Capítulo 17 · 16 min de leitura
Repreensão àqueles que pecam contra esta disposição misericordiosa em Cristo. Sobre apagar o Espírito
Devemos agora atentar para diversos tipos de homens que ofendem gravemente esta disposição misericordiosa de Cristo. Assim: primeiro, aqueles que persistem em toda sorte de maus caminhos, apoiados nesta ideia: como se fosse inútil ir a Cristo, por terem sido tão más as suas vidas; quando, na verdade, tão logo olhamos para o céu, todos os encorajamentos estão prontos a vir ao nosso encontro e a nos atrair para diante. Entre outros, este é um dos atrativos: que Cristo está pronto a nos acolher e a nos conduzir mais além. Ninguém na igreja é condenado senão aqueles que o querem. Há os que impõem a si mesmos ideias duras a respeito de Cristo, para terem alguma aparência de razão para buscar contentamento em outras coisas; como aquele servo inútil (Mateus 25:30), que teimou em formar a ideia de que o seu senhor era um homem duro, para com isso se lisonjear na sua conduta infrutífera, por não haver feito render o talento que tinha. Segundo, aqueles que abraçam uma esperança inventada por eles mesmos: a de que Cristo os deixará andar pelos caminhos que levam ao inferno e ainda assim os levará ao céu; quando, na verdade, todo consolo deveria aproximar-nos mais de Cristo; do contrário é um consolo mentiroso, seja em si mesmo, seja no modo como o aplicamos. E terceiro, aqueles que eles próprios lançam água sobre as centelhas que Cristo se esforça por acender neles, porque não querem ser incomodados pela sua luz. Os tais devem saber que o Cordeiro pode irar-se, e que aqueles que não se quiserem submeter ao seu cetro de misericórdia serão despedaçados pelo seu cetro de poder (Salmos 2:9). Embora ele, graciosamente, cuide e conserve a menor centelha de verdadeira graça, onde não encontra centelha alguma de graça, mas oposição ao seu Espírito que contende com eles, a sua ira, uma vez acesa, arderá até o inferno. Não há provocação mais justa do que quando a bondade é grosseiramente recusada. Quando Deus quis curar a Babilônia e ela não quis ser curada, então foi entregue à destruição (Jeremias 51:9). Quando Jerusalém não quis ser reunida sob as asas de Cristo, então a sua morada ficou deserta (Mateus 23:37,38). Quando a Sabedoria estende a sua mão e os homens recusam, então a Sabedoria rirá da destruição deles (Provérbios 1:26). A própria salvação não salvará aqueles que entornam o remédio e jogam fora o emplastro. Caso lamentável, quando este Salvador misericordioso vier a deleitar-se na destruição, quando aquele que fez os homens não tiver misericórdia deles (Isaías 27:11). “Ah”, dizem os rebeldes de hoje, “Deus não nos fez para nos condenar.” Sim; mas, se não fores ao encontro de Cristo nos caminhos da sua misericórdia, é justo que comas o fruto do teu próprio caminho e te fartes das tuas próprias maquinações (Provérbios 1:31). Este será o inferno do inferno: quando os homens pensarem que amaram mais os seus pecados do que as suas almas; quando pensarem em quanto amor e misericórdia quase lhes foram impostos e, ainda assim, eles quiseram perecer. Quanto mais cúmplices formos em atrair sobre nós mesmos o juízo, tanto mais a consciência se confundirá consigo mesma, quando reconhecerem que Cristo é isento de toda culpa e eles próprios estão sem desculpa.
Se os homens apelarem à própria consciência, ela lhes dirá que o Espírito Santo muitas vezes bateu ao seu coração, desejoso de acender neles alguns santos desejos. De que outro modo se poderia dizer que resistem ao Espírito Santo, senão porque o Espírito estava mais disposto a atraí-los a um grau maior de bondade do que a própria vontade deles consentia? Por isso, os que na Igreja são condenados já estão de antemão condenados por si mesmos. De modo que, neste ponto, não precisamos recorrer a causas mais elevadas, quando os homens trazem causa suficiente no próprio peito.
Quarto: e o melhor dentre todos nós pode ofender esta disposição misericordiosa, se não vigiarmos contra a liberdade que as nossas inclinações carnais estarão prontas a tirar dela. Raciocinamos assim: Cristo não apagará o pavio que fumega; que necessidade temos de recear que qualquer descuido da nossa parte nos possa lançar numa condição sem consolo? Se Cristo não o fará, o que poderá fazê-lo?
Resposta: Ainda assim, conheces a proibição do apóstolo (1 Tessalonicenses 5:19): “Não apagueis o Espírito.” Essas advertências para não apagar são santificadas pelo Espírito como meios para que não apaguemos. Cristo cumpre o seu ofício de não apagar despertando em nós os esforços apropriados; e ninguém é mais diligente no uso dos meios do que aqueles que estão mais certos do bom êxito. A razão é esta: os meios que Deus separou para realizar alguma coisa estão abrangidos no mesmo propósito que ele tem de levar essa coisa a efeito; e este é um princípio dado por certo até nos assuntos comuns; pois quem, sabendo de antemão que o ano seria fértil, penduraria por isso o arado e deixaria de lavrar a terra? Por isso o apóstolo nos anima a partir da certa expectativa de uma bênção (1 Coríntios 15:57,58); e este encorajamento, tirado do bom desfecho da vitória final, tem por fim animar-nos, e não nos deixar acomodados. Se formos negligentes no exercício da graça recebida e no uso dos meios prescritos, permitindo que o nosso espírito seja oprimido pela multidão e variedade de cuidados desta vida, e não nos precavendo contra o abafamento dos tempos, por causa de tal desmando, Deus, no seu sábio cuidado, permite muitas vezes que caiamos numa condição pior, quanto ao sentimento, do que a daqueles que nunca foram assim tão iluminados; contudo, por misericórdia, ele não permitirá que sejamos tão inimigos de nós mesmos a ponto de descuidar por completo destas centelhas uma vez acesas. Se fosse possível sermos entregues a abandonar totalmente todo esforço, então não poderíamos esperar outro desfecho senão o apagamento; mas Cristo cuidará desta centelha e alimentará esta pequena semente, de modo que sempre conservará na alma algum grau de zelo. Se quisermos fazer disto um uso consolador, devemos considerar todos os meios pelos quais Cristo preserva a graça iniciada. Primeiro, a santa comunhão, pela qual um cristão aquece o outro: “melhor é serem dois do que um”, etc. (Eclesiastes 4:9). “Não ardia o nosso coração?” (Lucas 24:32), disseram os discípulos. Segundo, muita comunhão com Deus nos santos deveres, como a meditação e a oração, que não só acendem, mas dão brilho à alma. Terceiro, sentimos pela experiência que o sopro do Espírito acompanha o sopro do ministério; por isso o apóstolo une estas duas coisas: “não apagueis o Espírito; não desprezeis as profecias” (1 Tessalonicenses 5:19,20). Natã, com poucas palavras, reavivou as centelhas que se apagavam em Davi. Antes de permitir que o seu fogo em nós se extinga, Deus enviará algum Natã, e sempre resta em nós algo que se une à palavra, por lhe ser conatural; assim como uma brasa que tem fogo em si logo atrai mais fogo: o pavio que fumega facilmente se inflama. Quarto, a graça é fortalecida pelo seu exercício: “levanta-te e faze a obra, e o Senhor seja contigo”, disse Davi a seu filho Salomão; desperta a graça que há em ti, pois assim os santos impulsos se tornam resoluções, as resoluções se tornam prática, e a prática se torna prontidão para toda boa obra (1 Crônicas 22:16). Contudo, saibamos que a graça se aumenta no seu exercício, não pela virtude do próprio exercício, mas na medida em que Cristo, pelo seu Espírito, flui para dentro da alma, nos aproxima de si mesmo, a fonte, e infunde no ato tal consolo, pelo qual o coração se dilata ainda mais. O coração de um cristão é o jardim de Cristo, e as suas graças são como tantas doces especiarias e flores que, ao serem sopradas pelo seu Espírito, exalam um doce perfume; portanto, mantém a alma aberta para acolher o Espírito Santo, pois ele trará continuamente novas forças para subjugar a corrupção, e isto sobretudo no dia do Senhor. João estava no Espírito no dia do Senhor, mesmo em Patmos, o lugar do seu desterro (Apocalipse 1:10); então as brisas do Espírito sopram com mais força e doçura. Portanto, à medida que esperamos o consolo desta doutrina, não favoreçamos a nossa preguiça natural, mas exercitemo-nos na piedade (1 Timóteo 4:7), e esforcemo-nos por manter este fogo sempre aceso no altar do nosso coração, aparando diariamente as nossas lâmpadas, pondo nelas óleo novo, e elevando as nossas almas cada vez mais alto; acomodar-se numa boa condição é contrário à graça, que não pode deixar de avançar a uma medida cada vez maior. Que ninguém transforme esta graça em libertinagem (Judas 4). As fraquezas são motivo de humildade, não pretexto para negligência, nem estímulo à presunção. Longe de nos tornarmos maus porque Cristo é bom, essas brasas de amor deveriam antes derreter-nos; portanto, bem podem desconfiar de si mesmos aqueles em quem a consideração desta brandura de Cristo não produz esse efeito; pois, com certeza, onde há graça, a corrupção é como fumaça para os olhos e vinagre para os dentes (Provérbios 10:26). E, por isso, eles se empenharão, tanto por causa do próprio consolo como pelo bom nome da religião e pela glória de Deus, para que a sua luz venha a resplandecer. Se uma centelha de fé ou de amor é tão preciosa, que honra não será ser rico em fé? Quem não preferiria andar na luz e nos consolos do Espírito Santo a viver num estado escuro e perplexo? E quem não preferiria ser levado a todo o pano rumo ao céu, em vez de ser sempre agitado por temores e dúvidas? A perturbação presente, no combate contra um pecado, não é tão grande quanto a inquietação que qualquer corrupção acalentada nos trará depois; a verdadeira paz está em vencer, não em ceder. O consolo pretendido neste texto é para aqueles que de bom grado quereriam agir melhor, mas veem que as suas corrupções os embaraçam; que estão em tamanha névoa que, muitas vezes, não sabem o que pensar de si mesmos; que de bom grado quereriam crer e, contudo, muitas vezes temem que não creem, e pensam que não pode ser que Deus seja tão bom para com criaturas tão pecadoras como eles; e, ainda assim, não se permitem esses temores e essas dúvidas. E, entre outros, como fazem injustiça a si mesmos e a ele aqueles que querem, para com Deus, outros mediadores além dele? Haverá alguém mais compassivo do que ele, que se fez homem exatamente para poder ser compassivo com a sua própria carne? Recorram todos, em todo tempo, a este manso Salvador, e apresentemos todos os nossos pedidos no seu nome poderoso. Que necessidade temos de bater a qualquer outra porta? Poderá alguém ser mais terno para conosco do que Cristo? Que encorajamento temos para encomendar-lhe, nas nossas orações, o estado da Igreja em geral, ou de qualquer cristão de coração quebrantado! A respeito de quem podemos falar a Cristo como falaram de Lázaro: “Senhor, a Igreja que amas, e por quem te entregaste, está em aflição”; “Senhor, este pobre cristão, por quem foste esmagado (Isaías 53:5), está esmagado e abatido até o pó.” Não pode deixar de comover as suas entranhas quando a miséria daqueles que lhe são tão caros é posta diante dele.
Ademais, considerando esta natureza cheia de graça em Cristo, pensemos assim conosco mesmos: sendo ele tão bondoso para conosco, seremos nós cruéis contra ele — no seu nome, na sua verdade, nos seus filhos? Como poderão aqueles que se comprazem em ser tão terríveis para com os mansos da terra (Zacarias 2:3) esperar encarar tão bondoso Salvador? Os que são tão violentos para com a esposa dele hão de saber, um dia, que tiveram de lidar com ele mesmo na sua Igreja. Assim, não pode deixar de dilacerar o coração daqueles que sentiram este amor de Cristo ouvir ser ferido aquele que é a vida das suas vidas e a alma das suas almas; isto faz com que aqueles que experimentaram misericórdia chorem sobre Cristo, a quem traspassaram com os seus pecados; não pode deixar de haver uma simpatia mútua e viva entre a cabeça e os membros. Quando somos tentados a algum pecado, se não tivermos pena de nós mesmos, ao menos poupemos a Cristo, não o submetendo a novos tormentos. O apóstolo não pôde encontrar argumento mais comovente para nos exortar a oferecer-nos em sacrifício a Deus do que suplicar-nos pelas misericórdias de Deus em Cristo.
Esta misericórdia de Cristo deveria igualmente mover-nos a compadecer-nos do estado da pobre Igreja, dilacerada por inimigos de fora e rasgando-se a si mesma por divisões internas. Não pode deixar de tocar qualquer alma que alguma vez recebeu consolo de Cristo considerar com que afetuosa súplica o apóstolo insta à mútua concórdia de entendimento e de afeto. “Se há, pois, alguma consolação em Cristo, algum conforto de amor, alguma comunhão do Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, tende o mesmo sentimento” (Filipenses 2:1); como se dissesse: A não ser que renuncieis a toda consolação em Cristo, etc., esforçai-vos por manter a unidade do Espírito no vínculo da paz. Que espetáculo alegre é este para Satanás e a sua facção: ver aqueles que estão separados do mundo despedaçarem-se entre si! A nossa discórdia é a melodia do nosso inimigo.
Tanto mais culpados são os que, por interesses particulares, buscam as divergências com os outros e não deixam que as feridas da Igreja se fechem e se unam. O que não se deve entender como se os homens devessem dissimular a sua convicção em qualquer verdade, onde há justo motivo para se manifestarem; pois a menor verdade é de Cristo e não nossa, e, portanto, não nos cabe tomar a liberdade de afirmar ou negar ao nosso bel-prazer; há uma obrigação tanto num centavo quanto numa moeda de ouro; por isso devemos ser fiéis na menor verdade; quando a ocasião o pede, então as nossas palavras são como maçãs de ouro em bandejas de prata. Uma só palavra dita a tempo faz mais bem do que mil ditas fora de tempo. Mas, em alguns casos, a paz — guardando para nós mesmos a nossa convicção (Romanos 14:22) — é de maior importância do que a manifestação aberta de algumas coisas que temos por verdadeiras; considerando que a fraqueza da natureza humana é tal, que dificilmente pode haver a manifestação de qualquer divergência de opinião sem algum esfriamento do afeto. Na medida em que os homens não são de um mesmo pensar, dificilmente serão de um mesmo coração, exceto onde a graça e a paz de Deus (Colossenses 3:15) governam com grande domínio o coração; portanto, a exibição aberta de divergências nunca é boa, a não ser quando é necessária; ainda que alguns, por desejo de se destacarem, se desviem por atalhos e cedam a um espírito de contradição em si mesmos; contudo, se São Paulo puder ser o juiz, não são eles carnais? (1 Coríntios 3:3); se é sabedoria, é sabedoria que vem de baixo; pois a sabedoria que vem do alto, assim como é pura, também é pacífica (Tiago 3:17). O nosso bendito Salvador, quando estava para deixar o mundo, o que recomendou aos seus discípulos mais do que a paz e o amor? E na sua última oração, com que fervor rogou ao Pai que eles fossem um, assim como ele e o Pai são um? (João 17:21). Mas aquilo pelo que ele orou na terra, só o desfrutaremos perfeitamente no céu. Que isto torne para nós ainda mais doce a meditação daquele tempo.
E, para expor ainda mais os que ofendem neste sentido: de que espírito julgaremos serem aqueles que se aproveitam do quebrantamento e das fraquezas do espírito dos homens para os aliviar com uma paz falsa, visando aos próprios fins mundanos? Um espírito ferido dará qualquer coisa em troca de alívio. A maior parte dos pontos lucrativos do papado — como a confissão, a satisfação, o mérito, o purgatório, etc. — nasce daqui; mas eles são médicos que de nada valem, ou antes atormentadores do que médicos. Ser livre do aguilhão desses escorpiões é uma bênção maior do que a gratidão que lhe damos. A tirania espiritual é a maior das tiranias, e sobretudo quando se exerce ali onde mais misericórdia deveria ser mostrada; e, contudo, mesmo ali alguns, como cirurgiões cruéis, deleitam-se em prolongar as curas, para tirar proveito próprio da miséria alheia. Traz sobre os homens uma terrível maldição o não se lembrarem de usar de misericórdia, mas perseguirem o pobre e o necessitado, a ponto de matarem o quebrantado de coração (Salmos 109:16).
O mesmo se diga daqueles que tiram vantagem temporal para si da miséria espiritual dos outros; junte-se a esses os que acumulam bens traindo a Igreja e são infiéis na incumbência que lhes foi confiada; quando os filhos clamarem pelo pão da vida e não houver quem lho dê, trazendo assim sobre o povo de Deus aquele pesado juízo de uma fome espiritual, deixando Cristo passar fome nos seus membros. Retribuiremos assim a um Salvador tão bom, que considera o amor e a misericórdia demonstrados no apascentar dos seus cordeiros (João 21:15) como demonstrados a si mesmo?
Por último, portam-se de modo muito ingrato para com Cristo aqueles que se escandalizam com este seu profundo rebaixar-se até nós, no seu governo e nas suas ordenanças; que se envergonham da simplicidade do evangelho; que têm a pregação por loucura.
Por causa da soberba do seu coração, pensam que podem passar muito bem sem o auxílio da palavra e dos sacramentos; e julgam que Cristo não revestiu de grandeza suficiente a sua pessoa, e por isso querem remediar a questão com as suas próprias invenções, pelas quais possam agradar melhor à carne e ao sangue, como no papado. Que maior ingratidão pode haver do que desprezar qualquer auxílio que Cristo, por misericórdia, nos proveu? Nos dias da sua carne, os soberbos fariseus escandalizavam-se com o seu trato familiar com homens pecadores, sendo que ele só o fazia como médico, para curar-lhes a alma. A quantas defesas São Paulo foi levado a fazer de si mesmo, por causa da sua simplicidade em expor o evangelho! Quanto mais Cristo, em si mesmo e nos seus servos, se rebaixar para nos exaltar, tanto mais devemos, com toda humildade e prontidão, acolher esse amor, e engrandecer a bondade de Deus, que confiou a grande obra da nossa salvação, e pôs o governo, sobre um Salvador tão bondoso, que se portará com tanta brandura em tudo aquilo em que há de tratar entre Deus e nós, e entre nós e Deus. Quanto mais baixo Cristo desce até nós, tanto mais alto o elevemos nos nossos corações; assim farão todos aqueles que alguma vez experimentaram a obra de Cristo no seu coração.