A Cana Esmagada ·O texto explicado e dividido. O que é a cana, e o que é o esmagamento

Capítulo 1 · 5 min de leitura

O texto explicado e dividido. O que é a cana, e o que é o esmagamento

O profeta Isaías, sendo arrebatado e levado nas asas do espírito profético, atravessa todo o tempo que o separa da vinda de Jesus Cristo em carne, e vê, com o olhar da profecia e com o olhar da fé, Cristo como presente, e o apresenta, em nome de Deus, ao olhar espiritual de outros, com estas palavras: Eis o meu servo, a quem escolhi, etc. Passagem que São Mateus cita como agora cumprida em Cristo. Nela se propõe, em primeiro lugar, a vocação de Cristo para o seu ofício.

Em segundo lugar, a execução dela.

Quanto à sua vocação: Deus aqui o chama de seu servo justo, etc. Cristo foi servo de Deus no maior serviço que já houve; um servo escolhido e seleto: tudo fez e sofreu por comissão do Pai. Nisto podemos ver o doce amor de Deus por nós, pois ele considera a obra da nossa salvação por Cristo como o seu maior serviço, e por isso entregou seu único Filho amado a esse serviço. Bem podia ele antepor a palavra [Eis] para elevar os nossos pensamentos ao mais alto grau de atenção e admiração. No tempo da tentação, as consciências temerosas olham tanto para a aflição presente em que se encontram, que precisam ser despertadas para contemplar Aquele em quem podem achar descanso para as suas almas atribuladas. Nas tentações, o mais seguro é não contemplar senão Cristo, a verdadeira serpente de bronze, o verdadeiro Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29). Esse objeto salvador exerce uma influência especial de consolo sobre a alma, sobretudo se olharmos não apenas para Cristo, mas para a autoridade e o amor do Pai nele. Pois em tudo o que Cristo fez e sofreu como Mediador, devemos ver Deus nele reconciliando consigo o mundo (2 Coríntios 5:19).

Que apoio para a nossa fé é este: que Deus, o Pai, a parte ofendida pelos nossos pecados, se agrade tanto da obra da redenção! E que consolo é este: vendo que o amor de Deus repousa sobre Cristo, nele se comprazendo, podemos concluir que ele igualmente se agrada de nós, se estivermos em Cristo. Pois o seu amor repousa sobre Cristo inteiro, tanto sobre o Cristo místico quanto sobre o Cristo natural, porque ele o ama e nos ama com um só amor. Abracemos, pois, a Cristo, e nele o amor de Deus, e edifiquemos a nossa fé com segurança sobre tal Salvador, que está revestido de tão elevada comissão.

Vede aqui, para o nosso consolo, um doce acordo das três pessoas: o Pai dá uma comissão a Cristo; o Espírito o capacita e santifica para ela; o próprio Cristo executa o ofício de Mediador. A nossa redenção funda-se no acordo conjunto das três pessoas da Trindade.

Quanto à execução dessa sua vocação, aqui se declara que ela seria discreta, sem fazer alarde, nem levantar poeira com qualquer chegada pomposa, como costumam fazer os príncipes: [a sua voz não será ouvida]. A sua voz, de fato, foi ouvida, mas que voz? “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados” (Mateus 11:28), ele clamou — mas de que modo? “Ó todos vós que tendes sede, vinde”, etc. (Isaías 55:1). E, assim como a sua vinda foi discreta, também foi mansa, o que se exprime nestas palavras: A cana esmagada ele não quebrará. Nelas podemos observar estas três coisas: — Primeiro, a condição daqueles com quem Cristo tinha de lidar: 1. Eram canas esmagadas. 2. Pavio que fumega. Em segundo lugar, o modo como Cristo os trata: não quebrou a cana esmagada, nem apagou o pavio que fumega; onde se quer dizer mais do que se diz, pois ele não apenas deixará de quebrar a cana esmagada ou de apagar o pavio, etc., mas os acolherá com carinho.

Em terceiro lugar, a constância e o progresso desse seu terno cuidado, até que o juízo alcance a vitória, isto é, até que a santificada disposição de graça iniciada em seus corações seja levada àquela perfeição em que prevalece sobre toda corrupção contrária.

Quanto ao primeiro ponto, a condição dos homens com quem ele havia de lidar é que eram canas esmagadas e pavio que fumega; não árvores, mas canas; e não canas inteiras, mas esmagadas. A Igreja é comparada a coisas fracas: a uma pomba entre as aves; a uma videira entre as plantas; a ovelhas entre os animais; a uma mulher, que é o vaso mais frágil; e aqui os filhos de Deus são comparados a canas esmagadas e a pavio que fumega. Falaremos deles primeiro como canas esmagadas, e depois como pavio que fumega. São canas esmagadas antes da sua conversão, e muitas vezes depois dela: antes da conversão, todos (exceto aqueles a quem, criados no seio da Igreja, Deus se agradou de mostrar-se benigno desde a infância), ainda que em graus diferentes, conforme Deus julga conveniente; e assim como há diferença quanto ao temperamento, aos dons, ao modo de vida, etc., assim também quanto ao emprego que Deus lhes destina para o tempo futuro: pois normalmente ele os esvazia de si mesmos, e os reduz a nada, antes de usá-los em qualquer grande serviço.

Esta cana esmagada é um homem que, na maior parte das vezes, se encontra em alguma miséria — como aqueles que vinham a Cristo em busca de ajuda —, e pela miséria é levado a ver o pecado como sua causa; pois, quaisquer que sejam os pretextos que o pecado alegue, o seu fim é sempre esmagar e quebrantar. Ele sente o pecado e a miséria até ser esmagado; e, não vendo socorro algum em si mesmo, é levado por um desejo incessante de receber suprimento de outro, com alguma esperança, que o eleva um pouco para fora de si mesmo, em direção a Cristo; embora não ouse reivindicar qualquer direito presente à misericórdia. Essa centelha de esperança, combatida por dúvidas e temores que brotam da corrupção, torna-o semelhante ao pavio que fumega; de modo que ambas as coisas juntas — a cana esmagada e o pavio que fumega — compõem o estado de um pobre homem atribulado; tal como aquele a quem o nosso Salvador Cristo chama de pobre de espírito (Mateus 5:3), que vê a sua carência, e ao mesmo tempo se vê devedor à Justiça Divina, sem meio algum de suprimento em si próprio ou na criatura, e por isso pranteia; e, movido por alguma esperança de misericórdia, fundada na promessa e nos exemplos daqueles que alcançaram misericórdia, é despertado a ter fome e sede dela.

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A Cana Esmagada Richard Sibbes

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