Capítulo 13 · 4 min de leitura
Empenhar-se nos deveres apesar das fraquezas
Eis aqui uma aplicação que nos encoraja ao dever: que Cristo não apagará o pavio que fumega, mas o avivará com o seu sopro. Alguns relutam em cumprir bons deveres porque sentem o coração rebelar-se, e os deveres saem de má vontade. Não devemos, porém, evitar as boas ações por causa das fraquezas que a elas se apegam: Cristo olha mais para o bem que nelas há e que ele quer nutrir do que para o mal que nelas há e que ele quer abolir. Um doente, ainda que ao comer aumente um pouco a doença, mesmo assim come, para que a natureza ganhe forças contra a doença; assim também, ainda que o pecado se apegue àquilo que fazemos, façamo-lo mesmo assim, já que temos de tratar com um Senhor tão bom, e quanto mais luta encontramos, mais somos aceitos: Cristo gosta de provar os bons frutos que vêm de nós, ainda que sempre tenham o gosto do velho tronco.
Um cristão se queixa de que não consegue orar: 'Ah, estou perturbado por tantos pensamentos que me distraem, e nunca tanto como agora!' Mas terá Deus posto no teu coração o desejo de orar? Então ele ouvirá em ti os desejos do seu próprio Espírito. Não sabemos o que pedir como convém (nem fazemos nenhuma outra coisa como convém), mas o Espírito ajuda as nossas fraquezas, com suspiros e gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26), que não estão ocultos de Deus. Os meus gemidos não te são ocultos (Salmos 38:9). Deus consegue extrair sentido de uma oração confusa. Esses desejos clamam aos seus ouvidos mais alto do que os teus pecados. Às vezes um cristão tem pensamentos tão confusos que nada consegue dizer, senão clamar como uma criança: 'Ó Pai!', sem conseguir mostrar do que precisa, como Moisés junto ao Mar Vermelho.
Essas agitações do espírito tocam as entranhas de Deus e o comovem à compaixão para conosco, quando procedem do espírito de adoção e de um esforço por ser melhor.
'Ah, mas será possível', pensa o coração receoso, 'que um Deus tão santo aceite uma oração assim?'
Sim, ele aceitará aquilo que é seu e perdoará aquilo que é nosso. Jonas orou no ventre do peixe (Jonas 2:1), estando carregado com a culpa do pecado, e ainda assim Deus o ouve; portanto, não deixemos que as fraquezas nos desanimem. Tiago desfaz esta objeção.
Alguém poderia objetar: se eu fosse tão santo como Elias, então as minhas orações poderiam ser levadas em conta. Mas, diz ele, Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós (Tiago 5:17); ele tinha as suas paixões tanto quanto nós. Pois pensamos que Deus o ouviu por ele ser sem falha? Certamente não. Antes, olhemos para as promessas: Clama a mim no dia da angústia, e eu te ouvirei (Salmos 1:15); Pedi, e recebereis (Mateus 7:7), e outras semelhantes. Deus aceita as nossas orações, ainda que fracas: 1. porque somos seus próprios filhos, e elas procedem do seu próprio Espírito; 2. porque são conforme a sua própria vontade; 3. porque são oferecidas na mediação de Cristo, que as toma e as mistura com os seus próprios perfumes (Apocalipse 8:3). Nunca se perde um só suspiro santo, nem uma só lágrima que derramamos. E, assim como toda graça cresce pelo seu próprio exercício, assim também cresce a graça da oração: é orando que aprendemos a orar. Da mesma forma, devemos guardar-nos de um espírito de desânimo em todos os demais deveres santos, visto que temos um Salvador tão cheio de graça. Oremos como pudermos, ouçamos como pudermos, lutemos como pudermos, façamos como pudermos, segundo a medida da graça recebida; Deus, em Cristo, lançará um olhar bondoso sobre aquilo que é seu. Acaso Paulo deixaria de fazer coisa alguma por não poder fazer o bem que queria? (Filipenses 3:14). Não; antes, prosseguia para o alvo. Não sejamos cruéis conosco mesmos quando Cristo é tão cheio de graça.
Há certa mansidão de espírito pela qual damos graças a Deus por qualquer capacidade que seja, e repousamos tranquilos com a medida de graça recebida, vendo que é do bom agrado de Deus que assim seja — dele, que dá tanto o querer como o realizar; contudo, sem por isso cessarmos de nos esforçar mais. Mas, quando, apesar de um esforço fiel, ficamos aquém daquilo que gostaríamos de ser, e aquém daquilo que outros são, saibamos então, para nosso consolo, que Cristo não apagará o pavio que fumega; e que a sinceridade e a verdade, como já se disse, junto com o empenho em crescer, são a nossa perfeição. É consolador o que Deus diz (1 Reis 14:13): só ele descerá em paz à sepultura, porque nele há algum bem — ainda que apenas algum bem. Senhor, eu creio (Marcos 9:24) — com uma fé fraca, mas ainda assim com fé; amo-te com um amor débil, mas ainda assim com amor; esforço-me de modo débil, mas ainda assim me esforço; um pequeno fogo é fogo, embora fumegue. Já que me tomaste no teu pacto para ser teu, de inimigo que eu era, irás rejeitar-me por causa destas fraquezas, que, assim como te desagradam, são também o pesar do meu próprio coração?