Capítulo 12 · 8 min de leitura
Removidos os escrúpulos que impedem o consolo
Da meditação destas regras e sinais pode vir muito consolo às almas dos mais fracos; e, para que esse consolo seja ainda mais abundante, permita-me acrescentar algo que os ajude a superar algumas poucas objeções comuns e certos pensamentos secretos que têm contra si mesmos — pensamentos que, entrando no coração, muitas vezes os mantêm abatidos.
Alguns pensam que não têm fé alguma, porque não têm plena certeza; quando até o fogo mais puro que possa existir sempre terá alguma fumaça. As melhores ações terão o cheiro da fumaça. O pilão em que se socou alho sempre cheirará a alho; assim também todas as nossas ações terão sempre algum ressaibo do velho homem.
Na fraqueza do corpo, alguns pensam que a graça morre, porque suas obras são débeis e seus ânimos — que são os instrumentos das ações da alma — estão esgotados; não considerando que Deus atenta para os suspiros ocultos daqueles que não têm forças para expressá-los por fora. Aquele que declara bem-aventurados os que se importam com o pobre terá ele mesmo uma consideração misericordiosa para com tais pessoas.
Outros, por sua vez, são atormentados por representações horríveis em sua imaginação, e por pensamentos vis e indignos a respeito de Deus, de Cristo, da Palavra, etc., os quais, como moscas importunas, perturbam e molestam a sua paz. Esses pensamentos são lançados por Satanás como fogo ardente, o que se pode reconhecer por: 1. quão estranhos são; 2. sua força e violência; 3. quão horríveis são até mesmo para a natureza corrompida. Uma alma piedosa não é mais culpada deles do que Benjamim o era do cálice de José posto em seu saco. Entre outros recursos indicados por autores piedosos — como aborrecê-los e desviar deles a mente para outras coisas, etc. — seja este um deles: queixar-se deles a Cristo, refugiar-se sob as asas da sua proteção, e pedir-lhe que tome o nosso partido contra aquele que é inimigo dele e nosso. Será que todo pecado e blasfêmia do homem há de ser perdoado, mas não estes pensamentos blasfemos, que têm o diabo por pai? Foi por isso que o próprio Cristo foi molestado desse modo: para poder socorrer todas as pobres almas que passam pelo mesmo.
Há, porém, uma diferença entre Cristo e nós neste ponto: como Satanás não tinha nada de seu em Cristo, suas insinuações não deixaram impressão alguma na santa natureza dele, mas, como faíscas que caem no mar, foram logo apagadas. As tentações de Satanás contra Cristo eram apenas insinuações da parte de Satanás, e da parte de Cristo apenas a percepção de quão vis eram; e perceber o mal insinuado por outro não é mal. Era o pesar de Cristo, mas o pecado de Satanás. Ainda assim, ele consentiu em ser tentado, para poder tanto compadecer-se de nós em nossas lutas quanto adestrar-nos a manejar as nossas armas espirituais como ele fez. Cristo poderia tê-lo vencido pelo poder, mas venceu-o pelo argumento. Quando, porém, Satanás vem a nós, encontra em nós algo que lhe pertence, que se corresponde com ele e está em conluio com ele; existe em nossa natureza, em certo grau, a mesma inimizade contra Deus e contra o bem que há no próprio Satanás; e por isso, na maioria das vezes, as suas tentações deixam sobre nós alguma mancha. E ainda que não houvesse um diabo a insinuar, os pensamentos pecaminosos brotariam de dentro de nós mesmos; ainda que nada fosse lançado de fora, temos dentro de nós uma verdadeira fábrica deles. Esses pensamentos, se a alma se demora neles a ponto de deles sugar ou extrair algum prazer pecaminoso, deixam sobre ela uma culpa mais pesada, impedem a nossa doce comunhão com Deus, interrompem a nossa paz e introduzem na alma um gosto contrário, dispondo-a a pecados maiores. Todas as transgressões escandalosas não passam, no início, de pensamentos. Os maus pensamentos são como pequenos ladrões que, entrando furtivamente pela janela, abrem a porta a ladrões maiores; os pensamentos são sementes de ações. Estes, sobretudo quando impelidos por Satanás, tornam a vida de muitos bons cristãos quase um martírio. Nesse caso, é um consolo falso o que alguns ministram, dizendo que os maus pensamentos vêm da natureza, e que o que é natural é desculpável. Devemos, porém, saber que a natureza, tal como saiu das mãos de Deus no princípio, não tinha em si tais brotos: a alma, inspirada por Deus, não tinha tais respirações desagradáveis; mas, desde que pelo pecado se traiu a si mesma, tornou-se de certo modo natural para ela forjar imaginações pecaminosas e ser uma fornalha de tais faíscas. E isto agrava a pecaminosidade da corrupção natural: o estar ela tão profundamente enraizada e tão espalhada por toda a nossa natureza.
Conhecer toda a largura e profundidade do pecado favorece a humilhação. E apenas isto — que a nossa natureza, enquanto não renovada, é tão infelizmente fecunda em maus pensamentos — traz este consolo: que o caso não é só nosso, como se a nossa condição neste ponto estivesse separada da dos outros, conforme alguns foram tentados a pensar, quase até o desespero; ninguém, dizem eles, tem uma natureza tão repugnante como a minha. Isto nasce da ignorância de quão longe se espalhou o pecado original, pois o que pode sair de algo imundo senão o que é imundo? Assim como na água um rosto corresponde a outro rosto, assim o coração poluído de um homem corresponde ao coração de outro (Provérbios 27:19), onde a graça não fez alguma diferença. Tanto nos incômodos vindos de Satanás como aqui, o melhor caminho é abrir as nossas queixas a Cristo e clamar com o apóstolo Paulo: Ó homem miserável que sou! Quem me livrará deste corpo de morte? (Romanos 7:24,25). Ao desabafar assim a sua alma angustiada, ele logo encontrou consolo, pois irrompe em ação de graças: Graças a Deus, etc. E é bom aproveitar isto para odiar ainda mais este repugnante corpo de morte e aproximar-nos mais de Deus, como fez aquele santo homem depois dos seus pensamentos insensatos e brutais (Salmos 73:22 e 28); e para manter os nossos corações mais unidos a Deus, temperando-os pela manhã com meditações celestiais, armazenando bom material para que o nosso coração seja um bom tesouro, e suplicando a Cristo o seu Santo Espírito, para estancar aquela nascente maldita e para ser em nós uma fonte viva de melhores pensamentos. Nada rebaixa mais o ânimo dos homens santos que desejam deleitar-se em Deus, depois de terem escapado das contaminações comuns do mundo, do que estes fluxos impuros do espírito, por serem sumamente contrários a Deus, que é um Espírito puro. Mas o próprio incômodo que causam fornece motivo de consolo contra eles: forçam a alma a todos os exercícios espirituais, à vigilância, a um caminhar mais próximo de Deus, e a elevar-se a pensamentos de natureza mais alta — os quais a verdade de Deus, as obras de Deus, a comunhão dos santos, o mistério da piedade, a consideração do terror do Senhor, da excelência do estado de um cristão e de uma conduta condizente, abundantemente proporcionam. Fazem-nos descobrir a necessidade de uma graça diária que purifica e perdoa, e de procurar ser achados em Cristo, e assim levam com frequência os melhores a pôr-se de joelhos.
Mas o nosso principal consolo é que o nosso bendito Salvador, assim como ordenou a Satanás que se afastasse dele depois de por um tempo ter permitido a sua insolência (Mateus 4:10), assim também ordenará que ele se afaste de nós quando isso for para o nosso bem; a uma só palavra ele terá de partir. E igualmente, no tempo devido, ele pode e há de repreender as agitações rebeldes e desregradas dos nossos corações, e sujeitar a si mesmo todos os pensamentos do homem interior.
Alguns pensam que, quando começam a ser incomodados pela fumaça da corrupção mais do que antes, então estão piores do que estavam. É verdade que as corrupções agora aparecem mais do que antes, mas na verdade são menores.
Pois, primeiro, quanto mais o pecado é visto, mais é odiado, e por isso torna-se menor. As partículas de pó já estão no quarto antes de o sol brilhar, mas só então se tornam visíveis.
Em segundo lugar, quanto mais próximos estão os contrários um do outro, mais agudo é o conflito entre eles; ora, de todos os inimigos, o espírito e a carne são os que estão mais próximos um do outro, pois ambos habitam na alma do homem regenerado, nas faculdades da alma e em cada ação que dessas faculdades procede; e por isso não é de admirar que a alma, sede desta batalha e assim dividida em si mesma, seja como o pavio que fumega.
Em terceiro lugar, quanto mais graça, mais vida espiritual; e quanto mais vida espiritual, mais aversão ao que lhe é contrário; por isso, ninguém é tão sensível à corrupção quanto aqueles cujas almas estão mais vivas.
E em quarto lugar, quando os homens se entregam às liberdades carnais, as suas corrupções não os incomodam, por não estarem refreadas nem contidas; mas, quando a graça reprime os seus excessos desregrados e licenciosos, então a carne ferve, como que indignada por ser refreada; ainda assim, agora estão melhores do que antes. Aquela matéria que produz fumaça já estava na tocha antes de ela ser acesa; mas não incomoda enquanto a tocha não começa a arder. Saibam tais pessoas que, se a fumaça uma vez os incomoda, é sinal de que há luz. É melhor desfrutar do benefício da luz, ainda que com fumaça, do que estar totalmente na escuridão.
Nem a fumaça é tão incômoda quanto a luz nos é consoladora, pois ela fornece uma evidência da verdade da graça no coração; portanto, ainda que a fumaça seja penosa no conflito, é consoladora como prova. É melhor que a corrupção nos ofenda agora do que, cedendo a ela, comprar um pouco de paz com a perda do consolo depois. Portanto, aqueles que estão em desavença e em conflito com as suas corrupções olhem para este texto como a sua porção de consolo.