça, do que aquele que está no mundo (1 João 4:4). E, se podemos esperar a vitória pela simples resistência, o que não poderemos esperar quando o Espírito tiver alcançado a supremacia?

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A Cana Esmagada Richard Sibbes

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