Capítulo 2 · 3 min de leitura
Aqueles com quem Cristo tem de lidar são esmagados
Este esmagamento é necessário antes da conversão, para que assim o Espírito abra caminho para dentro do coração, nivelando todos os pensamentos altivos e soberbos, e para que compreendamos ser o que de fato somos por natureza. Amamos afastar-nos de nós mesmos, e ser estranhos em nossa própria casa, até que Deus nos esmague por meio de uma ou outra provação; e então caímos em nós, e voltamos para casa, como o filho pródigo (Lucas 15:17). É coisa maravilhosamente difícil trazer um coração insensível e esquivo a clamar com sentimento por misericórdia. Os nossos corações, como os malfeitores, enquanto não são privados de todas as escapatórias, nunca clamam pela misericórdia do Juiz. Além disso, este esmagamento faz-nos dar grande valor a Cristo; então o evangelho é de fato o evangelho, e então as folhas de figueira da moralidade de nada nos servem; e torna-nos mais agradecidos, e da gratidão mais frutíferos em nossas vidas; pois o que torna a tantos tão frios e estéreis, senão o fato de que o esmagamento pelo pecado nunca lhes fez amar a graça de Deus? Do mesmo modo, esse proceder de Deus estabelece-nos mais firmemente nos seus caminhos, depois de termos sofrido golpes e feridas nos nossos próprios caminhos. Esta é, muitas vezes, a causa das recaídas e apostasias: porque os homens, no princípio, nunca padeceram por causa do pecado, nem estiveram tempo suficiente sob o açoite da lei. Por isso, esta obra inferior do Espírito, ao abater os pensamentos altivos, é necessária antes da conversão. E, na maior parte das vezes, o Espírito Santo, para adiantar a obra da convicção, acrescenta alguma aflição que, uma vez santificada, tem poder de curar e purificar.
Mais ainda: depois da conversão também precisamos de esmagamento. Para que as canas saibam que são canas, e não carvalhos; até as canas precisam ser esmagadas, por causa do resto de orgulho que há em nossa natureza, e para nos fazer ver que vivemos da misericórdia. E também para que os cristãos mais fracos não fiquem demasiadamente desanimados quando veem os mais fortes abalados e esmagados. Assim Pedro foi esmagado, quando chorou amargamente. Esta cana, antes de sofrer este golpe, tinha em si mais vento do que substância: “Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei”, etc. (Mateus 26:35). O povo de Deus não pode passar sem estes exemplos. Os feitos heroicos daqueles grandes varões não consolam tanto a igreja quanto as suas quedas e feridas (Salmos 32:3-5). Assim Davi foi esmagado, até chegar a uma confissão franca, sem engano no espírito; mais ainda, as suas dores subiram, em seu próprio sentir, até a dor aguda de ossos quebrados (Salmos 51:8). Assim Ezequias se queixa de que Deus lhe havia quebrado os ossos como um leão (Isaías 38:13). Assim o vaso escolhido, o apóstolo Paulo (2 Coríntios 12:7), precisou do mensageiro de Satanás que o esbofeteasse, para que não se exaltasse além da medida.
Daqui aprendemos que não devemos julgar com demasiada dureza a nós mesmos, nem aos outros, quando Deus nos exercita com esmagamento sobre esmagamento; é preciso haver conformidade com Cristo, a nossa cabeça, que foi esmagado por nós (Isaías 53:5), para que saibamos o quanto lhe estamos obrigados. Espíritos profanos, ignorantes dos caminhos de Deus para conduzir os seus filhos ao céu, condenam os cristãos de coração quebrantado como pessoas desesperadas, quando é justamente uma bondosa e graciosa obra que Deus está realizando neles. Não é coisa fácil conduzir um homem da natureza à graça, e da graça à glória; tão duros e indóceis são os nossos corações.