Capítulo 3 · 5 min de leitura
Cristo não quebrará a cana esmagada
O segundo ponto é que Cristo não quebrará a cana esmagada. Os médicos, ainda que causem muita dor aos seus pacientes, não destroem a natureza, mas a restabelecem aos poucos. Os cirurgiões lancetam e cortam, mas não amputam. Uma mãe que tem um filho doente e rabugento não o rejeita por isso; e haveria mais misericórdia na corrente do que na fonte? Pensaremos que há mais misericórdia em nós do que em Deus, que planta em nós o afeto da misericórdia? Mas, para maior demonstração da misericórdia de Cristo para com todas as canas esmagadas, considera as relações consoladoras que ele assumiu — de esposo, pastor, irmão, etc. —, que ele cumprirá até o fim; pois, se outros, por sua graça, cumprem aquilo a que ele os chama, não haveria ele de cumprir, aquele que, por seu amor, tomou sobre si estas relações, tão solidamente fundadas na designação do Pai e no seu próprio compromisso voluntário? Considera os nomes que ele toma emprestados das criaturas mais mansas, como cordeiro, galinha, etc., para mostrar o seu terno cuidado; considera o seu próprio nome, Jesus, um Salvador, dado a ele pelo próprio Deus; considera o seu ofício, condizente com o seu nome, que é curar os quebrantados de coração (Isaías 61:1). No seu batismo, o Espírito Santo pousou sobre ele em forma de pomba, para mostrar que ele seria um mediador manso como uma pomba. Vê a maneira graciosa com que ele exerce os seus ofícios: como profeta, veio com bênção na boca — “Bem-aventurados os pobres de espírito”, etc. (Mateus 5) — e convidou a virem a ele justamente aqueles cujos corações mais objeções levantavam contra si mesmos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados” (Mateus 11:28). Como se comoveram as suas entranhas quando viu o povo como ovelhas sem pastor (Mateus 9:36)! Nunca mandou de volta ninguém que viesse a ele, ainda que alguns se afastassem por si mesmos. Veio para morrer como sacerdote pelos seus inimigos: nos dias da sua carne, ditou aos seus discípulos uma forma de oração, e pôs petições a Deus na boca deles, e o seu Espírito para interceder em seus corações; e agora intercede no céu pelos cristãos fracos, pondo-se entre a ira de Deus e eles; e derramou lágrimas por aqueles que derramaram o seu sangue. Assim, ele é um rei manso: admitirá os que choram à sua presença, um rei dos pobres e aflitos; assim como tem raios de majestade, também tem entranhas de misericórdia e compaixão; um príncipe da paz (Isaías 9:6). Por que foi ele tentado, senão para poder socorrer os que são tentados (Hebreus 2:18)? Que misericórdia não podemos esperar de um mediador tão gracioso (1 Timóteo 2:5), que tomou a nossa natureza sobre si para poder ser misericordioso? Ele é um médico bom para todas as enfermidades, especialmente para atar um coração quebrantado: morreu para curar as nossas almas com o emplastro do seu próprio sangue, e por essa morte salvar-nos — morte que nós mesmos provocamos, pelos nossos próprios pecados. E não terá ele as mesmas entranhas de misericórdia no céu? “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4) — clamou a cabeça no céu, quando o pé foi pisado na terra. A sua exaltação não o fez esquecer a sua própria carne: embora o tenha libertado da paixão, não o libertou da compaixão para conosco. O leão da tribo de Judá só despedaçará aqueles que não querem que ele reine sobre eles (Lucas 19:17). Ele não mostrará a sua força contra os que se prostram diante dele.
Que devemos aprender daqui, senão a chegar com ousadia ao trono da graça em todas as nossas aflições? Acaso os nossos pecados nos desanimarão, quando ele ali comparece somente por causa dos pecadores? Estás esmagado? Alegra-te, ele te chama; não escondas as tuas feridas, expõe tudo diante dele, não guardes o segredo de Satanás. Vai a Cristo, ainda que tremendo; como a pobre mulher, se conseguirmos ao menos tocar a orla da sua veste (Mateus 9:20), seremos curados e teremos uma resposta graciosa. Vai com ousadia a Deus em nossa carne; pois foi para este fim, para que pudéssemos ir com ousadia a ele, que ele é carne da nossa carne e osso dos nossos ossos. Nunca temas ir a Deus, visto que temos junto dele tal mediador, que não é apenas o nosso amigo, mas o nosso irmão e esposo. Bem podiam os anjos proclamar do céu: “Eis que vos trago boas novas de grande alegria” (Lucas 2:10); bem podia o apóstolo exortar-nos a alegrar-nos no Senhor sempre, e outra vez (Filipenses 4:4); ele sabia bem em que fundamentos o fazia: a paz e a alegria são dois dos principais frutos do seu reino. Seja o mundo como for, se não podemos alegrar-nos no mundo, podemos ainda alegrar-nos no Senhor. A sua presença torna consolável qualquer condição. “Não tenhais medo”, diz ele aos seus discípulos, quando estavam amedrontados como se tivessem visto um fantasma, “sou eu” (Mateus 14:27); como se não houvesse motivo de temor onde ele está presente.
Que isto nos sustente quando nos sentirmos esmagados: o modo de proceder de Cristo é primeiro ferir, depois curar; nenhuma alma sã e inteira jamais entrará no céu. Pensa, na tentação: Cristo foi tentado por mim; conforme forem as minhas provações, assim serão as minhas graças e consolos. Se Cristo é tão misericordioso que não me quebra, eu não me quebrarei a mim mesmo pelo desespero, nem me entregarei ao leão que ruge, Satanás, para que me faça em pedaços.
Em terceiro lugar, vê a disposição contrária de Cristo e a de Satanás e seus instrumentos. Satanás nos ataca quando estamos mais fracos, assim como Simeão e Levi caíram sobre os siquemitas, quando estes estavam doloridos (Gênesis 34:25); mas Cristo reparará em nós todas as brechas que o pecado e Satanás abriram: ele ata os quebrantados de coração. E, assim como uma mãe cuida com mais ternura do filho mais enfermo e mais fraco, assim também Cristo se inclina com maior misericórdia para os mais fracos; e igualmente põe nas coisas mais frágeis o instinto de apoiar-se, para sustento, em algo mais forte do que elas mesmas. A videira firma-se no olmo; e as criaturas mais fracas têm, muitas vezes, os mais fortes abrigos. A consciência da sua própria fraqueza faz a Igreja disposta a recostar-se sobre o seu Amado, e a esconder-se debaixo das suas asas.